Ontem, em Brasília, tive a oportunidade de entrevistar o senador John McCain pela segunda vez. A primeira foi em 2008, durante a campanha presidencial americana. Viajei por três dias com a travelling press no avião do McCain – que era da Embraer. Eu era uma estrangeira no meio de dezenas de jornalistas “carrapatos”, aqueles que colam nos candidatos, de publicações americanas conhecidas. Depois de muito implorar, consegui fazer umas cinco perguntas para McCain sobre assuntos que interessavam a nós, brasileiros – etanol entre eles, obviamente.
Ontem, a situação foi bem diferente. McCain ainda é uma instituição do Senado americano, um heroi de guerra (ficou cinco anos e meio preso no Vietnã e, por causa das torturas, não consegue levantar os braços), o “republicanos mais amado pelos democratas”, a voz da razão no Senado, expert em política externa. Sua reputação sofreu um pouco após a escolha atabalhoada de Sarah Palin para compor sua chapa em 2008. E na campanha para as eleições legislativas deste ano, ele decepcionou muitos de seus admiradores mais moderados ao voltar atrás em algumas de suas posições para agradar aos conservadores do Tea Party e quetais – deixou de ser o defensor apaixonado da reforma de imigração, defendeu policiamento mais drástico nas fronteiras, esqueceu um pouco seus modus operandi bipartidário, tão admirado.
Mas McCain é Mccain, um símbolo americano. E sendo McCain, teve recepção quase presidencial no Brasil – 40 minutos com a presidente Dilma, 45 minutos com o ministro da Defesa, Nelson Jobim; meia hora com Palocci e Temer. Nada mal.
Eu tive a sorte de conseguir meia hora, que viraram uns 40 minutos, com o senador. Ele estava relaxado e bem-humorado, acompanhado de outro senador republicano, John Barrasso.Lambuzado de filtro solar, foi logo pedindo aquele “famoso cafezinho”, na residência do embaixador americano em Brasília, Thomas Shannon – que é unanimidade entre brasileiros e americanos. McCain elogiou inúmeras vezes a presidente Dilma, contou como o presidente Lula foi uma surpresa muito positiva e como as relações bilaterais melhoraram nos últimos oito anos – ele negou qualquer tensão. O senador fez questão de enfatizar que há, sim, diferenças de ponto de vista e opiniões entre os dois países – mas os pontos comuns são muito mais frequentes.
Abaixo, publico trechos da entrevista.
O senador republicano John McCain, um dos mais influentes legisladores americanos e candidato derrotado por Barack Obama na eleição dos EUA de 2008, comemorou a “mudança” da posição brasileira em relação ao Irã. E diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode estar arrependido de suas declarações mais amigáveis em relação ao governo iraniano. “Eu achei interessantes as declarações da presidente Dilma, acho que já há mudança (na posição brasileira)”, disse McCain em entrevista exclusiva ao Estado. “E olha, as pessoas não são perfeitas; talvez, em retrospecto, o ex-presidente (Lula) veja que essa (aproximação com o Irã) não foi a coisa mais inteligente que ele fez, afinal, os brasileiros acreditam na democracia.” A recusa do Brasil a apoiar sanções contra o programa nuclear iraniano foi motivo de muitos atritos entre Brasília e Washington no governo Lula.
McCain teve recepção quase presidencial no Brasil. Foi recebido ontem à tarde por 40 minutos pela presidente Dilma Rousseff, meia hora pelo o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e o vice-presidente Michel Temer, e, pela manhã, por 45 minutos o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Quando veio para a posse de Dilma, a secretária de Estado, Hillary Clinton, sequer conseguiu quinze minutos com a presidente eleita por problemas de agenda – segundo autoridades americanas, a reunião não foi requisitada. Antes do Brasil, McCain foi à Colômbia, e daqui irá para o Chile, Panamá e México. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado.
Os EUA podem cooperar com o Brasil para o policiamento de fronteiras?
Nós poderíamos oferecer assitência técnica, temos tecnologia que poderia funcionar. Mas, francamente, não acho que os brasileiros estão muito interessados em ter nenhuma presença militar americana ou receber conselhos. Mas a resposta real à segurança das fronteiras é a tecnologia. Nós discutimos com o minsitro Jobim os veículos aéreos não tripulados (Vant) e cercas virtuais (como a construída na fronteira do México com os Estados Unidos).
E terrorismo?
Nós discutimos as ameaças à segurança dos jogos olímpicos e da Copa d Mundo que vão se realizar no Brasil. Obviamente, os terroristas querem ir aonde podem fazer suas ações mais espetaculares. Então, não existem organizações terroristas no Brasil, mas certamente há pessoas que estão de olho nesses eventos como alvos de ataques terroristas.
Como o Brasil deveria cooperar com os EUA na questão iraniana?
Amigos discordam de vez em quando. Obviamente, nós encaramos a busca do Irã por armas nucleares, e a opressão de seus cidadãos, incluindo o apedrejamento de mulheres, como comportamento aquém de qualquer norma civilizada, e vamos continuar a condenar.
O sr espera uma mudança do Brasil em sua posição em relação ao Irã?
Vi a entrevista em que a presidente condena esse comportamento bárbaro do Irã. Eu achei interessante as declarações da presidente Dilma, ela teve experiência nesse tipo de tratamento por um governo, acho que já há mudança (na posição brasileira).E olha, as pessoas não são perfeitas; talvez, em retrospecto, o ex-presidente veja que essa (aproximação com o Irã) não foi a coisa mais inteligente que ele fez, afinal, os brasileiros acreditam na democracia.
O sr costumava falar, durante a campanha, na necessidade de criar uma Liga de Países Democráticos para contrabalançar a ascensão de regimes autoritários.
Por causa da emergência da China, vemos menos esforço dos países democráticos para o respeito aos direitos humanos, e por isso precisamos cada vez mais de uma Liga das Democracias. E o Brasil seria ideal, porque emergiu sem nunca ter se envolvido em conflitos militares, e evoluiu de uma ditadura militar para uma das democracias mais eficientes do mundo.
Mas o Brasil tem se alinhado mais frequentemente com países emergentes que não se destacam por suas credenciais democráticas, como China, Venezuela, Irã. ]
O Brasil às vezes faz coisas com as quais eu não concordo. Mas eu acho que nós concordamos em 90% dos casos. E especialmente na América Latina, o Brasil tem desempenhado um papel de intermediador que é muito bem-vindo.
O sr está se reunindo com a presidente Dilma, o vice-presidente Temer e os ministros Palocci e Jobim. É uma grande recepção.
Sim, e somos muito gratos, sabemos da agenda apertada que eles têm.
O sr concorda com a percepção de que o governo petista tem relações melhores com os republicanos do que com os democratas?
(Risos). Na minha opinião, isso iria acontecer mesmo. Mas quando eu vejo como a presidente Dilma e a secretária Clinton se deram bem….
A secretária não conseguiu se encontrar a sós com a presidente….
Eu conversei com a secretária, e ela disse que ficou muito bem impressionada com a presidente Dilma.
Qual recado o sr trouxe à presidente Dilma?:
Queremos uma cooperação cada vez mais próxima, não apenas no mundo, mas também na região. Há algumas áreas muito instáveis neste hemisfério, onde o Brasil pode desempenhar um papel importante, garantir que não piorem.
Que papel o sr espera que o Brasil cumpra na Venezuela?
Espero que o Brasil ajude a convencer as pessoas em nosso hemisfério de que governar por decreto, como Chávez está fazendo, não é democracia. E que as políticas que ele está adotando estão destruindo a economia venezuelana. Quero enfatizar que Brasil e EUA não irão concordar em todas as questões, somos países diferentes, com prioridades diferentes.
Alguns analistas nos EUA afirmam que o tiroteio de Tucson, Arizona, que resultou na morte de seis pessoas e tinha como alvo a deputada democrata Gabrielle Giffords, é resultado de um clima de polarização política nos EUA e uma retórica antigoverno radical. O sr concorda?
Eu concordo que a retórica foi longe demais nas campanhas políticas e que muitas coisas não deveriam ter sido ditas. Mas eu ainda não vi a conexão entre retórica política e um indivíduo demente. Não se pode dizer que o tiroteio foi desencadeado pela discussão política inflamada.
Bem, ele realmente é bem republicano (no sentido estrito da palavra e não no sentido de que pertence ao partido republicano), afinal o governo Lula durante esses oito anos fez a maior força para defender ditadores, genocidas e terroristas.
Um dos casos mais aberrantes para mim foi o encontro do senhor Lula na Africa com aquela penca de ditadores.
Mlhares de crianças e vidas inocentes foram MORTAS quando o Estados Unidos invadiram o Iraq alegando que o Iraque tinha armas quimicas. Resultado: Não foram econtradas armas quimicas até hoje.
Milhares de crianças e vidas inocentes foram MORTAS no Vietnam, uma guerra sem necessidade.
Como na época de Hitler, milhares de imigrantes estão hoje sendo deportados para o seu País de origem, ou seja, estão sendo mandados embora muitas vezes para morrerem em seus países de origem (fome, miséria e etc…).
Infelizmente a parte boa dos Eua que é o Cristianismo perdeu muita força nos ultimos tempos, e o resultado é esse que eu escrevi acima. = Então, antes de falarmos de algo sem prova concreta é preciso pesquisar e almejar a verdade e não apenas boatos ou poder da mídia.
responder este comentário denunciar abuso[...] This post was mentioned on Twitter by Dienes de Lima . Dienes de Lima said: RT @camposmello: John McCain, em solo brasileiro http://tinyurl.com/4fezdq6 [...]
A elgancia na colocação das palavras. A escolha da forma de abordar um assunto evitando fricções. Respeito ao pensamento dos outros e conselhos não invasivos, colocam o Sr. John McCain em plano superior. Um interlocutor que tirou lição do sofrimento e tem o que falar. Nós podemos chegar lá.
McCain sempre foi um cavalheiro, com todos os campos políticos e, felizmente, sempre foi um conservador burkeano, parte da revolução conservadora reaganiana, que nunca transigiu com princípios sendo equivocadamente confundido com os falsos republicanos, os R.I.N.O.’s (Republicans in name only), unicamente por ter um histórico bipartidário.
Nada mais natural que um herói, como McCain, se aproxime de um movimento de resgate da América, de um movimento patriótico como o Tea Party que tanto tem lutado por responsabilidade fiscal, pelos direitos dos estados, por um estado eficiente e livre da gastança corrupta e inútil que no governo Obama superou, em trilhões de dólares, os gastos do governo Bush, àquela epoca vinculados à defesa da América da ameaça terrorista, hoje vinculados ao assistencialismo inútil e ao desperdício com programas keynesianos que no passado atrasaram, drasticamente, a recuperação da grande depressão e hoje sabotam a recuperação estadunidense.
O ataque que a deputada Giffords sofreu, umsa deputada da ala conservadora do Partido Democrata, foi perpetrado por um fã do Manifesto Comunista, um desequilibrado de extrema-esquerda inflado pela retórica de ódio da mídia socialista americana, inflado por jornais (NYT, WPOST, LAT), canais abertos (ABC, CBS, NBC), Canais a cabo (MSNBC, CNN) que pregam o ódio a conservadores o tempo todo.
É profundamente lamentável ver a mídia socialista, lá e cá, tentar usar isso contra o Tea Party e Sarah Palin a despeito da óbvia desconexão com o atirador, um radical de extrema-esquerda, fã de obras totalitárias basilares para o comunismo e o nacional-socialismo, duas ideologias estatistas, anti-libertárias, anti-conservadoras, pregadoras de um estado-máximo e onipotente, exatamente como a extrema-esquerda vem fazendo desde a Revolução Francesa, e a vítima, uma conservadora, ideologia de que também era adepto o juiz federal que foi morto.
McCain representa a casta dominante de los primeros seculos 17,18,19,20:”WASP old stock” White-Anglo-Saxon-Protestant. O pai foi almirante da marinha, e McCain naceu fora dos EUA na “Panama Canal Zone” – territorio colonial de EUA (ate 1902 territoria nacional da Republica Colombia). Ela casou-se com uma multimillionaria (industria da cerveja). McCain esta mentalmente ainda na epoca imperial – e gosta dos jornalistas que fiquem impresionados do seu heroismo de bombardear as cidades de Vietna. Nos EUA estamos entrando numa epoca que terminara primeiro numa crisis social e logo despois algums anos numa luta que inibira a EUA de continuar seu hegemonio mundial: Chegara o mundo “multipolar” mencionada por Dilma. O Brasileiro precisa ter paciencia e unidade nacional para se defender da subversao dos intereses geopoliticos de EUA & OTAN/EUROPA – que tem miles de agentes-de-fato no Brasil como ONGs para paralisar a desenvolvimento economico e desestablicar a unidade etnica. McCain e Shannon sao os “Good Cops” – mas os “Bad Cops” fiquem sem publicidade e sem observacao…
Nem McCain nem seus soldatidos “american” irao “proteger” as fronteiras do Brasil: O pais que nao pode proteger seus fronteiras e EUA , fez decadas de “combate” contra o contrabando : Nem querem acabar com isto – a “industria do combate” precisa o contrabando para combater: Agentes, policios, juezes, pentitenciarios – e uma industria! O problema dos narcoticos e gigante e serio – mas EUA jamais tem tido medo de se aproveitar dum problema como pretexto de mexer em outros paises. – McCain nem falou do projeito dos EUA de trazer a OTAN al Atlantico Sul (e America do Sul): “Cut the atlantic divide” – en vez “Tratado do Atlantico Norte – simplemente OTA Tratado do Atlantico – com base em Belem, Fortaleza, Recife, Rio, Montevideu para a U.S. 4th Fleet – a os “parceiros” da Europa. O General Klaus Naumann da Alemanha estive no Rio para quebrar a resistencia do Itamaraty. Mas Nelson Jobim respondeu NAO! (Veja” Defesanet” e “Fundacao Adenauer”!)
responder este comentário denunciar abusoELE VEIO SÓ TENTAR VENDER OS PRODUTOS DE SEUS PATRÕES. PROMETENTO MUNDO E FUNDOS, 100% DE TRANFERENCIA DE TECNOLOGIAS DOS AVIÕES. ETC, ETC. DEPOIS ´DA COMPRA, COMO SEMPRE FAZEM OS EEUU, A HISTORIA É OUTRA.
Muitos podem dizer que estou delirando numa febre mal curada da antiga bipolaridade mundial (EUA x URSS), mas o Mr. McCain veio somente para dar o seguinte recado:
Ótimo que uma mulher tenha sido eleita a primeira presidente do Brasil, porém não se esqueçam de atender nossas demandas, porque se quisermos, podemos e faremos, se necessário, atrapalhar a vida de vcs.
Olha que intrigante… os EUA condenam o Irã, mas a Arábia Saudita que faz muito pior eles nem comentam, inclusive dão a esse país status de Aliado Estratégico… é brincadeira, e de mau gosto.
Lula pode não saber jogar xadrez, mas pensa estrategicamente como se soubesse. A relação que ele criou entre Brasil e Irã nada mais é que uma manjada operação de enxadristas: agrada-se o inimigo, que sente que o terreno se abriu e o inimigo avança. Quando ele já pensa que conquistou simpatia e território, o terreno se fecha e muda-se o comportamento. O que era alegria vira crítica e agora o opositor, acostumado ao bom relacionamento precisa alterar substancialmente seus planos diplomáticos para manter-se em pé, sem que saia chamuscado da exposição ora oferecida com a abertura do terreno. Nada de Lula gostar ou não gostar do Irã. Apenas estratégia para que seu líder se enrosque nos meandros diplomáticos que viriam a seguir. Ou ninguém se perguntou pq Lula deixou Irã para fim de mandato? Será que sou só eu que vejo essas operações de bastidores? Ninguém aí joga xadrez?
Desculpe, mas agora li o restante da matéria e tenho que me pronunciar novamente. 40 minutos de entrevista para essas perguntas factóides? Nada mais inteligente saiu dessa conversa? Não acredito.
Entrevista muito interessante pois fazia algum tempo eu tinha a curiosidade em saber qual a percepção dos americanos com relação ao novo governo brasileiro. E pela entrevista as coisas tendem para uma boa relação, o que certamente será benéfico para eles e para nós também. É obvio que eles os americanos não são santos, mas nós mesmos estamos longe de ser.
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