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Campus Party: a importância de um evento de tecnologia

  • 24 de janeiro de 2010|
  • 16h01|
  • Por

A Campus Party, cuja terceira edição brasileira começa segunda-feira, tem tudo para se transformar no mais importante evento relacionado à internet no País.

É um tipo de evento necessário – temos muito o que discutir sobre todos os aspectos.

Nos meses anteriores à eleição que levou Barack Obama à Casa Branca, uma série de conferências ocorreu nos EUA. Ainda em 2007, a primeira foi a YearlyKos, promovida pelo blog político DailyKos.com, que reuniu os principais candidatos democratas à presidência.

Foi apenas a primeira dentre muitas conferências que culminarão, em maio, no encontro Gov 2.0 Expo, em Washington, inteiramente dedicado às mudanças provocadas pela internet na maneira como se governa.

Política não é o único assunto discutido. Desde 2007, o Instituto Aspen reúne anualmente, no Colorado, jornalistas de alta patente para o Focas, uma conferência inteiramente dedicada ao impacto da nova mídia na imprensa tradicional. Em San Francisco, a ONA é outro encontro, mais voltado para iniciativas do jornalismo online. O CM Summit, que ocorre duas vezes por ano, reúne quem é ligado ao negócio da publicidade online.

Não importa qual o assunto, os EUA vêm discutindo – e discutindo muito – o impacto das tecnologias digitais. Os fóruns são, na maioria das vezes, abertos, transmitidos em vídeo pela web.

Não temos coisa do tipo no Brasil. Mas a Campus Party tem o potencial de se transformar em raiz de algo assim. Já traz um espírito aberto, já atrai gente curiosa com a rede e, principalmente, já tem em seu modelo essa vontade de ampliar a conversa.

Basta ver a lista de eventos simultâneos. De palestras técnicas aos assuntos mais curiosos, há de tudo por lá. É um palco aberto. Pensadores importantes – caso do advogado americano Lawrence Lessig – serão trazidos.

Uma das coisas que mais chamou a atenção, na primeira edição da Campus Party, foi os gráficos de entrada e saída de dados. Num ambiente cheio de garotada com seus computadores à mão e banda larga numa velocidade que sequer existe para vender no mercado, se esperaria todo mundo baixando informação alucinadamente. Só que não. Mais dados foram enviados para a rede do que retirados dela. A infraestrutura favorece o compartilhamento.

Estamos entrando em ano eleitoral e, pela primeira vez, a internet será o principal veículo pelo qual os brasileiros irão se informar sobre política. Não há uma conferência específica para discutirmos como será. Mas, nessa semana que começa, nos debates oficiais e nas várias conversas de corredor, o assunto estará presente.

Assim como estarão presentes as questões essenciais para nossa liberdade online. Que leis queremos para a rede? O que deve ser proibido? O que é crime e como se pune?

A internet passa pelo futuro do Brasil. O evento que está começando hoje é mais do que uma festa. É o mais importante palco que temos para discutirmos estas questões essenciais.

Coluna publicada no Link em 25 de janeiro, 2010

Revolução Digital: o fim da escassez de informação

  • 22 de janeiro de 2010|
  • 10h03|
  • Por

Se eu fosse um estudante de história, hoje, com mestrado ou doutorado à frente, me dedicaria a examinar a Europa no século entre 1450 e 1550.

Mas, antes, um pulo ao presente.

Não é difícil explicar como as tecnologias digitais viraram o mundo de cabeça para baixo. Começa com um conceito econômico básico: escassez. Se há demanda por um bem escasso, haverá gente disposta a pagar para tê-lo. A indústria que lida com informação – não só jornais como cá o Estado, mas também livros, música, cinema e tantos outros – se baseava na escassez de dois bens. Fazer cópia de informação – livro, disco, filme – era caro. E distribuir a informação copiada para vários pontos de uma cidade, estado ou país, era igualmente caro.

Tecnologias digitais, a internet entre elas, jogou o preço no chão. Não é de graça – banda larga, afinal, tem lá seu custo, computador e celular de ponta também – mas comparado ao que havia antes, é quase de graça.

Avatar custou 500 milhões de dólares para ser feito. É um filme particularmente caro. O problema é que filmes como Atividade Paranormal – 15.000 dólares – são também exceção, não regra. O preço de um bom filme está, no mínimo, na casa dos centenas de milhares. Sempre foi caro. Cidadão Kane, de 1941, saiu por 690.000 dólares (dá uns 10 milhões ajustando pela inflação). Mesmo o cinema independente: O Acossado, de Jean-Luc Godard, custou 82.000 dólares em 1960, 587.000 em dinheiro atual.

Tecnologia digital barateou equipamento, mas gente continua precisando de dinheiro. Bom fotógrafo, iluminador, figurinista. O que dá a um filme uma certa estética à qual nos habituamos é um conjunto grande de profissionais. El Mariachi custou 7.000 dólares em 1992. É um excelente filme B e lançou seu diretor, de Robert Rodriguez, para a fama. (Rodriguez fez de tudo nas filmagens.) Seu segundo filme, Desperado, saiu por 7 milhões. Bons filmes podem ser feitos por muito pouco, mas a economia tem efeitos imediatos na estética. Se, em algum momento, a indústria do cinema for incapaz de pagar pela produção, passaremos a ter filmes fundamentalmente diferentes. Nenhum juízo de valor aqui. Mas algo terá sido perdido.

O que sempre pagou o preço foi a exploração do fato de que copiar e distribuir era caro. Eram poucos os lugares nos quais se podia ver um filme. Com controle quase total sobre quem copiava e distribuía, muita gente fez fortunas ainda que pagando altos custos de produção.

Um elemento ainda protege a indústria do cinema. Os arquivos são grandes. As gravadoras foram duramente atingidas por volta de 2000, no momento em que modems mais rápidos e o início da banda larga fizeram com que a transferência de arquivos de música pela rede se desse em poucos minutos. E banda larga, evidentemente, aumenta de capacidade a cada ano.

Cinema é só um exemplo. Toda indústria que lida com informação está sendo atingida de uma forma ou de outra. Não é a primeira vez que algo assim ocorre. A imprensa de Johannes Gutenberg entrou em operação no ano de 1450. Não teve repercussão imediata na vida de seu criador, que morreu falido. Mas espalhou-se pela Europa toda nas décadas seguintes, barateando violentamente o preço da cópia de informação. Um século após, o continente estava completamente transformado.

Muitos livros e ensaios foram escritos para tratar dos efeitos da tecnologia de impressão. São amplamente conhecidos. Mas apenas um livro – The Printing Press as an Agent of Change, de Elizabeth Eisenstein – foi escrito para tratar das ansiedades e desconfianças do momento em que a mudança ainda estava ocorrendo.

É o período fascinante em que vivemos.


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