1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Eu e o piqueteiro

Carlos Eduardo Gonçalves

28 agosto 2014 | 12:25

Num dia de greve na USP…

Acho que há bons motivos para os funcionários da USP estarem insatisfeitos. Os gastos se elevaram demais nos últimos anos com projetos que não são claramente ideais sobre o ponto de vista da sociedade e que comprometem parte grande do orçamento. Hoje chegou-se ao descalabro da Universidade gastar mais do que recebe de impostos (que não é pouco). E os ajustes que por conta disso tornam-se inevitáveis levam, naturalmente, a protestos.

Ok, mas o cara não pode me proibir de entrar na minha sala por conta disso. Pode protestar, mas tem que me deixar passar. E ele não queria me deixar passar: “aqui você não entra”, me disse com voz áspera e olho rútilo. Enfezei-me. Disse que ia passar sim. Então dois brutamontes se aproximaram. Mas eu luto karatê, boxe e jiu-jitsu (cresci no Rio de Janeiro) e, portanto, não me intimidei. Disse: “ok, então vou ali chamar a polícia”. O cara enlouqueceu, ensaiou vir pra cima. Preparei-me para brigar, montei a base e já pensava em como derrubar o da minha frente com uma sequência decorada e ensaiada de golpes. Mas aí chegou a turma do “deixa disso”, anunciando que o comando de greve já havia ordenado que nos deixassem passar (alunos e professores que queriam entrar para estudar e trabalhar).

Comando de greve uma ova, pensei, eles só abriram as portas depois que eu fui lá reclamar.

Mas a história não acabou aí, meus amigos. Após abertos os portões, o piqueteiro-mor veio até mim, mais calmo, me dizer “olha, me desculpe, mas foi que você me ofendeu”. Fiquei furioso. “Como assim? Você que disse que eu não ia passar de jeito nenhum, cacete, você é que me ofendeu, e não desculpo porcaria nenhuma”. Ai ele ficou louco de novo: “Mas foi você que chegou provocando, dizendo de dedo em riste: abre que eu quero passar”. Pronto: preparei-me novamente, base montada, sequência de golpes na cabeça. Mas advinhem:  de novo intervieram os deixa-disso, e não pude mostrar toda a agilidade dos meus golpes. Melhor assim — não sei eles sairiam a contento tantos anos após minha última briga de rua.

O quê? O meu carro? Pois é, meu amigo, você está certo em perguntar. De fato ainda não acabou a história, não tive coragem de descer lá pra ver o estado do coitado…