O presidente Barack Obama, em visita à Índia, pediu “um conselho de segurança da ONU reformado que a inclua a Índia como membro permanente”. A declaração de apoio à Índia como mebro permanente deve ter irritado profundamente o Itamaraty – o Brasil vem pedindo há anos o apoio dos Estados Unidos para suas pretensões ao assento permanente no CS.
A declaração de Obama é mais uma amostra da aposta dos EUA em sua nova parceria estratégica com a Índia, para se contrapor ao poder da China na Ásia. Antes, para não melindrar seu aliado militar Paquistão, os EUA restringiam suas demonstrações de apoio à Índia. No governo Obama, o primeiro-minsitro Manmohan Singh foi agraciado com o primeiro jantar oficial para chefes de estado na Casa Branca, ganhou de presente a liberação de várias exportações de produtos com dual technology, que estavam restritos por poderem ser usados a finalidades militares, além da confirmação do acordo nuclear desenhado no governo Bush, que efetivamente avacalha o Tratado de Não-Proliferação, já que garante à Índia, que não é signatária, fornecimento de combustível nuclear para fins civis.
Além do Brasil, a China é outro país que não vai ficar nada feliz com o apoio oficial dos EUA às aspirações da índia no CS.
Fui a Brasilia ontem, para entrevistar o novo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos. A viagem ao Brasil é a primeira visita oficial de Santos a um governo estrangeiro. E o ex-ministro da Defesa teve “ótima química” com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, conforme descreveram seus assessores. Santos disse estar satisfeito com as condenações de Lula ao terrorismo na região, embora o presidente brasileiro não tenha mencionado diretamente as Farc. Lula afirmou em discurso durante almoço para Santos, no Itamaraty, que nada justifica o terrorismo e que apoia a luta do povo colombiano.
Já em relação ao presidente Obama, há uma interrogação. A Colômbia tradicionalmente é um dos maiores aliados dos Estados Unidos, que colaboram com milhões em ajuda militar e para o combate ao narcotráfico (Plano Colômbia). Washington sempre é um dos primeiros destinos dos mandatários colombianos. Mas desta vez, uma visita à Casa Branca ainda nem está no horizonte.
“O senhor já tem marcado um encontro com o presidente Obama?”
Santos respondeu, um pouco irritado:
“Não tenho um encontro formal com Obama, por enquanto não. Mas com os Estados Unidos temos a melhor das relações, e vamos continuar com esta relação. Não tenho nenhum plano de visita a Washington, mas em algum momento, claro que irei.”
A única viagem programada é para participar da assembleia geral da ONU, em Nova York, em setembro.
Especulou-se muito sobre o futuro do relacionamento entre Colômbia e Estados Unidos quando Barack Obama ganhou. Alvaro Uribe tinha relações muito próximas com o rival republicano, John McCain, que perdeu a eleição dos EUA em 2008. Já o democrata Obama é bem menos entusiasmado com a Colômbia, e foca nas suas relações com o México, que exige cada vez mais atenção por causa da guerra do narcotráfico. Outro ponto de atrito é o acordo de livre-comércio entre Colômbia e EUA- está parado no Congresso sem sinais de que será aprovado logo. Ao contrário dos republicanos, o democrata Obama não é grande entusiasta de acordos de livre-comércio e não vai se indispor com seus aliados sindicalistas, que se opõem ao acordo, para pressionar pela aprovação no Congresso.
Conversei na semana passada com o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. A conversa saiu publicada hoje no caderno especial Desafios do novo presidente – a economia no novo governo.
Palocci é um dos coordenadores do programa da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff. No primeiro governo de Lula, Palocci era o principal fiador da estabilidade macroeconômica. Agora, coordena a campanha de Dilma e é um dos principais interlocutores em temas econômicos.
A grande preocupação da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, é assegurar investidores sobre seu comprometimento com a austeridade fiscal, área que é vista como mais frágil pelo mercado financeiro. A evolução das contas públicas é apresentada, relatório de banco após relatório de banco, como o flanco vulnerável de um eventual (e cada vez mais provável) governo Dilma.
Palocci lembra que a petista prometeu assumir uma meta de redução de endividamento em relação ao PIB, além de metas de inflação mais ambiciosas do que as atuais. Em maio, quando Dilma participou de evento organizado pela BM&F-Bovespa em Nova York, ela falou sobre a meta de manter o superávit primário em pelo menos 3,3% do PIB, nível que traria a dívida pública líquida para a razão de 30% do PIB, dos atuais 42%, segundo ela. “É um compromisso fiscal muito forte, porque Dilma vai se comprometer com um nível de endividamento, além de meta de superávit”, disse-me Palocci. Segundo ele, Dilma pretende também assumir metas de inflação ainda mais ambiciosas do que os atuais 4,5% ao ano. “Podemos assumir o compromisso de uma meta de inflação mais ambiciosa, sem um maior custo de política monetária – as condições estão dadas para, gradualmente, baixar a meta de inflação”, disse Palocci.
Outro alvo de críticas, o BNDES, deve ter ajustes. O ex-ministro da Fazenda, um dos principais conselheiros de Dilma na área econômica, afirma que o BNDES vai reduzir sua atuação nos financiamentos e ganhar maior participação do setor privado nas concessões de crédito. “O BNDES não vai manter a expansão dos financiamentos, que foi requisito da crise”, diz Palocci. “Temos de passar para um modelo em que o governo tenha uma parcela menor nos financiamentos, e a parcela privada aumente; vamos fomentar parcerias com fundos privados de infra-estrutura, captar capitais financeiros para os financiamentos do BNDES.” O crescimento do orçamento do BNDES, com capitalizações e consequente endividamento do Tesouro, e o excesso de concentração dos empréstimos da instituição, tem sido questionados. O BNDES está preparando um “pacote de bondades” com incentivos para atrair investidores privados para participar de financiamentos do BNDES.
De modo geral, a ordem é manter o tripé metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário, e apenas fazer ajustes de rota. “As linhas gerais se mantêm, o processo macroeconômico seria melhorado e consolidado”, diz Palocci. “Trata-se de dobrar a aposta”, diz Palocci. Segundo ele, haveria apenas “ajustes finos na política fiscal e de juros e também na questão tributária.”
O déficit em conta-corrente, que deve atingir 2,5% do PIB este ano, não é visto com preocupação pela campanha. “O déficit é decorrente da pujança do mercado interno, mas é sustentável”, diz uma fonte próxima à campanha.
Entre tantos temas prementes para o eleitor paulista, o candidato Celso Russomanno foi pinçar justamente as ventosas da Sabesp. “A Sabesp não tem na rede de abastecimento ventosas que eliminam o ar da rede de distribuição”, disse, alarmado, o candidato ao governo, durante debate da Folha-Uol. “Eu gostaria muito de saber por que é que nós continuamos a entregar ar em vez de água ao consumidor !”
Entre os grandes problemas do povo, educação em cacarecos, PCC, pedágios pela hora da morte, e agora mais essa: a entrega de ar.
Os acólitos de Russomanno dirão que o deputado simplesmente foca no consumidor, nos mínimos detalhes. O tucano Alckmin tampouco pode ser criticado por negligenciar detalhes: ele deixou bem claro que reduziu impostos para bolachas sem recheio. Sem recheio. Como disse um colega jornalista, afinal quem gosta de Negresco ?
Mas voltando ao pepista.
Russomanno gosta de esbravejar contra temas, digamos, menores. O problema do chocolate não entrar na nota fiscal paulista, veja só. “O governo de São Paulo fez uma publicidade enorme nos meios de comunicação dizendo que os consumidores têm o retorno de todas as notas que pedirem – é uma afirmação falsa e enganosa! O chocolate não entra!” O pepista prometeu entrar com uma representação no Conar, órgão de regulamentação publicitária, para tirar a propaganda do ar. Foi vaiado pela plateia.
Impávido, Russomanno se solidarizou com o motoqueiro Roberto Lima da Silva, que reclamou sobre a proibição das motos nas marginais. “Eu também sou motociclista, vou poder rodar por todas as faixas (no meu governo)”. Ele não especificou se anda de CG 125 ou se faz entregas. Mas logo emendou, declarando seu amor aos caminhoneiros. “Eu conheço bem o (problema deles), porque fui autor da lei do dia nacional dos caminhoneiros”. Suspiros de exasperação da plateia.
Pode-se dizer que Russomanno cumpriu sua função de Plínio da direita no debate. Foi mais comedido e menos divertido, está certo. Mas no quesito ego, ele foi imbatível. “O Celso Russomanno vai melhorar a qualidade do transporte”; “O Celso Russomanno vai governar o Estado de São Paulo”, dizia, ecoando Pelé. O deputado-jornalista-defensor do consumidor fez questão de contar que estava na zona leste, andando numa fila, enquanto “crianças me abordavam pedindo autógrafo…..”
Voltar ao Brasil depois de quatro anos fora é um aprendizado. E um das coisas mais interessantes é comparar a visão do País e do governo lá fora e aqui dentro. A mídia brasileira é altamente crítica em relação ao governo do PT e a Lula, o que é um exemplo de quão saudáveis são as instituições aqui e quão vigorosa é a democracia. É um alívio, se pensarmos por exemplo na Venezuela, onde canais de oposição têm seus direitos de transmissão cassados. Estive em Caracas há uma semana. Lá, correspondentes da Economist e do The New York Times são atacados na TV, ao vivo, quando escrevem matérias críticas a Chávez.
Dito isso, é de interessante refletir sobre a ditadura da má notícia aqui dentro.
Fala-se em Brasil lá fora, e pensa-se em redução de desigualdade de renda, potência agrícola, e, OK, favelas, carnaval e violência. Abordagens equivocadas de política externa como a aproximação do Irã pegam muito mal, está certo.
Mas existe um consenso sobre a nova estatura internacional adquirida pelo Brasil e os sucessos em políticas de redução de pobreza.
Por aqui, me dá a impressão de que, muitas vezes, “we can’t see the forest for the trees”, o que, na impressão em inglês, significa que estamos nos focando em detalhes e perdendo o todo. Ou seja, está certo, ainda há muito a ser alcançado, principalmente em educação e saúde, áreas em que o Brasil tem situação vergonhosa. Mas não se podem negar os avanços.
No cerne da discórdia entre Europa e Estados Unidos no G20 está a eficácia de política fiscal em países que já estão altamente endividados. O raciocínio dos europeus, liderados pela Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, é de que aumentar gastos do governo em países já muito deficitários tem o efeito contrário ao desejado: diminui a confiança do consumidor e reduz a demanda total. Em entrevista ao jornal Wall Street Journal no início da semana, Merkel argumentou que continuar com altos gastos governamentais em um país já endividado ou com déficit acima do desejado leva os consumidores a reduzir seu consumo. Isso porque na Europa, no Estado de bem-estar social, as pessoas são acostumadas a depender da rede de segurança do governo. Portanto, a confiança do consumidor aumenta quando as finanças do governo estão mais saudáveis. As medidas de austeridade, argumenta Merkel, irão estimular a demanda doméstica, e não reduzir. Dos países europeus, apenas Luxemburgo, Eslováquia e Eslovênia têm o déficit orçamentário dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Tratado de Maastricht, de até 3% do PIB. No lado do endividamento, que deve ser de até 60% do PIB, só a Finlândia se encaixa. Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, aproveitou para dar uma alfinetada nos EUA, dizendo que o gigantesco pacote de estímulo de Obama não conseguiu baixar o desemprego americano, que continua na faixa dos 9%.
Já para os EUA, é anátema falar em cortar gastos quando a recuperação ainda não está totalmente firme. O governo americano quer contar com os gastos do governo para aumentar a demanda e sustentar a retomada econômica. O secretário do tesouro, Timothy Geithner, e Lawrence Summers, diretor do Conselho Econômico Nacional, apostam que manter a recuperação vai aumentar a arrecadação de impostos, e o que ajudará a reduzir o déficit do orçamento em relação ao PIB e a relação dívida PIB. O déficit nos EUA está beirando os 11% do PIB e o endividamento, quase 100% do PIB. “Nosso déficit vai cair de forma dramática na medida em que a economia se recuperar e acabarem as medidas de estímulo que nós adotamos na crise”, disse o secretário do Tesouro, Tim Geithner. “Esta cúpula precisa ser fundamentalmente sobre crescimento.”
.China, Brasil e Índia se alinham com os EUA. O ministro das Finanças, Guido Mantega, chamou de “draoniana e exagerada” a meta de reduzri pela metade os déficits até 2013. Manmohan Singh, o primeiro-ministro indiano, afirmou que “políticas de contração, se forem adotadas simultaneamente por países industrializados, podem provocar uma recessão de duplo mercado.”
Com os países adotando visões diametralmente opostas, a única maneira de se chegar a um acordo no G-20 foi deixar a cargo de cada país a calibragem de seu ajuste fiscal em vez de pregar a “unidade” tão celebrada durante a última cúpula, em Pittsburgh, em 2009. No comunicado final, os países concordaram em discordar. entrou o compromisso de reduzir os déficits pela metade até 2013 e por a relação dívida-PIB m trajetória descendente até 2016. Mas para angariar o apoio dos EUA e Brasil, entre outros, entrou também o compromisso de um ajuste “amigável ao crescimento” e medidas adaptadas a cada país e cada circunstância Ou seja, cada um vai fazer o que quiser, como já estava fazendo. Mesmo que isso signifique perpetuar os desequilíbrios globais, com países superavitários tentando exportar para sair da crise.
Na semana passada, o presidente Barack Obama anunciou que vai visitar a Índia em novembro. A Rússia e a China ganharam visitas oficiais de Obama no ano passado. Ou seja, dos chamados BRICs, ele só não visitou o Brasil. E não há previsão.
Na realidade, o Brasil nem é parte dos BRICs, para o governo americano. Uma leitura cuidadosa da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada há 10 dias, mostra que os Estados Unidos sempre agrupam Rússia, Índia e China, os “centros-chave de influência”, enquanto o Brasil aparece ao lado de Indonésia e África do Sul , “países de influência crescente”. “Algumas relações bilaterais – como as relações dos Estados Unidos com China, Índia e Rússia – serão críticas para construir cooperação mais ampla em áreas de interesse mútuo”, diz a estratégia, sem mencionar o B dos BRICs..Enquanto o Brasil é “parceiro importante”, a Índia tem “parceria estratégica”, e a relação com a China, que com os EUA compõe o G2, “é essencial para abordar os grandes desafios do século XXI”. Tudo isso é jargão diplomático, mas as sutilezas ajudam a pintar o quadro geral.
A diferença no discurso da Casa Branca para a Índia e para o Brasil mostra como os canais de comunicação entre Washington e Brasília estão entupidos. Índia ganhou o primeiro jantar oficial da Casa Branca dos Obamas, em novembro. Na semana passada, realizou-se uma reunião do diálogo estratégico Índia-Estados Unidos. Na ociasião, Obama disse que “as relações com a Índia são as maiories prioridades” de seu governo, “a parceria que define o século XXI”, “Índia é indispensável para o futuro que buscamos”. A secretária Hillary é “uma grande admiradora da Índia”, nas palavras de Obama. E para ela, a relação com a Índia “é um assunto do coração, não apenas da cabeça”.Bem menos carinho Hillary reservou para o Brasil há duas semanas. Chamou o Brasil de “parceiro responsável e eficiente em vários assuntos”, mas não deixou de destacar “as sérias divergências” em relação ao Irã. Foram muitos os desacordos nos últimos tempos – bases americanas na Colômbia, golpe em Honduras, mas o Irã certamente é o maior irritante.
Os dois países se apressam em dizer que são “parceiros” e a relação “envolve muitos outros aspectos”. Mas ninguém ainda levantou a bandeira branca.
Hillary Clinton, aliás, aproveitou para alfinetar o Brasil em seu primeiro dia de giro pela região. Depois de se reunir com o presidente peruano, Alan Garcia, Hillary voltou a tocar no ponto nevrálgico das sanções contra o Irã. “Irã vai tentar de novo dar algum golpe” para adiar as sanções, disse Hillary. Para a secretária de Estado, o acordo de troca de combustível nuclear costurado pelo Brasil e Turquia foi apenas um “golpe do Irã” para evitar as sanções, e o governo brasileiro foi usado.
O anúncio dos Estados Unidos sobre a resolução contra o Irã exacerba as tensões entre os emergentes sem-bomba e as potências nucleares. Como pano de fundo, está a irritação de nações emergentes com as potências nucleares dizendo quem pode e quem não pode ter acesso à energia nuclear. Países como Brasil, Turquia, Egito e Indonésia veem na discussão sobre o direito do Irã enriquecer urânio um espelho para suas próprias ambições nucleares. Já para as potências da velha guarda como Estados Unidos e Rússia, trata-se de reafirmar seu poder na geopolítica mundial e por países como Brasil e Turquia em seu “devido lugar”.
O primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, deixou clara a divergência. “Este é o momento de discutir se nós acreditamos na supremacia da lei ou na lei dos supremos e superiores”, disse ele em entrevista em Madri. “Enquanto eles ainda têm armas nucleares, de onde é que tiram credibilidade para pedir a outros países que não as tenham?” O Tratado de Não Proliferação Nuclear é considerado injusto pelas nações sem-bomba. Brasil e Turquia acusam Estados Unidos e outras potências nucleares de não cumprirem sua parte no TNP, que é o desarmamento nuclear. Segundo esses emergentes, se as potências nucleares não estão desarmando, por que é que eles teriam de cumprir sua parte no TNP, que é não tentar fabricar a bomba? Ao defender o direito do Irã de enriquecer urânio, eles estão defendendo o acesso dos países sem-bomba à tecnologia nuclear, outro dos pontos do TPN. Mas os EUA argumentam que o Irã não tem esse direito, porque desrespeita as exigências do TPN de abrir suas instalações nucleares para inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (para garantir que a tecnologia nuclear é usada para fins pacíficos, e não para fazer a bomba.) Os EUA e seus aliados dizem que estão lutando contra proliferação nuclear, mas os países sem-bomba acham que eles estão restringindo o acesso à tecnologia nuclear porque não querrem nações independentes.
As potências nucleares, principalmente os EUA, irritam-se com o fato de o Brasil e a Turquia estarem interferindo nesses assuntos onde tradicionalmente não atuavam. Para Daniel Drezner, professor de política internacional da Universidade Tufts, esse foi um dos fatores que levou a Rússia a não apoiar o acordo mediado pelo Brasil. “A Rússia está tão irritada quanto os EUA com esses ‘jovens países petulantes’ e sua diplomacia independente”, escreveu Drezner na Foreign Policy. “A diplomacia rebelde do Brasil e outros reduz o poder da Rússia, que tem como um dos poucos remanescentes de seu poder da Guerra Fria fazer parte do P5 e por isso participar das decisões”, disse ao Estado Drezner.
Em entrevista no Departamento de Estado, um jornalista perguntou: “Está parecendo que os EUA quiseram dizer ao Brasil e a Turquia – pronto, agora vocês saiam do tanque de areia, para deixar que nós, os meninos grandes, possamos brincar.” O porta-voz do Departamento de Estado, PJ Crowley, desconversou, dizendo que os EUA “apreciam” muito os esforços da Turquia e do Brasil.
Em seu anúncio , a secretária de Estado, Hillary Clinton, fez questão de deixar claro quem tem voz ativa nas decisões: “apesar de reconhecermos os esforços sinceros do Brasil e da Turquia, o P5 +1, que se consiste, claro, de Rússia, China, EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha, vai liderar a comunidade internacional para buscar sanções.”
“Esses países estão tentando fazer uma coisa fora da jurisdição deles”, disse ao Estado uma fonte da Câmara.
No início do ano, o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, anteviu os conflitos que iriam surgir com a maior assertividade da diplomacia brasileira no mundo.
Ele disse que a relação bilateral teria “desafios” maiores porque os dois países estão se encontrando em cenários onde tradicionalmente isso não ocorria – diplomacia no Oriente Médio, por exemplo. “Um dos desafios para o Brasil e Estados Unidos, especialmente para a diplomacia dos dois países, é chegarmos a um entendimento à medida em que nos deparamos um com o outro em partes do mundo onde isso não ocorria anteriormente, seja em São Tomé e Príncipe, onde trabalhamos juntos para combater a malária, ou no Oriente médio”, disse Shannon em janeiro.
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