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Do lado de lá e do lado de cá

Carlos Eduardo Gonçalves

20 agosto 2014 | 12:20

Anotações sociológicas de uma menina

Um riacho e duas realidades. O carro no qual ela ia pra escola atravessou a pontezinha, desviando do caminho habitual para escapar do trânsito. Perdeu-se por uns instantes. “Virei errado”, disse o motorista, preocupado, gotas de suor nervoso brotando nas laterais da sua fronte. E ela olhando ao redor, a escrutinar aquela paisagem desconhecida pelo vidro fechado e blindado, pensando “os pobres e os ricos tão exageradamente lado a lado aqui, em nenhum outro lugar tão vizinhos como aqui”. De fato, ali era apenas um riacho sujo a separá-los, num recorte simples e perfeito, cartográfico. Anotou no seu caderninho, com letra tremente, o carro balançando num chão diferente e acidentado: “de um lado, o de lá, o meu, uma escassez de gentes; do outro, um mundo de pernas circulando, se esbarrando, se falando, buliçosos movimentos em ruelas estreitas; num, não se veem os dentes das pessoas direito, não há muitos sorrisos perambulantes, tudo é sisudez e ordem; do outro, gente gesticulando excessivamente, agradecendo-nos com bocas mal dentadas um obséquio tão trivial como pararmos para que possam atravessar a rua até a quitanda logo ali; um lado assim parece tão triste, enquanto o outro é estranhamente tão alegre — felicidades ao avesso das fortunas“. 

Lendo sua notinha, eu, seu pai, pensava: “por que efetivamente tanta inexistência do lado de cá, do nosso lado?”, quando ouvi um buzinaço e um palavrão gritado raivosamente — desconcentrado da rua, quase morro atropelado tentando chegar à quitanda mais próxima — do lado de cá.