Estadão.com.br
1
Pedro Doria
SEÇÕES
TAMANHO DO TEXTO
Pedro Doria
  • Twitter
  • Facebook
  • DIGG
  • RSS  ?

Novas tecnologias: nascem livres, viram monopólio. E a web?

  • 9 de março de 2011
  • 15h15
  • Por

A Comissão Federal de Telecomunicações americana ganhou um conselheiro dedicado à proteção do consumidor na internet e nos serviços móveis. É Tim Wu, professor da Escola de Direito da Universidade de Columbia, Nova York. Seu trabalho: garantir que a rede continue neutra. Que às grandes empresas de telecomunicações não seja permitido decidir se um site carregará mais rápido do que outro.

Não há quem entenda mais do assunto do que Wu. O melhor livro sobre tecnologia publicado no ano passado é seu The Master Switch, “o interruptor mestre” numa tradução literal. Wu tem uma tese, a de que a internet corre o perigo real e iminente de terminar controlada por um grande esquema monopolista. O que era uma tecnologia libertária pode se tornar fechada.

O argumento que usa é imbatível. Aconteceu assim com todas as principais tecnologias de comunicação no último século e meio. É o caso da telefonia, da indústria do cinema, rádio, televisão — até do telégrafo.

Poucos exemplos são mais claros do que o do surgimento da telefonia. Quando Alexander Graham-Bell inventou o telefone, na segunda metade do século 19, ele era pouco mais do que uma curiosidade. Nada que a poderosa Western Union, que controlava a comunicação telegráfica nos EUA, pudesse temer. E, no entanto, enquanto a velha tecnologia ruía em desuso, telefones espalharam-se por todo o país.

A AT&T, empresa fundada por Bell, teve um grande executivo: Theodore Vail. Empresas de telefonia com redes independentes surgiram pelos EUA, Vail comprou umas, sufocou outras. Convenceu governo e público de que suas intenções eram as melhores. De que prestava um serviço público e que esta obrigação era posta pela empresa acima do lucro. Ganhou o jogo.

Mas, bem no início, a telefonia era não apenas uma curiosidade como também uma tecnologia com ares de liberdade. Um cheiro de anarquia perante o monopólio odiado do telégrafo.

É um ciclo que se repente de novo e de novo. Uma tecnologia libertária surge promissora, desbanca uma indústria consolidada e conservadora, assume seu lugar. Transforma-se ela própria numa indústria consolidada que tenta sufocar quaisquer inovações.

A mesma AT&T tentou estancar o surgimento de fitas magnéticas para gravação de sons pois temia que pudesse concorrer em seu mercado.

Vail teve um quê de Steve Jobs em seu tempo, assim como seu discurso lembrava o de “não faça o mal” do Google. Não foi o único. O rádio, por exemplo, teve um início amador. Estava nas mãos de gente fascinada com suas possibilidades na comunicação. Ninguém ganhava dinheiro. Quem montava uma pequena rádio em casa transmitia música e informes com o desejo único de ajudar e divertir. Blogueiros de seu tempo.

Evidentemente, tudo mudou com o tempo. Grandes cadeias dominaram o rádio e fizeram fortunas com a invenção da propaganda radiofônica.

Todas as tecnologias do tipo surgiram com um discurso de liberdade e terminaram monopólios. Por que com a internet seria diferente?

Wu não considera que seja inevitável. Acha, apenas, que a cultura americana favorece este cenário. Nos EUA, a opinião pública considera que deve conter o quanto pode os poderes do governo. Mas o comportamento perante o poder privado, das grandes corporações, é diferente. Com esse, há hesitação na hora de intervir.

Descrito assim, Wu parece um professor saído das fileiras do Partido Comunista. Não é. Sua preocupação é a de garantir que a infraestrutura da internet não sofra o mesmo fim que suas antecessoras. Trata-se de uma tecnologia libertária que veio desbancar os monopólios anteriores. Este é o processo pelo qual o mercado resolve o problema.

Mas e se, desta vez, a tecnologia permanecesse livre? Um ambiente rico capaz de gerar uma cultura de inovação permanente? No qual ninguém tem o domínio total?

É justamente esse seu trabalho no governo dos EUA. Um trabalho que, de trivial, não tem nada. Afinal, o fácil é construir uma burocracia reguladora que termine por impedir a inovação que desejava garantir de início. É um desafio e tanto.

—-
Leia mais:
Link no papel – 07/03/2011

Adivinha quem não veio para o jantar?

  • 27 de fevereiro de 2011
  • 20h00
  • Por

Há uma semana, o presidente americano Barack Obama reuniu na Casa Branca um time de executivos ligados ao mundo da tecnologia. No total, 13 pessoas estavam sentadas à mesa além de Obama, embora a lista oficial tivesse apenas 12 nomes. Trata-se de uma lista fascinante: mostra quem o governo americano considera importante por um motivo ou outro. Uma lista que diz muito, tanto pelos presentes quanto por uma ausência incrível.

Se posição à mesa tem alguma relevância, à direita do presidente estava o presidente e fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, e à esquerda o presidente e fundador da Apple, Steve Jobs. Apenas um dia antes do jantar, o tabloide The National Enquirer publicou fotos de um Jobs acabado entrando no centro de tratamento de câncer da Universidade Stanford. Ele está licenciado para tratar-se de um mal não divulgado. Na imagem oficial do jantar, Jobs aparece de costas. Ainda assim, nada sugere que ele seja um paciente terminal.

O Facebook não estava sozinho no mundo das redes sociais: Dick Costolo, presidente do Twitter, também foi convidado para o jantar.

Também lá, à cabeceira sentou-se Eric Schmidt, ainda CEO do Google. (Deve passar o bastão do cargo em um mês.) E, a seu lado, uma loura de costas. É a décima terceira pessoa não identificada. No jogo de adivinhação da internet, tem-se por nome mais provável o de Marissa Mayer.

Marissa, 35 anos, é uma mulher belíssima e poderosa. Vice-presidente de Produtos do Google, foi ela que, durante a campanha, recebeu na própria casa o candidato Obama para apresentá-lo ao Vale do Silício. Se a mulher for mesmo Marissa Mayer, o Google emplacou dois naquele jantar.

Larry Ellison, da Oracle, e John Chambers, da Cisco, representam o Vale tradicional. Um preside a maior empresa de bancos de dados do planeta, o outro comanda a fabricação dos roteadores que fazem a internet funcionar. Seus clientes são grandes empresas – todas as grandes empresas do mundo, diga-se.

Carol Bartz, do Yahoo, e Reed Hastings, da Netflix, marcam dois pontos da história da internet. O passado da web, quando ela surgiu, é o Yahoo. Seu futuro é a Netflix, empresa que aluga filmes via internet e os põe na tela da televisão de quem o quiser, nos Estados Unidos e no Canadá.

John Doerr estava presente. É o investidor que apostou em empresas como Google e Amazon. Não era o único homem de dinheiro. Steve Westly, do Westly Group, sentou-se entre Jobs e Marissa Mayer. Seu enfoque é um tanto diferente da tradição do Vale. Dá preferência por investimento em tecnologia limpa: energia, materiais, tudo o que tiver potencial ecológico.

A seu lado, John Hennessy, reitor da Universidade Stanford, onde estudam os cérebros locais. É a escola de onde saíram Yahoo e Google entre tantos.

O décimo segundo da lista oficial publicada pela Casa Branca é Art Levinson, fundador da Genentech, uma empresa dedicada à pesquisa genética. Tecnologia de ponta.

A pauta da conversa não foi divulgada, mas no cenário econômico dos EUA, não é difícil imaginar. Desenvolvimento de ciência e tecnologia de ponta sempre tiveram grande impacto na economia americana. Não há por que imaginar que seria diferente, hoje. O presidente certamente quer ouvir promessas de investimento, criação de empregos, comprometimento.

Há duas ausências que chamam a atenção. A primeira é de algum representante da Intel. Porém, na mesma semana, Obama nomeou o presidente da empresa, Paul Otellini, para comandar um Conselho de Empregos e Competitividade, que deverá fazer recomendações à Casa Branca.

Há outros executivos neste conselho. Gente que vem do portal AOL, por exemplo, ou da empresa de telecomunicações Comcast.

Em todo o movimento dos últimos dez dias em torno da tecnologia, só não se ouviu falar de uma única empresa: a Microsoft. Steve Ballmer, o presidente que sucedeu Bill Gates, não apareceu em nenhuma lista, seus conselhos não foram ouvidos. Não é indício apenas de que, ao menos perante Washington, a Microsoft tenha perdido relevância. É sinal de que Gates faz muita falta.

—-
Leia mais:

Link no papel – 28/02/2011


Twitter

Posting tweet...

Blogs do Estadão