O anúncio dos Estados Unidos sobre a resolução contra o Irã exacerba as tensões entre os emergentes sem-bomba e as potências nucleares. Como pano de fundo, está a irritação de nações emergentes com as potências nucleares dizendo quem pode e quem não pode ter acesso à energia nuclear. Países como Brasil, Turquia, Egito e Indonésia veem na discussão sobre o direito do Irã enriquecer urânio um espelho para suas próprias ambições nucleares. Já para as potências da velha guarda como Estados Unidos e Rússia, trata-se de reafirmar seu poder na geopolítica mundial e por países como Brasil e Turquia em seu “devido lugar”.
O primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, deixou clara a divergência. “Este é o momento de discutir se nós acreditamos na supremacia da lei ou na lei dos supremos e superiores”, disse ele em entrevista em Madri. “Enquanto eles ainda têm armas nucleares, de onde é que tiram credibilidade para pedir a outros países que não as tenham?” O Tratado de Não Proliferação Nuclear é considerado injusto pelas nações sem-bomba. Brasil e Turquia acusam Estados Unidos e outras potências nucleares de não cumprirem sua parte no TNP, que é o desarmamento nuclear. Segundo esses emergentes, se as potências nucleares não estão desarmando, por que é que eles teriam de cumprir sua parte no TNP, que é não tentar fabricar a bomba? Ao defender o direito do Irã de enriquecer urânio, eles estão defendendo o acesso dos países sem-bomba à tecnologia nuclear, outro dos pontos do TPN. Mas os EUA argumentam que o Irã não tem esse direito, porque desrespeita as exigências do TPN de abrir suas instalações nucleares para inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (para garantir que a tecnologia nuclear é usada para fins pacíficos, e não para fazer a bomba.) Os EUA e seus aliados dizem que estão lutando contra proliferação nuclear, mas os países sem-bomba acham que eles estão restringindo o acesso à tecnologia nuclear porque não querrem nações independentes.
As potências nucleares, principalmente os EUA, irritam-se com o fato de o Brasil e a Turquia estarem interferindo nesses assuntos onde tradicionalmente não atuavam. Para Daniel Drezner, professor de política internacional da Universidade Tufts, esse foi um dos fatores que levou a Rússia a não apoiar o acordo mediado pelo Brasil. “A Rússia está tão irritada quanto os EUA com esses ‘jovens países petulantes’ e sua diplomacia independente”, escreveu Drezner na Foreign Policy. “A diplomacia rebelde do Brasil e outros reduz o poder da Rússia, que tem como um dos poucos remanescentes de seu poder da Guerra Fria fazer parte do P5 e por isso participar das decisões”, disse ao Estado Drezner.
Em entrevista no Departamento de Estado, um jornalista perguntou: “Está parecendo que os EUA quiseram dizer ao Brasil e a Turquia – pronto, agora vocês saiam do tanque de areia, para deixar que nós, os meninos grandes, possamos brincar.” O porta-voz do Departamento de Estado, PJ Crowley, desconversou, dizendo que os EUA “apreciam” muito os esforços da Turquia e do Brasil.
Em seu anúncio , a secretária de Estado, Hillary Clinton, fez questão de deixar claro quem tem voz ativa nas decisões: “apesar de reconhecermos os esforços sinceros do Brasil e da Turquia, o P5 +1, que se consiste, claro, de Rússia, China, EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha, vai liderar a comunidade internacional para buscar sanções.”
“Esses países estão tentando fazer uma coisa fora da jurisdição deles”, disse ao Estado uma fonte da Câmara.
No início do ano, o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, anteviu os conflitos que iriam surgir com a maior assertividade da diplomacia brasileira no mundo.
Ele disse que a relação bilateral teria “desafios” maiores porque os dois países estão se encontrando em cenários onde tradicionalmente isso não ocorria – diplomacia no Oriente Médio, por exemplo. “Um dos desafios para o Brasil e Estados Unidos, especialmente para a diplomacia dos dois países, é chegarmos a um entendimento à medida em que nos deparamos um com o outro em partes do mundo onde isso não ocorria anteriormente, seja em São Tomé e Príncipe, onde trabalhamos juntos para combater a malária, ou no Oriente médio”, disse Shannon em janeiro.
A discussão sobre sanções contra o Irã por causa de seu programa nuclear foi super-simplificada. Lendo os jornais, a impressão que se tem é que há apenas duas possibilidades: aplicar sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU, como pregam EUA e França enfaticamente, ou não aplicar sanções, como pedem Brasil, Turquia, e ainda a China, apesar de recentes sinalizações.
A realidade é muito mais complexa. Um resultado bastante provável é a China e a Rússia acabarem concordando finalmente com as sanções – mas como eles se opõem a qualquer medida que interromoa exportação de gasolina aos iranianos, ou atinja os bancos, a ONU acabaria impondo sanções que não têm “bite”, como se diz por aqui.
Foi isso o que ocorreu com as três sanções anteriores contra o Irã aprovadas pelo CS. A China e a Rússia fizeram que fizeram, que o CS só aporovou um texto de sanções inócuas.
Enquanto isso, dentro dos EUA, as posições vão se radicalizando. A turma mais radical que prega intervenção militar no Irã voltou a entrar em evidência. O pessoal do “bomb bomb bomb Iran” está de volta, eles acham que só sanções fraquinhas vão passar pelo crivo da China e Rússia..
E mais à esquerda, já se fala abertamente no “impensável”, ou seja, desenhar uma estratégia de contenção para um Irã nuclear. “`Eu acredito que o Irã vá fabricar a bomba, mas é muito pouco provável que os iranianos queiram usá-la para algo que não seja dissuasão”, diz Thomas Schelling, especialista em armas nucleares e teoria dos jogos que ganhou o Nobel.“O raciocínio iraniano é que ter armas nucleares vai dissuadir os EUA ou Israel de os atacarem. Jeffrey Lewis, diretor de Estratégia Nuclear da New America Foundation, afirma que já está na hora de os EUA passarem do foco na não- proliferação para a estabilidade nuclear do Irã.
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