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Patrícia Campos Mello

A tigela de espaguete não pára de crescer, como diria o economista indiano Jagdish Bhagwati, referindo-se à proliferação dos acordos bilaterais de comércio. E o Brasil está cada vez mais por fora.


O Chile assinou ontem um tratado de livre comércio (TLC) com a China. O país já tem acordos com os Estados Unidos, Nova Zelândia, Cingapura, Brunei,Coréia e Panamá (além de ser sócio do Mercosul). E negocia com Japão, Tailândia, Malásia, Colômbia,Peru e Equador.

Pelo acordo, o Chile se compromete a desonerar imediatamente 50% dos produtos chineses; outros 21% em um prazo de cinco anos e 26% em 10 anos.

Se já estava difícil competir com os produtos chineses no nosso continente (estamos perdendo espaço até no mercado cativo argentino), imagine agora no Chile, com muitas exportações made in China entrando com tarifa zero?

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21.agosto.2006 20:24:20

Gerson globalizado

Além das dimensões continentais e da promessa de ultrapassar as grandes potências, há outra característica que une os ditos BRICs. Tanto o Brasil, como a Rússia, a China e a Índia distinguem-se pela cultura do 171. É a globalização do Gerson.

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Pode parecer exagero e certamente vai gerar comentários indignados. Mas preciso dizer: em todos os BRICs, o jeitinho é endêmico. Vamos começar pela Índia. Da última vez que eu fui pra Índia, perderam minha mala. Em vez de ser indenizada (que audácia a minha, de pensar isso), tive de molhar a mão do fiscal com US$ 10 (uma dinheirama na Índia) para recuperar minha bagagem, depois de 10 longos dias.

Taxi (no caso, moto-riquixá) é outra luta. Precisei ir comprar roupas em um mercado de Delhi. “Jenpath market”, disse ao taxista. Que ilusão a minha, achar que ia ser assim simples. Primeiro, ele me levou na loja de um amigo. “É mais barato, compre aqui”, disse, sem mencionar a comissão que ele certamente ia receber. Tive de pagar 10 rúpias para ele continuar rumo ao mercado. Mas calma, não ia ser tão fácil. Depois de uns 10 minutos, ele parou de novo, ao lado de outra casa. “Marijuana?”. Não, Jesus amado, eu só quero comprar roupa. Resultado: tive que pagar um ágio de 20 rúpias para chegar ao local que eu queria.

Taxi, aliás, é um bom exemplo da globalização do Gerson. Na Rússia, muitos taxímetros são ‘mexidos’. Mas há uma opção informal para os estrangeiros que querem fugir do golpe do táxi. Estenda o braço e peça uma carona – paga. Vários motoristas de Moscou cobram pela carona e completam assim seu orçamento. Sem nota fiscal, óbvio. Para o usuário, é capaz de sair bem mais barato que uma viagem com taxímetro turbinado.

Na China não é diferente. Muitos guias turísticos e motoristas cobram “um por fora”. “Réplicas autênticas” de antigüidades chinesas abundam. A diferença é que, na maior parte das vezes, não dá nem para saber se estão te enganando. Ou você fala mandarim? A ignorância é uma bênção.

Bom, e o Brasil, precisa explicar?

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Que ironia. O Fundo Monetário Internacional acaba de divulgar um estudo onde alguns de seus economistas põem em dúvida os benefícios do livre fluxo de capitais. O Fundo já tinha feito mea-culpa sobre algumas de suas recomendações pós-crise da Ásia, e agora volta-se para um tema que sempre foi anátema nos círculos do FMI e de Washington: controle de capitais. Depois da crise da Ásia, quando a Malásia recusou as “recomendações” do FMI e impôs duríssimos controles de capital, impedindo a saída de recursos, o País foi crucificado pela comunidade internacional de economistas ortodoxos.

No relatório Financial Globalization: a Reappraisal, Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI, e os economistas Ayhan Kose, Eswar Prasad and Shang-Jin Wei admitem que há pouca evidência sobre os benefícios de uma ampla liberalização da conta de capitais. Segundo eles, os países precisam ter instituições confiáveis, grande abertura comercial, políticas de câmbio adequadas e um mercado de capitais aprofundado para poder se beneficiar da liberalização da conta de capitais (coisa que Barry Eichengreen, de Berkeley, e Dani Rodrik, de Harvard, diziam há muito tempo…mas ouvir da boca dos sábios do FMI é outra coisa)

Portanto, antes de descartarmos as políticas da Argentina ou da China, é bom contextualizar. Ninguém está fazendo apologia do controle de capitais, mas pelo menos os economistas ditos ortodoxos agora se dispõem a discutir os prós e contras.

“The biggest problem is not to let people accept new ideas, but to let them forget the old ones.”
John Maynard Keynes

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“Seja bem-vindo em nosso vôo, desde que você não tenha cara de muçulmano”

Depois de vários passageiros entrarem em pânico e se recusarem a voar, dois homens de “aparência sul-asiática” foram retirados de um vôo da Monarch Airlines, que ia de Londres para Málaga, na Espanha. Os passageiros acreditavam que os homens eram terroristas e exigiram que eles fossem removidos do vôo. Muitos deixaram seus assentos e alguns ficaram no portão de embarque, recusando-se a embarcar, enquanto os homens não saíssem do avião.

Os dois passageiros foram efetivamente obrigados a deixar o avião e escoltados por dois policiais para fora da aeronave.

O que me faz pensar – até onde vai este racial profiling? Brasileiros barbados e morenos, cuidado. Vocês podem não ser bem-vindos nos aviões.

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18.agosto.2006 17:52:41

ARIC’s?

A Bloomberg nos informa que os fundos investindo nos “so-called” BRIC’s (Brasil, Rússia, Índia e China, na sigla criada pela Goldman Sachs para os países que terão o maior crescimento do globo e vão alcançar Japão e EUA em 2050) estão rendendo bem acima daqueles dedicados a mercados emergentes em geral.
O índice BRIC do Morgan Stanley Capital International subiu 25% em 2006, enquanto o mais geral MSCI Emerging Markets, que monitora 25 mercados emergentes, teve alta de ‘apenas’ 8,9%.

A moda do BRICs é recente – 75% dos fundos dedicados aos BRICs foram lançados nos últimos 12 meses.

Deus queira que, com nossa letárgica expansão do PIB, não nos expulsem dos BRICs. Argentinos maldosos, munidos de seu incompreensível (para os nossos sábios e o FMI, pelo menos) crescimento de 8,5%, já falam em ARICs.
Esperemos não sair da sigla e continuar recebendo esses capitais.

PS: como ando obcecada pelo tema viagens aéreas insalubres, aqui está uma matéria do The Guardian sobre como viajar na era do terrorismo líquido

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17.agosto.2006 20:27:40

Ajudem-nos a crescer menos!

Bem nos moldes de uma boa e velha ditadura. Na luta para desacelerar sua economia superaquecida, que cresceu 12% no primeiro semestre, o governo chinês resolveu punir três funcionários que permitiram a construção de uma usina de energia não autorizada.

Uma reportagem publicada no International Herald Tribune relata que o diretor da região autônoma da Mongólia e seus dois assessores foram obrigados a escrever auto-críticas (a medida padrão do Partido Comunista para punir os filiados, que se tornou horrorosamente popular durante a Revolução Cultural), por terem autorizado a construção da usina. Segundo o governo, os funcionários não entraram no esforço conjunto de evitar investimento excessivo.

Pequim vem tentando de tudo para desacelerar sua economia pujante: aumentou taxas de juros, proibiu investimentos em certos setores e agora, está censurando funcionários que descumprem as recomendações. O superaquecimento – com uma bolha de investimentos e conseqüente “hard landing” de resultados imprevisíveis – é uma grande preocupação do governo chinês.

Igualzinho ao Brasil, lutando para ultrapassar o medíocre crescimento de 3% do PIB.

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Não se trata de preciosismo higiênico. Viajar 36 horas sem poder escovar os dentes não é trivial.

Estou prestes a embarcar para a Índia, via Heathrow Airport de Londres, e já me preocupo com as provações sanitárias pelas quais vou passar.

malinha

Com todas essas novas medidas antiterrorismo, adotadas desde que a polícia britânica impediu o atentado das bombas líquidas, viajar de avião se tornou quase insalubre. Quer escovar os dentes? não pode levar pasta. Nenhum item de higiene de consistência pastosa, líquida ou intermediária será admitido na mala de mão.

Por outro lado, está aí uma oportunidade de negócios. Vão prosperar empresas que lançarem batons, pastas de dentes e hidratantes desidratados – tipo comida de astronauta.

Sem falar que será impossível fazer aquela malinha de emergência, com uma muda de roupa, para a eventualidade (bastante comum) de ter sua bagagem extraviada. Só vão admitir a bordo dos vôos uma única pequena maleta, nas dimensões de um lap-top. E só.

Como da última vez que fui pra Índia perderam minha mala (e passei 10 dias fazendo entrevistas de bata indiana e outros figurinos locais), estou um pouco preocupada. E pensar que eu reclamava da sovinice da Gol e suas barrinhas de cereal.

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