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Patrícia Campos Mello

Publiquei uma matéria hoje sobre a diferença no nível de cobrança dos candidatos à presidência nos Estados Unidos e aqui no Brasil. Reproduzo a versão ampliada, abaixo.
Depois de a candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, ser questionada em um debate sobre sua saúde, na semana passada, ela disse ter considerado a pergunta “um pouco deselegante”. No dia seguinte, acabou vazando para os jornais uma reportagem relatando que Dilma havia se submetido naquela noite a exames no Hospital Sírio-Libanês. Seus médicos divulgaram uma nota atestando que a saúde da candidata é “excelente”. Dilma foi diagnosticada com câncer linfático em abril do ano passado, teve um nódulo retirado e foi submetida a sessões de quimioterapia.
Nos Estados Unidos, o candidato republicano John McCain, que perdeu a eleição de 2008 para Barack Obama, viu-se forçado a abrir 1.173 páginas de histórico médico, de 2000 a 2008, para serem examinadas por jornalistas durante a campanha. McCain foi diagnosticado com câncer de pele (melanoma) em 2000 e teve tecidos do rosto e pescoço retirados.
A transparência em relação à saúde dos candidatos é apenas uma das áreas em que o nível de cobrança dos eleitores é bem maior nos Estados Unidos. Diferentemente do Brasil, lá os candidatos a cargos públicos são obrigados a prestar contas sobre suas biografias, seus rendimentos e de seus familiares, e histórico médico. Não há lei que obrigue os políticos a fazerem isso. Mas a pressão da opinião pública é tão forte, que eles são compelidos a divulgar dados, para se manterem competitivos na campanha.
Transparência com o passado dos candidatos também não tem sido o forte das eleições brasileiras. Nos Estados Unidos, o candidato republicano John McCain teve seu histórico de veterano da guerra do Vietnã dissecado nas eleições em que se candidatou. Em 2008, a Marinha divulgou todos os registros militares sobre a atuação de McCain. Ele ficou preso durante cinco anos e foi torturado por soldados vietnamitas – como sequela, não consegue levantar os braços nem para pentear o cabelo. Antes da divulgação da Marinha, McCain já tinha abordado sua atuação na guerra longamente em seu livro de memórias, Faith of My Fathers..
Ele era considerado herói de guerra e seus oponentes democratas relutavam em criticá-lo. Mas alguns opositores acusam McCain de ter cometido crimes de guerra por ter bombardeado alvos civis em Hanói nos anos 60.
Aqui a oposição também reluta em criticar a atuação de Dilma na resistência à ditadura militar e os três anos que ela passou na prisão, depois de participar de missões do VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares).
Não há transparência sobre a atuação de Dilma durante o período. Está trancado desde março, num cofre da presidência do Superior Tribunal Militar, todo o processo que levou a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, à prisão durante a ditadura. O relatório foi retirado dos arquivos para evitar “uso político”.
No Brasil, onde vários políticos eleitos tiveram os mandatos interrompidos por estarem doentes, não existe uma exigência de os candidatos prestarem contas sobre sua saúde. O marechal Artur da Costa e Silva sofreu um AVC em 1969, quando estava no poder, levando o pais a um período de turbulência. Tancredo Neves adoeceu na véspera da posse e morreu 38 dias depois, de causas ainda não totalmente explicadas.
Segundo Fábio Wanderley Reis, professor emérito de ciência política da UFMG, a população brasileira ainda tem muito pouca informação política e por isso o nível de cobrança dos candidatos é baixo. “Como dizia o político Milton Campos, a opinião pública é apenas uma pequena parte do eleitorado”, diz. “A opinião pública são aqueles que participam, se manifestam, enquanto o eleitorado é o grosso dos que vão votar.”
Nos Estados Unidos, desde 1980, os candidatos autorizam seus médicos a divulgar seus históricos de saúde, embora isso não seja exigido por lei. George W. Bush divulgou todos os seus históricos e permitiu extensas entrevistas com seus médicos. Bush pai, Michael S. Dukakis, Bob Dole e John Kerry autorizaram entrevistas extensas com seus médicos e deram coletivas discutindo sua saúde. Já Bill Clinton só falou sobre sua saúde quando concorreu à reeleição.
Em maio de 2008, quase seis meses antes do dia da eleição, McCain reuniu um grupo de jornalistas e divulgou seu histórico médico, que é protegido por leis de proteção à privacidade. Depois, McCain realizou uma coletiva de imprensa só para falar sua saúde, por 45 minutos. A queixa, lá, foi que ele abriu os documentos apenas para 20 jornalistas (entre eles CNN, Washington post, Reuters e Associated Press) , que tiveram três horas para examinar o histórico e fazer anotações. A campanha só resolveu abrir o histórico médico de McCain depois de muita pressão de órgãos de imprensa.
Fernando Lattman-Weltman, professor de ciência política da FGV do Rio, destaca as diferenças culturais entre os dois países. E lembra que na França, por exemplo, o câncer do ex-presidente François Mitterrand não era tema de campanha, nem a segunda família que ele mantinha. “Brasil e Estados Unidos estão em estágios diferentes de amadurecimento democrático, as eleições só agora estão adquirindo uma competição real e mobilidade”, diz. “Mas dito isso, é importante ter na agenda a maior transparência e prestação de contas em várias áreas.”
A transparência sobre os rendimentos dos candidatos – e seus familiares – também é bem maior nos Estados Unidos. Na eleição de 2008, o republicano John McCain e os democratas Hillary Clinton e Barack Obama, tiveram de divulgar todos os seus rendimentos, de seus cônjuges e filhos dependentes. Aqui, não há registro de declaração de rendimentos da mulher de José Serra, Monica.
Já eleito, Obama divulga no site da Casa Branca, todo ano, uma declaração de todos os seus rendimentos e bens de quase 10 páginas. Ele declara até o cachorro Bo, que ganhou de presente do ex-senador Ted Kennedy, ao custo de US$ 1.600.
O nível de vigilância dos eleitores também é mais baixo quando se trata de flagrantes de atitudes destemperadas dos candidatos. George Allen, candidato à ao Senado pelo Estado americano de Virginia, perdeu uma reeleição fácil em 2006 depois de ser flagrado ofendendo uma pessoa em um vídeo postado no You Tube. Allen chamou de “macaca” um americano de origem indiana, que estava na plateia de um comício seu, filmando o evento para a campanha concorrente. O vídeo do episódio “macaca” fez Allen perder de seu concorrente democrata, Jim Webb, por 10 mil votos, depois de ter largado com ampla vantagem. Allen era dos mais cotados para ser o próximo candidato republicano à presidência, e a gafe acabou com suas chances.
No Brasil, o vídeo em que o governador do Rio, Sérgio Cabral, ofende um eleitor, não repercutiu em sua enorme margem de vantagem para a reeleição. Em um vídeo postado no site YouTube, Cabral, aparece, ao lado do presidente Lula, discutindo e xingando o jovem Leandro. Na gravação, o rapaz reclama do barulho que o Caveirão (veículo usado pela polícia do Rio) faz na sua rua. Cabral então pergunta: “E o tráfico?”. Leandro responde “na minha rua, não” e Cabral retruca, “não tem nego de metralhadora, não? Então deixa de ser otário, discurso de otário”. Em trecho adiante o governador diz ao menino: “Bota essa inteligência toda para estudar, ô sacana!”

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Caso eleita, Dilma Rousseff pretende criar um grupo de conselheiros no Palácio do Planalto, conforme a mostra matéria da Vera Rosa e da Beatriz Abreu, publicada hoje. A ideia guarda semelhança com o núcleo de assessores especiais da Casa Branca, mas já enfrenta resistência por parte de ministros e secretários de Estado que ouviram a proposta. O projeto de Dilma é escalar um time de auxiliares em áreas estratégicas, como Economia, Assuntos Internacionais, Meio Ambiente, Minas e Energia, Comunicações, Justiça e Segurança Nacional. Os conselheiros se reportariam diretamente a ela e teriam assento no primeiro escalão. Trata-se, na prática, de uma estrutura de apoio ao gabinete da Presidência.
No governo dos Estados Unidos, os conselheiros especiais da Casa Branca são alvo de críticas. O presidente Barack Obama nomeou 31 conselheiros especiais, ou czares, como são conhecidos nos Estados Unidos. Há uma czar para a reforma da saúde, um para aids, para recuperação das montadoras, problemas na fronteira, combates às drogas, recuperação da economia, reforma regulatória, mudança climática, e por aí vai. A crítica é que Obama teria lançado mão de assessores especiais para escapar do escrutínio do Congresso. Todos os secretários, equivalentes a ministros, e chefes de órgãos executivos precisam ser sabatinados pelo Senado, que pode confirmar ou não o indicado no cargo. A oposição republicana no Congresso rejeitou vários nomes indicados por Obama e muitos estão “bloqueados” há meses.
Já os assessores especiais não precisam ser confirmados pelo Senado, basta a nomeação do presidente. “Obama tem mais czares que os Romanovs, que reinaram por três séculos”, alfinetou o senador republicano John McCain, referindo-se à família real russa.
Jim Jones, titular do Conselho Nacional de Segurança, tem o cargo equivalente a Marco Aurélio Garcia, assessor especial da presidência – embora o brasileiro tenha bem mais influência sobre o presidente do que seu contraparte americano.
O czar cuida de um tema específico, tem um orçamento próprio e dá assessoria diretamente ao presidente. Desde Franklin Delano Roosevelt, vários presidentes americanos tiveram “czares”. Mas Obama bateu recorde no número de nomeações.
Outra crítica é que a proliferação desses assessores especiais esvazia as atribuições dos ministros, e às vezes assessores e ministros batem de frente. Dennis Blair, ex-diretor de inteligência nacional , foi o primeiro nome de primeiro escalão a deixar o governo Obama, em maio, depois de vários atritos com John Brennan, o czar de antiterrorismo da Casa Branca.
Além dos chamados czars, Obama tem três conselheiros especiais – David Axelrod, que foi coordenador da campanha do então-candidato e é o funcionário mais próximo do presidente; Valerie Jarrett, amiga dos Obamas desde Chicago; e Pete Rouse, que foi chefe de gabinete de Obama no Senado.

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Conversei na semana passada com o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci. A conversa saiu publicada hoje no caderno especial Desafios do novo presidente – a economia no novo governo.
Palocci é um dos coordenadores do programa da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff. No primeiro governo de Lula, Palocci era o principal fiador da estabilidade macroeconômica. Agora, coordena a campanha de Dilma e é um dos principais interlocutores em temas econômicos.
A grande preocupação da candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff, é assegurar investidores sobre seu comprometimento com a austeridade fiscal, área que é vista como mais frágil pelo mercado financeiro. A evolução das contas públicas é apresentada, relatório de banco após relatório de banco, como o flanco vulnerável de um eventual (e cada vez mais provável) governo Dilma.
Palocci lembra que a petista prometeu assumir uma meta de redução de endividamento em relação ao PIB, além de metas de inflação mais ambiciosas do que as atuais. Em maio, quando Dilma participou de evento organizado pela BM&F-Bovespa em Nova York, ela falou sobre a meta de manter o superávit primário em pelo menos 3,3% do PIB, nível que traria a dívida pública líquida para a razão de 30% do PIB, dos atuais 42%, segundo ela. “É um compromisso fiscal muito forte, porque Dilma vai se comprometer com um nível de endividamento, além de meta de superávit”, disse-me Palocci. Segundo ele, Dilma pretende também assumir metas de inflação ainda mais ambiciosas do que os atuais 4,5% ao ano. “Podemos assumir o compromisso de uma meta de inflação mais ambiciosa, sem um maior custo de política monetária – as condições estão dadas para, gradualmente, baixar a meta de inflação”, disse Palocci.
Outro alvo de críticas, o BNDES, deve ter ajustes. O ex-ministro da Fazenda, um dos principais conselheiros de Dilma na área econômica, afirma que o BNDES vai reduzir sua atuação nos financiamentos e ganhar maior participação do setor privado nas concessões de crédito. “O BNDES não vai manter a expansão dos financiamentos, que foi requisito da crise”, diz Palocci. “Temos de passar para um modelo em que o governo tenha uma parcela menor nos financiamentos, e a parcela privada aumente; vamos fomentar parcerias com fundos privados de infra-estrutura, captar capitais financeiros para os financiamentos do BNDES.” O crescimento do orçamento do BNDES, com capitalizações e consequente endividamento do Tesouro, e o excesso de concentração dos empréstimos da instituição, tem sido questionados. O BNDES está preparando um “pacote de bondades” com incentivos para atrair investidores privados para participar de financiamentos do BNDES.
De modo geral, a ordem é manter o tripé metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário, e apenas fazer ajustes de rota. “As linhas gerais se mantêm, o processo macroeconômico seria melhorado e consolidado”, diz Palocci. “Trata-se de dobrar a aposta”, diz Palocci. Segundo ele, haveria apenas “ajustes finos na política fiscal e de juros e também na questão tributária.”
O déficit em conta-corrente, que deve atingir 2,5% do PIB este ano, não é visto com preocupação pela campanha. “O déficit é decorrente da pujança do mercado interno, mas é sustentável”, diz uma fonte próxima à campanha.

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Entre tantos temas prementes para o eleitor paulista, o candidato Celso Russomanno foi pinçar justamente as ventosas da Sabesp. “A Sabesp não tem na rede de abastecimento ventosas que eliminam o ar da rede de distribuição”, disse, alarmado, o candidato ao governo, durante debate da Folha-Uol. “Eu gostaria muito de saber por que é que nós continuamos a entregar ar em vez de água ao consumidor !”
Entre os grandes problemas do povo, educação em cacarecos, PCC, pedágios pela hora da morte, e agora mais essa: a entrega de ar.
Os acólitos de Russomanno dirão que o deputado simplesmente foca no consumidor, nos mínimos detalhes. O tucano Alckmin tampouco pode ser criticado por negligenciar detalhes: ele deixou bem claro que reduziu impostos para bolachas sem recheio. Sem recheio. Como disse um colega jornalista, afinal quem gosta de Negresco ?
Mas voltando ao pepista.
Russomanno gosta de esbravejar contra temas, digamos, menores. O problema do chocolate não entrar na nota fiscal paulista, veja só. “O governo de São Paulo fez uma publicidade enorme nos meios de comunicação dizendo que os consumidores têm o retorno de todas as notas que pedirem – é uma afirmação falsa e enganosa! O chocolate não entra!” O pepista prometeu entrar com uma representação no Conar, órgão de regulamentação publicitária, para tirar a propaganda do ar. Foi vaiado pela plateia.
Impávido, Russomanno se solidarizou com o motoqueiro Roberto Lima da Silva, que reclamou sobre a proibição das motos nas marginais. “Eu também sou motociclista, vou poder rodar por todas as faixas (no meu governo)”. Ele não especificou se anda de CG 125 ou se faz entregas. Mas logo emendou, declarando seu amor aos caminhoneiros. “Eu conheço bem o (problema deles), porque fui autor da lei do dia nacional dos caminhoneiros”. Suspiros de exasperação da plateia.
Pode-se dizer que Russomanno cumpriu sua função de Plínio da direita no debate. Foi mais comedido e menos divertido, está certo. Mas no quesito ego, ele foi imbatível. “O Celso Russomanno vai melhorar a qualidade do transporte”; “O Celso Russomanno vai governar o Estado de São Paulo”, dizia, ecoando Pelé. O deputado-jornalista-defensor do consumidor fez questão de contar que estava na zona leste, andando numa fila, enquanto “crianças me abordavam pedindo autógrafo…..”

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Voltar ao Brasil depois de quatro anos fora é um aprendizado. E um das coisas mais interessantes é comparar a visão do País e do governo lá fora e aqui dentro. A mídia brasileira é altamente crítica em relação ao governo do PT e a Lula, o que é um exemplo de quão saudáveis são as instituições aqui e quão vigorosa é a democracia. É um alívio, se pensarmos por exemplo na Venezuela, onde canais de oposição têm seus direitos de transmissão cassados. Estive em Caracas há uma semana. Lá, correspondentes da Economist e do The New York Times são atacados na TV, ao vivo, quando escrevem matérias críticas a Chávez.
Dito isso, é de interessante refletir sobre a ditadura da má notícia aqui dentro.
Fala-se em Brasil lá fora, e pensa-se em redução de desigualdade de renda, potência agrícola, e, OK, favelas, carnaval e violência. Abordagens equivocadas de política externa como a aproximação do Irã pegam muito mal, está certo.
Mas existe um consenso sobre a nova estatura internacional adquirida pelo Brasil e os sucessos em políticas de redução de pobreza.
Por aqui, me dá a impressão de que, muitas vezes, “we can’t see the forest for the trees”, o que, na impressão em inglês, significa que estamos nos focando em detalhes e perdendo o todo. Ou seja, está certo, ainda há muito a ser alcançado, principalmente em educação e saúde, áreas em que o Brasil tem situação vergonhosa. Mas não se podem negar os avanços.

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Com direito a filminho e entrevistas ao vivo, o presidente venezuelano Hugo Chávez anunciou um acordo entre a Caixa Econômica Federal e o banco de Venezuela para criar correspondentes bancários em lojas de favelas venezuelanas. Chávez anunciou também um programa de financiamento da Caixa para construção de casas populares em áreas de morros nas favelas. No total, Lula e Chávez anunciaram 27 acordos na sexta-feira, no Palácio de Miraflores.
Empreiteiras brasileiras assinaram vários contratos – a Andrade Gutierrez fará um projeto de geração elétrica; a Queiroz Galvão, de geração hidroelétrica, a Camargo Correa, de saneamento do rio Tui e a OAS, obras em favelas.
Na quarta-feira, foi aprovada em primeira instância na Assembleia Nacional uma lei que permite ao governo venezuelano desapropriar equipamentos e anular contratos de obras públicas que estejam atrasadas ou suspensas. A lei ainda precisa ser aprovada em segunda instância, mas como há maioria chavista, não será um problema.
Segundo executivos das empreiteiras, há a percepção de que a boa relação política entre a Venezuela e o Brasil, principalmente o bom relacionamento de Lula e Chávez, reduz muito as chances de o governo bolivariano nacionalizar projetos brasileiros.
Ou seja, na hora de desapropriar, Chávez optaria antes por empresas e obras de outros países e dos próprios venezuelanos, antes de queimar o filme com os brasileiros.
mas essa garantia está muito ligada ao presidente Lula, e não se sabe o que acontecerá depois que o presidente sair do poder.
é um risco.

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02.agosto.2010 22:18:51

Momento 007 em Caracas

O presidente Hugo Chávez regulou o câmbio venezuelano em janeiro. Para bens essenciais como alimentos e remédios, são 2,6 bolívares fortes para US$ 1. Para todo o resto, são 4,3 bolívares por dólar. Mas falta dólar no país e o mercado negro floresce. No paralelo, um dólar vale sete, oito bolívares. Em maio, o mercado paralelo, ou livre, foi novamente reformulado por Chávez, depois de o dólar bater em 8,2 bolívares. Mas tudo continua nas sombras, embora quase todo mundo recorra a essas trocas paralelas.

Resolvi trocar dólares pela taxa mais vantajosa de 7 bolívares. Perguntei ao balconista do hotel. O sujeito baixou os olhos e disse– se você quer trocar dólares, fale discretamente com uns dos botones , os carregadores de mala.
- Gostaria de trocar dólares.
- Ah, a senhora sabe que não é permitido, é uma coisa complicada.
- Sei sim.
- Quantos dólares?
- 300.
- Me espere aqui que já volto.
Dez minutos depois, Iván está volta.
- Siga-me.
Entramos no elevador do hotel.
- Me mostre o dinheiro
A porta do elevador se abre. Entram três chineses. Iván faz um sinal com os olhos.
Saem dois chineses.
Sai o último.
- Aqui, conte o dinheiro.
- Está certo, 2100 bolívares.
Abre a porta do elevador, entram dois russos.
Saem.
Trocamos o dinheiro, rapidamente.
O botones sorri.
Descubro, mais tarde, que estão trocando dólar a oito bolívares. Humpf.
Pátria, socialismo ou morte, são os dizeres no muro perto do hotel.
Foi efêmero meu momento 007 em Caracas.

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Outro dia saiu uma reportagem mostrando que, segundo o índice Big Mac da revista Economist, o real é a quarta moeda mais valorizada do mundo, só perdemos para Noruega, Suécia e Suíça. Com o dinheiro que pagamos por um Big Mac aqui, dá para comprar dois na Argentina.
A ficha caiu mais ainda quando uma amiga minha portuguesa, que está aqui de visita, foi ao supermercado.
Ela voltou de lá com uma manteiga Sancor, argentina.
- Por que você comprou manteiga argentina?
- Porque era a mais barata.
Pano rápido para a manchete de cadernos de economia de hoje. O déficit em conta corrente do
do país no primeiro semestre chegou a US$ 23,76 bilhões, equivalente ao déficit de todo o ano de 2009, que somou US$ 24,302 bilhões. No mês passado, pelos dados divulgados ontem pelo Banco Central, o saldo da entrada e saída de recursos na conta corrente ficou negativo em US$ 5,18 bilhões, o pior junho da série iniciada em 1947.
Não está na hora de ficar nervoso?

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Como dizem os americanos, a política externa está MIA (missing in action) na discussão eleitoral brasileira. No máximo, a questão emerge ligada a temas polêmicos como narcotráfico e protecionismo. José Serra, por exemplo, afirmou que a Bolívia fazia corpo mole em relação ao narcotráfico. Depois criticou o Mercosul e, no domingo, falou que o Brasil cedeu demais à China. “Eu acho que nós damos muita canja aos chineses. Fazemos concessões exageradas à China. Eles são muito pragmáticos nessa matéria. Nós estamos exportando mão-de-obra demais e precisamos fortalecer nossas defesas e diminuir as concessões”, afirmou Serra a jornalistas em Recife, depois de participar de uma entrevista para uma emissora de rádio. “Vendemos o couro para que eles façam os sapatos e nos vendam. Isso é um absurdo. Nós estamos nos especializando em exportar empregos”, disse Serra a jornalistas, no Recife.
Serra também comparou o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, a Hitler e Stalin. Marina Silva também fez reparo à aproximação do Brasil com países com histórico de desrespeito a direitos humanos, como Cuba e Irã.
Dilma e seu guru de política externa, Marco Aurélio Garcia, atacaram a oposição de Serra ao Mercosul e à Bolívia, dizendo que o tucano estaria ofendendo líderes dos países vizinhos.
Mas ainda não existem propostas mais concretas sobre os rumos da política externa brasileira. A oposição critica o fato de o governo Lula ter deixado de lado o relacionamento com os Estados Unidos, mas não oferece nenhuma alternativa mais concreta de como se reengajar com o país. Dilma aposta suas fichas na integração sul-americana e no Mercosul, mas não há propostas tangíveis para melhorar o relacionamento com os vizinhos, criando, por exemplo, um foro mais eficaz para lidar com medidas protecionistas da Argentina. Tanto oposição como o governo já admitem que a Rodada Doha dificilmente vai sair no médio prazo. Mas enquanto os tucanos pregam um maior engajamento do Brasil em acordos bilaterais de comércio, dilmistas pregam que os acordos devem ser feitos em conjunto com o Mercosul, a começar pela nova tentativa, aos 45 do segundo tempo, de acordo com a União Europeia.
A ver se, aos poucos, os candidatos vão mostrar mais sua sporpostas.

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Como diz uma amiga minha, quando você deixar de usar a faca pra comer, vestir bota de caubói com saia, ou sair na rua de tailleur e tênis, está na hora de voltar. Ainda não cheguei nesse estágio – embora, tenha de admitir, já ache a faca “overrated”, como dizem por aqui. Mas chegou a hora de ir, por motivos de família.
Embarco rumo a São Paulo hoje, de mala e cuia, depois de quatro anos em Washington DC. E achei que devia alguma satisfação aos leitores do blog que me aguentaram nesse período.
Saio dos Estados Unidos gostando ainda mais dos Estados Unidos – e com essa frase, já sei que virei alvo dos anglófobos de plantão.
Foi minha terceira temporada morando por aqui. Em 1996, transferi o ano letivo para a Universidade do Texas em Austin. Em 2000 e 2001, fiz mestrado na New York University e estava em Nova York durante os atentados de 11 de setembro, que cobri para várias publicações. E entre 2006 e 2010, tive a grande oportunidade de estar aqui neste período fascinante.
A campanha do Barack Obama, a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, a maior crise financeira desde a Depressão de 30, a guerra no Afeganistão, os primeiros dois anos do governo Obama.
Fui mesmo muito sortuda de estar aqui nesses “tempos interessantes”.
Agora, parto para novas aventuras em São Paulo e pelo mundo. Até outubro, vou ajudar no esforço de cobertura das eleições brasileiras. Depois, sigo como repórter especial nas áreas de Internacional e Economia. Vou continuar viajando muito e escrevendo bastante no blog, mais até do que a correria de Washington me permitia. E espero que vocês continuem acompanhando as histórias globais.
Um grande abraço
Patrícia

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