Pouco depois de ser lançado na terça-feira com estardalhaço, o livro de memórias do ex-presidente George W. Bush, “Decision Points”, já era alvo de emboscadas. Em ações de guerrilha instigadas pela internet, ativistas começaram a remexer prateleiras de livrarias e por o livro de Bush em seu “devido lugar”: não na seção de biografias, junto com ícones políticos como Winston Churchill, mas ao lado dos livros de mistério, crime e serial killers. “O livro de Bush defende várias das políticas criminosas que ele adotou em seu governo, entre elas a invasão do Iraque e tortura com simulação de afogamento”, disse Jasmine Faustino, organizadora do movimento “Ponha o livro de Bush em seu devido lugar”.
George W. Bush, o presidente mais vilipendiado da História dos Estados Unidos, poderia estar se lixando para os ativistas. Ele recebeu um adiantamento de US$ 7 milhões para escrever seu livro de memórias, que teve tiragem inicial de 1,5 milhão de exemplares. Decision Points já é o número um em vendas na Amazon.
Mas dinheiro não é tudo. Bush não quer ser eternizado nos livros de história como o pior presidente que os EUA já tiveram. “Decision points” é apenas o início do que ele espera ser uma ofensiva de reabilitação de sua imagem.
Com o peso da guerra do Iraque nas costas, a economia em frangalhos e a imagem internacional dos EUA na sarjeta, Bush chegou a ter aprovação de apenas 32% da população americana, um dos piores índices de um presidente.
Mas dois anos se passaram desde o melancólico fim de seu governo. Bush ficou quietinho em sua casa em Dallas, não deu nenhuma entrevista, não falou mal da oposição. Enquanto isso, seu sucessor, Barack Obama, ia se enterrando cada vez mais na recessão econômica que tomou conta do país. Resultado: pesquisa divulgada pelo Instituto Gallup no dia do lançamento de seu livro mostra Bush com 44% de aprovação. O presidente Obama tem e mantido na faixa dos 45% de aprovação. Ou seja, o presidente mais odiado da história americana tem hoje a mesma popularidade que o presidente que foi o mais festejado dos EUA.
Amnésia? Negação da realidade? Reversão de expectativas?
Historiadores ainda não conseguiram decifrar os mistérios da popularidade dos presidentes e nem identificar o que determina o legado de cada um para a posteridade.
O sonho de Bush é ser um novo Harry S. Truman – um presidente brilhante, mas incompreendido em seu tempo, que foi vingado na posteridade. Truman deixou a presidência, em 1953, com o Ibope abaixo de 30%. Ele era criticado duramente por causa da Guerra da Coreia e escândalos de corrupção. “Se você quer ter um amigo em Washington, compre um cachorro”, teria dito o infeliz presidente.
Anos depois, Truman foi alçado ao panteão dos presidentes quase-fenomenais – ou seja, apenas um degrau abaixo dos endeusados Abraham Lincoln, Thomas Jefferson e Franklin Delano Roosevelt. Em retrospecto, grandes conquistas suas como a criação do plano Marshall, que promoveu a recuperação da Europa no pós-guerra, e a estratégia de contenção da União Soviética na Guerra Fria garantiram a Truman uma vaguinha no clube dos presidentes admirados.
No entanto, para historiadores, Bush está mais para Richard Nixon do que Harry Truman. Nixon caiu em desgraça depois do escândalo de Watergate, em que o governo republicano promoveu a espionagem de comitês dos democratas. Ele teve de renunciar para não sofrer um impeachment. Hoje, reconhece-se que Nixon teve grandes realizações em política externa – arquitetou a reaproximação entre Washington e Pequim e manobrou a saída dos EUA do atoleiro do Vietnã. Mas nada disso conseguiu desfazer a reputação de desonesto e vingativo de “Dirty Dick” Nixon.
Diferentemente de Truman, o potencial de recuperação de imagem de Bush é muito baixo , diz Bruce Buchanan, professor de ciência política da Universidade do Texas em Austin, especializado em estudo da Presidência. “A reputação de Bush depende do final de guerras que ainda estão em curso e, mesmo assim, não sei se isso irá convencer as pessoas de que havia motivos para invadir o Iraque.”
Além disso, as possíveis realizações do governo Bush são bastante anêmicas comparadas ao legado de Truman. O republicano alega que, por causa de suas ações, o país não sofreu outros ataques terroristas depois dos atentados de 11 de setembro. Ele afirma também que seu pacote de resgate a bancos evitou que a recessão se transformasse em uma nova Grande Depressão. “Além de serem discutíveis, nenhuma dessas realizações se compara ao Plano Marshall, por exemplo.”
Enquanto a posteridade não vem, Bush trata de polir suas credenciais de “garotão simplório do Texas, americano médio e orgulhoso disso”, na esperança de melhorar um pouquinho seu Ibope. No livro, ele narra que, poucos dias após deixar a presidência, passeava pelas ruas de Dallas com seu cachorro Barney, o mesmo que rosnava para jornalistas nos jardins da Casa Branca. “O Barney foi até o gramado do nosso vizinho e fez suas necessidades. E lá estava eu, ex-presidente dos Estados Unidos, com um saco pástico na mão, fazendo aquilo que eu tinha conseguido evitar nos últimos oito anos.”
Como notou Matthew Norman, colunista político do The Independent, em vez de contribuir para a reabilitação do legado de Bush, essa cena é preciosa para os cartunistas mais atentos: A charge poderia mostrar Bush recolhendo o cocô de Barney com um saco plástico, seguido de Obama, com uma escavadeira, tentando limpar tudo o que Bush deixou para trás nos últimos oito anos. Pobre Obama, pobre Truman.
O general Stanley McChrystal assumiu o leme da guerra no Afeganistão como o evangelista da contra-insurgência, o COIN, no jargão do Pentágono. David Petraeus, que acaba de tomar seu lugar, é o autor do manual de COIN das Forças Armadas, indicando que a estratégia será mantida. A percepção é de que a estratégia deu certo no Iraque sob Petraeus, mas no Afeganistão os resultados têm sido ambíguos até agora. Segundo a COIN, vencer “corações e mentes” no Afeganistão garantiria a vitória americana nesse país, que driblou britânicos e soviéticos e quase deu um olé em Alexandre o Grande. No final do ano passado, McChrystal, em um relatório que acabou estrategicamente vazando para a imprensa, pediu 40 mil soldados a mais no Afeganistão. Mais homens no fronte seriam essenciais para desempenhar a contra-insurgência, cujo objetivo é conquistar o povo afegão e reconstruir a governança do país, em vez de apenas matar o inimigo.Depois de deliberar por três longos meses, Obama topou mandar mais 30 mil homens. Na contrainsurgência, a tática para vencer a guerrilha é “clear, build and hold” – tirar os insurgentes da área, construir instituições, estradas e escolas, e manter sob controle. Para a contra-guerrilha funcionar, é preciso grande apoio da população, que normalmente protege e abriga os insurgentes. Por isso, limitar mortes de civis é ordem número um, pois a cada civil morto, calcula-se que 10 afegãos se juntem à insurgência. “Os soviéticos mataram 1 milhão de afegãos e nem por isso venceram a guerra”, disse recentemente McChrystal a seus soldados, frustrados com as instruções de evitarem, a todo custo, contra-atacar, por medo de causar mortes de civis..
Com isso, os soldados americanos estão virtualmente de mãos atadas. Eles só podem reagir a ataques quando têm certeza absoluta da chamada PID – positive identification. Mas é muito difícil diferenciar insurgentes de civis, e de civis que ajudam insurgentes. Portanto, na maioria dos casos, os soldados ficam impedidos de reagir. Chega-se ao absurdo de mandar um soldado para o meio de uma emboscada, como isca, para que os insurgentes atirem e os americanos possam reagir e pedir apoio aéreo.O resultado, obviamente, é que aumentou muito o número de mortes de soldados americanos.
Mas faltou combinar com os afegãos, como diria Garrincha. Na ofensiva em Marja, que deveria ter sido um exemplo da nova estratégia no Afeganistão, os locais não estão apoiando os americanos e a ofensiva se transformou em uma “úlcera sangrando”, como disse McChrystal recentemente.No fundo, os afegão apostam que os americanos, como os soviéticos e britânicos antes deles, vão embora em algum momento. E ninguém quer se arriscar a estar do lado errado quando o Taleban voltar.
Para completar, muitos acham que não se trata apenas de estratégia equivocada, mas também de país errado. Para que lutar contra o Taleban no Afeganistão se a Al Qaeda se mudou de mala e cuia para o Paquistão? Como diz o repórter Michael Hastings em sua reportagem na Rolling Stone, “mandar 150 mil soldados para construir novas mesquitas, escolas e estradas perto de Kandahar é como tentar combater a guerra do narcotráfico no México ocupando o Arkansas e construindo igrejas batistas em Little Rock.”
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