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Patrícia Campos Mello

No cerne da discórdia entre Europa e Estados Unidos no G20 está a eficácia de política fiscal em países que já estão altamente endividados. O raciocínio dos europeus, liderados pela Angela Merkel, a chanceler da Alemanha, é de que aumentar gastos do governo em países já muito deficitários tem o efeito contrário ao desejado: diminui a confiança do consumidor e reduz a demanda total. Em entrevista ao jornal Wall Street Journal no início da semana, Merkel argumentou que continuar com altos gastos governamentais em um país já endividado ou com déficit acima do desejado leva os consumidores a reduzir seu consumo. Isso porque na Europa, no Estado de bem-estar social, as pessoas são acostumadas a depender da rede de segurança do governo. Portanto, a confiança do consumidor aumenta quando as finanças do governo estão mais saudáveis. As medidas de austeridade, argumenta Merkel, irão estimular a demanda doméstica, e não reduzir. Dos países europeus, apenas Luxemburgo, Eslováquia e Eslovênia têm o déficit orçamentário dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Tratado de Maastricht, de até 3% do PIB. No lado do endividamento, que deve ser de até 60% do PIB, só a Finlândia se encaixa. Em entrevista ao jornal francês Le Monde, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, aproveitou para dar uma alfinetada nos EUA, dizendo que o gigantesco pacote de estímulo de Obama não conseguiu baixar o desemprego americano, que continua na faixa dos 9%.
Já para os EUA, é anátema falar em cortar gastos quando a recuperação ainda não está totalmente firme. O governo americano quer contar com os gastos do governo para aumentar a demanda e sustentar a retomada econômica. O secretário do tesouro, Timothy Geithner, e Lawrence Summers, diretor do Conselho Econômico Nacional, apostam que manter a recuperação vai aumentar a arrecadação de impostos, e o que ajudará a reduzir o déficit do orçamento em relação ao PIB e a relação dívida PIB. O déficit nos EUA está beirando os 11% do PIB e o endividamento, quase 100% do PIB. “Nosso déficit vai cair de forma dramática na medida em que a economia se recuperar e acabarem as medidas de estímulo que nós adotamos na crise”, disse o secretário do Tesouro, Tim Geithner. “Esta cúpula precisa ser fundamentalmente sobre crescimento.”
.China, Brasil e Índia se alinham com os EUA. O ministro das Finanças, Guido Mantega, chamou de “draoniana e exagerada” a meta de reduzri pela metade os déficits até 2013. Manmohan Singh, o primeiro-ministro indiano, afirmou que “políticas de contração, se forem adotadas simultaneamente por países industrializados, podem provocar uma recessão de duplo mercado.”
Com os países adotando visões diametralmente opostas, a única maneira de se chegar a um acordo no G-20 foi deixar a cargo de cada país a calibragem de seu ajuste fiscal em vez de pregar a “unidade” tão celebrada durante a última cúpula, em Pittsburgh, em 2009. No comunicado final, os países concordaram em discordar. entrou o compromisso de reduzir os déficits pela metade até 2013 e por a relação dívida-PIB m trajetória descendente até 2016. Mas para angariar o apoio dos EUA e Brasil, entre outros, entrou também o compromisso de um ajuste “amigável ao crescimento” e medidas adaptadas a cada país e cada circunstância Ou seja, cada um vai fazer o que quiser, como já estava fazendo. Mesmo que isso signifique perpetuar os desequilíbrios globais, com países superavitários tentando exportar para sair da crise.

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O general Stanley McChrystal assumiu o leme da guerra no Afeganistão como o evangelista da contra-insurgência, o COIN, no jargão do Pentágono. David Petraeus, que acaba de tomar seu lugar, é o autor do manual de COIN das Forças Armadas, indicando que a estratégia será mantida. A percepção é de que a estratégia deu certo no Iraque sob Petraeus, mas no Afeganistão os resultados têm sido ambíguos até agora. Segundo a COIN, vencer “corações e mentes” no Afeganistão garantiria a vitória americana nesse país, que driblou britânicos e soviéticos e quase deu um olé em Alexandre o Grande. No final do ano passado, McChrystal, em um relatório que acabou estrategicamente vazando para a imprensa, pediu 40 mil soldados a mais no Afeganistão. Mais homens no fronte seriam essenciais para desempenhar a contra-insurgência, cujo objetivo é conquistar o povo afegão e reconstruir a governança do país, em vez de apenas matar o inimigo.Depois de deliberar por três longos meses, Obama topou mandar mais 30 mil homens. Na contrainsurgência, a tática para vencer a guerrilha é “clear, build and hold” – tirar os insurgentes da área, construir instituições, estradas e escolas, e manter sob controle. Para a contra-guerrilha funcionar, é preciso grande apoio da população, que normalmente protege e abriga os insurgentes. Por isso, limitar mortes de civis é ordem número um, pois a cada civil morto, calcula-se que 10 afegãos se juntem à insurgência. “Os soviéticos mataram 1 milhão de afegãos e nem por isso venceram a guerra”, disse recentemente McChrystal a seus soldados, frustrados com as instruções de evitarem, a todo custo, contra-atacar, por medo de causar mortes de civis..
Com isso, os soldados americanos estão virtualmente de mãos atadas. Eles só podem reagir a ataques quando têm certeza absoluta da chamada PID – positive identification. Mas é muito difícil diferenciar insurgentes de civis, e de civis que ajudam insurgentes. Portanto, na maioria dos casos, os soldados ficam impedidos de reagir. Chega-se ao absurdo de mandar um soldado para o meio de uma emboscada, como isca, para que os insurgentes atirem e os americanos possam reagir e pedir apoio aéreo.O resultado, obviamente, é que aumentou muito o número de mortes de soldados americanos.
Mas faltou combinar com os afegãos, como diria Garrincha. Na ofensiva em Marja, que deveria ter sido um exemplo da nova estratégia no Afeganistão, os locais não estão apoiando os americanos e a ofensiva se transformou em uma “úlcera sangrando”, como disse McChrystal recentemente.No fundo, os afegão apostam que os americanos, como os soviéticos e britânicos antes deles, vão embora em algum momento. E ninguém quer se arriscar a estar do lado errado quando o Taleban voltar.
Para completar, muitos acham que não se trata apenas de estratégia equivocada, mas também de país errado. Para que lutar contra o Taleban no Afeganistão se a Al Qaeda se mudou de mala e cuia para o Paquistão? Como diz o repórter Michael Hastings em sua reportagem na Rolling Stone, “mandar 150 mil soldados para construir novas mesquitas, escolas e estradas perto de Kandahar é como tentar combater a guerra do narcotráfico no México ocupando o Arkansas e construindo igrejas batistas em Little Rock.”

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A Copa do Mundo é a mais nova vítima da raivosa extrema direita americana. Vários comentaristas americanos estão atacando a popularização do esporte nos EUA, dizendo que se trata de uma modalidade esportiva “de pobre”, coisa de sul-americano, resultado da crescente influência dos hispânicos no país e ligado às “políticas socialistas de Obama”. Glenn Beck, o mais famoso comentarista conservador da Fox News, compara o futebol às políticas do presidente Barack Obama. “Não importa quantas celebridades o apoiam, quantos bares abrem mais cedo, quantos comerciais de cerveja eles veiculam, nós não queremos a Copa do Mundo, nós não gostamos da Copa do Mundo, não gostamos do futebol e não queremos ter nada a ver com isso”, esbravejou Beck. Segundo ele, o futebol é como o governo Obama: “o resto mundo gosta das políticas do Obama, mas nós não.”
O pessoal do Tea Party está assoberbado: xinga a expansão do governo, a reforma do sistema de saúde, duvida da certidão de nascimento do Obama…e agora, o futebol, essa coisa de estrangeiros que mancha a cultura Apple Pie.
Com o bom desempenho do time americano no jogo contra a Inglaterra, os tradicionais fãs de beisebol e futebol americano estão mais entusiasmados com a Copa do Mundo. Mas isso é resultado de uma “conspiração da esquerda”, dizem os conservadores. “Futebol é um jogo de pobre”, disse o analista conservador Dan Gainor, do Media Research Center, em rede nacional: “A esquerda está impondo o ensino de futebol nas escolas americanas, porque a América está se ‘amarronzando’ (cresce o número de hispânicos). “
Para Matthew Philbin, do centro de pesquisas de direita Culture and Media Institute, “a mídia liberal sempre se sentiu desconfortável com o o excepcionalismo americano, o fato de nós sermos únicos entre as nações, sermos líderes; e os esquerdistas são contra nossa rejeição ao futebol, da mesma maneira que são contra nossa rejeição ao socialismo”. O radialista Mark Belling foi além. “Eles estão nos enfiando futebol goela abaixo”, disse Belling no programa de rádio de Rush Limbauygh, ouvido por 20 milhões de americanos.Para eles, o futebol é um esporte estrangeiro, que não pertence à cultura tradicional dos Estados Unidos.
O fato é que o futebol conquistou tantos adeptos nos Estados Unidos nos últimos 10 anos que atualmente rivaliza com beisebol e basquete. Hoje em dia, mais crianças abaixo dos 12 anos jogam futebol do que beisebol, basquete e futebol americano juntos. Segundo a FIFA, os EUA têm 18 milhões de jogadores registrados.Muitos imigrantes hispânicos trouxeram a tradição de seus países e ajudaram a populiarizar o esporte nos EUA. Mas o futebol nem de longe se restringe aos hispânicos. Já existe até uma faixa demográfica apelidada de “mães do futebol” (soccer moms): mulheres brancas de classe média, que vivem no subúrbio e passam boa parte do tempo em suas mini-vans, buscando seus filhos (normalmente meninas) nos treinos de futebol.

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Na semana passada, o presidente Barack Obama anunciou que vai visitar a Índia em novembro. A Rússia e a China ganharam visitas oficiais de Obama no ano passado. Ou seja, dos chamados BRICs, ele só não visitou o Brasil. E não há previsão.
Na realidade, o Brasil nem é parte dos BRICs, para o governo americano. Uma leitura cuidadosa da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada há 10 dias, mostra que os Estados Unidos sempre agrupam Rússia, Índia e China, os “centros-chave de influência”, enquanto o Brasil aparece ao lado de Indonésia e África do Sul , “países de influência crescente”. “Algumas relações bilaterais – como as relações dos Estados Unidos com China, Índia e Rússia – serão críticas para construir cooperação mais ampla em áreas de interesse mútuo”, diz a estratégia, sem mencionar o B dos BRICs..Enquanto o Brasil é “parceiro importante”, a Índia tem “parceria estratégica”, e a relação com a China, que com os EUA compõe o G2, “é essencial para abordar os grandes desafios do século XXI”. Tudo isso é jargão diplomático, mas as sutilezas ajudam a pintar o quadro geral.
A diferença no discurso da Casa Branca para a Índia e para o Brasil mostra como os canais de comunicação entre Washington e Brasília estão entupidos. Índia ganhou o primeiro jantar oficial da Casa Branca dos Obamas, em novembro. Na semana passada, realizou-se uma reunião do diálogo estratégico Índia-Estados Unidos. Na ociasião, Obama disse que “as relações com a Índia são as maiories prioridades” de seu governo, “a parceria que define o século XXI”, “Índia é indispensável para o futuro que buscamos”. A secretária Hillary é “uma grande admiradora da Índia”, nas palavras de Obama. E para ela, a relação com a Índia “é um assunto do coração, não apenas da cabeça”.Bem menos carinho Hillary reservou para o Brasil há duas semanas. Chamou o Brasil de “parceiro responsável e eficiente em vários assuntos”, mas não deixou de destacar “as sérias divergências” em relação ao Irã. Foram muitos os desacordos nos últimos tempos – bases americanas na Colômbia, golpe em Honduras, mas o Irã certamente é o maior irritante.
Os dois países se apressam em dizer que são “parceiros” e a relação “envolve muitos outros aspectos”. Mas ninguém ainda levantou a bandeira branca.
Hillary Clinton, aliás, aproveitou para alfinetar o Brasil em seu primeiro dia de giro pela região. Depois de se reunir com o presidente peruano, Alan Garcia, Hillary voltou a tocar no ponto nevrálgico das sanções contra o Irã. “Irã vai tentar de novo dar algum golpe” para adiar as sanções, disse Hillary. Para a secretária de Estado, o acordo de troca de combustível nuclear costurado pelo Brasil e Turquia foi apenas um “golpe do Irã” para evitar as sanções, e o governo brasileiro foi usado.

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Dá pra dizer sem medo de errar que a BP é atualmente a empresa mais odiada dos Estados Unidos inteiros.A cada foto de pelicano coberto de petróleo, a raiva aumenta. Para completar, o CEO da BP, o inglês Tony Hayward, é um sujeito no mínimo equivocado. “Não vejo a hora disso acabar, quero minha vida de volta”, disse o sofredor Hayward para jornalistas. As famílias dos 11 funcionários da BP que morreram na explosão da plataforma Deepwater Horizon não se compadeceram. Os pescadores que não podem mais se sustentar depois que as águas do Golfo foram interditadas também não sentiram muita pena de Hayworth. Aliás, esse Hayworth é o rei das pérolas verbais. Ele já garantiu, entre outras coisas, que o dano ambiental por causa do vazamento seria mínimo (ouch) e que não existia uma nuvem submarina de petróleo.
A campanha anti-BP está crescendo. Além de estarem boicotando os postos da BP, muitos americanos estão fazendo vídeos no You Tube contra a empresa. Em um deles, um grupo de velhinhas da Louisiana, auto-inituladas de Raging Grannies (Vovós Raivosas) canta uma música contra a BP. Em outro, vem uma imitação a música da Lady Gaga, com uma letra antiBP: BP ah ah ah Yes So what? Some birds died…Em Nova York, um cidadão indignado manchou de óleo a placa da BP em um posto de gasolina.
Em Londres,o Greenpeace está fazendo um concurso para redesenhar o logo da BP – em vez de British Petroleum, virou British Polluter, Boycott Petroleum, Blind Profit.
Um doceira de New Orleans fez até um bolo sarcástico, com uma plaquinha dizendo “Thank you BP”, e uma mancha de óleo de cobertura de chocolate estragando uma areias brancas de açúcar da costa da Louisiana.
Enquanto isso, uma tentativa atrás da outra para estancar o vazamento vai fracassando. É, aparentemente, recuperar a imagem da BP vai ser tão difícil quanto tapar o buraco do oleoduto.

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Quando a secretária de Estado Hillary Clinton marcou um encontro privado com o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, em Washington, ela tinha um assunto em mente: sanções contra o Irã. Mas nas mais de duas horas de reunião que os dois tiveram na terça-feira de manhã, Hillary teve de deixar as prioridades dos EUA em segundo plano. O encontro foi “uma discussão aprofundada” sobre o ataque de Israel contra os navios de ativistas pró-palestinos, cheios de cidadãos turcos, e o descontentamento de Davutoglu com a reação tépida dos Estados Unidos.
Israel atropelou a agenda dos Estados Unidos para aprovação de sanções contra o Irã no Conselho de Segurança da ONU. E o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, está comemorando.
Para muitos analistas em Washington, o incidente envolvendo o exército israelense tira o Irã do centro das discussões. Na segunda-feira, a revelação da Agência Internacional de Energia Atômica de que Teerã acumulou urânio suficiente para fazer duas bombas atômicas poderia ter sido preciosa munição para os EUA em sua busca por sanções. Mas o anúncio foi ofuscado pelas onze vítimas do exército israelense.
O ataque também prejudica a posição negociadora dos EUA, os maiores defensores de sanções duras no Conselho de Segurança da ONU. Os EUA perdem um pouco da legitimidade negociadora ao darem crédito aos críticos que acusam Washington de ter dois pesos e duas medidas, uma para o Irã e outra para Israel.
Daniel Drezner, influente analista de política externa, chegou a comparar as declarações anódinas dos Estados Unidos sobre Israel à pseudo-condenação que a China fez ao ataque da Coreia do Norte ao navio da Coreia do Sul. “O governo Obama reagiu a esse incidente de forma notavelmente similar à reação da China ao incidente com o Cheonan – com um pedido de mais informações”, disse Drezner.
Andrew Exum, analista do Center for a New American Security, foi mais além. “Imagine os israelenses tentando pedir ao Conselho de Segurança apoio a sanções contra o regime iraniano agora; é mais fácil eles saírem de Nova York com sanções contra o regime deles mesmos.”
Antes de se encontrar com Hillary, Davutoglu deixou clara mais uma vez sua posição. “Não podemos pensar em sanções contra o Irã antes de considerarem o acordo porposto pela Turquia e o Brasil”, ele disse. A Turquia e o Brasil, membros rotativos do CS, resistem a apoiar sanções contra o Irã e querem que os EUA conseiderm o acordo de troca de combustível mediado por Ancara e Brasília
O governo brasileiro, que ficou muito irritado com a posição americana de ignorar o acordo mediado por Lula em Teerã, não está cantando vitória.O Itamaraty não inclui em seus cálculos a vulnerabilidade dos EUA ao deixar de condenar diretamente os israelenses. .
Eles acreditam que o incidente ainda pode ser usado pelo lobby linha-dura dos EUA. Diante de toda pressão internacional, Obama eventualmente pode se ver obrigado a condenar Israel de forma mais direta e pedir uma investigação independente do ocorrido. Se isso acontecer, essa fatura vai ser cobrada pelo lobby judaico nos EUA. E a cobrança pode vir na forma de renovado impulso pelas sanções contra Irã.

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O anúncio dos Estados Unidos sobre a resolução contra o Irã exacerba as tensões entre os emergentes sem-bomba e as potências nucleares. Como pano de fundo, está a irritação de nações emergentes com as potências nucleares dizendo quem pode e quem não pode ter acesso à energia nuclear. Países como Brasil, Turquia, Egito e Indonésia veem na discussão sobre o direito do Irã enriquecer urânio um espelho para suas próprias ambições nucleares. Já para as potências da velha guarda como Estados Unidos e Rússia, trata-se de reafirmar seu poder na geopolítica mundial e por países como Brasil e Turquia em seu “devido lugar”.
O primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, deixou clara a divergência. “Este é o momento de discutir se nós acreditamos na supremacia da lei ou na lei dos supremos e superiores”, disse ele em entrevista em Madri. “Enquanto eles ainda têm armas nucleares, de onde é que tiram credibilidade para pedir a outros países que não as tenham?” O Tratado de Não Proliferação Nuclear é considerado injusto pelas nações sem-bomba. Brasil e Turquia acusam Estados Unidos e outras potências nucleares de não cumprirem sua parte no TNP, que é o desarmamento nuclear. Segundo esses emergentes, se as potências nucleares não estão desarmando, por que é que eles teriam de cumprir sua parte no TNP, que é não tentar fabricar a bomba? Ao defender o direito do Irã de enriquecer urânio, eles estão defendendo o acesso dos países sem-bomba à tecnologia nuclear, outro dos pontos do TPN. Mas os EUA argumentam que o Irã não tem esse direito, porque desrespeita as exigências do TPN de abrir suas instalações nucleares para inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (para garantir que a tecnologia nuclear é usada para fins pacíficos, e não para fazer a bomba.) Os EUA e seus aliados dizem que estão lutando contra proliferação nuclear, mas os países sem-bomba acham que eles estão restringindo o acesso à tecnologia nuclear porque não querrem nações independentes.
As potências nucleares, principalmente os EUA, irritam-se com o fato de o Brasil e a Turquia estarem interferindo nesses assuntos onde tradicionalmente não atuavam. Para Daniel Drezner, professor de política internacional da Universidade Tufts, esse foi um dos fatores que levou a Rússia a não apoiar o acordo mediado pelo Brasil. “A Rússia está tão irritada quanto os EUA com esses ‘jovens países petulantes’ e sua diplomacia independente”, escreveu Drezner na Foreign Policy. “A diplomacia rebelde do Brasil e outros reduz o poder da Rússia, que tem como um dos poucos remanescentes de seu poder da Guerra Fria fazer parte do P5 e por isso participar das decisões”, disse ao Estado Drezner.
Em entrevista no Departamento de Estado, um jornalista perguntou: “Está parecendo que os EUA quiseram dizer ao Brasil e a Turquia – pronto, agora vocês saiam do tanque de areia, para deixar que nós, os meninos grandes, possamos brincar.” O porta-voz do Departamento de Estado, PJ Crowley, desconversou, dizendo que os EUA “apreciam” muito os esforços da Turquia e do Brasil.
Em seu anúncio , a secretária de Estado, Hillary Clinton, fez questão de deixar claro quem tem voz ativa nas decisões: “apesar de reconhecermos os esforços sinceros do Brasil e da Turquia, o P5 +1, que se consiste, claro, de Rússia, China, EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha, vai liderar a comunidade internacional para buscar sanções.”
“Esses países estão tentando fazer uma coisa fora da jurisdição deles”, disse ao Estado uma fonte da Câmara.
No início do ano, o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, anteviu os conflitos que iriam surgir com a maior assertividade da diplomacia brasileira no mundo.
Ele disse que a relação bilateral teria “desafios” maiores porque os dois países estão se encontrando em cenários onde tradicionalmente isso não ocorria – diplomacia no Oriente Médio, por exemplo. “Um dos desafios para o Brasil e Estados Unidos, especialmente para a diplomacia dos dois países, é chegarmos a um entendimento à medida em que nos deparamos um com o outro em partes do mundo onde isso não ocorria anteriormente, seja em São Tomé e Príncipe, onde trabalhamos juntos para combater a malária, ou no Oriente médio”, disse Shannon em janeiro.

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“Lula não pode estragar a oportunidade de o Brasil ser a próxima nação indispensável” – esse é o título do artigo publicado hoje no HuffingtonPost por Steve Clemons, famoso blogueiro e diretor do New America Foundation, instituto de pesquisas muito próximo do governo Obama. No artigo, Clemons diz que a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se intrometer no jogo EUA-UE contra Irã transformou o enorme entusiasmo do governo Obama pelo Brasil e por Lula em “uma confusão; para alguns trouxe grandes dúvidas sobre o discernimento do Brasil”.
Ele explica que para os Estados Unidos, fazer com que o Irã desista de sua capacidade de fazer uma bomba nuclear, latente ou real, está perto do topo das prioridades, ou é o maior objetivo de segurança nacional do governo Obama. “E o Brasil se tornou um obstàculo para uma das maiores prioridades dos EUA e da UE”, diz Clemons. “Talvez seja má política de Estado. Ou no mínimo uma aposta arriscada que vai ter custos elevados se fracassar.”
Segundo o articulista, altos funcionários do governo Obama, além de experientes membros no Senado e na Câmara, afirmam que Obama finalmente estava pronto para defender a entrada do Brasil em um Conselho de Segurança da ONU reformulado, mas aí Lula se meteu na confusão do Irã. “E a postura de Lula, até agora, não tem sido de mediador equilibrado, mas sim de defensor das declarações do Irã”, diz Clemons.
De acordo com Clemons, Obama estava tentando dar um “upgrade” na relação com o Brasil, aproximá-lo do status da Grã-Bretanha, Israel e Japão, que têm as chamadas “relações especiais” com os EUA. “Mas a aproximação com o Irã ameaça tudo isso”. A “A viagem do presidente Lula ao Irã e seu entusiamo para se inserir como mediador entre o Irã e os paíse do P5 + 1 (os membros do Conselho de Segurança da ONU, EUA, Rússia, China, Grã-Bretanha e França, mais a Alemanha) está cheia de perigos para seu legado e para as aspirações do Brasil de entrar nas mais poderosas instituições globais”, diz.
Há dois possíveis resultados da viagem de Lula a Teerã, acredita Clemons. Primeiro, o presidente brasileiro pode conseguir convencer o Irã de que é possível escapar das pressões dos P5+1 e achar outra solução política. “Isso iria irritar seriamente o governo americano”, diz Clemons.. .
Ou então, Lula pode levar a Teerã a mensagem que Obama, Javier Solana da União Europeia e o ex-chefe da Agencia Internacional de Energia Atômica, Mohammad El Baradei, querem transmitir – se comprometem a entrar em discussões sérias sobre as preocupações do regime iraniano acreca de sua própria segurança e sua inclusão em instituições globais, em troca de maior transparência sobre seu programa nuclear para aumentar a confiança dos outros países.
“O Brasil, no crepúsculo do governo Lula, precisa consolidar confiança no país em vez de semear dúvidas, na medida em que encara escolhas fundamentais a respeito do tipo de nação que quer ser, em um momento de inflexão em sua ascensão global.”
Clemons conta ter participado de um evento organizado pelo Itamaraty, que teve convidados eminetes pensadores de relações internacionais, como o pesquisador Parag Khanna, Julia Sweig do Council on Foreign Relations, e David Rothkopf do Carnegie Endowment for International Peace. O secretário-geral do Itamaraty, Antonio Patriota, foi anfitrião do encontro. Clemons elogia a estratégia do Brasil de se inserir em novos polos de poder global.
“O Brasil tem mostrado imensa habilidade política ao se posicionar como a “nova nação indispensável” em quase todo novo cluster de nações, tentando preencher um vácuo em um mundo cheio de instituições anacrônicas , cujas estruturas de poder não refletem a realidade atual”, diz Clemons. Para ele, as recentes cúpulas do BRICS e do Ibsa seriam um reflexo do “posicionamento brilhante” de Lula e seu governo, juntamente com a postura do Brasil nas discussões sobre aquecimento global e a ajuda para transformar o G20 no novo centro de poder para assuntos econômicos globais.
“Mas a realidade é que os Estados Unidos ainda são o personagem vital do globo, que pode facilitar ou restringir as aspirações das novas potências.”

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Um operador desastrado, com “dedos gordos”, digitou bilhões em vez de milhões e com isso acarretou “a grande quebra das 14h42”, como está sendo chamado o tombo de 9% que o índice Dow Jones levou na quinta-feira, antes de se recuperar e fechar em baixa de 3,2%. O operador estaria em Chicago, seria funcionário do Citigroup, e teria feito uma venda de US$ 16 bilhões em um tipo de ação que imita o desempenho do S&P 500, em vez de digitar US$ 16 milhões. Esse erro teria desencadeado um efeito dominó de vendas de ações em diferentes bolsas e mercados de balcão, levando à maior queda intra-day da história do índice Dow Jones, de 1000 pontos. Em oito minutos, sumiu quase US$ 1 trilhão em valor de mercado. As ações da Procter & Gamble caíram de US$ 60 para US$ 39,37 e subiram de novo em minutos. O papel da Accenture abriu cotado a US$ 41,94 e chegou a ser vendido a centavos de dólar.
A teoria do “operador de dedos gordos” é emocionante e dominou blogs, canais financeiros e sites de notícias na quinta-feira. Mas, aparentemente, o tombo fenomenal do mercado americano está mais relacioando ao trading de alta-frequência e a proliferação de mercados de ações pouco regulamentados, embora ninguém saiba exatamente o que causou o crash das 14h42.
Hoje em dia, dois terços das transações de ações nos Estados Unidos são feitas por meio de trading de alta-frequência, que se dá por meio de computadores que usam algoritmos para determinar quando comprar e vender ações, quantas ações comprar e quais.Esses algoritmos às vezes respondem a gatilhos, desencadeando ondas de vendas quando um índice ou determinada ação cai ou sobe um certo porcentual. E além disso, com ajuda dos computadores super potentes, os traders que usam alta-frequencia podem rastrear transações em dezenas de mercados, obtendo vantagem sobre investidores comuns. Uma das teorias que circulava ontem é que um algoritmo respondeu à grande alta do yen na abertura do mercado na quinta-feira, desencadeando vendas nos EUA. Outra teoria seria de que algum operador de grande banco teria errado em uma transação com a ação da Procter & Gamble.
O Citigroup divulgou um comunicado na sexta desmentindo os rumores de que um de seus funcionários teria cometido um erro em uma transação de ações, dizendo que não havia nada “irregular ou fora do usual” em seus negócios.
“Claro que, em condições normais de pressão e temperatura, isso não teria ocorrido – o dia começou muito mal, com a Grécia”, me disse um operador. “Pode ser até que alguém tenha feito um erro, mas isso foi um fator menor, o problema mesmo são os algos (algoritmos).”
Outro problema é a multiplicação dos mercados eletrônicos, que negociam agora grande parte do volume que era transacionado na Bolsa de Nova York. A Bolsa de Nova York tem circuit breakers, ou seja, o pregão é suspenso por um determinado período quando há queda de certo porcentual (o tempo de suspensão varia de acordo com a magnitude da queda e o horário em que ocorre). Em outros mercados eletrônicos, isso não ocorre. A Nasdaq cancelou as transações feitas com 286 ações que tiveram queda ou alta de mais de 60% entre 14h30 e 15h da quinta-feira. .
Na Securities and Exchange Commission, a comissão de valores mobiliários dos EIUA, investiga-se a hipótese de que vendas de grandes volumes de papeis na Bolsa de Chicago tenham desencadeado um grande movimento de venda na Bolsa de Nova York. Isso teria acionado o mecanismo de desaceleração de transações da bolsa de Nova York, e investidores teriam passado suas vendas para a Nasdaq e outros mercados.
Um oficial da Casa Branca afirmou ontem que o “operador de dedos gordos” não havia desencadeado o pânico de quinta-feira, mas não soube precisar exatamente o que ocorreu. A SEC limitou-se a divulgar um comunicado prometendo fazer “mudanças estruturais” nos mercados para evitar o caos de quinta-feira.
O presidente Barack Obama disse que “a atividade inusual do mercado” está sendo investigada. “As autoridades regulatórias estão investigando para garantir a proteção dos investidores e evitar que isso aconteça de novo, e vamos divulgar os resultados da investigação, além de recomendações
Ou seja, apagaram do mapa US$ trilhão em oito minutos, e e ninguém sabe o que aconteceu. O negócio vai bem….

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O The New York Times desse domingo tem uma matéria super interessante sobre o famigerado “xarope de milho rico em frutose”, high-fructose corn syrup. O NYT conta que vários fabricantes de alimentos estão trocando o xarope de milho por – veja só – açúcar normal! Aleluia! Agora, já fazem catchup Heinz, vários molhos de salada Kraft, suco de cranberry Ocean spray, tudo com açúcar de verdade. Isso veio depois de muito protesto dos consumidores. Depois de várias pesquisas mostrando que o xarope de milho é muito mais processado que açúcar normal, que foi detectata contaminação com mercúrio, e um estudo letal, dizendo que provoca mais ganho de peso do que açúcar, finalmente fizeram alguma coisa.
A hegemonia do xarope de milho era um retrato de como interesses econômicos podem moldar os hábitos alimentares de um povo. O lobby do milho aqui nos Estados Unidos é poderosíssimo, com senadores como Chuck Grassley, de Iowa, mandando e desmandando no Congresso. Eles garantem em toda Lei Agrícola gordos subsídios para o milho. Os produtores brasileiros de etanol de cana, muito mais eficiente do que o etanol de milho, que o digam. Há anos o Brasil tenta acabar com a tarifa de importação sobre o etanol brasileiro, mas o lobby do milho não deixa.
Pois bem, esse mesmo lobby do milho é tão poderoso que tudo quando é comida industrializada aqui nos EUA usa xarope de milho como adoçante, apesar de haver outras opções muito mais saudáveis.

Por isso é uma ótima notícia que algumas indústrias de alimentos estão ouvindo o consumidor e tirando esse adoçante de seus produtos, finalmente.

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