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15 de Abril de 2010

 

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Nova ajuda a bancos

12 de junho de 2012 | 16h26

Paul Krugman

Pois é, mais uma ajuda aos bancos, desta vez na Espanha. Quem poderia ter previsto tal coisa? Evidentemente a resposta é: qualquer pessoa. Na realidade, toda esta história começa a parecer uma rotina cômica. Mais uma vez, a economia derrapa, o desemprego vai às alturas, os bancos enfrentam dificuldades financeiras, os governos correm para ajudar, mas, não devemos deixar de observar: só os bancos recebem ajuda, não os desempregados.

A título de esclarecimento, os bancos espanhóis precisavam mesmo de uma operação de salvamento. A Espanha estava claramente à beira de um “doom loop” – um processo bastante conhecido no qual a preocupação com a solvência dos bancos os obriga a vender ativos, o que derruba os preços dos ativos, o que por sua vez torna as pessoas ainda mais preocupadas com a solvência. Os governos podem deter esses círculos viciosos com uma injeção de dinheiro. Entretanto, neste caso, o que está em questão é a própria solvência do governo espanhol, de modo que o dinheiro teria de vir de um fundo europeu mais amplo.

Portanto, não há nada de necessariamente errado nesse recente salvamento (embora muitas coisas dependam dos detalhes). Entretanto, o que impressiona é que, enquanto os líderes europeus organizavam essa operação de ajuda, eles indicavam que não tinham nenhuma intenção de mudar as estratégias que deixaram quase 25% dos trabalhadores espanhóis – e mais da metade dos seus jovens – sem uma ocupação.

Particularmente, na semana passada o Banco Central Europeu (BCE) não quis baixar os juros. Essa decisão estava sendo muito esperada, mas isso não nos deve impedir de observar que se trata também de uma decisão profundamente estranha. O desemprego na área do euro é muito elevado, e todas as indicações mostram que o continente está entrando numa nova recessão. Ao mesmo tempo, a inflação está desacelerando. Segundo todos os parâmetros da política monetária, a situação exige agressivos cortes de juros. Mas o BCE não pretende se mexer. E sequer leva em conta o risco crescente de um colapso do euro. Durante anos, a Espanha e outros países europeus hoje em má situação sabiam que só poderiam se recuperar mediante uma combinação de austeridade fiscal e “desvalorização interna”, o que significa corte de salários. Agora, está evidente que a estratégia não funciona, a não ser que haja um forte crescimento, e, isso mesmo, uma moderada inflação no “coração” da Europa, a Alemanha – o que fornece mais uma razão para baixar os juros e imprimir muito dinheiro. Mas o BCE nem se mexe.

Ao mesmo tempo, as autoridades afirmam que a austeridade e a desvalorização interna só funcionarão se as pessoas acreditarem em sua necessidade.

Vejamos, por exemplo, o que Joerg Asmussen, o representante alemão do conselho executivo do BCE, acaba de afirmar na Letônia, que se tornou o exemplo de uma estratégia de austeridade supostamente bem-sucedida. (Anteriormente era a Irlanda, mas a economia irlandesa continua se recusando a se recuperar.) “A diferença básica entre a Letônia e a Grécia”, disse Asmussen, “está no grau de responsabilidade nacional no programa de ajustes – não só dos estrategistas nacionais, como também da própria população”. Podemos chamá-lo de enfoque à la Darth Vader da política econômica. Na realidade, Asmussen está dizendo aos gregos: “Acho perigosa sua falta de confiança”.

E veja bem, o sucesso da Letônia consiste em um ano de uma expansão bastante razoável depois de um declínio econômico do tamanho de uma depressão, nos últimos três anos. De fato, uma expansão de 5,5% é bem melhor do que nada. Contudo, vale a pena notar que a economia dos Estados Unidos cresceu quase o dobro disso – 10,9% – em 1934, quando se recuperava da fase pior da Grande Depressão. Entretanto, a Depressão estava longe de ter acabado.

Juntando tudo isso teremos o quadro de uma elite política europeia sempre disposta a pular para a ação para defender os bancos, mas nada disposta a admitir que suas políticas não estão atendendo às necessidades das pessoas às quais a economia deveria servir.

No entanto, será que a nossa situação é melhor? A perspectiva americana a curto prazo não é tão ruim quanto a da Europa, mas os próprios prognósticos do Fed apontam para uma inflação baixa e um elevado desemprego nos próximos anos – exatamente as condições nas quais o Fed deveria se apressar a socorrer a economia. Mas o Fed não se mexe.

O que explica essa paralisia transatlântica diante do atual desastre humano e econômico? A política faz seguramente parte disso – o que quer que elas digam, as autoridades do Fed estão claramente intimidadas pelas advertências de que toda política expansionista será considerada uma tentativa de ajudar o presidente Barack Obama. Portanto, trata-se de uma mentalidade que considera o sofrimento econômico de certo modo redentor, uma mentalidade que certa vez um jornalista inglês chamou de “sadomonetarismo”.

Por mais profundas que sejam as raízes dessa paralisia, está se tornando cada vez mais claro que será preciso que ocorram outras catástrofes para que se recorra a uma ação política concreta que vá além da ajuda aos bancos. Mas não se desesperem: do jeito que as coisas vão, especialmente na Europa, uma nova catástrofe está próxima.

O problema não é bancário

13 de maio de 2011 | 15h01

Paul Krugman

Terei de escrever mais sobre isso, mas achei que poderia colocar o seguinte por enquanto: um tema que ainda se encontrará em muitas discussões políticas, especialmente sobre coisas como tomar medidas sobre as execuções hipotecárias, é a advertência constante de que não se deve ser duro com os bancos – porque as coisas estão frágeis, como sabem, e não queremos outra crise financeira.

Sendo assim, achei que valeria a pena assinalar que este há muito tempo deixou de ser um problema bancário.

O banco central de St. Louis tem um indicador de estresse financeiro (é o primeiro componente principal de um vetor de medidas financeiras diferentes; quem perguntou?). Parece assim:

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Dá para perceber claramente o período “Deus me acuda” após a queda do Lehman; dá para ver também que ele acabou, e o estresse voltou mais ou menos ao normal.

Então o que está travando a recuperação? Encrenca imobiliária e endividamento das famílias.

Sendo assim, a prioridade nas políticas financeiras deveria ser limpar a confusão imobiliária e ajudar a conseguir um alívio da dívida. Não é o momento de se preocupar muito com os bancos – e, em especial, não é o momento de se preocupar com o que os banqueiros dizem.

Comendo os irlandeses

27 de novembro de 2010 | 8h00

Paul Krugman

Estamos precisando de um novo Jonathan Swift. A maioria das pessoas conhece Swift como o autor de As viagens de Gulliver. Mas os acontecimentos recentes me fizeram pensar em seu ensaio de 1729, “Uma proposta modesta”, no qual ele observou a pobreza estarrecedora dos irlandeses e ofereceu uma solução: vender as crianças como alimento.

“Asseguro que essa comida será um pouco cara”, ele admitiu, mas isso a tornaria muito apropriada para proprietários de terras , que, como já haviam devorado a maioria dos pais, pareciam ser os mais indicados para os filhos. Tudo bem que desta vez não são os proprietários de terras, mas os banqueiros – e eles estão apenas empobrecendo o população, não a comendo. Mas somente um satírico para fazer jus ao que está se passando hoje na Irlanda.

A história irlandesa começou com um verdadeiro milagre econômico.

Esse, porém, acabou dando lugar a uma orgia especulativa provocada por bancos e incorporadoras imobiliárias fora de controle, numa relação promíscua com políticos de peso. A orgia foi financiado com empréstimos enormes captados por bancos irlandeses, em geral de bancos de outros países europeus.

Aí a bolha estourou, e esses bancos enfrentaram prejuízos imensos.

Seria de esperar que os que emprestaram dinheiro aos bancos dividiriam os prejuízos. Afinal, eles eram adultos responsáveis por seus atos, e se não conseguiram compreender os riscos que estavam assumindo isso não foi por culpa de ninguém além deles. Mas, não, o governo entrou em cena para garantir a dívida dos bancos, transformando prejuízos privados em obrigações públicas.

Antes do estouro da bolha, a Irlanda tinha uma pequena dívida pública.

Mas, com os contribuintes subitamente ameaçados por prejuízos imensos dos bancos, enquanto a arrecadação despencava, a credibilidade do país foi colocada em xeque. Assim, a Irlanda tentou tranquilizar os mercados com um programa austero de corte de gastos.

Parem por um minuto e pensem nisso. Essas dívidas foram contraídas, não para pagar programas públicos, mas por espertalhões privados que buscavam apenas seu lucro pessoal. Agora, cidadãos comuns irlandeses pagam a conta.

Ou, para ser mais preciso, eles estão arcando com um ônus muito maior que a dívida – porque aqueles cortes de gastos causaram uma severa recessão, de modo que além de assumir as dívidas dos bancos, os irlandeses sofrem com a queda das rendas e o alto desemprego.

Agora o quê? Na semana passada, a Irlanda e seus vizinhos montaram o que foi amplamente descrito como um “salvamento”. O que realmente se passou, porém, foi que o governo irlandês prometeu impor sofrimentos ainda maiores à população em troca de uma linha de crédito que, presumivelmente, daria mais tempo para a Irlanda, bem, recuperar a confiança. Os mercados, compreensivelmente, não se impressionaram quando as taxas de juros dos bônus irlandeses subiram ainda mais.

As coisas precisariam mesmo ser dessa maneira? No início de 2009, circulava uma piada: “Qual a diferença entre a Islândia (em inglês, Iceland) e a Irlanda (em inglês, Ireland)? Resposta: “Uma letra e cerca de seis meses.” Isso era para ser uma piada de humor negro. Por pior que fosse a situação da Irlanda, ela não poderia se comparar ao completo desastre que era a Islândia.

Neste ponto, porém, a Islândia parece estar se saindo melhor que sua quase homônima. Sua recessão econômica não foi mais profunda que a da Irlanda, suas perdas de empregos foram menos graves e ela parece melhor posicionada para a recuperação. Os investidores, aliás, agora parecem estar considerando a dívida islandesa mais segura que a irlandesa. Como isso é possível? Parte da resposta é que a Islândia deixou que os emprestadores estrangeiros a seus bancos descontrolados pagassem o prelo de seu mau julgamento, em vez de colocar seus próprios contribuintes na linha para garantir as dívidas privadas ruins. Enquanto isso, a Islândia ajudou a evitar um pânico financeiro em parte impondo controles temporários ao capital – isto é, limitando a capacidade de os locais tirarem fundos do país.

A Islândia também se beneficiou do fato de que, diferentemente da Irlanda, ela ainda tem sua própria moeda: a desvalorização da coroa, que deixou as exportações islandesas mais competitivas, foi um importante fator para limitar a recessão na Islândia, Para os sabichões, nenhuma dessas opções heterodoxas está à disposição da Irlanda. A Irlanda, dizem eles, precisa continuar infligindo sofrimento a seus cidadãos – porque fazer qualquer outra coisa fatalmente solaparia a confiança.

Mas, a Irlanda já está em seu terceiro ano de austeridade, e a confiança continua se exaurindo. É o caso se perguntar o que será preciso para as pessoas sérias perceberem que punir a população pelos pecados dos banqueiros é pior que um crime; é um erro. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É assim que o euro acaba

18 de novembro de 2010 | 16h09

Paul Krugman

Não com um gemido, mas com uma corrida aos bancos.

Tudo bem, estou exagerando a dose – estamos longe de uma saída do euro para a Grécia, para não falar da Irlanda. Mas estamos chegando mais perto do tipo de cenário que abordei lá atrás, em abril.

Eu era um crente absoluto na teoria da irreversibilidade do euro de Eichengreen, que dizia que nenhum país poderia nem sequer discutir a saída do euro porque isso acarretaria a mãe de todas as corridas aos bancos. Mas, como escrevi em abril:

Agora estou reconsiderando, porém, por uma simples razão: o argumento de Eichengreen é uma razão para não planejar uma saída do euro – mas o que se passa se as corridas aos bancos e a crise financeira ocorrerem mesmo assim? Nesse caso, o custo marginal da saída cai dramaticamente, e na verdade a decisão pode ser efetivamente tirada das mãos das autoridades monetárias.

Portanto, o que o Financial Times está reportando é que está em curso uma espécie de corrida em câmera lenta a bancos irlandeses, com depositantes corporativos reduzindo gradualmente suas contas. Nada em nível de crise ainda. Mas o fantasma de uma possível ejeção do euro está começando a se tornar visível.

Friedman sobre o Japão

29 de outubro de 2010 | 17h39

Paul Krugman

David Wessel tem um artigo no qual pergunta o que Milton Friedman diria sobre alívio quantitativo, e conclui que ele teria sido a favor. Mas eu fiquei chocado com as observações de Friedman sobre o Japão em 1998, nas quais ele disse basicamente que aumentar a base monetária faria o truque:

“O Banco do Japão pode comprar bônus do governo no mercado aberto…” ele escreveu em 1998, “a maioria dos rendimentos terminará em bancos comerciais, aumentando suas reservas e os capacitando a expandir… empréstimos e compras no mercado aberto. Mas quer eles façam isso ou não, a oferta monetária aumentará… Um maior crescimento da oferta monetária teria o mesmo efeito de sempre. Após aproximadamente um ano, a economia se expandirá mais rapidamente; a produção aumentará e, após outro atraso, a inflação aumentará moderadamente.”

Bem, eles fizeram isso: a partir de 2002, o Banco do Japão dobrou a base monetária num período de três anos.

E o dinheiro simplesmente ficou lá. O fato é que o bancos não aumentaram os empréstimos.

Aliás, a experiência do Japão é um elemento chave do caso contra o monetarismo. Simplesmente imprimir dinheiro não funciona quando se está numa armadilha de liquidez.

Sombras e neblina

26 de outubro de 2010 | 16h23

Paul Krugman

Tenho encontrado certa dificuldade para escrever a respeito da questão das execuções hipotecárias; obviamente houve uma conduta ilegal generalizada por parte dos bancos (outra vez), mas o mais difícil é sugerir o que deve ser feito agora. Entretanto, uma coisa é certa: o principal argumento segundo o qual deveríamos ignorar a situação, evitando medidas como um congelamento temporário nas execuções hipotecárias, é um equívoco.

Estou me referindo ao argumento que defende o prosseguimento das execuções, independentemente das dúvidas, porque é importante fazer com que tais imóveis sejam confiscados e vendidos, para que possamos arrumar esta bagunça. Este é o argumento que os representantes do governo têm apresentado – e soa razoável para aqueles que não viram aquilo que de fato ocorre com os imóveis tomados por meio da execução da dívida do proprietário.

Pois a verdade é que um número impressionante destes lares e imóveis não vai para a venda: há um imenso “inventário das sombras” formado por imóveis que foram tomados pelos bancos, mas ainda não foram postos no mercado.

Se os financiadores das dívidas realmente desejassem que os imóveis fossem vendidos e os problemas solucionados, eles promoveriam vendas a descoberto: deixariam que os proprietários atuais vendessem seus lares pelo preço que conseguissem, entregando o valor obtido aos credores, e assunto encerrado. Há muitas vendas a descoberto por aí – mas há também muitos casos em que as vendas a descoberto têm sido recusadas, dando lugar a execuções hipotecárias.

O motivo oficial para a aversão às vendas a descoberto é o potencial para fraudes: o proprietário vende a casa a um preço barato para o seu primo. Mas será que é tão difícil policiar este tipo de comportamento, ao menos a ponto de evitar abusos mais grosseiros? Lembre-se que, para o credor, uma casa vendida por um preço baixo ainda é um negócio melhor do que uma casa que simplesmente não seja vendida.

Uma explicação alternativa para a preferência pelas execuções hipotecárias e a disposição de manter fora do mercado por longos períodos os imóveis confiscados está na ideia de que se trata de um jogo de prorrogação e fingimento: vendas a descoberto obrigariam os credores a reconhecer suas perdas, enquanto um imóvel desocupado obtido por meio da execução de dívidas pode ser mantido nos balanços contábeis com um valor irreal.

Se esta for a maneira correta de interpretar a situação, então a crise burocrática nos apresenta uma oportunidade para ajudar a reverter o colapso de um dos principais mercados da economia – uma oportunidade de persuadir os credores a aceitar as vendas a descoberto ou buscar acordos com os proprietários, e deter o estrago social provocado pelo inchaço deste inventário das sombras.

É uma oportunidade que, como de costume, estamos desperdiçando.

O atoleiro das hipotecas

15 de outubro de 2010 | 20h00

Paul Krugman

Os representantes do governo americano costumavam dar lições aos outros países a respeito dos problemas econômicos que estes enfrentavam, dizendo-lhes que precisavam emular o modelo dos Estados Unidos. A crise financeira asiática do fim da década de 90, em particular, levou os satisfeitos americanos a distribuir muitas lições de moral.

Assim, em 2000, o então secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers, declarou que as chaves para se evitar uma crise financeira eram “bancos adequadamente capitalizados e supervisionados, códigos de falência sólidos, governança corporativa efetiva e meios críveis de fazer cumprir os contratos”. Por implicação, estas eram características que nós apresentávamos, mas que faltavam aos asiáticos.

Na verdade, nós não correspondíamos a esta descrição.

Os escândalos contábeis da Enron e da WorldCom derrubaram o mito da governança corporativa efetiva. Atualmente, a ideia de que nossos bancos eram adequadamente capitalizados e supervisionados soa como uma piada de péssimo gosto. E agora a bagunça das hipotecas está transformando em falácia a sugestão de que dispomos de meios críveis de fazer cumprir os contratos – na verdade, cabe perguntar se nossa economia está sujeita a algum tipo de código de leis.

A história até o momento: Uma quebra imobiliária épica e a persistência de um alto índice de desemprego levaram a uma epidemia de inadimplência, com milhões de proprietários de imóveis atrasando o pagamento de suas hipotecas. Assim, os financiadores – as empresas que recolhem os pagamentos em nome dos detentores das hipotecas – executaram muitas dívidas, apropriando-se de muitos imóveis.

Mas será que tais empresas têm realmente o direito de se apropriar desses lares? As histórias de horror têm se multiplicado, como o caso do morador da Flórida cuja casa foi tomada apesar de ele não a ter hipotecado. Parece que certos envolvidos têm ignorado a legislação. Os tribunais têm aprovado execuções hipotecárias sem exigir que os financiadores apresentem a documentação apropriada; em vez disso, eles têm confiado em atestados assegurando que a papelada está em ordem. E esses atestados em muitos casos foram produzidos por “burocratas robôs”, funcionários de baixo escalão que não fazem ideia da veracidade destas garantias.

Agora uma terrível verdade está chegando à superfície: em muitos casos, a documentação não existe. No frenesi da bolha, boa parte dos empréstimos imobiliários foi feita por empresas suspeitas que tentavam gerar o maior volume possível. Estes empréstimos foram vendidos a “trustes” hipotecários, os quais, por sua vez, os repartiram e misturaram em valores mobiliários lastreados por hipotecas. Os trustes eram obrigados pela lei a obter e manter em sua posse as notas hipotecárias que especificavam a obrigação do solicitante. Mas agora parece claro que tais formalidades foram muitas vezes negligenciadas. E isto significa que muitas das execuções hipotecárias que estão ocorrendo são, de fato, ilegais.

Isso é muito, muito ruim. Para começar, é quase certo que um número significativo de solicitantes está sendo alvo de fraudes – recebendo cobranças indevidas e acusações de inadimplência quando na verdade não estão faltando com os termos dos seus acordos de empréstimo.

Além disso, se os trustes não forem capazes de provar que realmente são os donos das hipotecas sobre as quais têm vendido participação, os patrocinadores destes trustes enfrentarão processos por parte de investidores que compraram tal participação – uma participação que, em muitos casos, vale hoje apenas uma fração do seu valor nominal.

E quem são estes patrocinadores? Grandes instituições financeiras – as mesmas instituições supostamente resgatadas por programas do governo no ano passado. Isto significa que a bagunça das hipotecas representa a ameaça de uma outra crise financeira.

O que pode ser feito em relação a isto?

Seguindo o próprio perfil, a resposta do governo Obama tem sido a de se opor a medidas que possam desagradar aos bancos, como uma moratória temporária nas execuções hipotecárias enquanto alguns dos problemas são solucionados. Em vez disso, o governo pede educadamente aos bancos que se comportem de maneira exemplar e limpem a própria reputação. Afinal, isto funcionou tão bem no passado, não é mesmo?

Entretanto, a resposta da direita é ainda pior, é claro. Os republicanos do congresso estão mantendo a discrição, mas comentaristas conservadores como os editorialistas do Wall Street Journal têm chamado de mera trivialidade a ausência da devida documentação. Com efeito, eles estão dizendo que se um banco diz ser o proprietário da sua casa, o melhor é acreditar na palavra dele. Para mim, isto evoca a época em que os nobres se sentiam no direito de tomar o que quer que desejassem, sabendo que os camponeses nada poderiam fazer nos tribunais. Ao que parece, há pessoas que pensam nesta época como os “bons tempos”.

O que deveria ocorrer? Os excessos dos anos da bolha criaram um atoleiro jurídico no qual os direitos de propriedade estão mal definidos porque ninguém possui a documentação adequada. E, onde não existe direito de propriedade definido, cabe ao governo criar tal direito.

Isso não será fácil, mas há boas ideias em circulação. O Centro pelo Progresso Americano, por exemplo, propôs conferir aos conselheiros hipotecários e a outras entidades públicas o poder de modificar diretamente empréstimos problemáticos, garantindo a validade de sua decisão a não ser que o financiador da hipoteca entre com recurso. Isto ajudaria a esclarecer as coisas e também a nos tirar do atoleiro.

Uma coisa é certa: o que estamos fazendo no momento não está funcionando. E fingir que está tudo bem não vai convencer a ninguém.

Tradução de Augusto Calil

O Canadá?

16 de agosto de 2010 | 18h13

Paul Krugman

Na realidade, minha viagem, ontem, foi para as Cataratas do Niagara, para conversar com a Associação de Advogados Canadenses. Para isso, tive de me preparar e, honestamente, voltei um pouco menos otimista a respeito do país do que quando cheguei lá.

Tudo o que eu e outros dissemos a respeito do sistema bancário canadense e suas virtudes é verdade. Mas, em outros aspectos, existem aparentemente alguns sinais preocupantes.

Em primeiro lugar, os canadenses tomam dinheiro emprestado e gastam tanto quanto, bem, os americanos:

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E, embora tenham conseguido não ser apanhados na enorme bolha sincronizada da habitação do Atlântico Norte, as tendências desde então não têm se mostrado tão tranquilizantes:

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Não estou fazendo nenhuma previsão, apenas observando que, se deixarmos um pouco de lado a questão dos bancos e indagarmos a respeito do orçamento das famílias e dos riscos, valerá a pena ficar de olho no que acontece lá para cima.

A Grécia no fim do jogo

6 de maio de 2010 | 15h36

Paul Krugman

Muitos comentaristas acreditam agora que a Grécia acabará reestruturando sua dívida – um eufemismo para a recusa parcial em pagá-la. Mas o raciocínio parece se interromper nesse ponto, o que é errado. Na verdade, o consenso segundo o qual a Grécia deve acabar na inadimplência é provavelmente otimista demais. Estou cada vez mais convencido de que o país será também obrigado a abandonar o euro.

Já expliquei o funcionamento básico do problema: mesmo com uma reestruturação de sua dívida, a Grécia estará em grandes apuros e será obrigada a promover medidas de severa austeridade – provocando um acentuado declínio econômico – apenas para conseguir se livrar do déficit primário, que exclui os juros.

A única coisa capaz de reduzir a necessidade de tamanha austeridade seria algo que ajudasse a economia a se expandir, ou que ao menos impedisse uma contração de tais proporções. Isso amenizaria a dor econômica; também aumentaria a renda, diminuindo assim a rigidez relativa da austeridade fiscal necessária.

Mas o único caminho para a expansão econômica é o aumento das exportações – que só pode ser obtido se os custos e preços gregos sofrerem uma forte redução em relação ao restante da Europa.

Se a Grécia fosse uma sociedade extremamente coesa na qual os salários fossem coletivamente determinados, uma espécie de Áustria do Mar Egeu, talvez fosse possível resolver o problema por meio de uma redução consensual nos salários como um todo – uma “desvalorização interna”. Mas, como demonstram os sombrios acontecimentos de ontem, isso é impossível.

A alternativa é a desvalorização – o que significa abandonar o euro.

Como destaca Eichengreen, o anúncio de qualquer plano para deixar o euro provocaria desastrosas corridas aos bancos gregos. Igualmente, qualquer sugestão da existência dessa possibilidade feita por outros participantes, como o Banco Central Europeu, seria equivalente a invocar um ataque especulativo contra os bancos gregos e, portanto, não pode ser feita. Na prática, a questão toda é impossível de ser debatida.

Mas nada disso significa que o euro não pode ser abandonado. A Grécia já começa a parecer com a Argentina de 2001.

Repito que não se trata de uma alternativa para a reestruturação da dívida; isso é o que pode ser necessário além da reestruturação da dívida para tornar possível o ajuste fiscal.

Espero que em algum lugar, nas entranhas do BCE e do ministério grego das Finanças, as pessoas estejam pensando no impensável. Porque esse resultado desastroso começa a parecer melhor do que suas alternativas.

Até que ponto o euro pode ser revertido?

29 de abril de 2010 | 17h35

Paul Krugman

Durante muito tempo minha opinião em relação ao euro foi a de que a criação da moeda comum europeia pode muito bem ter sido um equívoco, mas que seria melhor deixar para trás aquilo que já passou – a decisão de criá-la não poderia ser revertida.

Fui bastante influenciado pela opinião expressada por Barry Eichengreen num artigo clássico de 2007 (apesar de eu já ter tomado conhecimento dessa argumentação – talvez por meio do próprio Barry? – muito antes da publicação do texto): de acordo com Eichengreen, qualquer tentativa de abandonar o euro exigiria tempo e preparação, e durante o período de transição haveria devastadoras corridas aos bancos. Assim sendo, a ideia de uma fragmentação da zona do euro seria inaceitável.

Mas agora estou reavaliando essa certeza por um motivo simples: a argumentação de Eichengreen consiste em motivos para não planejar um abandono do euro – mas e se as corridas aos bancos e a crise financeira já estiverem ocorrendo, independentemente disso? Neste caso, o custo marginal de deixar a moeda comum é dramaticamente reduzido, e de fato a decisão pode efetivamente ser tirada das mãos dos economistas do governo.

Na verdade, este aspecto pôde ser parcialmente observado quando a Argentina abandonou a lei de conversibilidade. A decisão deliberada de alterar a lei teria detonado uma crise bancária; mas, em 2001, o país já enfrentava uma profunda crise bancária e também restrições emergenciais sobre os saques nos bancos. Assim, o impossível tornou-se possível.

Pense no seguinte: o governo grego não pode anunciar uma política de abandono do euro – e tenho certeza que ele não tem nenhuma intenção de fazê-lo. Mas, no momento presente, é muito fácil imaginar uma moratória na dívida, detonando uma crise de confiança, a qual obrigaria o governo a impor um feriado bancário – e assim a lógica de se ater à moeda comum aconteça o que acontecer torna-se muito menos convincente.

E, se a Grécia for de fato excluída do euro, o que ocorrerá com os demais membros instáveis?

Acho que vou me esconder embaixo da mesa agora.

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