Conversei na semana passada com o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. A conversa saiu publicada hoje no caderno especial Desafios do novo presidente – a economia no novo governo.
Palocci é um dos coordenadores do programa da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff. No primeiro governo de Lula, Palocci era o principal fiador da estabilidade macroeconômica. Agora, coordena a campanha de Dilma e é um dos principais interlocutores em temas econômicos.
A grande preocupação da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, é assegurar investidores sobre seu comprometimento com a austeridade fiscal, área que é vista como mais frágil pelo mercado financeiro. A evolução das contas públicas é apresentada, relatório de banco após relatório de banco, como o flanco vulnerável de um eventual (e cada vez mais provável) governo Dilma.
Palocci lembra que a petista prometeu assumir uma meta de redução de endividamento em relação ao PIB, além de metas de inflação mais ambiciosas do que as atuais. Em maio, quando Dilma participou de evento organizado pela BM&F-Bovespa em Nova York, ela falou sobre a meta de manter o superávit primário em pelo menos 3,3% do PIB, nível que traria a dívida pública líquida para a razão de 30% do PIB, dos atuais 42%, segundo ela. “É um compromisso fiscal muito forte, porque Dilma vai se comprometer com um nível de endividamento, além de meta de superávit”, disse-me Palocci. Segundo ele, Dilma pretende também assumir metas de inflação ainda mais ambiciosas do que os atuais 4,5% ao ano. “Podemos assumir o compromisso de uma meta de inflação mais ambiciosa, sem um maior custo de política monetária – as condições estão dadas para, gradualmente, baixar a meta de inflação”, disse Palocci.
Outro alvo de críticas, o BNDES, deve ter ajustes. O ex-ministro da Fazenda, um dos principais conselheiros de Dilma na área econômica, afirma que o BNDES vai reduzir sua atuação nos financiamentos e ganhar maior participação do setor privado nas concessões de crédito. “O BNDES não vai manter a expansão dos financiamentos, que foi requisito da crise”, diz Palocci. “Temos de passar para um modelo em que o governo tenha uma parcela menor nos financiamentos, e a parcela privada aumente; vamos fomentar parcerias com fundos privados de infra-estrutura, captar capitais financeiros para os financiamentos do BNDES.” O crescimento do orçamento do BNDES, com capitalizações e consequente endividamento do Tesouro, e o excesso de concentração dos empréstimos da instituição, tem sido questionados. O BNDES está preparando um “pacote de bondades” com incentivos para atrair investidores privados para participar de financiamentos do BNDES.
De modo geral, a ordem é manter o tripé metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário, e apenas fazer ajustes de rota. “As linhas gerais se mantêm, o processo macroeconômico seria melhorado e consolidado”, diz Palocci. “Trata-se de dobrar a aposta”, diz Palocci. Segundo ele, haveria apenas “ajustes finos na política fiscal e de juros e também na questão tributária.”
O déficit em conta-corrente, que deve atingir 2,5% do PIB este ano, não é visto com preocupação pela campanha. “O déficit é decorrente da pujança do mercado interno, mas é sustentável”, diz uma fonte próxima à campanha.
Entre tantos temas prementes para o eleitor paulista, o candidato Celso Russomanno foi pinçar justamente as ventosas da Sabesp. “A Sabesp não tem na rede de abastecimento ventosas que eliminam o ar da rede de distribuição”, disse, alarmado, o candidato ao governo, durante debate da Folha-Uol. “Eu gostaria muito de saber por que é que nós continuamos a entregar ar em vez de água ao consumidor !”
Entre os grandes problemas do povo, educação em cacarecos, PCC, pedágios pela hora da morte, e agora mais essa: a entrega de ar.
Os acólitos de Russomanno dirão que o deputado simplesmente foca no consumidor, nos mínimos detalhes. O tucano Alckmin tampouco pode ser criticado por negligenciar detalhes: ele deixou bem claro que reduziu impostos para bolachas sem recheio. Sem recheio. Como disse um colega jornalista, afinal quem gosta de Negresco ?
Mas voltando ao pepista.
Russomanno gosta de esbravejar contra temas, digamos, menores. O problema do chocolate não entrar na nota fiscal paulista, veja só. “O governo de São Paulo fez uma publicidade enorme nos meios de comunicação dizendo que os consumidores têm o retorno de todas as notas que pedirem – é uma afirmação falsa e enganosa! O chocolate não entra!” O pepista prometeu entrar com uma representação no Conar, órgão de regulamentação publicitária, para tirar a propaganda do ar. Foi vaiado pela plateia.
Impávido, Russomanno se solidarizou com o motoqueiro Roberto Lima da Silva, que reclamou sobre a proibição das motos nas marginais. “Eu também sou motociclista, vou poder rodar por todas as faixas (no meu governo)”. Ele não especificou se anda de CG 125 ou se faz entregas. Mas logo emendou, declarando seu amor aos caminhoneiros. “Eu conheço bem o (problema deles), porque fui autor da lei do dia nacional dos caminhoneiros”. Suspiros de exasperação da plateia.
Pode-se dizer que Russomanno cumpriu sua função de Plínio da direita no debate. Foi mais comedido e menos divertido, está certo. Mas no quesito ego, ele foi imbatível. “O Celso Russomanno vai melhorar a qualidade do transporte”; “O Celso Russomanno vai governar o Estado de São Paulo”, dizia, ecoando Pelé. O deputado-jornalista-defensor do consumidor fez questão de contar que estava na zona leste, andando numa fila, enquanto “crianças me abordavam pedindo autógrafo…..”
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