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O que Obama quis dizer ao vilanizar Xbox, iPod e iPad

  • 16 de maio de 2010|
  • 19h57|
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No início da semana passada, o presidente americano Barack Obama surpreendeu um bocado. “Esses iPods e iPads e Xboxes e PlayStations”, disse a uma platéia de pais e formandos da Universidade Hampton, “distraem, desligam, não contribuem para nos emancipar”. É um tapa na cara vindo do presidente eleito usando redes sociais.

Estará errado? Houve o tempo em que a acusação se voltava contra a TV. Caixa maligna, alienante, criadora de uma geração de incapazes. A primeira geração formada com TV em casa é justamente a geração de Obama, ora pois, um dos presidentes mais intelectualizados da história recente dos Estados Unidos. Agora é a vez do iPod e do Xbox serem acusados de alienantes.

“Vocês estão se formando numa era em que o ambiente midiático nos bombardeia 24 horas por dia e sete dias da semana com todo tipo de conteúdo”, ele continuou, “nos expõe a toda sorte de argumentos, muitos dos quais não figuram lá muito bem quando lhes medimos a verdade.”

obamadoria
(Ilustração: Carlinhos Müller)

Obama é o primeiro presidente geek. Mal tornou-se presidente, o serviço secreto entrou para confiscar seu Blackberry. Questões de segurança, alegavam. Se o presidente dos EUA trocar comunicados delicados pelo celular e um hacker se intrometer, os resultados podem ser gravíssimos. Ele não é um homem qualquer, o que requer um nível de segurança além, muito além.

Obama não quis. Brigou pelo direito de ter um smartphone. Terminou conseguindo uma versão adaptada por gente capaz. O Blackberry presidencial não é como o do executivo ali na esquina. Mas de onde vem, portanto, esse conservadorismo repentino? Esse moralismo exacerbado?

“Com iPods e iPads e Xboxes e PlayStations, aparelhos que não sei usar, a informação vira mera distração”, continuou. “A informação torna-se diversão, uma forma de entretenimento.” Para Obama, “tudo isso está criando novas pressões sobre vocês, sobre nosso país, sobre nossa democracia”.

A imprensa especializada caiu em cima. Humoristas fizeram piada. E blogueiros em geral do seu lado viram-se repentinamente desconfortáveis. Obama, que diabos, disse que o Xbox do vizinho é um perigo para a democracia.

E ele está certo.

Ou quase: primeiro é preciso entender o que Obama está falando e como ele constrói seu discurso.
Obama já foi fotografado ouvindo música num iPod. Ele sabe muito bem como funciona. Talvez ele ainda não tenha tido um iPad em mãos, mas isso é coisa que se aprende a usar em segundos. E nem Sasha nem Malia, suas filhas, devem estar correndo o risco de perder seus videogames.

O presidente americano meteu brinquedos eletrônicos no discurso porque sabia que ia chamar a atenção e que gente no mundo todo ia tratar do assunto.

O que Obama está dizendo é coisa diferente, um pouco mais profunda. Informação é importante para que uma democracia seja forte. Boa informação é fundamental e um povo atento é necessário para a saúde de um país. Quanto mais gente se informa, quanto mais gente se dá ao trabalho de refletir sobre a informação adquirida, melhor a qualidade de um governo democrático.

O problema não é tanto o Xbox ou o iPad. Eles entram aí como metáforas da nova realidade digital que torna a informação abundante.

A informação é muita, porém nem sempre de qualidade. Paradoxalmente, para que nos informemos bem, é preciso um esforço maior, não menor. Na internet, carece que tenhamos mais atenção. Se nos permitirmos hipnotizar pela abundância de coisas escritas e vídeos e fotos e tanto mais, a reflexão não ocorre. Nos iludimos achando que temos informação mas a realidade passou sem que a tenhamos percebido.

Alfabetização digital é alfabetização midiática. Todos, não só jornalistas, precisamos nos tornar editores, curadores, selecionadores da informação. É disso, não do pobre Xbox, que Barack Obama está falando. E ele está absolutamente correto.

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5 Comentários Comente também
  • 01/06/2010 - 20:32
    Enviado por: chicosantos

    pedro, é raro, mas não concordo com tua opinião. é muito velha a conversa de que temos informação demais, que os jovens estão sendo contaminados por uma nova tecnologia, etc. não vejo problema nem nos Xbox, Ipod e Ipad nem na carga de informação que vem com eles. é apenas um processo de adaptação.

    trataram desta mesma fala do Obama na economist e tendo a concordar mais com eles: http://www.economist.com/displayStory.cfm?story_id=16109292

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  • 02/06/2010 - 00:43
    Enviado por: Beni Borja

    É mesmo uma observação mesmo muito pertinente e oportuna essa do Obama, muito embora video-games não tenham mesmo nada a ver com isso.

    A tão celebrada liberdade de distribuição de conteúdos que a Internet proporcionou, tem um lado nefasto que não pode ser mais ignorado.

    Viramos todos curadores amadores de todo o conteúdo de comunicação que consumimos. Uma atividade que é um verdadeiro buraco negro de tempo.

    Música foi o primeiro conteúdo de comunicação que se consumia em outro formato a ser distribuído digitalmente. Essa duvidosa primazia , nos colocou na situação de cobaias da transição digital.

    Num primeiro momento a libertação do nosso arcaico sistema de curadoria feito pelas gravadoras, pareceu uma libertação. Mas passada uma década, vivemos hoje o drama da ausência de um mecanismo que separe o joio do trigo.

    Como achar uma boa música no mar de lixo dos myspaces da vida? Como achar o texto mais informativo, no meio de centenas de posts sobre a mesma notícia ? Tudo isso requer um tempo enorme e um mínimo de conhecimento.

    Acho que isso é serviço para profissionais. Mas enquanto não existirem negócios que sustentem esses profissionais, ficamos nós aqui perdendo precioso tempo nas telas da vida.

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  • 03/06/2010 - 11:21
    Enviado por: Reinaldo

    Nossa, ainda bem que você me explicou o que ele quis dizer!!! Qual é amigão o presidente fez um discurso de obviedades e a sua “explanação” foi ainda mais óbvia! Aliás, pra ler isso eu não preciso entrar no site do Estadão, posso ficar no twitter mesmo…

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  • 03/06/2010 - 22:56
    Enviado por: Rodrigo

    Pedro, seja o mais franco possível: se esse discurso tivesse sido proferido pelo George W. Bush você seria tão condescendente?
    Eu duvido e tenho certeza que a maioria dos seus leitores habituais (concordem ou não com as suas opiniões) também.
    Mas me corrija se eu estiver errado.

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  • 04/06/2010 - 19:19
    Enviado por: Luiz Garrido

    O Obama explicou mal, coitado é o Lula muito mais bem preparado dos EUA, o Obama infelizmente ficou só na esperança. Mas sobre esse problema do excesso de informação realmente é um problema, eu perco muito tempo na internet, perco o foco muito fácil, você pode ler muita coisa e no final não lê nada. Como um amigo me falou, as vezes era melhor ter ido a um museu ver 3 dos principais quadros do Van Gogh, do que ver toda a obra dele na internet, vc não pensa, só vê, não sei me explicar, mas não é a mesma coisa que a experiencia de ver o quadro ali, na sua frente, fora o execesso, vc olhou todos, não aproveitou nenhum, e 1 min depois já pulou para o Picasso. Vc soube explicar melhor que ele Doria, esse sentimento que já esta sendo estudado até como doença, espécie de vício pela internet. Espero que tenha cura e de para aprender a usar, porque a internet é uma baita de uma ferramenta. Para terminar, sempre me pergunto, será que Einstein ou Aristóles teriam criado tudo o que criaram com a internet? Teriam criado mais ou menos?

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