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Morte por Davos

26 de fevereiro de 2013 | 15h11

Paul Krugman

É assim que o euro termina: não com os bancos, mas com bunga-bunga.

OK, o euro não está condenado – ainda. Mas a eleição italiana sinaliza que os eurocratas, que jamais perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade, estão chegando muito perto da borda.

O fato fundamental é que uma política de austeridade para todos – austeridade incrivelmente dura em nações devedoras, mas um pouco de austeridade também no núcleo europeu, e nenhum indício de uma política expansiva em lugar algum – é um completo fracasso. Nenhuma nação sob a austeridade imposta por Bruxelas/Berlim mostrou um indício sequer de recuperação econômica; o desemprego alcançou níveis de destruir sociedades.

Esse fracasso chegou perto de destruir o euro por duas vezes, no fim de 2011 e, de novo, em meados do ano passado, quando nações devedoras ameaçaram entrar num parafuso de quedas de preços de bônus e falências bancárias. Em cada ocasião dessas, Mario Draghi e o Banco Central Europeu (BCE) entraram em cena para conter os danos, primeiro emprestando aos bancos que estavam comprando dívida soberana (Operação de Refinanciamento de Longo Prazo, ou LTRO na sigla em inglês), depois anunciando a disposição de comprar dívida soberana diretamente (Transações Monetárias Diretas, ou OMT); mas em vez de tomar a experiência quase mortal como uma advertência, os austeros da Europa tomaram a tranquilização dos mercados arquitetada pelo BCE como um sinal de que a austeridade estava funcionando.

Bem, os sofridos eleitores da Europa não concordaram.

Como eles puderam não perceber o que estava a caminho? Bem, na Europa ainda mais que nos Estados Unidos, as Pessoas Muito Sérias (PMS) vivem numa bolha de consideração pela própria seriedade, e imaginam que o público em geral seguirá o seu comando – vamos minha gente, é a única coisa responsável a fazer. Wolfgang Münchau fez uma ótima introdução em sua coluna hoje (terça-feira), que capta a essência:

“Houve um momento simbólico nas eleições italianas quando eu soube que o jogo tinha terminado para Mario Monti, o primeiro-ministro derrotado. Foi quando no meio da campanha – no meio de uma insurgência contra o establishment – ele foi a Davos para estar com seus amigos da política e das finanças internacionais. Sei que sua visita à elite que se reunia nas montanhas suíças não foi explorada na campanha, mas ela sinalizou para mim uma falta quase cômica de realismo político”

O que as PMS não percebem é que a percepção pública de seu direito de liderar depende de elas alcançarem ao menos alguns resultados reais. O que elas realmente produziram, contudo, foram anos de um sofrimento incrível acompanhado por promessas repetidas de que a recuperação estava muito próxima – e depois se admiram de que muitos eleitores já não confiam no seu julgamento, e se voltam para algum outro, qualquer outro, que oferece uma alternativa.

Gostaria de acreditar que a eleição italiana serviria como um despertador – uma razão para, por exemplo, dar ao BCE sinal verde para mais expansão, uma razão para a Alemanha executar algum estímulo e para a França recuar do seu desnecessário aperto de cinto. Minha suspeita, porém, é que elas simplesmente farão mais palestras aos italianos e a todos os demais sobre como elas estão se esforçando.

E pode haver figuras piores que Beppe Grillo à espreita no futuro da Europa.

Tradução de Celso Paciornik

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Os meninos estão certos

18 de fevereiro de 2013 | 8h00

Paul Krugman

Por meio de  Brad DeLong, vejo que Nick Eberstadt tem escrito mais sobre o colapso moral dos Estados Unidos. Eberstadt, os leitores devem lembrar, foi responsável pelo termo “nação dos que recebem” que colaborou muito para garantir a vitória de….Barack  Obama.

O que acho interessante é que, das três terríveis tendências apontadas por Eberstadt, duas estão certas. (A dependência da ajuda governamental cada vez maior é sobretudo um mito). As famílias tradicionais, na verdade estão em declínio; como também a tradicional religião organizada.

A partir deste declínios, Eberstadt conclui que corremos o perigo de um colapso social. Mas o que ele de certa maneira esquece é o fato de a noção de que a  família tradicional e a religião são fundamentais para a ordem social é uma teoria, não um fato – e é uma teoria que está sendo refutada plenamente pelas recentes experiências.

Quando examino os EUA no ano 2013 da Era Comum – observe minha guerra contra o cristianismo -  o que vejo é a sociedade mais saudável, em algumas dimensões chave, em toda minha vida adulta. Considere alguns indicadores objetivos.

Eis aqui os indicadores sobre gravidez entre adolescentes:

E aqui sobre crimes violentos:

Não se imaginava um Escape from New York,  nos dias de hoje? Em vez disso, Nova York é uma região mais bonita, mais limpa e mais segura do que qualquer pessoa acharia possível há algumas décadas.

E claro, estamos cientes de que isso também significa que a desigualdade não pode ser tão corrosiva como alguns liberais, e eu meu incluo na lista, às vezes imaginam.

Mas voltando a Eberstadt: seu argumento inteiro está baseado na suposição que a sociedade está condenada se a estrutura tradicional  – e acho certo dizer, patriarcal – não for mantida sem mudanças. Se deixarmos as pessoas coabitarem, talvez até pessoas do mesmo sexo se casarem, escolherem sua religião, ou decidirem não ter nenhuma fé, vamos degenerar num pesadelo Hobbesiano.

Costumamos apontar para a Escandinávia como um contraexemplo, mas a resposta seria que suas sociedades homogêneas (não realmente, mas é mais lenda) não são como a nossa. Mas hoje coabitamos,  o amor é livre, como também a distopia da liberdade religiosa. E está tudo bem.

Por que eles odeiam os EUA?

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A década que não existiu

8 de fevereiro de 2013 | 17h37

Paul Krugman

John Boehner, de Ohio, afirmou na quarta-feira que:

“Em algum momento Washington terá de lidar com seu problema de gastos. Tenho observado que essa questão está sendo empurrado com a barriga há 22 anos desde que estou aqui. Estou farto. É hora de agir”.

22 anos?  De fato, Boehner foi eleito em 1990 e ingressou na Câmara no início de 1991. Então o que foi feito durante, digamos , sua primeira década no cargo? Vejamos:

Hum…. parece que os Estados Unidos estavam reduzindo drasticamente sua dívida durante a presidência de um certo Bill alguma coisa.

OK,  brincadeiras à parte, isto é importante. Os republicanos inventaram uma história de que houve irresponsabilidade fiscal sempre – e muitos centristas adotaram essa premissa. A realidade que é nosso endividamento era muito baixo e não tínhamos nenhum problema fiscal antes de Reagan; e depois houve um aumento sem precedentes em período de paz de déficits durante o governo  Reagan/Bush;  e em seguida uma grande melhora no governo Clinton; em seguida um esbanjamento do superávit de Clinton mediante cortes de impostos e guerras sem financiamento no governo Bush. E claro, registramos um aumento da dívida durante a Grande Recessão, mas é exatamente quando você contabiliza déficits.

A questão na história falsa que apaga os anos Clinton é que isso transforma o orçamento numa história em que ninguém está errado porque todos erraram e o problema é uma questão genérica de gastos desenfreados. Não é. Teríamos entrado nesta crise com uma dívida muito pequena se os republicanos não tivessem insistido sempre em cortes de impostos.

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Ira contra a moeda

9 de janeiro de 2013 | 18h56

Paul Krugman

Bem, essa história de moeda de um trilhão de dólares – ou resolver a questão do teto da dívida explorando uma lacuna legal de modo a que o Tesouro imprima uma ou mais moedas de altíssimo valor, deposite-as no Fed e utilize o dinheiro na nova conta para pagar suas faturas – realmente decolou. No mês passado conversei com um funcionário do alto escalão do Fed que jamais ouvira falar da ideia; agora todo mundo comenta a respeito.

Há dois tipos de objeções. Uma é que isso seria pouco digno. As pessoas pensam da seguinte maneira: estamos numa situação em que um terrorista pode estar prestes a entrar numa sala lotada e ameaça explodir uma bomba. Ocorre, contudo, que o Serviço Secreto descobriu uma maneira de desarmar o maníaco – uma maneira que, por alguma razão, exigiria que o Secretário do Tesouro por um curto período se vista como palhaço. (Minha habilidade para criar uma trama fictícia me decepcionou, mas de algum modo funciona neste caso). E a resposta dos nervosos Nellies é, “meu Deus, não podemos vestir o secretário de palhaço!”. Mesmo que isso o torne o herói que nos salvou?”

Outra objeção é o temor aparentemente grande de que zombar dos deuses monetários pode acarretar um terrível castigo.

Joe Weisenthal diz que o debate em torno da moeda é a mais importante discussão de política fiscal da nossa vida; concordo, com dois pequenos senões – é certamente mais um debate monetário do que fiscal e na verdade faz parte de uma discussão mais ampla que vem se desenvolvendo desde que entramos na armadilha da liquidez.

O que os histéricos veem é uma terrível e escandalosa tentativa de pagar as contas do governo com dinheiro criado do nada. O que é totalmente errado e em dois planos.

O primeiro é que, na prática, cunhar moeda não seria nada, apenas uma ficção contábil, permitindo ao governo continuar fazendo exatamente o que faria se o limite da dívida fosse aumentado.

Lembre-se que a moeda ficaria depositada no Fed, que é de fato apenas uma agência semiautônoma do governo. Se o governo federal sacasse dinheiro da sua nova conta no Fed, o órgão provavelmente responderia vendendo parte dos US$ 3 trilhões contabilizados. E  o governo federal consolidado, incluindo o Fed, estaria financiando suas operações vendendo instrumentos de dívida, como sempre.

Mas e se o Fed decidisse não incluir a depreciação no balancete? Mesmo assim, com base nas atuais condições isso não faria nenhuma diferença, porque estamos numa armadilha de liquidez, com o juro da dívida federal próximo de zero. Nestas condições, emitir títulos de dívida de curto prazo e simplesmente “imprimir dinheiro” (na verdade, creditar aos bancos novas reservas para que possam convertê-las em papel moeda se preferirem) são equivalentes no seu efeito, de modo que mesmo enormes aumentos na base monetária (reservas mais dinheiro) não são inflacionários.

E se você estiver tentado a negar este diagnóstico, devo perguntar: o que seria preciso para convencê-lo? O outro lado deste debate é prever uma inflação descontrolada por mais de quatro anos, à medida que a base monetária triplica. As mesmas pessoas previram taxas de juro nas alturas com as tomadas de empréstimo do governo. Por outro lado, pessoas que insistem na armadilha de liquidez como eu preveem o que realmente ocorreria: inflação baixa e juros baixos. Este tem de ser o mais decisivo teste, real, das teorias que se contrapõem.

Portanto cunhar moeda seria pouco digno, mas e daí? Ao mesmo tempo seria economicamente inofensivo -  evitaria desdobramentos econômicos catastróficos e ajudaria o governo a se desviar da chantagem.

Naturalmente, o que todos esperamos é que a perspectiva da moeda de platina ou uma estratégia equivalente simplesmente acabe com a discussão sobre o teto da dívida. Mas se não, vamos cunhar essa bendita moeda.

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Cupons de obrigação moral

8 de janeiro de 2013 | 16h48

Paul Krugman

Não gostou da moeda de platina como opção? Então aqui está uma alternativa que pode funcionar também: o Tesouro norte-americano vender de pedaços de papel rotulados como “cupons de obrigação moral”, onde fica declarada  a intenção do governo de resgatar esses cupons pelo valor de face no prazo de um ano.

Deve ficar claramente expresso nos cupons que o governo não tem nenhuma, repito, nenhuma, obrigação legal de pagar qualquer coisa; veja, são se trata de títulos de dívida e portanto não se incluem no limite da dívida. Mas é preciso evitar que tenham um valor de mercado substancial. Considere, por exemplo, o fato de que o governo não tem nenhuma responsabilidade legal de garantir a dívida das instituições Fannie Mae e Freddie Mac; contudo, a crença geral é de que há uma garantia implícita (porque há!) e isso se reflete muito no preço dessa dívida.

De modo que o governo não deve ter nenhum problema para levantar uma grande soma de dinheiro vendendo esses cupons (MOCs na sigla em inglês). É verdade que se forem vendidos no mercado aberto provavelmente haverá um desconto substancial em relação ao valor de face, de maneira que isso na verdade equivaleria a financiamento com juros altos. Mas é melhor do que decretar moratória ou ceder à chantagem.

E talvez nem será necessário que os cupons sejam vendidos no mercado aberto; por que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) não os compraria?  Tenha em mente que nem sempre o Fed  adquire ativos seguros; ele  adquiriu um lote de títulos lastreados em hipotecas (de Fannie Mae e Freddie Mac) e durante a pior fase da crise financeira comprou muitos commercial papers. Então por que não pedaços de papel um pouco especulativos vendidos pelo Tesouro?

E novamente, embora  possa parecer um pouco suspeito, é importante compreender que se o presidente não fizer alguma coisa do tipo ele será forçado a fazer alguma coisa ilegal: ou seja,  deixar de realizar gastos  que, por decisão do Congresso, é legalmente obrigado a fazer. Uma estratégia inteligente é de longe a melhor alternativa: e se isso enfurecer Mitch McConnell, bem é apenas um bônus extra.

Atualização: se houver um problema legal com a venda desses cupons, ainda existem alternativas como pagar os fornecedores com esses cupons que depois seriam comprados pelo Fed. O mecanismo realmente não tem importância; enquanto estivermos na armadilha da liquidez, a impressão de dinheiro, ou de títulos da dívida convencionais, ou a impressão de dinheiro,  sem um estatuto legal para isso,  mas que permitirá ao governo pagar suas contas,  são todas alternativas equivalentes.

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Estejamos prontos para cunhar a moeda

7 de janeiro de 2013 | 15h14

Paul Krugman

Acaso o presidente Obama deveria estar preparado para cunhar uma moeda de platina de US$ 1 trilhão, caso os republicanos tentem forçar os Estados Unidos a dar o calote da dívida? Seguramente. Afinal, ele terá de escolher entre duas alternativas: uma absurda, mas benigna, a outra igualmente absurda, embora ambas torpes  e desastrosas. A decisão deveria ser óbvia.

Para os que não estão a par do problema, a história é a seguinte. Em primeiro lugar, temos a estranha e destrutiva instituição do teto da dívida; ela permite que o Congresso aprove projetos de lei sobre impostos e gastos que implicam um enorme déficit orçamentário – projetos de lei que o presidente deve legalmente implementar – e, depois, permite que o Congresso se recuse a conceder ao presidente a autoridade para tomar dinheiro emprestado, impedindo que ele atenda às suas obrigações legais e provocando um calote provavelmente catastrófico.

Os republicanos ameaçam abertamente usar este recurso desastroso para chantagear o presidente a fim de obrigá-lo a implementar medidas que eles não podem aprovar mediante processos constitucionais legais.

Quanto à moeda de platina, existe uma brecha legal que permite que o Tesouro imprima moedas de platina de qualquer valor que o secretário desejar. De fato, ela foi prevista para produzir artigos comemorativos de colecionador – mas não é isto que a letra da lei diz. Cunhando uma moeda de US$ 1 trilhão e depositando-a no Federal Reserve (Fed, banco central americano), o Tesouro poderia adquirir dinheiro suficiente para evitar o teto da dívida – sem, ao mesmo tempo, prejudicar a economia.

E por que não?

É fácil fazer declarações solenes para nos desencorajar a procurar subterfúgios; em vez disso, deveríamos sentar como pessoas sérias e tentar solucionar os nossos problemas com seriedade. O que talvez pareça razoável – se a gente tivesse vivido numa caverna nos últimos quatro anos. Considerando a realidade da nossa situação política, e em particular a mistura de crueldade e loucura que atualmente caracteriza os republicanos da Câmara, é simplesmente ridículo – muito mais ridículo do que a ideia da moeda.

Portanto, se a solução apresentada pela 14ª emenda – declarando que o teto da dívida é inconstitucional – é inviável, vamos optar pela moeda.

O que nos deixa ainda com a questão do rosto a ser impresso na moeda – mas é fácil: o de John Boehner (republicano e presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos). Porque sem ele e seus colegas, não haveria necessidade disto.

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São os custos da saúde, estúpido

4 de dezembro de 2012 | 16h05

Paul Krugman

Aqui está uma outra reflexão sobre a questão orçamentária. Na minha coluna desta segunda-feira, tentei sublinhar um ponto que está estranhamente ausente do debate público, pelo menos entre as “Pessoas Muito Sérias”: a solução predileta dessas pessoas para o déficit do orçamento a longo prazo, que é elevar a idade mínima para se ter direito ao Medicare, na verdade produzirá uma economia insignificante.

A questão é que, se você pretende controlar os custos do Medicare, não pode fazer isso expulsando um pequeno número de aposentados relativamente jovens do programa; para controlar custos é preciso, e você sabe, controlar os custos.

A verdade é que sabemos muito bem como fazer isso – afinal, todo país avançado tem custos muito menores com a saúde do que nós, e mesmo dentro dos Estados Unidos, o VHA e até o Medicaid controlam muito melhor os custos do que o Medicare, e as empresas de seguro privado ainda mais.

O importante é que haja um sistema de seguro saúde que diga não ao pagamento de preços com ágio de remédios que não são tão bons assim e não ao pagamento por procedimentos médicos que trazem pouco ou nenhum benefício.

Mas mesmo quando os republicanos demandam uma “reforma das dotações”, eles estão decididamente contra qualquer coisa desse tipo. Um acordo envolvendo o preço dos medicamentos? Horror! Um conselho consultivo independente? Um painel da morte!

Os republicanos se recusam até a considerar a adoção de sistemas que funcionaram em todo o mundo; a única solução que aprovariam é aquela que nunca funcionou em lugar nenhum, ou seja, transformar o Medicare num sistema de cupons mal subvencionados.

Portanto, não preste atenção quando dizem como detestam os déficits. Se fossem sérios com relação a este problema se mostrariam dispostos a analisar políticas que podem realmente funcionar; em vez disso, eles se aferram às fantasias do livre mercado que, repetidamente, fracassaram na prática.

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O contorcionismo da linha-dura

13 de novembro de 2012 | 10h47

Paul Krugman

O despenhadeiro fiscal dos EUA coloca um problema interessante para os autodenominados “linhas-duras do déficit”. Faz tempo que esse pessoal entoa a cantilena de que o déficit é uma coisa horrível. Agora, confrontados com a possibilidade de uma grande redução no déficit fiscal do país, eles precisam encontrar uma maneira de dizer que isso não é bom.

E o que nós vemos, em relatórios como este, do Committee for a Responsible Federal Budget (Comitê por um Orçamento Federal Responsável), é um espetáculo de contorcionismo.

Bom, há uma maneira muito simples de sustentar que um déficit fiscal gigantesco é ruim, mas sua redução no longo prazo é boa – a saber, argumentando que não se deve cortar o déficit quando a economia está em crise e o país se encontra numa armadilha de liquidez, impedindo que a expansão monetária sirva de contrapeso à contração fiscal. Como disse Keynes, é nos períodos de expansão acelerada, e não de estagnação, que se deve praticar a austeridade. Mas os linhas-duras do déficit não podem usar esse argumento, porque, na realidade, o que eles propõem é austeridade hoje, amanhã e depois.

De modo que lhes resta apelar para razões sem pé nem cabeça: é abrupto demais (por quê?), é o tipo errado de redução do déficit (???), e então isto:

Uma abordagem mais efetiva seria concentrar o esforço no corte dos gastos de baixa prioridade e em mudanças que contribuam para estimular o crescimento e gerar mais receita por meio de uma abrangente reforma tributária que amplie a base de arrecadação – em termos ideais, ampliando-a o bastante para que as alíquotas do imposto de renda também possam ser reduzidas.

Gastos de baixa prioridade? Acho que estão falando dos gastos com os pobres e a classe média. E não é incrível que essa gente que se diz tão horrorizada, mas tão horrorizada com o déficit fiscal não consiga parar de falar em reduzir o imposto de renda?

Como se não bastasse, o mesmo comitê exibe em sua home page um artigo de Jim Jones afirmando que:

Estamos perigosamente nos aproximando de pagamentos anuais de um trilhão em juros, de taxas de 7% para os títulos de dez anos do Tesouro americano, de taxas de 10% para os créditos imobiliários e de taxas de 13% para os créditos automotivos. Pelo bem do país, os políticos precisam chegar a um consenso e impedir que isso aconteça.

Como ele soube que estamos “perigosamente nos aproximando” dessa situação? Não foi consultando os mercados. Também não foi com base em algum tipo de modelo econômico. Meu palpite é que ele andou conversando com a Peggy Noonan, aquela colunista conservadora que confia mais em sua intuição do que na estatística e nas pesquisas eleitorais. E o que ela previa? A vitória de Romney.

Muito revelador, de fato.

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Mais negação com relação à crise financeira

30 de outubro de 2012 | 18h15

Paul Krugman

Consegui evitar ler o perfil de Glenn Hubbard  no The New York Times até o momento. Mas vou deixar a consultoria para outros e falar sobre as más teorias econômicas.

Glenn Hubbard repete o que agora se tornou a linha do partido: que todas as recessões profundas são as mesmas e devíamos ter tido uma curva de recuperação em V da crise de 2008-2009, de modo que é tudo culpa de Obama:

“É absolutamente possível, tanto em termos dos modelos de efeitos políticos sobre a recuperação e experiência histórica”, ele disse num tom professoral, mas não condescendente. “Se você examinar a recuperação dos anos 74, 75 ou 81 e 82, facilmente observará um crescimento do emprego nesta faixa. Nós temos uma miscelânea de políticas erradas. Tivemos um choque horrível, estamos numa situação diferente, mas poderíamos estar muito melhor”.

As palavras me fogem. Bem, na verdade não. Aqui estão algumas: logo no início da crise, bem antes de as pessoas que hoje assessoram Romney estarem mesmo dispostas a reconhecer que houve um problema, havia um debate entre duas ideias: que as recessões profundas sempre foram acompanhadas de uma recuperação rápida e que recessões provocadas por crises financeiras – que forçaram a política monetária no sentido de juro quase zero – foram seguidas por recuperações lentas “de desemprego” .

É o que tenho afirmado  desde janeiro de 2008.

Isto não foi apenas uma questão política: os especialistas em prognósticos para o setor privado também ficaram divididos. Inúmeras pessoas previam uma recuperação em V. Mas estavam erradas e acabaram tendo de admitir que estavam erradas ou então ficaram em silêncio.

Os dados de Reinhardt-Rogoff sobre consequências de crises são oportunos neste debate, mas se somam à conclusão de que a recuperação de 2008-2009 não foi provavelmente similar às de 81-82 ou 74-75. E esta é uma opinião avalizada pela teoria, pela história e, como se verifica, pelas previsões acertadas na crise atual.

E a equipe de Romney está simplesmente rejeitando-a, porque é politicamente conveniente ignorar tudo isso. Incrível.

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A, B e Eu

15 de outubro de 2012 | 17h57

Paul Krugman

Um rápido comentário genérico: constantemente sou alvo de críticas como “agora você diz A, mas em 1996 ou 2003, ou outro ano, disse B. Você não é coerente”. Como tenho escrito muito ao longo dos anos, há muitas oportunidades para este tipo de comentário ser feito e não tenho tempo para responder a cada um em separado.

Então, o que ocorre? Uma destas três coisas:

1 – As situações são diferentes.

2 – Eu mudei minhas opiniões com base em fatos.

3 – Eu mudei minha opinião porque aprendi alguma coisa

Um exemplo do primeiro caso: Os cortes de impostos decididos pelo ex-presidente Bush não podem ser comparados ao programa de estímulo de Obama. Os cortes de impostos deviam ser permanentes, reduzindo a receita em cerca de dois por cento do PIB indefinidamente (e pode muito bem acabar dessa maneira), ao passo que o estímulo sempre foi encarado como uma medida temporária (e provou ser bastante temporária na prática).

É perfeitamente razoável ficar preocupado com os efeitos de um aumento permanente do déficit, resultado de um programa chamado “starve the beast” (uma estratégia política defendida pelos conservadores para limitar os gastos do governo por meio da redução de imposto, privando o governo de receita e deste modo forçando-o a reduzir suas despesas), mas não com os efeitos de uma elevação temporária em resposta a uma crise importante.

Um exemplo do segundo caso: Eu costumava me preocupar muito mais com a perda de confiança do investidor nos Estados Unidos; a solidez desta confiança em países avançados com independência monetária tem sido uma importante lição.

Um exemplo do terceiro caso: Eu costumava levar a frase de Pete Peterson “Epa! População idosa” muito a sério. Não percebi isso até entender melhor que os custos com a saúde, e não a demografia, é que são o principal fator.

Assim, basta de críticas. Por que não avaliar o que eu digo com base no mérito do próprio assunto?

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