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Novas tecnologias: nascem livres, viram monopólio. E a web?

  • 9 de março de 2011|
  • 15h15|
  • Por

A Comissão Federal de Telecomunicações americana ganhou um conselheiro dedicado à proteção do consumidor na internet e nos serviços móveis. É Tim Wu, professor da Escola de Direito da Universidade de Columbia, Nova York. Seu trabalho: garantir que a rede continue neutra. Que às grandes empresas de telecomunicações não seja permitido decidir se um site carregará mais rápido do que outro.

Não há quem entenda mais do assunto do que Wu. O melhor livro sobre tecnologia publicado no ano passado é seu The Master Switch, “o interruptor mestre” numa tradução literal. Wu tem uma tese, a de que a internet corre o perigo real e iminente de terminar controlada por um grande esquema monopolista. O que era uma tecnologia libertária pode se tornar fechada.

O argumento que usa é imbatível. Aconteceu assim com todas as principais tecnologias de comunicação no último século e meio. É o caso da telefonia, da indústria do cinema, rádio, televisão — até do telégrafo.

Poucos exemplos são mais claros do que o do surgimento da telefonia. Quando Alexander Graham-Bell inventou o telefone, na segunda metade do século 19, ele era pouco mais do que uma curiosidade. Nada que a poderosa Western Union, que controlava a comunicação telegráfica nos EUA, pudesse temer. E, no entanto, enquanto a velha tecnologia ruía em desuso, telefones espalharam-se por todo o país.

A AT&T, empresa fundada por Bell, teve um grande executivo: Theodore Vail. Empresas de telefonia com redes independentes surgiram pelos EUA, Vail comprou umas, sufocou outras. Convenceu governo e público de que suas intenções eram as melhores. De que prestava um serviço público e que esta obrigação era posta pela empresa acima do lucro. Ganhou o jogo.

Mas, bem no início, a telefonia era não apenas uma curiosidade como também uma tecnologia com ares de liberdade. Um cheiro de anarquia perante o monopólio odiado do telégrafo.

É um ciclo que se repente de novo e de novo. Uma tecnologia libertária surge promissora, desbanca uma indústria consolidada e conservadora, assume seu lugar. Transforma-se ela própria numa indústria consolidada que tenta sufocar quaisquer inovações.

A mesma AT&T tentou estancar o surgimento de fitas magnéticas para gravação de sons pois temia que pudesse concorrer em seu mercado.

Vail teve um quê de Steve Jobs em seu tempo, assim como seu discurso lembrava o de “não faça o mal” do Google. Não foi o único. O rádio, por exemplo, teve um início amador. Estava nas mãos de gente fascinada com suas possibilidades na comunicação. Ninguém ganhava dinheiro. Quem montava uma pequena rádio em casa transmitia música e informes com o desejo único de ajudar e divertir. Blogueiros de seu tempo.

Evidentemente, tudo mudou com o tempo. Grandes cadeias dominaram o rádio e fizeram fortunas com a invenção da propaganda radiofônica.

Todas as tecnologias do tipo surgiram com um discurso de liberdade e terminaram monopólios. Por que com a internet seria diferente?

Wu não considera que seja inevitável. Acha, apenas, que a cultura americana favorece este cenário. Nos EUA, a opinião pública considera que deve conter o quanto pode os poderes do governo. Mas o comportamento perante o poder privado, das grandes corporações, é diferente. Com esse, há hesitação na hora de intervir.

Descrito assim, Wu parece um professor saído das fileiras do Partido Comunista. Não é. Sua preocupação é a de garantir que a infraestrutura da internet não sofra o mesmo fim que suas antecessoras. Trata-se de uma tecnologia libertária que veio desbancar os monopólios anteriores. Este é o processo pelo qual o mercado resolve o problema.

Mas e se, desta vez, a tecnologia permanecesse livre? Um ambiente rico capaz de gerar uma cultura de inovação permanente? No qual ninguém tem o domínio total?

É justamente esse seu trabalho no governo dos EUA. Um trabalho que, de trivial, não tem nada. Afinal, o fácil é construir uma burocracia reguladora que termine por impedir a inovação que desejava garantir de início. É um desafio e tanto.

—-
Leia mais:
Link no papel – 07/03/2011

6 Comentários Comente também
  • 09/03/2011 - 15:16
    Enviado por: Link - Estadao.com.br

    [...] Navegar Impreciso: • Novas tecnologias: nascem livres, viram monopólio. E a web? [...]

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  • 09/03/2011 - 16:55
    Enviado por: homero

    Uma vez socialista, sempre socialista.

    Todas as tecnologias citadas (telefone, rádio televisão) só se tornaram monopólio quando alguém teve a idéia de dizer que aquela tecnologia era importante demais para ficar nas mãos de quem o inventou.

    O argumento é que aquela tecnologia era estratégica e portanto o Estado tinha que regulamentar para garantir o seu valor social. Entretanto como nos ensinou Milton Friedman, só existe monopólio quando existe ação do Estado, via regulamentação ou via estatização pura e simples.

    O Wu parece mais um desses senhores tão imbuídos em proteger a galinha dos ovos de ouro, que acabam por sufocá-la. Socialista é pouco para qualificar o Wu e seus seguidores. Ele quer ser dono da internet.

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  • 10/03/2011 - 10:54
    Enviado por: Rafaela - Tudo em Foco

    A criação do cargo de Wu é interessante, mas é complicado dizer que um homem em um único país é capaz de garantir a liberdade da internet. A ideia parecer ser boa, mas os EUA já não são mais toda aquela potência como era antes (tá, eles são importantes, mas existem muitos outros países também importantes). Em partes, concordo com o texto e em partes com o comentário de homero. Wu deve ser realmente uma pessoa com conhecimentos impressionantes no assunto. Mas não dá para dizer que o “tiro possa sair pela culatra”, como homero disse no comentário anterior.

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  • 10/03/2011 - 14:01
    Enviado por: Eduardo Andreoli

    Desculpe… mas eu nunca tive a impressão que a internet é gratuita… temos que pagar pelo equipamento, pelo provedor, etc.

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  • 10/03/2011 - 17:04
    Enviado por: Rodrigo Arantes

    Homero

    Creio que algumas características peculiares à internet estejam sendo ignoradas pelo seu comentário.

    A internet é o mais democrático de todos as tecnologias criadas anteriormente. No tempo do rádio, criar uma rádio era muito mais caro do que no tempo da internet é criar um blog.

    A internet está se alimentando das tecnologias anteriores. Jornais, revistas, radios, televisão, telefone. Estão todos adotando uma versão na internet. Isto não aconteceu com o telefone, radio ou qualquer outra tecnologia anterior.

    Por estes fatores podemos ver que a internet tem uma importancia muito maior do que qualquer outra tecnologia anterior. E por esta importancia, talvez a internet realmente possa ter um destino diferente.

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  • 12/03/2011 - 13:58
    Enviado por: Bruno Zoca

    Bom, eu que tenho o privilégio de acompanhar uma boa parte da evolução da internet – desde 1997 – vejo que hoje, existem mais serviços gratuitos que outrora. Outra coisa que se leva em fato é que, qualquer movimento especulativo que algum site de uso em massa passará a ser cobrado, logo nasce um movimento revoltante. Imagino que a internet tem suas saídas, mas não podemos dormir no ponto pois já imaginaram um bando de sites com videos bonitinhos de uso pago ser carregado com uma banda melhor direcionada por parte das empresas de telecomunicações, enquanto os sites para uso gratuito sendo carregado em menor prioridade.
    Os internautas devem continuar unidos e ser sempre contrario a qualquer meio de monopólio.

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