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Pai

Carlos Eduardo Gonçalves

terça-feira 26/08/14 21:22

Pai, hoje preguei dois pregos tortos na parede. E vi em seguida que ficaram desalinhados os quadros novos. Não aprendi a lição, pai, não me dediquei suficientemente quando envernizávamos os portões, quando você me falava para aparar a grama com atenção, quando me instava a primar pelos acabamentos, a caprichar. E deu nisso: belos quadros tortos, que não sinto forças para ajeitar.

Eu simplesmente não conseguia gostar dos pregos, das tesouras, dos fios de extensão, do pincel e da lixa. Na minha mão ficava tudo desajeitado e você, filho de carpinteiro, decepcionava-se comigo todos os sábados de fainas caseiras. Mas com o tempo, alguns anos depois, passou a admirar meus textos, pai, lembra-se? E a minha facilidade com a matemática também, nós dois sentados à mesa de formica da cozinha estudando juntos. Descobrimos, eu e você, que aquela minha inércia para o labor físico escondia uma ânsia de dedicação e uma aptidão ao abstrato.

E depois você morreu, pai. Muito cedo, o livro de exercícios aberto, não findo.

Hoje eu, 40 anos depois, preguei mal os pregos de novo. Como não tenho mais quem me corrija, quem me ordene o retrabalho, os quadros vão ficar assim como estão: tortos na parede. E quando minha vista se cansar das miúdas letras e fórmulas de todos os dias, vou olhá-los da poltrona, pai, como quem prova uma Madalena, numa viagem solitária ao núcleo do passado.