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Patrícia Campos Mello

Eu nao enxergava o teclado do computador, porque não conseguia parar de chorar. Meu editor perguntava – “e aí, tudo bem, está mandando o texto?” E eu: “Claro, assim que eu conseguir enxergar as teclas.” Lá fora, todo mundo seguiu o presidente Sebastián Piñera e o mineiro Luís Urzúa, o Don Lucho, o líder do grupo, que foi o último a nascer neste parto da mina: com a mão no peito, cantavam o hino chileno, parados no meio da rua, chorando. Na frente da Praça das Armas, em Copiapó, cidade perto da mina onde vivem quase todos os mineiros, era um buzinaço só. Os atacamenhos cantavam e dançavam em frente ao telão gigante instalado na praça.
Um casal de chilenos, às lágrimas, veio me abraçar.
Queridos leitores, vou postar abaixo o texto que foi escrito no meio dessa emoção, já sabendo que dificilmente vai conseguir transmitir tudo. mas vamos lá.
“Estamos todos bem, os 33, na superfície”
Eram 17 milhões de chilenos chorando de emoção, buzinando e cantando quando o último dos33 mineiros , Luís Urzúa , foi resgatado ontem às 21h55 da noite.Depois de 69 dias presos a quase 700 metros de profundidade, tendo sobrevivido 18 dias com duas colheradas de atum por dia, os 33 mineiros foram resgatados com sucesso com uma das mais complexas operações de salvament o da história. Na principal praça de Copiapó, 3 mil pessoas dançavam, cantavam o hino chileno e choravam. quando o presidente Sebastián Piñera, segurando a mão do mineiro Urzúa, o Don Lucho, agradeceu aos mineiros. “Estamos orgulhosos dos 33 mineiros que deram um exemplo de companheirismo e solidariedade e estamos orgulhosos dos milhares de pessoas que tornaram possível o resgate de vocês.” Ao que Don Lucho disse ao presidente chileno: “Eu agora lhe entrego o turno e espero que isso nunca mais aconteça”. Urzúa era o chefe do turno na mina.
Um a um, os 33 foram resgatados com a cápsula Fênix, que içou-os por um túnel de 60 centímetros de diâmetro de 622 metros de profundidade.
Na praça de Copiapó, o sorveteiro Victor Jofre, de 65 anos, cinco filhos, cinco netos, não conseguia parar de chorar. “Nunca pensei que eles iam sobreviver. A terra caiu em cima deles, ninguém sobrevive a esses acidentes, conheço muita gente que morreu e mina. Pensei que eles iam morrer. É um milagre.”às 6 horas da tarde, Jofre deixou seu carrinho de sorvete em casa, no bairro de Manoel Rodriguez, e foi para a praça das Armas, assistir ao final feliz de uma provação de 69 dias. Jofre ganha só US$ 250 por mês vendendo picolés de rum e leite, os que mais saem. Mas ontem, gastou US$ 4 para comprar uma bandeira com as fotos dos 33 mineiros, a imagem da Virgem da Candelária, protetora dos mineiros, e o símbolo do Chile. Jofre conhece o pai e o avô de Ariel Ticona, o penúltimo mineiro a ser resgatado.
Logo que sair do hospital, onde está em observação como os outros mineiros, Ticona vai conhecer sua filha. Esperanza, de um mês, nasceu enquanto ticona estava no centro da terra.
Ticona, quando emergiu da cápsula Fênix, mostrou orgulhoso o telefone da mina, que levou para guardar de recordação. O telefone foi criado artesanalmente por um empresário local e era chamado de Plano Z, porque ninguém acreditava que ia funcionar. O aparelho acabou ajudando a manter os ânimos dos 33, quando ainda não se sabia se o túnel perfurado pela Schramm T-130 ia chegar até o refúgio onde eles viviam a uma temperatura mínima de 320C e umidade de 89%, que causou fungos e infecções de pele em vários deles.
Cada um dos mineiros cumpriu um papel no resgate. Mário Gómez, 63 anos, o mais velho dos mineiros, foi quem escreveu o bilhete que revelou ao mundo que os 33 estavam vivos, contrariando todas as expectativas. “Estamos todos bem no refúgio, os 33”, escreveu Gómez, o nono a ser resgatado. Gómez, qe tem saude frágil e problemas pulmonares, está no hospital de Copiapó se recuperando.
Urzúa, que era o chefe do grupo dos mineiros, saiu como um dos heróis do resgate. Topógrafo de profissão, 54 anos, calmo e controlado, ele estava há apenas 2 meses trabalhando na mina San José, mas tinha 31 anos de experiência em minas. Foi descrito como o comandamnte da Apolo 13 do centro da terra. Urzúa, ou Don Lucho, foi essencial para manter o controle e os ânimos debaixo da terra. O rosto de Urzúa foi o primeiro que o mundo viu, quando se descobriu que eles estavam vivos e os resgatistas conseguiram enviar uma camera pelo duto que foi construído para mandar alimentos e remédios para os mineiros, enquanto se construía o túnel pelo qual eles foram retirados.”Acabo de conversar com Luis Urzua, o último a sair da mina, como faz um chefe que gosta e respeita quem trabalha com ele”, disse Piñera, com olhos marejados. “Mas tambem quero agradecer as familias dos mineiros, que mantiveram a fe inquebrantavel, que acabou movendo montanhas, e a equipe de resgatistas.”

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As esposas, namoradas e amantes dos mineiros estavam se preparando para recebê-los ontem, depois de 69 dias longe deles. Cristina Nuñes, 26 anos, noiva do mineiro Cláudio Yanez, fez chapinha nos cabelos escuros, com mechas loiras. Ela foi ao cabeleireiro na segunda-feira fazer as unhas e comprou uma lingerie especial para recebê-lo: vermelha, com capa e chifres de diabinha, ela contou. “Quero recebê-lo bem, ja estou pensando em como preparar nosso casamento”, disse Cristina ao Estado. Enquanto estava preso na mina, Cláudio pediu Cristina em casamento. Eles namoram há 11 anos e têm dois filhos, mas só depois de ficar preso na mina é que Claudio a pediu em casamento. Yanez foi o oitavo a ser resgatado. Ele estava no segundo grupo, dos mais frágeis, porque tem diabetes.
Marta Mesias Pacheco, tia de Cristina, também foi ao cabeleireiro e fez as unhas.”É um grande dia, estou aqui no Acampamento Esperança há dois meses, vamos fazer uma festa para recebê-lo e os dois finalmente vão casar”, contou ao Estado. A família deve fazer uma festa no sábado, depois de Claudio ser liberado do hospital, onde deve permanecer 48 horas sob observação, como todos os outros mineiros.
Lilianett Ramírez fez escova nos cabelos tingidos de loiro e se maquiou para receber seu marido, Mário Gómez. Gomez é o mais velho entre os 33 mineiros, com 63 anos, e tem problemas de saúde. Como o mineiro Yonni Barrios Rojas, Gómez estava numa saia justa – tanto sua mulher como sua amante estavam no acampamento Esperanza. A família de Gómez vai fechar a rua na “población” onde vive,perto de Manuel Rodríguez, para fazer uma festa. Lilianett também foi pedida em casamento – apesar de estar com Mário há 30 anos, nçao haviam formalizado a união. Agora, vão casar na igreja.
A amante e a esposa de Barrios se encontraram no Campo Esperança, e o resultado não foi dos melhores. Agora, não se sabe qual será o fim da história. “Barrios é meu esposo. Ele me ama e eu sou sua esposa. Essa mulher não tem legitimidade”, disse Marta Salinas, de 56 anos, a uma rádio local. O governo chileno teria perguntado quem Barrios gostaria que fosse sua representante na mina e ele teria dito que preferia a amante. Não se sabe se as duas vão estar juntas na plataforma onde se concentrarão os familiares para acompanhar o resgate e receber os mineiros.

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O acampamento Esperança se transformou em um grande Woodstock chileno: são centenas de barracas e trailers, musicos folclóricos, cúmbia vindo dos rádios e muitos altares à virgem de Guadalupe. Como todos estão otimistas e esperam para hoje o início do resgate dos mineiros, o clima é de festa. Os familiares ficam sentados em frente a suas barracas, tomando mate, enquanto são assediados por uma horda de jornalistas. Pela última conta, são 1500 jornalistas de 33 nacionalidades e 400 familiares, ou seja, quatro repórteres para cada parente.
“Enterrados, talvez, vencidos, jamais – Pedro Contreras” – essa faixa decora a barraca da família de Contreras, que trouxe um rádio, uma grelha de churrasco e uma barraca. Os Contreras também ergueram um altar improvisado com uma imagem da virgem de Guadalupe e flores em uma garrafa de Sprite. Ao lado, foi afixada uma faixa mais profana: “Vamos, carajo, um monte de terra e de pedras não podem com este punhado de Atacamenhos – Força e Coração mineiros.”
Pedro, que tem 10 irmãos, mandou uma carta para a família ontem: “Tragam os “viejitos (meus pais) aqui para o cerro, que eu estou saindo”, ele disse.
Sua mãe, Doris Contreras, está limpando o quarto do filho e arrumando a casa para recebê-lo. “Não sei nem o que vou dizer a ele, acho que só vou abraçá-lo e chorar.” O resto da família está organizando um churrasco para recebê-lo.
Os jornalistas se viram como podem. As TVs maiores e agências de notícias, como Reuters, têm trailers. Muitas têm até seus banheiros químicos privados, com o nome da emissora na porta – e ai de quem quiser usar. O resto dorme em barracas que ficam geladas à noite, quando a temperatura cai para quase 0 graus, e usa os banheiros químicos comunitários. A partir de agora, quem vier vai ter que dormir no carro, porque não tem mais espaço para armar barracas. Há um “comedor” para os familiares e jornalistas, onde voluntárias cozinham macarrão com carne, salsicha e peixe com arroz. Os mantimentos são doados por redes de supermercados. Eles estão lucrando- o comércio de Copiapó vai lucrar só nesta semana 15% do que ganhou no ano inteiro.
Marcos Stupenengo, repórter da TV argentina C5N, veio com sua equipe de três pessoas em um trailer e uma caminhonete cheia de equipamento, dirigindo de Buenos Aires até a mina San José. Levou três dias.
Já faz uma semana que ele está no acampamento Esperança. Eles precisam dirigir todos os dias para Copiapó, a 40 quilômetros, para buscar água.
Marcos está se preparando para ficar 48 horas acordado, a partir do início do resgate, hoje no fim da tarde. “Minha geladeira no trailer só tem Coca-Cola”, ele contou. O resto de sua dieta é a base de hamburguer e hot dog.
Adriana Nasser, da TV Brasil, está se virando com lencinhos umedecidos, já que banho está difícil. Ela passa um dia no hotel, em Copiapó, e dois no acampamento.
Surgem até paixões no acampamento: “Você viu o meu amor, aquele repórter lindo da Globo?”, perguntava uma jornalista chilena.
E como o clima é de euforia com a aproximação do resgate dos herois chilenos, dá até para fazer piada. “Ali na esquina tem um cjoppinho ótimo, vocês querem com ou sem colarinho?”, brincou Jairom Rio Branco, auxiliar de cinegrafista

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Eram 08h05 da manhã quando a perfuradora Schramm T-130 rompeu o teto do refúgio onde os 33 mineiros estão presos há mais de dois meses.Uma sirene começou a tocar, familiares choravam, gritavam. Até jornalistas se emocionaram e choraram, no Campo Esperança, onde estão mais de 2 mil pessoas, a maioria da imprensa.
Para se chegar até a mina de Caldera, uma cidade próxima, é preciso pegar uma estrada de terra, são cerca de 40 quilômetros, mas, sem caminhonete, leva uns 45 minutos para chegar.
No Campo Esperança, familiares estão em barracas e usam um “comedor” público, com comida feita por voluntários que vêm de várias cidades. Nesse refeitório, há um altar erguido pelos familiares, com santos e pedidos. Em volta do Campo, há várias faixas pedindo a volta e a saúde dos mineiros, com fotos. Há muitas equipes de jornalistas dormindo em barracas ou trailers. Faz muito frio à noite, chega a se acumular uma camada de gelo na barraca. Há alguns banheiros químicos espalhados pelo campo, cujo cheiro é prova da superpopulação do local. Uma escolinha improvisada atende os filhos dos mineiros presos.
À tarde, montam uma grelha e ofereceram um choripán (sanduíche com linguiça) e refrigerante. No fim da tarde, é a hora do café, e um bispo promove uma oração.
Perto do “centro da terra”, os mineiros passam muito calor. Eles estão presos há 64 dias sob uma temperatura mínima de 32 graus e pouquíssima iluminação, fornecida apenas por uma lâmpada de 500 watts que foi baixada por um duto. Muitos dos mineiros têm problemas dentários, que estão sendo tratados com antibióticos e analgésicos, de pele e psicológicos, monitorados por vídeoconferência.
Lá embaixo, eles estão usando roupas especiais para absorver o suor e evitar odores. Também ganharam MP3 do dono da Apple, conectados a alto-falantes,e têm um micro-projetor com o qual veem jogos de futebol, filme e , principalmente, notícias sobre a operação de resgate.
Alguns estão doentes – Mário Gómez, o mais velho dos mineiros, com 63 anos, tem um problema pulmonar e estava prestes a se aposentar quando houve o deslizamento de terra na mina. Outro mineiro tem diabetes e terá de ser monitorado atentamente O ministro da saúde, Jaime Mañalich, contou que nos últimos dias os mineiros foram submetidos a atividades físicas intensas, para testar sua reação em situações de muito estresse, para simular a sensação que podem ter durante o resgate.
Para a cobertura, cada um se vira como pode. Adriana Nasser e a equipe da TV Brasil estão dormindo na casa de um taxista – quando ela chega, ele se muda para a casa da vizinha. Não encontraram hotel. é o mesmo taxista que os leva para cima e para baixo – já que não há mais carros para alugar.
Giovana Sanches, do G1, dormiu em uma barraca – dormiu não, tentou. “Não consegui dormir nenhum minuto, de tanto frio que fazia”, ela contou.
Victor Tirado , motorista, trabalha para uma mina em Caldera, mas está “frilando” para jornalistas como eu. Seu pai, de 69 anos, faz uma das empanadas mais famosas da região.
Todos os jornalistas estão se preparando para dormir na mina na segunda-feira- com barraca ou sem, ao relento ou dentro do refeitório. Durante a noite devem ser resgatados os mineiros e nenhum jornalista pode perder esse momento histórico.

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