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Patrícia Campos Mello

Pouco depois de ser lançado na terça-feira com estardalhaço, o livro de memórias do ex-presidente George W. Bush, “Decision Points”, já era alvo de emboscadas. Em ações de guerrilha instigadas pela internet, ativistas começaram a remexer prateleiras de livrarias e por o livro de Bush em seu “devido lugar”: não na seção de biografias, junto com ícones políticos como Winston Churchill, mas ao lado dos livros de mistério, crime e serial killers. “O livro de Bush defende várias das políticas criminosas que ele adotou em seu governo, entre elas a invasão do Iraque e tortura com simulação de afogamento”, disse Jasmine Faustino, organizadora do movimento “Ponha o livro de Bush em seu devido lugar”.
George W. Bush, o presidente mais vilipendiado da História dos Estados Unidos, poderia estar se lixando para os ativistas. Ele recebeu um adiantamento de US$ 7 milhões para escrever seu livro de memórias, que teve tiragem inicial de 1,5 milhão de exemplares. Decision Points já é o número um em vendas na Amazon.
Mas dinheiro não é tudo. Bush não quer ser eternizado nos livros de história como o pior presidente que os EUA já tiveram. “Decision points” é apenas o início do que ele espera ser uma ofensiva de reabilitação de sua imagem.
Com o peso da guerra do Iraque nas costas, a economia em frangalhos e a imagem internacional dos EUA na sarjeta, Bush chegou a ter aprovação de apenas 32% da população americana, um dos piores índices de um presidente.
Mas dois anos se passaram desde o melancólico fim de seu governo. Bush ficou quietinho em sua casa em Dallas, não deu nenhuma entrevista, não falou mal da oposição. Enquanto isso, seu sucessor, Barack Obama, ia se enterrando cada vez mais na recessão econômica que tomou conta do país. Resultado: pesquisa divulgada pelo Instituto Gallup no dia do lançamento de seu livro mostra Bush com 44% de aprovação. O presidente Obama tem e mantido na faixa dos 45% de aprovação. Ou seja, o presidente mais odiado da história americana tem hoje a mesma popularidade que o presidente que foi o mais festejado dos EUA.
Amnésia? Negação da realidade? Reversão de expectativas?
Historiadores ainda não conseguiram decifrar os mistérios da popularidade dos presidentes e nem identificar o que determina o legado de cada um para a posteridade.
O sonho de Bush é ser um novo Harry S. Truman – um presidente brilhante, mas incompreendido em seu tempo, que foi vingado na posteridade. Truman deixou a presidência, em 1953, com o Ibope abaixo de 30%. Ele era criticado duramente por causa da Guerra da Coreia e escândalos de corrupção. “Se você quer ter um amigo em Washington, compre um cachorro”, teria dito o infeliz presidente.
Anos depois, Truman foi alçado ao panteão dos presidentes quase-fenomenais – ou seja, apenas um degrau abaixo dos endeusados Abraham Lincoln, Thomas Jefferson e Franklin Delano Roosevelt. Em retrospecto, grandes conquistas suas como a criação do plano Marshall, que promoveu a recuperação da Europa no pós-guerra, e a estratégia de contenção da União Soviética na Guerra Fria garantiram a Truman uma vaguinha no clube dos presidentes admirados.
No entanto, para historiadores, Bush está mais para Richard Nixon do que Harry Truman. Nixon caiu em desgraça depois do escândalo de Watergate, em que o governo republicano promoveu a espionagem de comitês dos democratas. Ele teve de renunciar para não sofrer um impeachment. Hoje, reconhece-se que Nixon teve grandes realizações em política externa – arquitetou a reaproximação entre Washington e Pequim e manobrou a saída dos EUA do atoleiro do Vietnã. Mas nada disso conseguiu desfazer a reputação de desonesto e vingativo de “Dirty Dick” Nixon.
Diferentemente de Truman, o potencial de recuperação de imagem de Bush é muito baixo , diz Bruce Buchanan, professor de ciência política da Universidade do Texas em Austin, especializado em estudo da Presidência. “A reputação de Bush depende do final de guerras que ainda estão em curso e, mesmo assim, não sei se isso irá convencer as pessoas de que havia motivos para invadir o Iraque.”
Além disso, as possíveis realizações do governo Bush são bastante anêmicas comparadas ao legado de Truman. O republicano alega que, por causa de suas ações, o país não sofreu outros ataques terroristas depois dos atentados de 11 de setembro. Ele afirma também que seu pacote de resgate a bancos evitou que a recessão se transformasse em uma nova Grande Depressão. “Além de serem discutíveis, nenhuma dessas realizações se compara ao Plano Marshall, por exemplo.”
Enquanto a posteridade não vem, Bush trata de polir suas credenciais de “garotão simplório do Texas, americano médio e orgulhoso disso”, na esperança de melhorar um pouquinho seu Ibope. No livro, ele narra que, poucos dias após deixar a presidência, passeava pelas ruas de Dallas com seu cachorro Barney, o mesmo que rosnava para jornalistas nos jardins da Casa Branca. “O Barney foi até o gramado do nosso vizinho e fez suas necessidades. E lá estava eu, ex-presidente dos Estados Unidos, com um saco pástico na mão, fazendo aquilo que eu tinha conseguido evitar nos últimos oito anos.”
Como notou Matthew Norman, colunista político do The Independent, em vez de contribuir para a reabilitação do legado de Bush, essa cena é preciosa para os cartunistas mais atentos: A charge poderia mostrar Bush recolhendo o cocô de Barney com um saco plástico, seguido de Obama, com uma escavadeira, tentando limpar tudo o que Bush deixou para trás nos últimos oito anos. Pobre Obama, pobre Truman.

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O presidente Barack Obama, em visita à Índia, pediu “um conselho de segurança da ONU reformado que a inclua a Índia como membro permanente”. A declaração de apoio à Índia como mebro permanente deve ter irritado profundamente o Itamaraty – o Brasil vem pedindo há anos o apoio dos Estados Unidos para suas pretensões ao assento permanente no CS.
A declaração de Obama é mais uma amostra da aposta dos EUA em sua nova parceria estratégica com a Índia, para se contrapor ao poder da China na Ásia. Antes, para não melindrar seu aliado militar Paquistão, os EUA restringiam suas demonstrações de apoio à Índia. No governo Obama, o primeiro-minsitro Manmohan Singh foi agraciado com o primeiro jantar oficial para chefes de estado na Casa Branca, ganhou de presente a liberação de várias exportações de produtos com dual technology, que estavam restritos por poderem ser usados a finalidades militares, além da confirmação do acordo nuclear desenhado no governo Bush, que efetivamente avacalha o Tratado de Não-Proliferação, já que garante à Índia, que não é signatária, fornecimento de combustível nuclear para fins civis.
Além do Brasil, a China é outro país que não vai ficar nada feliz com o apoio oficial dos EUA às aspirações da índia no CS.

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É muito difícil diferenciar lobby legítimo, que é a tentativa das pessoas de influenciar o processo legislativo, e o tráfico de influência.
Se vivesse nos Estados Unidos, Israel Guerra, filho da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, não poderia ter agido como lobista na tentativa de conseguir contratos para clientes. Nos EUA, as leis de compras governamentais proíbem funcionários públicos de se envolverem na decisão de compras de serviços ou bens que possam beneficiar, direta ou indiretamente, algum familiar seu. Além disso, parentes não podem fazer lobby em órgãos liderados por familiares imediatos.
Lá, lobista não é sinônimo de picareta, como aqui.
Nos Estados Unidos, a atividade de lobby é regulamentada desde 1946. Em 1995 e em 2007, após escândalos envolvendo o lobista Jack Abramoff e vários legisladores, houve endurecimento nas leis.
Todos os lobistas precisam se registrar na Câmara ou Senado, dentro de no máximo 45 dias de seus primeiros contatos. Trimestralmente, em um formulário eletrônico, o lobista é obrigado a divulgar a natureza do lobby, ou seja, qual é a finalidade, o nome do cliente, questões específicas que quer mudar (por exemplo, redução de imposto, transposição do São Francisco) e números das leis que quer mudar, custo do lobby e uma lista de todos os órgãos que foram contactados. Quem não cumpre as regras está sujeito a uma multa de US$ 200 mil e pena de até cinco anos de prisão.
No Senado e na Câmara dos EUA, familiares imediatos e cônjuges dos legisladores são proibidos por lei de fazer lobby com seus parentes parlamentares. Em relação a membros do Poder Executivo, não existe uma lei que proíba. Mas existe uma recomendação para que familiares de integrantes do Poder Executivo não façam lobby nos respectivos gabinetes – e como todas as atividades de lobby são públicas, a prática é desencorajada. O presidente resiste em contratar ou nomear um funcionário cuja mulher é lobista conhecida – isso aconteceu com o ex-senador Tom Daschle, que era aliado de Obama, mas acabou não ganhando um cargo na Casa Branca por críticas ao envolvimento de sua mulher no lobby a favor de empresas de saúde.
Em principio, a mera aparência de um conflito de interesse é razão para o funcionário publico se recusar a se envolver em uma questão”, me disse um lobista americano.
Para completar, estão vetadas “as taxas de sucesso” para fazer lobby e conseguir contratos federais – como fez o filho de Erenice com sua empresa, que previa uma “taxa de sucesso” de 6% caso os negócios do cliente avançassem. “É contrário ao interesse público permitir que fornecedores recorram a lobistas que cobram taxa de sucesso, porque isso pode levar a tráfico de influência”, diz a lei de compras governamentais.
No Brasil, o senador Marco Maciel (DEM-PE) apresentou, em 1989, um projeto de lei que regulamentaria o lobby no País. Aprovado no mesmo ano pelo Senado, o projeto foi enviado à Câmara, onde se encontra até hoje. Antonio Carlos Rodrigues do Amaral, professor de ética jurídica na Universidade Mackenzie, disse à jornalista Flávia Tavares que a resistência dos políticos à regulamentação da atividade dos lobistas passa pela resistência à transparência dos trâmites legislativos. “Não interessa à classe política brasileira que se jogue uma luz sobre seus negócios, porque, na verdade, ela não faz lobby. Ela faz a defesa de interesses escusos”, disse ele. Para Amaral, é importante lembrar que os brasileiros se acostumaram a atribuir uma carga negativa à palavra “lobby”, associando a prática à corrupção. “Chamar de lobby o que de fato é corrupção é como chamar de planejamento tributário a sonegação”, ironiza.

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Caso eleita, Dilma Rousseff pretende criar um grupo de conselheiros no Palácio do Planalto, conforme a mostra matéria da Vera Rosa e da Beatriz Abreu, publicada hoje. A ideia guarda semelhança com o núcleo de assessores especiais da Casa Branca, mas já enfrenta resistência por parte de ministros e secretários de Estado que ouviram a proposta. O projeto de Dilma é escalar um time de auxiliares em áreas estratégicas, como Economia, Assuntos Internacionais, Meio Ambiente, Minas e Energia, Comunicações, Justiça e Segurança Nacional. Os conselheiros se reportariam diretamente a ela e teriam assento no primeiro escalão. Trata-se, na prática, de uma estrutura de apoio ao gabinete da Presidência.
No governo dos Estados Unidos, os conselheiros especiais da Casa Branca são alvo de críticas. O presidente Barack Obama nomeou 31 conselheiros especiais, ou czares, como são conhecidos nos Estados Unidos. Há uma czar para a reforma da saúde, um para aids, para recuperação das montadoras, problemas na fronteira, combates às drogas, recuperação da economia, reforma regulatória, mudança climática, e por aí vai. A crítica é que Obama teria lançado mão de assessores especiais para escapar do escrutínio do Congresso. Todos os secretários, equivalentes a ministros, e chefes de órgãos executivos precisam ser sabatinados pelo Senado, que pode confirmar ou não o indicado no cargo. A oposição republicana no Congresso rejeitou vários nomes indicados por Obama e muitos estão “bloqueados” há meses.
Já os assessores especiais não precisam ser confirmados pelo Senado, basta a nomeação do presidente. “Obama tem mais czares que os Romanovs, que reinaram por três séculos”, alfinetou o senador republicano John McCain, referindo-se à família real russa.
Jim Jones, titular do Conselho Nacional de Segurança, tem o cargo equivalente a Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidência – embora o brasileiro tenha bem mais influência sobre o presidente do que seu contraparte americano.
O czar cuida de um tema específico, tem um orçamento próprio e dá assessoria diretamente ao presidente. Desde Franklin Delano Roosevelt, vários presidentes americanos tiveram “czares”. Mas Obama bateu recorde no número de nomeações.
Outra crítica é que a proliferação desses assessores especiais esvazia as atribuições dos ministros, e às vezes assessores e ministros batem de frente. Dennis Blair, ex-diretor de inteligência nacional , foi o primeiro nome de primeiro escalão a deixar o governo Obama, em maio, depois de vários atritos com John Brennan, o czar de antiterrorismo da Casa Branca.
Além dos chamados czars, Obama tem três conselheiros especiais – David Axelrod, que foi coordenador da campanha do então-candidato e é o funcionário mais próximo do presidente; Valerie Jarrett, amiga dos Obamas desde Chicago; e Pete Rouse, que foi chefe de gabinete de Obama no Senado.

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No cerne da discórdia entre Europa e Estados Unidos no G20 está a eficácia de política fiscal em países que já estão altamente endividados. O raciocínio dos europeus, liderados pela Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, é de que aumentar gastos do governo em países já muito deficitários tem o efeito contrário ao desejado: diminui a confiança do consumidor e reduz a demanda total. Em entrevista ao jornal Wall Street Journal no início da semana, Merkel argumentou que continuar com altos gastos governamentais em um país já endividado ou com déficit acima do desejado leva os consumidores a reduzir seu consumo. Isso porque na Europa, no Estado de bem-estar social, as pessoas são acostumadas a depender da rede de segurança do governo. Portanto, a confiança do consumidor aumenta quando as finanças do governo estão mais saudáveis. As medidas de austeridade, argumenta Merkel, irão estimular a demanda doméstica, e não reduzir. Dos países europeus, apenas Luxemburgo, Eslováquia e Eslovênia têm o déficit orçamentário dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Tratado de Maastricht, de até 3% do PIB. No lado do endividamento, que deve ser de até 60% do PIB, só a Finlândia se encaixa. Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, aproveitou para dar uma alfinetada nos EUA, dizendo que o gigantesco pacote de estímulo de Obama não conseguiu baixar o desemprego americano, que continua na faixa dos 9%.
Já para os EUA, é anátema falar em cortar gastos quando a recuperação ainda não está totalmente firme. O governo americano quer contar com os gastos do governo para aumentar a demanda e sustentar a retomada econômica. O secretário do tesouro, Timothy Geithner, e Lawrence Summers, diretor do Conselho Econômico Nacional, apostam que manter a recuperação vai aumentar a arrecadação de impostos, e o que ajudará a reduzir o déficit do orçamento em relação ao PIB e a relação dívida PIB. O déficit nos EUA está beirando os 11% do PIB e o endividamento, quase 100% do PIB. “Nosso déficit vai cair de forma dramática na medida em que a economia se recuperar e acabarem as medidas de estímulo que nós adotamos na crise”, disse o secretário do Tesouro, Tim Geithner. “Esta cúpula precisa ser fundamentalmente sobre crescimento.”
.China, Brasil e Índia se alinham com os EUA. O ministro das Finanças, Guido Mantega, chamou de “draoniana e exagerada” a meta de reduzri pela metade os déficits até 2013. Manmohan Singh, o primeiro-ministro indiano, afirmou que “políticas de contração, se forem adotadas simultaneamente por países industrializados, podem provocar uma recessão de duplo mercado.”
Com os países adotando visões diametralmente opostas, a única maneira de se chegar a um acordo no G-20 foi deixar a cargo de cada país a calibragem de seu ajuste fiscal em vez de pregar a “unidade” tão celebrada durante a última cúpula, em Pittsburgh, em 2009. No comunicado final, os países concordaram em discordar. entrou o compromisso de reduzir os déficits pela metade até 2013 e por a relação dívida-PIB m trajetória descendente até 2016. Mas para angariar o apoio dos EUA e Brasil, entre outros, entrou também o compromisso de um ajuste “amigável ao crescimento” e medidas adaptadas a cada país e cada circunstância Ou seja, cada um vai fazer o que quiser, como já estava fazendo. Mesmo que isso signifique perpetuar os desequilíbrios globais, com países superavitários tentando exportar para sair da crise.

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O general Stanley McChrystal assumiu o leme da guerra no Afeganistão como o evangelista da contra-insurgência, o COIN, no jargão do Pentágono. David Petraeus, que acaba de tomar seu lugar, é o autor do manual de COIN das Forças Armadas, indicando que a estratégia será mantida. A percepção é de que a estratégia deu certo no Iraque sob Petraeus, mas no Afeganistão os resultados têm sido ambíguos até agora. Segundo a COIN, vencer “corações e mentes” no Afeganistão garantiria a vitória americana nesse país, que driblou britânicos e soviéticos e quase deu um olé em Alexandre o Grande. No final do ano passado, McChrystal, em um relatório que acabou estrategicamente vazando para a imprensa, pediu 40 mil soldados a mais no Afeganistão. Mais homens no fronte seriam essenciais para desempenhar a contra-insurgência, cujo objetivo é conquistar o povo afegão e reconstruir a governança do país, em vez de apenas matar o inimigo.Depois de deliberar por três longos meses, Obama topou mandar mais 30 mil homens. Na contrainsurgência, a tática para vencer a guerrilha é “clear, build and hold” – tirar os insurgentes da área, construir instituições, estradas e escolas, e manter sob controle. Para a contra-guerrilha funcionar, é preciso grande apoio da população, que normalmente protege e abriga os insurgentes. Por isso, limitar mortes de civis é ordem número um, pois a cada civil morto, calcula-se que 10 afegãos se juntem à insurgência. “Os soviéticos mataram 1 milhão de afegãos e nem por isso venceram a guerra”, disse recentemente McChrystal a seus soldados, frustrados com as instruções de evitarem, a todo custo, contra-atacar, por medo de causar mortes de civis..
Com isso, os soldados americanos estão virtualmente de mãos atadas. Eles só podem reagir a ataques quando têm certeza absoluta da chamada PID – positive identification. Mas é muito difícil diferenciar insurgentes de civis, e de civis que ajudam insurgentes. Portanto, na maioria dos casos, os soldados ficam impedidos de reagir. Chega-se ao absurdo de mandar um soldado para o meio de uma emboscada, como isca, para que os insurgentes atirem e os americanos possam reagir e pedir apoio aéreo.O resultado, obviamente, é que aumentou muito o número de mortes de soldados americanos.
Mas faltou combinar com os afegãos, como diria Garrincha. Na ofensiva em Marja, que deveria ter sido um exemplo da nova estratégia no Afeganistão, os locais não estão apoiando os americanos e a ofensiva se transformou em uma “úlcera sangrando”, como disse McChrystal recentemente.No fundo, os afegão apostam que os americanos, como os soviéticos e britânicos antes deles, vão embora em algum momento. E ninguém quer se arriscar a estar do lado errado quando o Taleban voltar.
Para completar, muitos acham que não se trata apenas de estratégia equivocada, mas também de país errado. Para que lutar contra o Taleban no Afeganistão se a Al Qaeda se mudou de mala e cuia para o Paquistão? Como diz o repórter Michael Hastings em sua reportagem na Rolling Stone, “mandar 150 mil soldados para construir novas mesquitas, escolas e estradas perto de Kandahar é como tentar combater a guerra do narcotráfico no México ocupando o Arkansas e construindo igrejas batistas em Little Rock.”

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A Copa do Mundo é a mais nova vítima da raivosa extrema direita americana. Vários comentaristas americanos estão atacando a popularização do esporte nos EUA, dizendo que se trata de uma modalidade esportiva “de pobre”, coisa de sul-americano, resultado da crescente influência dos hispânicos no país e ligado às “políticas socialistas de Obama”. Glenn Beck, o mais famoso comentarista conservador da Fox News, compara o futebol às políticas do presidente Barack Obama. “Não importa quantas celebridades o apoiam, quantos bares abrem mais cedo, quantos comerciais de cerveja eles veiculam, nós não queremos a Copa do Mundo, nós não gostamos da Copa do Mundo, não gostamos do futebol e não queremos ter nada a ver com isso”, esbravejou Beck. Segundo ele, o futebol é como o governo Obama: “o resto mundo gosta das políticas do Obama, mas nós não.”
O pessoal do Tea Party está assoberbado: xinga a expansão do governo, a reforma do sistema de saúde, duvida da certidão de nascimento do Obama…e agora, o futebol, essa coisa de estrangeiros que mancha a cultura Apple Pie.
Com o bom desempenho do time americano no jogo contra a Inglaterra, os tradicionais fãs de beisebol e futebol americano estão mais entusiasmados com a Copa do Mundo. Mas isso é resultado de uma “conspiração da esquerda”, dizem os conservadores. “Futebol é um jogo de pobre”, disse o analista conservador Dan Gainor, do Media Research Center, em rede nacional: “A esquerda está impondo o ensino de futebol nas escolas americanas, porque a América está se ‘amarronzando’ (cresce o número de hispânicos). “
Para Matthew Philbin, do centro de pesquisas de direita Culture and Media Institute, “a mídia liberal sempre se sentiu desconfortável com o o excepcionalismo americano, o fato de nós sermos únicos entre as nações, sermos líderes; e os esquerdistas são contra nossa rejeição ao futebol, da mesma maneira que são contra nossa rejeição ao socialismo”. O radialista Mark Belling foi além. “Eles estão nos enfiando futebol goela abaixo”, disse Belling no programa de rádio de Rush Limbauygh, ouvido por 20 milhões de americanos.Para eles, o futebol é um esporte estrangeiro, que não pertence à cultura tradicional dos Estados Unidos.
O fato é que o futebol conquistou tantos adeptos nos Estados Unidos nos últimos 10 anos que atualmente rivaliza com beisebol e basquete. Hoje em dia, mais crianças abaixo dos 12 anos jogam futebol do que beisebol, basquete e futebol americano juntos. Segundo a FIFA, os EUA têm 18 milhões de jogadores registrados.Muitos imigrantes hispânicos trouxeram a tradição de seus países e ajudaram a populiarizar o esporte nos EUA. Mas o futebol nem de longe se restringe aos hispânicos. Já existe até uma faixa demográfica apelidada de “mães do futebol” (soccer moms): mulheres brancas de classe média, que vivem no subúrbio e passam boa parte do tempo em suas mini-vans, buscando seus filhos (normalmente meninas) nos treinos de futebol.

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Na semana passada, o presidente Barack Obama anunciou que vai visitar a Índia em novembro. A Rússia e a China ganharam visitas oficiais de Obama no ano passado. Ou seja, dos chamados BRICs, ele só não visitou o Brasil. E não há previsão.
Na realidade, o Brasil nem é parte dos BRICs, para o governo americano. Uma leitura cuidadosa da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada há 10 dias, mostra que os Estados Unidos sempre agrupam Rússia, Índia e China, os “centros-chave de influência”, enquanto o Brasil aparece ao lado de Indonésia e África do Sul , “países de influência crescente”. “Algumas relações bilaterais – como as relações dos Estados Unidos com China, Índia e Rússia – serão críticas para construir cooperação mais ampla em áreas de interesse mútuo”, diz a estratégia, sem mencionar o B dos BRICs..Enquanto o Brasil é “parceiro importante”, a Índia tem “parceria estratégica”, e a relação com a China, que com os EUA compõe o G2, “é essencial para abordar os grandes desafios do século XXI”. Tudo isso é jargão diplomático, mas as sutilezas ajudam a pintar o quadro geral.
A diferença no discurso da Casa Branca para a Índia e para o Brasil mostra como os canais de comunicação entre Washington e Brasília estão entupidos. Índia ganhou o primeiro jantar oficial da Casa Branca dos Obamas, em novembro. Na semana passada, realizou-se uma reunião do diálogo estratégico Índia-Estados Unidos. Na ociasião, Obama disse que “as relações com a Índia são as maiories prioridades” de seu governo, “a parceria que define o século XXI”, “Índia é indispensável para o futuro que buscamos”. A secretária Hillary é “uma grande admiradora da Índia”, nas palavras de Obama. E para ela, a relação com a Índia “é um assunto do coração, não apenas da cabeça”.Bem menos carinho Hillary reservou para o Brasil há duas semanas. Chamou o Brasil de “parceiro responsável e eficiente em vários assuntos”, mas não deixou de destacar “as sérias divergências” em relação ao Irã. Foram muitos os desacordos nos últimos tempos – bases americanas na Colômbia, golpe em Honduras, mas o Irã certamente é o maior irritante.
Os dois países se apressam em dizer que são “parceiros” e a relação “envolve muitos outros aspectos”. Mas ninguém ainda levantou a bandeira branca.
Hillary Clinton, aliás, aproveitou para alfinetar o Brasil em seu primeiro dia de giro pela região. Depois de se reunir com o presidente peruano, Alan Garcia, Hillary voltou a tocar no ponto nevrálgico das sanções contra o Irã. “Irã vai tentar de novo dar algum golpe” para adiar as sanções, disse Hillary. Para a secretária de Estado, o acordo de troca de combustível nuclear costurado pelo Brasil e Turquia foi apenas um “golpe do Irã” para evitar as sanções, e o governo brasileiro foi usado.

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Quando a secretária de Estado Hillary Clinton marcou um encontro privado com o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, em Washington, ela tinha um assunto em mente: sanções contra o Irã. Mas nas mais de duas horas de reunião que os dois tiveram na terça-feira de manhã, Hillary teve de deixar as prioridades dos EUA em segundo plano. O encontro foi “uma discussão aprofundada” sobre o ataque de Israel contra os navios de ativistas pró-palestinos, cheios de cidadãos turcos, e o descontentamento de Davutoglu com a reação tépida dos Estados Unidos.
Israel atropelou a agenda dos Estados Unidos para aprovação de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. E o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, está comemorando.
Para muitos analistas em Washington, o incidente envolvendo o exército israelense tira o Irã do centro das discussões. Na segunda-feira, a revelação da Agência Internacional de Energia Atômica de que Teerã acumulou urânio suficiente para fazer duas bombas atômicas poderia ter sido preciosa munição para os EUA em sua busca por sanções. Mas o anúncio foi ofuscado pelas onze vítimas do exército israelense.
O ataque também prejudica a posição negociadora dos EUA, os maiores defensores de sanções duras no Conselho de Segurança da ONU. Os EUA perdem um pouco da legitimidade negociadora ao darem crédito aos críticos que acusam Washington de ter dois pesos e duas medidas, uma para o Irã e outra para Israel.
Daniel Drezner, influente analista de política externa, chegou a comparar as declarações anódinas dos Estados Unidos sobre Israel à pseudo-condenação que a China fez ao ataque da Coreia do Norte ao navio da Coreia do Sul. “O governo Obama reagiu a esse incidente de forma notavelmente similar à reação da China ao incidente com o Cheonan – com um pedido de mais informações”, disse Drezner.
Andrew Exum, analista do Center for a New American Security, foi mais além. “Imagine os israelenses tentando pedir ao Conselho de Segurança apoio a sanções contra o regime iraniano agora; é mais fácil eles saírem de Nova York com sanções contra o regime deles mesmos.”
Antes de se encontrar com Hillary, Davutoglu deixou clara mais uma vez sua posição. “Não podemos pensar em sanções contra o Irã antes de considerarem o acordo porposto pela Turquia e o Brasil”, ele disse. A Turquia e o Brasil, membros rotativos do CS, resistem a apoiar sanções contra o Irã e querem que os EUA conseiderm o acordo de troca de combustível mediado por Ancara e Brasília
O governo brasileiro, que ficou muito irritado com a posição americana de ignorar o acordo mediado por Lula em Teerã, não está cantando vitória.O Itamaraty não inclui em seus cálculos a vulnerabilidade dos EUA ao deixar de condenar diretamente os israelenses. .
Eles acreditam que o incidente ainda pode ser usado pelo lobby linha-dura dos EUA. Diante de toda pressão internacional, Obama eventualmente pode se ver obrigado a condenar Israel de forma mais direta e pedir uma investigação independente do ocorrido. Se isso acontecer, essa fatura vai ser cobrada pelo lobby judaico nos EUA. E a cobrança pode vir na forma de renovado impulso pelas sanções contra Irã.

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O anúncio dos Estados Unidos sobre a resolução contra o Irã exacerba as tensões entre os emergentes sem-bomba e as potências nucleares. Como pano de fundo, está a irritação de nações emergentes com as potências nucleares dizendo quem pode e quem não pode ter acesso à energia nuclear. Países como Brasil, Turquia, Egito e Indonésia veem na discussão sobre o direito do Irã enriquecer urânio um espelho para suas próprias ambições nucleares. Já para as potências da velha guarda como Estados Unidos e Rússia, trata-se de reafirmar seu poder na geopolítica mundial e por países como Brasil e Turquia em seu “devido lugar”.
O primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, deixou clara a divergência. “Este é o momento de discutir se nós acreditamos na supremacia da lei ou na lei dos supremos e superiores”, disse ele em entrevista em Madri. “Enquanto eles ainda têm armas nucleares, de onde é que tiram credibilidade para pedir a outros países que não as tenham?” O Tratado de Não Proliferação Nuclear é considerado injusto pelas nações sem-bomba. Brasil e Turquia acusam Estados Unidos e outras potências nucleares de não cumprirem sua parte no TNP, que é o desarmamento nuclear. Segundo esses emergentes, se as potências nucleares não estão desarmando, por que é que eles teriam de cumprir sua parte no TNP, que é não tentar fabricar a bomba? Ao defender o direito do Irã de enriquecer urânio, eles estão defendendo o acesso dos países sem-bomba à tecnologia nuclear, outro dos pontos do TPN. Mas os EUA argumentam que o Irã não tem esse direito, porque desrespeita as exigências do TPN de abrir suas instalações nucleares para inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (para garantir que a tecnologia nuclear é usada para fins pacíficos, e não para fazer a bomba.) Os EUA e seus aliados dizem que estão lutando contra proliferação nuclear, mas os países sem-bomba acham que eles estão restringindo o acesso à tecnologia nuclear porque não querrem nações independentes.
As potências nucleares, principalmente os EUA, irritam-se com o fato de o Brasil e a Turquia estarem interferindo nesses assuntos onde tradicionalmente não atuavam. Para Daniel Drezner, professor de política internacional da Universidade Tufts, esse foi um dos fatores que levou a Rússia a não apoiar o acordo mediado pelo Brasil. “A Rússia está tão irritada quanto os EUA com esses ‘jovens países petulantes’ e sua diplomacia independente”, escreveu Drezner na Foreign Policy. “A diplomacia rebelde do Brasil e outros reduz o poder da Rússia, que tem como um dos poucos remanescentes de seu poder da Guerra Fria fazer parte do P5 e por isso participar das decisões”, disse ao Estado Drezner.
Em entrevista no Departamento de Estado, um jornalista perguntou: “Está parecendo que os EUA quiseram dizer ao Brasil e a Turquia – pronto, agora vocês saiam do tanque de areia, para deixar que nós, os meninos grandes, possamos brincar.” O porta-voz do Departamento de Estado, PJ Crowley, desconversou, dizendo que os EUA “apreciam” muito os esforços da Turquia e do Brasil.
Em seu anúncio , a secretária de Estado, Hillary Clinton, fez questão de deixar claro quem tem voz ativa nas decisões: “apesar de reconhecermos os esforços sinceros do Brasil e da Turquia, o P5 +1, que se consiste, claro, de Rússia, China, EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha, vai liderar a comunidade internacional para buscar sanções.”
“Esses países estão tentando fazer uma coisa fora da jurisdição deles”, disse ao Estado uma fonte da Câmara.
No início do ano, o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, anteviu os conflitos que iriam surgir com a maior assertividade da diplomacia brasileira no mundo.
Ele disse que a relação bilateral teria “desafios” maiores porque os dois países estão se encontrando em cenários onde tradicionalmente isso não ocorria – diplomacia no Oriente Médio, por exemplo. “Um dos desafios para o Brasil e Estados Unidos, especialmente para a diplomacia dos dois países, é chegarmos a um entendimento à medida em que nos deparamos um com o outro em partes do mundo onde isso não ocorria anteriormente, seja em São Tomé e Príncipe, onde trabalhamos juntos para combater a malária, ou no Oriente médio”, disse Shannon em janeiro.

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