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15 de Abril de 2010

 

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Ciência econômica, boa e ruim

26 de junho de 2012 | 17h09

Paul Krugman

Jonathan Portes se envolve num debate com Diane Coyle a respeito do estado atual da ciência econômica; como meu nome é citado tanto no texto dele quanto no dela, pensei que seria o caso de participar e acrescentar alguns pontos que considero importantes.

Portes fica ofendido com a afirmação de Diane segundo a qual os macroeconomistas não podem se declarar os grandes entendidos nesta crise, porque o público os despreza. Como destaca Portes, a verdade é que a macroeconomia – ao menos a forma de ciência macroeconômica praticada por ele e por mim – apresentou um desempenho espetacular na crise.

Portes cita um texto de Niall Ferguson publicado três anos atrás (que eu tive a felicidade de perder) no qual o autor me ridicularizava como o “sujeitinho do curso elementar de economia”, alguém que cometia a tolice de acreditar que imensos déficits governamentais pudessem falhar na tarefa de elevar os juros numa economia deprimida. De fato, foi isto que foi dito no curso elementar de economia – uma argumentação que se mostrou absolutamente correta. Os fundamentos macroeconômicos de IS-LM também diziam que, sob tais condições, a impressão de uma montanha de dinheiro não seria inflacionária, e que um corte acentuado nos gastos governamentais provocariam o encolhimento da economia. Tudo isto se tornou realidade.

Assim, os ensinamentos do curso elementar de economia se mostraram corretos – e, mais importante, produziram previsões corretas “a partir de uma amostra”, ou seja, a respeito daquilo que ocorreria sob condições muito diferentes da experiência normal. Trata-se do tipo de coisa que produz mudanças paradigmáticas na ciência: a luz se curva! Einstein tinha razão!

Assim sendo, de onde vem a sensação de que a ciência macroeconômica perdeu os parâmetros? Eu diria que este é um fenômeno essencialmente político. O tipo de macroeconomia que Portes e eu praticamos ofende as noções conservadoras de como as coisas deveriam funcionar numa sociedade capitalista e, por isso, a teoria é rejeitada independentemente do seu desempenho analítico; o apoio é dado a outras opiniões e outras pessoas, não obstante o quanto estejam equivocadas. Como resultado, tudo que o público ouve são discussões entre economistas envolvidos num duelo (sendo que alguns deles nem sequer entendem muito de economia). Trata-se de um grande problema – mas um problema que não está na ciência econômica, que se mostrou corretíssima mais uma vez.

O outro comentário que gostaria de fazer diz respeito à ideia segundo a qual a microeconomia estaria num estado muito melhor, algo que considero no mínimo questionável. Quer dizer que as suposições subjacentes à teoria microeconômica devem ser entendidas como verdadeiras? Maximização de utilidade? É isso mesmo? A microeconomia é consistente de acordo com parâmetros que não se aplicam à macroeconomia e, na maioria dos casos, é melhor interpretá-la como uma metáfora que pode ser útil desde que não a tratemos com demasiada seriedade.

Mas não existe atualmente um grande volume de obras empíricas a respeito da microeconomia? Sim – e o mesmo vale para a macroeconomia. A diferença é que, na maior parte dos casos, não vemos uma determinação política de negar os resultados empíricos da microeconomia. Mas, mesmo nesta área, em se tratando de temas nos quais há muito em jogo na política, como a dinâmica econômica do sistema de saúde, vemos a persistência de opiniões politicamente convenientes independentemente da força das provas contrárias. A primeira vez que ouvi o termo “ideias zumbis” foi no campo do sistema de saúde, não da macroeconomia.

Assim, para voltar ao debate original: o fato é que temos visto dias de glória para a macroeconomia padrão, que apresentou um desempenho notável sob condições de crise. Aqueles que ouviram uma história diferente devem responsabilizar a politicagem, e não a ciência econômica em si.

A economia de Lake Wobegon

18 de agosto de 2011 | 15h39

Paul Krugman

Dean Baker sintetizou muito bem o que está errado em tudo o que Casey Mulligan tem escrito sobre a questão do emprego. Mas eu diria que o seu resumo é muito mais amplo do que Mulligan diz.

Como Dean afirma, Casey Mulligan e outros insistem em dar exemplos de grupos de indivíduos que conseguiram um emprego pela redução de salários ou oferecendo outros atrativos para possíveis empregadores. E segundo eles, estes exemplos mostram o que é necessário para ampliar o número de vagas de trabalho de um modo geral.

O problema, naturalmente, é que tais argumentos comportam uma falácia de composição. Ou, se preferir, o que estão afirmando é que podemos resolver nosso problema de emprego adotando a economia de Lake Wobegon (cidade fictícia criada por Garrison Keelor para um programa de uma rádio educativa dos Estados Unidos, onde todas as pessoas estão acima da média) criando um ambiente em que todos os Estados, grupos etários e ocupações oferecem salários que estão abaixo da média.

A essência da macroeconomia é compreender por que isso é uma falácia, por que o fato de um grupo conseguir alguma coisa não significa que todos conseguirão também. E é um lamentável comentário sobre a situação da economia num momento em que professores titulares de instituições de ensino famosas não obtêm essa distinção.

Breve comentário sobre o debate do estímulo

1 de julho de 2011 | 16h04

Paul Krugman

Um breve comentário sobre o fato de eu estar prematuramente correto a respeito do problema das proporções insuficientes do estímulo: talvez você ache que hippies como eu estavam apoiando suas opiniões em algum tipo de versão louca, selvagem e nada ortodoxa das leis da economia, enquanto as pessoas sábias e ponderadas que defendiam US$ 787 bilhões como um montante ideal recorriam às análises tradicionais.

Mas o que ocorria era exatamente o contrário. A defesa de um estímulo muito maior era inspirada pelos manuais mais básicos de macroeconomia e podia ser justificada também por modelos econômicos mais extravagantes, mas ainda tradicionais.

Em comparação, a ideia de um estímulo bem menor tinha como base uma combinação de improviso, intuição e simbolismo político: sem ter como base prova nenhuma, os governantes acreditaram que um estímulo maior acabaria inquietando o mercado de títulos, e/ou que um empurrão temporário seria suficiente para restaurar a tão importante confiança, ou que seria politicamente crucial manter o montante total abaixo da marca de US$ 1 trilhão. (Que diferença faria se nossa álgebra funcionasse na base 12?)

Em outras palavras, a sabedoria – conforme entendida pelo público – estava em rejeitar análises econômicas criteriosas em favor do tato, e só atinar para o fato de que a análise estava correta depois que tivessem se passado alguns anos de desemprego em massa. Os hippies leem os manuais; as Pessoas Muito Sérias confiam na análise detalhada das tripas de um animal, ou algum outro ritual do tipo.

A macroeconomia é dura

1 de novembro de 2010 | 18h56

Paul Krugman

Estou recebendo algumas reações bastante histéricas à coluna de hoje, muitas delas na linha de “você é um idiota – eu sei como são as coisas no mundo real dos negócios”, etc…

A questão é que nenhuma experiência de honrar uma folha de pagamentos ajuda a compreender questões que são criticamente afetadas pelo modo como as coisas operam num nível macro. Empresas são sistemas abertos; a economia mundial é um sistema fechado, com efeitos de feedback que são cruciais, mas não jogam nenhum papel na experiência normal dos negócios.

Em particular, um empresário individual, por mais brilhante que seja, não precisa se preocupar com o fato de que o total de receita se iguale ao total de gastos, de modo que, se algumas pessoas gastam menos, ou alguém terá de gastar mais, ou a renda agregada terá de cair.

É por isso que temos um campo chamado de macroeconomia. Infelizmente, os insights duramente conseguidos de macroeconomia estão sendo rejeitados agora em favor de sentimentos viscerais. E todos pagaremos um preço.

Uma nota lateral: costumo receber muitos e-mails me atacando violentamente e afirmando em seguida que ninguém está ouvindo o que eu digo. Nesse caso, por que vocês ficam tão aborrecidos quando eu o estou dizendo?

Amigo, você tem um paradigma econômico?

31 de agosto de 2010 | 16h49

Paul Krugman

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Há alguns meses um de meus mentores originais na ciência econômica – uma pessoa que obteve seu diploma no fim da última era glacial – me perguntou se haveria algo a respeito da crise atual que exigisse uma análise fundamentalmente nova e original. Concordamos que a resposta seria negativa.

Esta é uma das histórias que não são contadas a respeito da bagunça na qual nos encontramos. Ao contrário do que dizem por aí, a parcela de nossos problemas que encontramos dificuldade para compreender é mínima – ao menos para aqueles que conhecem os fundamentos básicos e antiquados da macroeconomia. Na verdade, é provável que uma pessoa que tivesse aprendido economia a partir da edição original do manual de Samuelson, publicada em 1948, se sentisse bastante à vontade no mundo contemporâneo. Se os economistas parecem estar totalmente perdidos, isso é consequência de terem desaprendido a sabedoria antiga. Se as políticas econômicas fracassaram, isso é consequência de os responsáveis por elas terem escolhido não acreditar em seus próprios modelos.

Do ponto de vista analítico: muitos dos economistas de hoje rejeitam sem pestanejar o modelo keynesiano, preferindo acreditar que a causa das recessões esteja numa queda na oferta, e não numa queda na demanda. Mas essas abordagens rivais têm implicações claras. Se um declínio for o reflexo de algum tipo de choque na oferta, as políticas monetárias e fiscais seguidas desde o início de 2008 teriam os efeitos previstos para um mundo restrito pela oferta: a grande expansão da base monetária teria levado a uma grande inflação, e os amplos déficits orçamentários deveriam ter provocado uma alta expressiva nos juros. Como você talvez se lembre, muitas pessoas defenderam essa previsão. Por outro lado, a abordagem keynesiana disse que a inflação cairia e os juros permaneceriam baixos enquanto a economia se mostrasse deprimida. Adivinhe só o que ocorreu?

Do ponto de vista das políticas econômicas: sem dúvida podemos debater se Obama teria sido capaz de obter a aprovação de um pacote de estímulo maior. Entretanto, sabemos que seus principais assessores não contextualizaram em termos puramente políticos a defesa de um estímulo pequeno se comparado ao declínio previsto. Em vez disso, eles argumentaram que um plano grande demais poderia alarmar o mercado de obrigações, e que o estímulo fiscal seria necessário somente enquanto uma forma de garantia. Nenhum desses argumentos decorreu da teoria macroeconômica; foram doutrinas inventadas no calor do momento. O Samuelson de 1948 teria sugerido a implementação de um estímulo grande o suficiente para restaurar o pleno emprego – ponto final.

Assim, o que temos aqui não é a carência de um paradigma analítico viável. O desastre que estamos enfrentando é o resultado da recusa dos economistas, tanto dentro quanto fora dos corredores do poder, em aceitar os paradigmas perfeitamente sólidos de que já dispúnhamos.

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