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Quem você vai ser daqui a pouco?

Gláucia Leal

sexta-feira 22/08/14

“Sobre a transitoriedade”, um texto de Freud pouco estudado, aborda o tema da impermanência, algo que a princípio pode se mostrar incômodo, já que tudo invariavelmente se desvanece e se transforma tocado pela ação do tempo. Sob outra óptica, porém, podemos nos dar conta de que nada do que vivenciamos (por pior ou melhor que seja) é para sempre, o que nos ajuda a valorizar cada momento

Se você chegar até o fim deste texto ou mesmo do parágrafo seu corpo já não será exatamente igual ao que era quando pousou os olhos na primeira sílaba, nem sua mente estará exatamente da mesma maneira e, tampouco, o mundo ao seu redor. Somadas ao longo dos tempos, as variações mínimas ocorridas em poucos instantes resultam em transformações significativas. Afinal, tudo muda: os combinados, a moda, as condições, o clima, a paisagem e as hierarquias da realidade externa. Também nosso corpo se altera: crescemos, engordamos, emagrecemos, adoecemos, nos curamos, cabelos podem estar ora mais curtos, ora mais longos… E no âmbito psíquico surgem novos desejos, sofrimentos, preocupações, prioridades, ideias. Óbvio que seja assim? Talvez no nível consciente. Mas, curiosamente, embora saibamos o quanto a impermanência é inerente à vida, a maioria de nós atravessa a própria existência como se tudo fosse para sempre. Sofremos os golpes inevitáveis que tanto agridem nosso narcisismo como se fossem feridas que jamais pudessem cicatrizar. Ou então nos apegamos aos momentos de satisfação na vã tentativa de fazer com que se perpetuem.

Mas a gente sabe que não funciona assim. Por mais que haja alegrias – domingos de sol (ou tardes de sábado nubladas, para quem as prefere), momentos de paz interior, reencontros, beijos na boca, longas conversas com amigos, promoções e conquistas, férias inesquecíveis e histórias de amor – o prenúncio de algum tipo de sofrimento sempre nos ronda. O cotidiano é poluído por incertezas, desconforto e tédio. Sim, isso faz parte da vida. Porém, saber que tudo está “de passagem”, que somos regidos pelo signo da impermanência – como salienta Freud (1856-1939), no artigo “Sobre a transitoriedade”, escrito há um século –, ajuda a criar um distanciamento saudável das situações que nos imobilizam na repetição.

O ensaio é um dos menos estudados da obra freudiana – o que pode ser facilmente compreendido, já que nesse texto o criador da psicanálise não apresenta nenhuma informação teórica inédita. O original alemão, publicado em 1915, apresenta os dotes literários do autor e traz uma reflexão interessante: aquilo que amamos e admiramos é valorizado justamente por seu aspecto transitório. Ou seja, a constatação da limitação da existência dos objetos (sejam coisas, situações ou pessoas) nos quais investimos nosso afeto os torna ainda mais preciosos no momento em que podemos desfrutar deles. Está subentendida aí a ideia de que só o que temos de fato é o presente e nossa capacidade de construir de novo aquilo que foi destruído e talvez possa ser reconstituído “em terreno até mais firme e de forma mais duradoura do que antes”.

O momento histórico no qual o ensaio foi produzido tem influência sobre seu conteúdo: a Primeira Guerra Mundial então em seu segundo ano, castigava a Europa e despertava todo tipo de incertezas. O texto foi redigido a convite da Sociedade Goethe de Berlim para um volume comemorativo lançado no ano seguinte com o título “O país de Goethe” (Das lands Goethe) e a edição luxuosa teve contribuições de vários autores e artistas. O artigo abrange um enunciado da teoria do luto contido em Luto e melancolia, escrito alguns meses antes, mas só publicado dois anos depois.

Creio que um dos pontos preciosos de “Sobre a transitoriedade” seja seu potencial de nos fazer recordar a impermanência, algo que a princípio pode se mostrar incômodo, já que tudo o que temos de bom – o universo de sentimentos que cultivamos, nossos amores, beleza e até sabedoria – invariavelmente se desvanece e se transforma tocado pela ação do tempo. Sob outra óptica, porém, nos dar conta de que nada do que vivenciamos (por pior ou melhor que seja) é para sempre, o que nos ajuda a valorizar e relativizar cada momento. Afinal, está tudo em movimento mesmo…