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Quer manter a concentração? Tenha um bicho fofo por perto

Gláucia Leal

18 agosto 2014 | 14:48

Muita gente concorda: ter animais de estimação por perto faz bem. A interação e o cuidado costumam despertar a afetividade, a empatia e contribuem para o resgate da capacidade lúdica. Nos últimos anos, porém, vários estudos têm oferecido respaldo para a constatação de que os efeitos positivos dessa proximidade entre raças vão ainda mais longe — efeitos sobre o metabolismo das pessoas, a ponto de influir na saúde física e mental. Uma das mais recentes e inusitadas utilidades dos pets é a habilidade de favorecer a capacidade de concentração dos humanos. E os bichinhos só precisam cumprir um único requisito: ser fofos. Pesquisadores japoneses estudaram o efeito que imagens filhotes flagrados com alguma com expressão divertida, fantasiados com roupas de humanos ou em posições engraçadinhas exercem sobre a cognição. Eles descobriram que após observar fotos de um animal kawaii – “fofo”, em japonês – as pessoas costumam ficar mais atentas a suas tarefas.

Em um estudo publicado na “Plos One”, cientistas da Universidade de Hiroshima pediram que 50 estudantes participassem de tarefas que exigiam atenção, como um popular jogo infantil japonês que consiste em movimentar pequenos objetos com uma pinça sem deixá-los cair. Antes das atividades, metade dos voluntários viu fotos de bichinhos apresentadas pelos pesquisadores. Justamente esse grupo demonstrou muito mais foco e preocupação com detalhes ao cumprir a tarefa. Segundo os autores, mais que provocar emoções positivas, essas imagens despertam uma espécie de instinto protetor, o que deixa as pessoas mais atentas e cuidadosas. “O aumento da sensibilidade provavelmente estimula movimentos mais suaves e precisos”, diz o coordenador da pesquisa, Hiroshi Nittono.

Além disso, levar o amigo de quatro patas para o trabalho torna a rotina mais amena, tanto para o dono do animal como para os colegas. Segundo estudo publicado no “Journal of Workplace Health Management”, adultos que passam o dia em companhia de seu bicho de estimação apresentam menores níveis de hormônios associados ao estresse, como o cortisol, ao fim do dia.

Pesquisadores da Universidade Virginia Commonwealth colheram, durante uma semana, saliva de 450 funcionários de uma empresa de varejo que permite a presença dos bichos de estimação. Aproximadamente 30 deles levaram seu cachorro para o trabalho pelo menos um dia durante a pesquisa. Nesse grupo, o nível de estresse diminuiu da manhã para a noite, ao contrário das pessoas que deixaram seu bicho em casa e das que não tinham um. Estas, aliás, apresentaram maiores quantidades de cortisol.

A análise de questionários e entrevistas revelou que o aumento da sensação de bem-estar não fica restrito aos proprietários dos animais. Observações como “ter cães aqui alivia o estresse”, “os bichos aumentam a cooperação” foram recorrentes. “A presença dos cães motivou a interação com os colegas e o ambiente de trabalho foi percebido como mais amigável”, diz o autor da pesquisa, Randolph Barker, ressaltando que os animais que participaram do estudo eram “educados e limpos, de forma que não causassem incômodo”. O experimento sugere que a presença do cão ajuda o cérebro a relaxar e a interpretar o ambiente como menos hostil. Barker pretende, agora, repetir o experimento em outras empresas, com mais voluntários.

Um estudo desenvolvido pelos pesquisadores Johannes Odendaal e Susan Lehmann publicado pelo “Journal of the American Association of Human-Animal Bond Veterinarian” (AAHABV) também mostra que a interação entre cães e humanos deflagra, em ambos, a diminuição da ação do cortisol no organismo, provocando sensações de bem-estar. As alterações hormonais afetam o nível de endorfinas beta, febilatalamina, prolactina e oxitocina por períodos médios de 15 minutos.

Em outra investigação, os mesmos pesquisadores se empenham em descobrir os efeitos que a interação com animais associada à psicoterapia, tem sobre os aminoácidos presentes nos neurotransmissores de pessoas com depressão e se poderiam causar mudanças químicas no cérebro e no sistema imunológico.
Seis voluntários com diagnóstico de depressão participaram de um dos estudos mais recentes de Odendaal. Durante a fase de teste, todos recebiam diariamente a visita de um cão. Antes e depois eram realizadas medições sanguineas de aminoácidos que indicavam a presença de serotonina e dopamina. Resultado: a presença dessas substâncias aumentava após o encontro dos pacientes com os animais.

Nessa mesma linha, um estudo com 6 mil pessoas realizado no Instituto Baker de Pesquisas Médicas, Austrália, pelo médico Warwik Anderson, mostrou que proprietários de cães e gatos tinham taxas menores de colesterol e triglicérides que aqueles que não tinham bichos. Indiretamente, os animais também trazem benefícios. Pesquisadores do Centro Médico Hospitalar de Northridge, Estados Unidos, constataram que apesar de predispostos a doenças cardiovasculares em decorrência de fatores de risco como fumo e excesso de peso, os pacientes obtinham melhoras significativas -– como diminuição de pressão arterial e colesterol – após adotar um bichinho de estimação que exigisse sua dedicação diária, já que os cuidados, principalmente com cães, motivam não só a troca afetiva, mas também o exercício físico – em especial as caminhadas.