O chanceler Celso Amorim ficou em sexto lugar na lista dos 100 maiores “pensadores globais” da revista Foreign Policy. No perfil altamente elogioso, a revista diz que o “mandato de Amorim provou que é possóvel ter, como ele disse recentemente, uma política externa humanista, sem perder de vista o interesse nacional”.
Amorim capitaneou uma das manobras diplomáticas mais destacadas do ano – o acordo de troca de combustível do Irã, mediado por Turquia e Brasil. O acordo acabou ignorado por Estados Unidos e as outras potências, que aprovaram as sanções contra o programa nuclear iraniano na ONU. Mas cimentou a maior presença do Brasil no cenário diplomático global.
Já a atitude do governo brasileiro em relação a violações de direitos humanos, principalmente no Irã, onde a viúva Sakineh Ashtiani pode ser apedrejada por adultério, pode acabar custando o cargo do chanceler.
Estive em Brasília durante a semana e conversei com diversos interlocutores da presidente eleita. Segundo eles, Dilma avalia que a atitude em relação a violações aos direitos humanos no Irã foi “equivocada” e “causou desgaste desnecessário”. Para Dilma, associar-se a um regime que apedreja mulheres e aprisiona opositores foi um “enorme erro”, dizem esses interlocutores.
O governo brasileiro reluta em condenar a sentença de apedrejamento de Sakineh e se abstém nas votações de resoluções da ONU contra essas práticas, e não condena a opressão a opositores do regime de Ahmadinejad. Um dos motivos para a não manutenção do chanceler Celso Amorim no cargo seria sua atuação no caso do Irã.
Seu desempenho nas negociações da Alca foi considerado um sucesso. Mas ele teria caído em desgraça por causa do Irã. Para fazer um recomeço, seria preciso ter um novo chanceler e Amorim ficou muito identificado com a iniciativa. Além disso, a química de Amorim com Dilma não seria das melhores – os dois tiveram algumas rusgas quando ela era ministra da Casa Civil.
Dilma já havia indicado que se opunha à atitude não intervencionista na questão iraniana. “Acho uma coisa muito bárbara o apedrejamento da Sakineh. Mesmo considerando usos e costumes de outros países, continua sendo bárbaro”, disse Dilma em entrevista no dia 3 de novembro.
Para assessores próximos da presidente, a percepção é de que a aproximação com o Irã pode ter custado ao presidente Lula o Nobel da Paz por seu avanço em reduzir a pobreza.
Na semana passada, o presidente Barack Obama anunciou que vai visitar a Índia em novembro. A Rússia e a China ganharam visitas oficiais de Obama no ano passado. Ou seja, dos chamados BRICs, ele só não visitou o Brasil. E não há previsão.
Na realidade, o Brasil nem é parte dos BRICs, para o governo americano. Uma leitura cuidadosa da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada há 10 dias, mostra que os Estados Unidos sempre agrupam Rússia, Índia e China, os “centros-chave de influência”, enquanto o Brasil aparece ao lado de Indonésia e África do Sul , “países de influência crescente”. “Algumas relações bilaterais – como as relações dos Estados Unidos com China, Índia e Rússia – serão críticas para construir cooperação mais ampla em áreas de interesse mútuo”, diz a estratégia, sem mencionar o B dos BRICs..Enquanto o Brasil é “parceiro importante”, a Índia tem “parceria estratégica”, e a relação com a China, que com os EUA compõe o G2, “é essencial para abordar os grandes desafios do século XXI”. Tudo isso é jargão diplomático, mas as sutilezas ajudam a pintar o quadro geral.
A diferença no discurso da Casa Branca para a Índia e para o Brasil mostra como os canais de comunicação entre Washington e Brasília estão entupidos. Índia ganhou o primeiro jantar oficial da Casa Branca dos Obamas, em novembro. Na semana passada, realizou-se uma reunião do diálogo estratégico Índia-Estados Unidos. Na ociasião, Obama disse que “as relações com a Índia são as maiories prioridades” de seu governo, “a parceria que define o século XXI”, “Índia é indispensável para o futuro que buscamos”. A secretária Hillary é “uma grande admiradora da Índia”, nas palavras de Obama. E para ela, a relação com a Índia “é um assunto do coração, não apenas da cabeça”.Bem menos carinho Hillary reservou para o Brasil há duas semanas. Chamou o Brasil de “parceiro responsável e eficiente em vários assuntos”, mas não deixou de destacar “as sérias divergências” em relação ao Irã. Foram muitos os desacordos nos últimos tempos – bases americanas na Colômbia, golpe em Honduras, mas o Irã certamente é o maior irritante.
Os dois países se apressam em dizer que são “parceiros” e a relação “envolve muitos outros aspectos”. Mas ninguém ainda levantou a bandeira branca.
Hillary Clinton, aliás, aproveitou para alfinetar o Brasil em seu primeiro dia de giro pela região. Depois de se reunir com o presidente peruano, Alan Garcia, Hillary voltou a tocar no ponto nevrálgico das sanções contra o Irã. “Irã vai tentar de novo dar algum golpe” para adiar as sanções, disse Hillary. Para a secretária de Estado, o acordo de troca de combustível nuclear costurado pelo Brasil e Turquia foi apenas um “golpe do Irã” para evitar as sanções, e o governo brasileiro foi usado.
Quando a secretária de Estado Hillary Clinton marcou um encontro privado com o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, em Washington, ela tinha um assunto em mente: sanções contra o Irã. Mas nas mais de duas horas de reunião que os dois tiveram na terça-feira de manhã, Hillary teve de deixar as prioridades dos EUA em segundo plano. O encontro foi “uma discussão aprofundada” sobre o ataque de Israel contra os navios de ativistas pró-palestinos, cheios de cidadãos turcos, e o descontentamento de Davutoglu com a reação tépida dos Estados Unidos.
Israel atropelou a agenda dos Estados Unidos para aprovação de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. E o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, está comemorando.
Para muitos analistas em Washington, o incidente envolvendo o exército israelense tira o Irã do centro das discussões. Na segunda-feira, a revelação da Agência Internacional de Energia Atômica de que Teerã acumulou urânio suficiente para fazer duas bombas atômicas poderia ter sido preciosa munição para os EUA em sua busca por sanções. Mas o anúncio foi ofuscado pelas onze vítimas do exército israelense.
O ataque também prejudica a posição negociadora dos EUA, os maiores defensores de sanções duras no Conselho de Segurança da ONU. Os EUA perdem um pouco da legitimidade negociadora ao darem crédito aos críticos que acusam Washington de ter dois pesos e duas medidas, uma para o Irã e outra para Israel.
Daniel Drezner, influente analista de política externa, chegou a comparar as declarações anódinas dos Estados Unidos sobre Israel à pseudo-condenação que a China fez ao ataque da Coreia do Norte ao navio da Coreia do Sul. “O governo Obama reagiu a esse incidente de forma notavelmente similar à reação da China ao incidente com o Cheonan – com um pedido de mais informações”, disse Drezner.
Andrew Exum, analista do Center for a New American Security, foi mais além. “Imagine os israelenses tentando pedir ao Conselho de Segurança apoio a sanções contra o regime iraniano agora; é mais fácil eles saírem de Nova York com sanções contra o regime deles mesmos.”
Antes de se encontrar com Hillary, Davutoglu deixou clara mais uma vez sua posição. “Não podemos pensar em sanções contra o Irã antes de considerarem o acordo porposto pela Turquia e o Brasil”, ele disse. A Turquia e o Brasil, membros rotativos do CS, resistem a apoiar sanções contra o Irã e querem que os EUA conseiderm o acordo de troca de combustível mediado por Ancara e Brasília
O governo brasileiro, que ficou muito irritado com a posição americana de ignorar o acordo mediado por Lula em Teerã, não está cantando vitória.O Itamaraty não inclui em seus cálculos a vulnerabilidade dos EUA ao deixar de condenar diretamente os israelenses. .
Eles acreditam que o incidente ainda pode ser usado pelo lobby linha-dura dos EUA. Diante de toda pressão internacional, Obama eventualmente pode se ver obrigado a condenar Israel de forma mais direta e pedir uma investigação independente do ocorrido. Se isso acontecer, essa fatura vai ser cobrada pelo lobby judaico nos EUA. E a cobrança pode vir na forma de renovado impulso pelas sanções contra Irã.
O anúncio dos Estados Unidos sobre a resolução contra o Irã exacerba as tensões entre os emergentes sem-bomba e as potências nucleares. Como pano de fundo, está a irritação de nações emergentes com as potências nucleares dizendo quem pode e quem não pode ter acesso à energia nuclear. Países como Brasil, Turquia, Egito e Indonésia veem na discussão sobre o direito do Irã enriquecer urânio um espelho para suas próprias ambições nucleares. Já para as potências da velha guarda como Estados Unidos e Rússia, trata-se de reafirmar seu poder na geopolítica mundial e por países como Brasil e Turquia em seu “devido lugar”.
O primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, deixou clara a divergência. “Este é o momento de discutir se nós acreditamos na supremacia da lei ou na lei dos supremos e superiores”, disse ele em entrevista em Madri. “Enquanto eles ainda têm armas nucleares, de onde é que tiram credibilidade para pedir a outros países que não as tenham?” O Tratado de Não Proliferação Nuclear é considerado injusto pelas nações sem-bomba. Brasil e Turquia acusam Estados Unidos e outras potências nucleares de não cumprirem sua parte no TNP, que é o desarmamento nuclear. Segundo esses emergentes, se as potências nucleares não estão desarmando, por que é que eles teriam de cumprir sua parte no TNP, que é não tentar fabricar a bomba? Ao defender o direito do Irã de enriquecer urânio, eles estão defendendo o acesso dos países sem-bomba à tecnologia nuclear, outro dos pontos do TPN. Mas os EUA argumentam que o Irã não tem esse direito, porque desrespeita as exigências do TPN de abrir suas instalações nucleares para inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (para garantir que a tecnologia nuclear é usada para fins pacíficos, e não para fazer a bomba.) Os EUA e seus aliados dizem que estão lutando contra proliferação nuclear, mas os países sem-bomba acham que eles estão restringindo o acesso à tecnologia nuclear porque não querrem nações independentes.
As potências nucleares, principalmente os EUA, irritam-se com o fato de o Brasil e a Turquia estarem interferindo nesses assuntos onde tradicionalmente não atuavam. Para Daniel Drezner, professor de política internacional da Universidade Tufts, esse foi um dos fatores que levou a Rússia a não apoiar o acordo mediado pelo Brasil. “A Rússia está tão irritada quanto os EUA com esses ‘jovens países petulantes’ e sua diplomacia independente”, escreveu Drezner na Foreign Policy. “A diplomacia rebelde do Brasil e outros reduz o poder da Rússia, que tem como um dos poucos remanescentes de seu poder da Guerra Fria fazer parte do P5 e por isso participar das decisões”, disse ao Estado Drezner.
Em entrevista no Departamento de Estado, um jornalista perguntou: “Está parecendo que os EUA quiseram dizer ao Brasil e a Turquia – pronto, agora vocês saiam do tanque de areia, para deixar que nós, os meninos grandes, possamos brincar.” O porta-voz do Departamento de Estado, PJ Crowley, desconversou, dizendo que os EUA “apreciam” muito os esforços da Turquia e do Brasil.
Em seu anúncio , a secretária de Estado, Hillary Clinton, fez questão de deixar claro quem tem voz ativa nas decisões: “apesar de reconhecermos os esforços sinceros do Brasil e da Turquia, o P5 +1, que se consiste, claro, de Rússia, China, EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha, vai liderar a comunidade internacional para buscar sanções.”
“Esses países estão tentando fazer uma coisa fora da jurisdição deles”, disse ao Estado uma fonte da Câmara.
No início do ano, o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, anteviu os conflitos que iriam surgir com a maior assertividade da diplomacia brasileira no mundo.
Ele disse que a relação bilateral teria “desafios” maiores porque os dois países estão se encontrando em cenários onde tradicionalmente isso não ocorria – diplomacia no Oriente Médio, por exemplo. “Um dos desafios para o Brasil e Estados Unidos, especialmente para a diplomacia dos dois países, é chegarmos a um entendimento à medida em que nos deparamos um com o outro em partes do mundo onde isso não ocorria anteriormente, seja em São Tomé e Príncipe, onde trabalhamos juntos para combater a malária, ou no Oriente médio”, disse Shannon em janeiro.
A discussão sobre sanções contra o Irã por causa de seu programa nuclear foi super-simplificada. Lendo os jornais, a impressão que se tem é que há apenas duas possibilidades: aplicar sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU, como pregam EUA e França enfaticamente, ou não aplicar sanções, como pedem Brasil, Turquia, e ainda a China, apesar de recentes sinalizações.
A realidade é muito mais complexa. Um resultado bastante provável é a China e a Rússia acabarem concordando finalmente com as sanções – mas como eles se opõem a qualquer medida que interromoa exportação de gasolina aos iranianos, ou atinja os bancos, a ONU acabaria impondo sanções que não têm “bite”, como se diz por aqui.
Foi isso o que ocorreu com as três sanções anteriores contra o Irã aprovadas pelo CS. A China e a Rússia fizeram que fizeram, que o CS só aporovou um texto de sanções inócuas.
Enquanto isso, dentro dos EUA, as posições vão se radicalizando. A turma mais radical que prega intervenção militar no Irã voltou a entrar em evidência. O pessoal do “bomb bomb bomb Iran” está de volta, eles acham que só sanções fraquinhas vão passar pelo crivo da China e Rússia..
E mais à esquerda, já se fala abertamente no “impensável”, ou seja, desenhar uma estratégia de contenção para um Irã nuclear. “`Eu acredito que o Irã vá fabricar a bomba, mas é muito pouco provável que os iranianos queiram usá-la para algo que não seja dissuasão”, diz Thomas Schelling, especialista em armas nucleares e teoria dos jogos que ganhou o Nobel.“O raciocínio iraniano é que ter armas nucleares vai dissuadir os EUA ou Israel de os atacarem. Jeffrey Lewis, diretor de Estratégia Nuclear da New America Foundation, afirma que já está na hora de os EUA passarem do foco na não- proliferação para a estabilidade nuclear do Irã.
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