Os amigos, os amigos dos amigos e os conhecidos
- 5 de setembro de 2010|
- 20h00|
- Por
Paul Adams trabalha no Google. Cuida do desenho de interfaces de mídias sociais em projetos como Buzz e sites como YouTube. Recentemente, fez aos colegas de empresa uma apresentação sobre seus estudos. E publicou-a na web. Segundo Adams, as redes sociais estão mal construídas. Não entendem como as pessoas se relacionam na vida real. Para demonstrá-lo, usa o exemplo de uma moça que entrevistou. Debbie.
Criada em Los Angeles, na Califórnia, vive um tanto ao sul, em San Diego. Dá aulas de natação para crianças. Enquanto mostrava aos pesquisadores do Google como usa oFacebook, Debbie repentinamente deu-se conta de algo sério.
Alguns de seus amigos de LA, que trabalham num bar gay, costumam publicar fotos das noitadas em seus perfis. São fotos que, via sua página de perfil, seus jovens alunos conseguem ver. São pedaços de sua vida que Debbie não queria ver misturados e que, no entanto, estão.
Acontece de formas diferente com todos nós.
No caso de Debbie, ela tem quatro “redes sociais”. Seus amigos de LA, os de San Diego, seus alunos e sua família. Amigos de um grupo não necessariamente se encaixam no outro. Sites de relacionamento, no entanto, costumam tratá-los como um grupo único.
Adams recolheu estudos com pessoas em todo o planeta. Em média, temos, todos, algo entre quatro e seis grupos distintos de relacionamentos formados por entre duas e dez pessoas cada. “Amigo” não é a palavra certa para descrever 85% dessa gente. São conhecidos. Há, na verdade, laços fortes e fracos de relacionamento. Uma pessoa, qualquer pessoa, tem entre duas e seis outras pessoas com quem divide laços fortes.
E nosso universo de relações tênues não vai além de 150. Os grupos nômades humanos não passavam de 150 pessoas. As divisões do Exército Romano, idem. O perfil típico do Facebook e o número de editores máximo de artigos da Wikipedia chega ao mesmo número mágico.
Há um terceiro tipo de relação, a relação temporária, que a internet gerencia bem. É o sujeito de quem compramos algo num site de leilão, é o resenhista de um produto na loja virtual, a pessoa que nos ajuda a resolver um problema em algum fórum. A nota do resenhista, depoimentos de outros sobre esta pessoa,
nos ajudam a confiar ou não.
A rede também é competente para nos auxiliar com nossas relações fortes. No Skype, 80% das conversas de um indivíduo são sempre com as mesmas duas pessoas. Mesmo entre os mais jovens, é o e-mail, e não o site de relacionamentos, o veículo preferencial para comunicar algo para o amigo do peito.
A internet falha é no grupo do meio, aqueles 150 com quem temos alguma relação, mas não íntima. Falha de duas formas distintas. A primeira, porque não faz distinção entre os colegas de trabalho, os amigos do colégio, os pais e irmãos e a turma do fim de semana. A segunda, porque não deixa evidente
que os grupos estão misturados.
Foi o caso de Debbie quando, repentinamente, percebeu que o ato de fazer duns bons companheiros seus amigos no Facebook expôs seus alunos crianças a um lado de suas vida que queria privado. Os grupos, ali, estavam misturados. E, sem que ela se desse conta, expôs a ambos duas facetas suas.
Aí entra um pulo do gato: quanta gente não resmunga que, nas redes sociais, só tem pessoas falando sobre o que estão comendo? Acontece, de fato.E, sempre que alguém escreve sobre seu almoço, tem um público bastante específico em mente. Não se trata, evidentemente, de todos nossos ‘amigos’. Só um grupo que não foi devidamente separado do todo.
Atualizamos nosso status, nos sites de relacionamento, para gerenciar a maneira como somos vistos pelos outros. Para cultivar relações específicas. Para dividir com alguns informação que consideramos úteis. A informação que tornamos pública para uns, no entanto, não deveria ser pública para todos.
A apresentação de Adams está no Slideshare.com, basta fazer uma busca por seu nome. Foi a jornalista Gina Trapani quem a descobriu.Mas esta divisão entre grupos de amigos já foi posta em prática pelo Google, aqui mesmo, no Brasil. Resta saber se as mudanças implementadas no Orkut serão adotadas no Google
Me, a rede social que o gigante da internet está preparando para concorrer com o Facebook. É esperar para ver.
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16/09/2010 - 12:01 Enviado por: Lorivaldo
Muito bom este artigo; topei c/ ele agora…e o curioso foi não ter recebido nenhum comentário.
responder este comentáriodenunciar abuso
Toca numa questão nevrálgica dos sites de relacionamentos: a superficialidade que permeia todos
eles e a necessidade de adulação/exposição de todos os
atos de quem faz parte.
Acho até que não ter comentários neste artigo aponta a
dificuldade das pessoas em ler textos com mais de meia
duzia de linhas e comentar c/ mais de quatro palavras.
Valeu pelo assunto! -
15/11/2010 - 16:31 Enviado por: Alexandre Rodrigues Vianna
O artigo realmente é muito bom.
responder este comentáriodenunciar abuso
Eu mesmo li, na versão impressa, desde que foi publicado.
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