1. Usuário
Assine o Estadão
assine


Mais bonitos, mais jovens, mais interessantes. E de preferência para sempre

Gláucia Leal

01 setembro 2014 | 16:57

Na ânsia de aplacar carências antigas, das quais em geral sequer sabemos claramente a origem, muitas vezes buscamos modelos que acreditamos ser capazes de nos proteger do sofrimento. O problema é que, não raro, essa busca nos afasta de quem realmente somos e costuma trazer ainda mais angústia

Há pouco, fazendo uma pesquisa rápida a respeito de dismorfia (medo da feiura), na tentativa de obter subsídios para a edição de um artigo sobre transtorno dismórfico corporal (TDC, na classificação psiquiátrica) para a próxima edição de Mente e Cérebro, deparei com um número surpreendente grande de pessoas que se empenham em se parecer com algum personagem da ficção. No Brasil, o mineiro de Araxá Celso Pereira Borges (mais conhecido nas mídias sociais por seu nome artístico, Celso Santebañes), de 20 anos, já fez quatro cirurgias plásticas para se tornar parecido com o boneco Ken, “namorado” da Barbie. Em Nova York, Justin Jedlica tem a mesma meta de Celso. Enquanto isso, a russa Lolita Richi e a ucraniana Valeria Lukyanov disputam o posto de mulher mais parecida com a própria Barbie. Já o estilista filipino Herbert Chavez passou por várias intervenções cirúrgicas para ficar parecido com Superman. Para atingir seu propósito, conseguiu até mesmo clarear o tom moreno de sua pele.

Mesmo sem a pretensão de sugerir diagnósticos para pessoas que não me pediram isso, parece impossível não associar esses comportamentos a uma espécie de variação do quadro de dismorfia, no qual a pessoa se torna patologicamente preocupada com uma característica física imaginada ou pouco perceptível de seu corpo, mas que ganha enorme destaque. A atenção excessiva voltada à própria aparência costuma ser associada ao transtorno obsessivo compulsivo (TOC), à ansiedade e à depressão e, nos casos mais graves, ao risco de suicídio. Surpreendentemente, o problema é bastante comum. Estima-se que, em variados graus, atinja aproximadamente duas em cada dez pessoas. Penso nas pessoas que se empenham tanto (fazendo grande investimento libidinal, empregando tempo e dinheiro) para se transformar em seus modelos de beleza e perfeição – na verdade, bonecos, personagens.

Talvez até exista alguma beleza nas expressões forjadas, simétricas e pasteurizadas. Mas lhes falta algo fundamental: vida. É como se seus rostos estivessem congelados, escondidos sob camadas de impossibilidade de ser quem realmente são. E não falo aqui da busca por se tornar uma pessoa melhor. Há situações em que o determinadas atitudes calcadas no perfeccionismo podem até ser bastante positivas. Eu confesso: anseio escrever textos cada vez mais claros e interessantes que os anteriores, ouvir com mais precisão o que se esconde nas palavras ditas pelas pessoas que atendo em meu consultório e, de forma geral, ser mais tolerante comigo e com os outros. O problema surge quando o anseio de se superar se transforma em obsessão e o que temos (ou podemos construir subjetivamente) não basta, torna-se preciso buscar referenciais externos – e, em certos casos, transformar-se neles.

Por trás dos extremos há um apelo social e cultural que tantas vezes nos convoca a sermos sempre belos, cultos, jovens e felizes. E de novo o problema não é ter qualquer uma dessas características, até porque elas comportam um gama de nuances. O problema é ter de estar sempre alegre, satisfeito, sempre ser competente, sempre fazer comentários inteligentes. Sempre cansa tanto…

Outro dia, jogava conversa fora com uma amiga, também psicanalista, quando ela chamou minha atenção para o padrão estético predominante nas novelas brasileiras do início dos anos 90, atualmente reprisada na TV a cabo. Os penteados, especialmente das mulheres, eram menos impecáveis e uniformes; os dentes, não tão alinhados nem incrivelmente brancos; e os rostos, mesmo maquiados, podiam, eventualmente, revelar pequenas imperfeições, sem que isso fosse tomado como um problema grave. O resultado é que alguns atores e atrizes que ainda trabalham nessas produções parecem, mesmo anos depois, mais jovens, bonitos e “adequados” que no passado – quando, aliás, se pareciam mais com “gente de verdade”.

Parece haver uma determinação tácita e inquestionável: está proibido parecer que envelhecemos, assim como acontece com os bonecos… A glorificação da juventude é um reflexo da cultura do narcisismo e do culto de si, que a todo o momento rende homenagens à “superestimação da figura imaginária de um sujeito desprovido de sentido histórico, atemporal, sem passado nem futuro; um sujeito limitado ao claustro de sua imagem no espelho: vaivém entre narcisismo primário e narcisismo secundário”, escreve Elisabeth Roudinesco ao abordar novas formas de sofrimento psíquico em A análise e o arquivo (Zahar, 2001). Em meio a esse fenômeno, a figura mitológica de Narciso, angustiado e seduzido pela própria imagem, substitui Édipo, o soberano que se questiona, ferido e ressentido. Enquanto uma das faces de Narciso revela-se como ícone de uma humanidade sem interdição, fascinada pelo poder ilimitado, a outra é aquela que não aceita a velhice, a finitude ou mesmo o sucesso alheio, pois precisa ter tudo para si – o que resulta na insatisfação.

Nos dois casos o desfecho é trágico: Édipo perfura os olhos após ter cometido incesto, Narciso se suicida ao tomar consciência de que é seu próprio objeto de amor. Os dois castigos autoimpostos, no entanto, são bem diferentes. Édipo, segundo Freud o herói emblemático de uma cultura dominada pela decadência do patriarcado, sacrifica-se para que seu reino se perpetue. Já Narciso põe fim à própria existência, negando-se ao outro. “Enquanto a formação psíquica se traduz socialmente pelo culto do narcisismo, a obsessão por si mesmo é sempre portadora de uma rejeição do outro transformada em ódio de si e, portanto, em ódio pela presença do outro em si”, afirma Roudinesco. Faz sentido.

Eu, aqui, fico pensando que também gostaria de ser um pouco parecida psiquicamente com pessoas mais centradas e generosas que passaram por este planeta. Sinceridade? Alguma similaridade com Francisco de Assis ou príncipe Sidarta (o Buda) não me cairiam nada mal…