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Adivinha quem não veio para o jantar?

  • 27 de fevereiro de 2011|
  • 20h00|
  • Por

Há uma semana, o presidente americano Barack Obama reuniu na Casa Branca um time de executivos ligados ao mundo da tecnologia. No total, 13 pessoas estavam sentadas à mesa além de Obama, embora a lista oficial tivesse apenas 12 nomes. Trata-se de uma lista fascinante: mostra quem o governo americano considera importante por um motivo ou outro. Uma lista que diz muito, tanto pelos presentes quanto por uma ausência incrível.

Se posição à mesa tem alguma relevância, à direita do presidente estava o presidente e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, e à esquerda o presidente e fundador da Apple, Steve Jobs. Apenas um dia antes do jantar, o tabloide The National Enquirer publicou fotos de um Jobs acabado entrando no centro de tratamento de câncer da Universidade Stanford. Ele está licenciado para tratar-se de um mal não divulgado. Na imagem oficial do jantar, Jobs aparece de costas. Ainda assim, nada sugere que ele seja um paciente terminal.

O Facebook não estava sozinho no mundo das redes sociais: Dick Costolo, presidente do Twitter, também foi convidado para o jantar.

Também lá, à cabeceira sentou-se Eric Schmidt, ainda CEO do Google. (Deve passar o bastão do cargo em um mês.) E, a seu lado, uma loura de costas. É a décima terceira pessoa não identificada. No jogo de adivinhação da internet, tem-se por nome mais provável o de Marissa Mayer.

Marissa, 35 anos, é uma mulher belíssima e poderosa. Vice-presidente de Produtos do Google, foi ela que, durante a campanha, recebeu na própria casa o candidato Obama para apresentá-lo ao Vale do Silício. Se a mulher for mesmo Marissa Mayer, o Google emplacou dois naquele jantar.

Larry Ellison, da Oracle, e John Chambers, da Cisco, representam o Vale tradicional. Um preside a maior empresa de bancos de dados do planeta, o outro comanda a fabricação dos roteadores que fazem a internet funcionar. Seus clientes são grandes empresas – todas as grandes empresas do mundo, diga-se.

Carol Bartz, do Yahoo, e Reed Hastings, da Netflix, marcam dois pontos da história da internet. O passado da web, quando ela surgiu, é o Yahoo. Seu futuro é a Netflix, empresa que aluga filmes via internet e os põe na tela da televisão de quem o quiser, nos Estados Unidos e no Canadá.

John Doerr estava presente. É o investidor que apostou em empresas como Google e Amazon. Não era o único homem de dinheiro. Steve Westly, do Westly Group, sentou-se entre Jobs e Marissa Mayer. Seu enfoque é um tanto diferente da tradição do Vale. Dá preferência por investimento em tecnologia limpa: energia, materiais, tudo o que tiver potencial ecológico.

A seu lado, John Hennessy, reitor da Universidade Stanford, onde estudam os cérebros locais. É a escola de onde saíram Yahoo e Google entre tantos.

O décimo segundo da lista oficial publicada pela Casa Branca é Art Levinson, fundador da Genentech, uma empresa dedicada à pesquisa genética. Tecnologia de ponta.

A pauta da conversa não foi divulgada, mas no cenário econômico dos EUA, não é difícil imaginar. Desenvolvimento de ciência e tecnologia de ponta sempre tiveram grande impacto na economia americana. Não há por que imaginar que seria diferente, hoje. O presidente certamente quer ouvir promessas de investimento, criação de empregos, comprometimento.

Há duas ausências que chamam a atenção. A primeira é de algum representante da Intel. Porém, na mesma semana, Obama nomeou o presidente da empresa, Paul Otellini, para comandar um Conselho de Empregos e Competitividade, que deverá fazer recomendações à Casa Branca.

Há outros executivos neste conselho. Gente que vem do portal AOL, por exemplo, ou da empresa de telecomunicações Comcast.

Em todo o movimento dos últimos dez dias em torno da tecnologia, só não se ouviu falar de uma única empresa: a Microsoft. Steve Ballmer, o presidente que sucedeu Bill Gates, não apareceu em nenhuma lista, seus conselhos não foram ouvidos. Não é indício apenas de que, ao menos perante Washington, a Microsoft tenha perdido relevância. É sinal de que Gates faz muita falta.

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Link no papel – 28/02/2011

O que Obama quis dizer ao vilanizar Xbox, iPod e iPad

  • 16 de maio de 2010|
  • 19h57|
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No início da semana passada, o presidente americano Barack Obama surpreendeu um bocado. “Esses iPods e iPads e Xboxes e PlayStations”, disse a uma platéia de pais e formandos da Universidade Hampton, “distraem, desligam, não contribuem para nos emancipar”. É um tapa na cara vindo do presidente eleito usando redes sociais.

Estará errado? Houve o tempo em que a acusação se voltava contra a TV. Caixa maligna, alienante, criadora de uma geração de incapazes. A primeira geração formada com TV em casa é justamente a geração de Obama, ora pois, um dos presidentes mais intelectualizados da história recente dos Estados Unidos. Agora é a vez do iPod e do Xbox serem acusados de alienantes.

“Vocês estão se formando numa era em que o ambiente midiático nos bombardeia 24 horas por dia e sete dias da semana com todo tipo de conteúdo”, ele continuou, “nos expõe a toda sorte de argumentos, muitos dos quais não figuram lá muito bem quando lhes medimos a verdade.”

obamadoria
(Ilustração: Carlinhos Müller)

Obama é o primeiro presidente geek. Mal tornou-se presidente, o serviço secreto entrou para confiscar seu Blackberry. Questões de segurança, alegavam. Se o presidente dos EUA trocar comunicados delicados pelo celular e um hacker se intrometer, os resultados podem ser gravíssimos. Ele não é um homem qualquer, o que requer um nível de segurança além, muito além.

Obama não quis. Brigou pelo direito de ter um smartphone. Terminou conseguindo uma versão adaptada por gente capaz. O Blackberry presidencial não é como o do executivo ali na esquina. Mas de onde vem, portanto, esse conservadorismo repentino? Esse moralismo exacerbado?

“Com iPods e iPads e Xboxes e PlayStations, aparelhos que não sei usar, a informação vira mera distração”, continuou. “A informação torna-se diversão, uma forma de entretenimento.” Para Obama, “tudo isso está criando novas pressões sobre vocês, sobre nosso país, sobre nossa democracia”.

A imprensa especializada caiu em cima. Humoristas fizeram piada. E blogueiros em geral do seu lado viram-se repentinamente desconfortáveis. Obama, que diabos, disse que o Xbox do vizinho é um perigo para a democracia.

E ele está certo.

Ou quase: primeiro é preciso entender o que Obama está falando e como ele constrói seu discurso.
Obama já foi fotografado ouvindo música num iPod. Ele sabe muito bem como funciona. Talvez ele ainda não tenha tido um iPad em mãos, mas isso é coisa que se aprende a usar em segundos. E nem Sasha nem Malia, suas filhas, devem estar correndo o risco de perder seus videogames.

O presidente americano meteu brinquedos eletrônicos no discurso porque sabia que ia chamar a atenção e que gente no mundo todo ia tratar do assunto.

O que Obama está dizendo é coisa diferente, um pouco mais profunda. Informação é importante para que uma democracia seja forte. Boa informação é fundamental e um povo atento é necessário para a saúde de um país. Quanto mais gente se informa, quanto mais gente se dá ao trabalho de refletir sobre a informação adquirida, melhor a qualidade de um governo democrático.

O problema não é tanto o Xbox ou o iPad. Eles entram aí como metáforas da nova realidade digital que torna a informação abundante.

A informação é muita, porém nem sempre de qualidade. Paradoxalmente, para que nos informemos bem, é preciso um esforço maior, não menor. Na internet, carece que tenhamos mais atenção. Se nos permitirmos hipnotizar pela abundância de coisas escritas e vídeos e fotos e tanto mais, a reflexão não ocorre. Nos iludimos achando que temos informação mas a realidade passou sem que a tenhamos percebido.

Alfabetização digital é alfabetização midiática. Todos, não só jornalistas, precisamos nos tornar editores, curadores, selecionadores da informação. É disso, não do pobre Xbox, que Barack Obama está falando. E ele está absolutamente correto.


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