Voar da Europa para os Estados Unidos se transformou em um transtorno. Vindo de Portugal, passei 2 horas na fila da segurança dentro do portão de embarque – ou seja, depois de meia hora na primeira fila da segurança, antes de ir para os portões, passei outras duas horas em uma segunda fila.
O voo, obviamente, saiu mais de uma hora atrasado.
“As companhias aéreas precisam pedir aos passageiros que venham pelo menos três horas antes do embarque, e cheguem ao portão duas horas antes”, disse-me um dos portugueses responsáveis pela segurança. “Desde o dia 25, todos os voos para os EUA estao saindo atrasados.”
Mas não posso reclamar da gentileza e atenção dos funcionários, tanto em Portugal como nos Estados Unidos. Na imigração em Newark, estavam especialmnente simpáticos.
Não podem dizer o mesmo os cidadãos dos 14 países da lista negra americana, que serão sujeitos a regras mais estritas: Cuba, Irã, Sudão, Síria, Afeganistão, Argélia, Iraque, Líbano, Líbia, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita, Somália e Iêmen. (aliás, estranho incluir Cuba e excluir Egito, de onde vêm muitos extremistas).
Uma grande amiga, jornalista libanesa, já se preparava para enfrentar sua condição de cidadã de segunda classe nos aeroportos americanos. “Eu volto na sexta-feira do Líbano, e estou chateada; é deprimente estar na lista dos 14 países”, ela me disse. “Além disso, acho que se trata de uma lista idiota, só para as autoridades dizerem que estão fazendo alguma coisa.”
Pelo menos desta vez não morreu ninguém pisoteado na entrada de uma loja. Mas a orgia de consumismo que começa na chamada Sexta-Feira Negra, logo após o dia de Ação de Graças, continua assustadora.
Resolvi acompanhar de perto a sanha aquisitiva dos americanos na sexta de manhã cedinho. Na porta da Target, uma loja de departamentos, deparei-me com hordas de consumidores cheios de remela, mas felizes.
Era gente como como a estudante universitária Camilla O’Neal, de 20 anos. Ela saiu de casa às 23h30 de quinta-feira para aproveitar as melhores ofertas da “sexta-feira negra”, o dia das maiores liquidações do ano nos Estados Unidos. Pegou uma carona com um amigo e à meia-noite já estava na fila, esperando a loja de departamentos Kmart abrir. Lá, comprou dois pares de sapatos, um pijama, um videogame e dois brinquedos. Camilla voltou para casa às 2h30 da manhã, mas a maratona estava apenas começando. Às 7h, ela acordou e pegou o metrô até a Target, outra loja de departamentos. Esqueceu de tirar o pijama, aparentemente. Encontrei-a na porta, onde ela me mostrou, triunfante, o assento massageador que comprou por US$ 35, desconto de 40%, e um forninho por US$ 16,99, desconto de 50%. “Só gastei US$ 300 e já fiz todas as compras de Natal”, comemorava.
A poucos passos dali, o cozinheiro Hernan Sandoval também estava com uma cara de cansado, mas contente. Ele foi um dos poucos felizardos a comprar uma TV de plasma de 31 polegadas por US$ 300 – elas se esgotaram em 4 minutos na Target. Ele aproveitou e levou outra TV de plasma, essa de 46 polegadas, por US$ 800.
No ano passado, o segurança de um Wal Mart do Estado de NY morreu pisoteado às 5h da manhã, quando 2 mil pessoas se espremeram para entrar na loja. Neste ano, foram adotadas várias medidas de segurança para evitar tragédias como essa. Resolveram distribuir pela loja os chamados “doorbusters”, as super ofertas que normalmente ficam perto da porta e levam consumidores a literalmente saírem no tapa pela mercadoria. O Wal Mart ficou aberto 24 horas, em vez de só abrir às 5h – assim evitou-se o tumulto na porta.
Até a AAA, a associação dos automóveis americanos, lançou um guia chamado “Dicas para evitar ser pisoteado por consumidores descontrolados”. Uma das dicas é: se você cair, não fique deitado de costas ou de bruços, fique enrolado como uma bola e tente se arrastar na direção da multidão. “Mas o melhor mesmo é fazer compras acompanhado, porque se você for derrubado pela multidão, alguém estará lá para ajudá-lo”, diz o guia.
Para os menos intrépidos, amanhã é o melhor dia de compras – a Ciber Segunda-Feira, quando os varejistas online fazem promoções monumentais – e ninguém corre o risco de ser pisoteado ou levar uns tapas por causa de um Zhu Zhu Pets Hamster, o hamster robô que está em falta nas lojas (e sai US$ 55)..
A grande pergunta dos economistas é : será que esse vai ser o Natal do Snuggie ou do GPS? Muitos analistas acham que os americanos voltaram as lojas, mas só estão comprando quando há promoções, de olho no orçamento. Muitos vãos se ater a presentes baratinhos ou necessários, como casacos, os famigerados Snuggies – o cobertor “vestível” que é a estrela dos comerciais de TV (e agora ganhou uma versão canina, por US$ 7,99) – e outras bugigangas. Na outra ponta, alguns já estão se aventurando a comprar itens mais caros como GPSs, TVs de telas plana, o Rock Band dos Beatles.
Olha, eu não sei se vou de Snuggie ou de Rock Band dos Beatles. Mas certamente não vou encarar turbas enlouquecidas aqui nos EUA (ou estacionamentos infernais nos shoppings no Brasil). Vou comprar pela internet.
O jornal americano Washington Post publicou hoje uma entrevista com a pré-candidata do PV à presidência, a senadora Marina Silva. Com o título “A guerreira da Amazônia conquista o mundo”, a entrevista diz que Marina será a “filósofa-ativista” não-oficial da reunião climática de Copenhagen, no mês que vem, mas não menciona em nenhum momento a pré-candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente. Marina se mostrou pessimista em relação às perspectivas de algum tipo de acordo em Copenhagen.”Não é muito promissor o que se conseguiu de consenso até agora, nos encontros que precederam Copenhagen”, disse a senadora. “O que os líderes concordaram em fazer não é suficiente.”
Marina se disse “entusiasmada” com a tramitação da lei climática no Congresso americano, apesar de a legislação ainda não ter sido votada pelo Senado. “O fato de mudança climática estar de novo na agenda dos EUA é tremendamente importante, depois de o país ter estado ausente das negociações internacionais por 10 anos”, ela disse. “Mas eu reconheço que não ter uma lei climática aprovada pelo Senado cria um problema.” O presidente Barack Obama, ao lado do chinês Hu Jintao. É um dos poucos líderes que não confirmou presença em Copenhagen, em parte proque se arrisca a chegar de mãos vazias.
Marina disse ao jornal americano que trabalhou e viveu com Chico Mendes, “dividimos amizade e parceria” “Se ele estivesse vivo, iria concordar que avançamos muito”, disse. “Mas ele também iria concluir que nossos esforços estão muito aquém do que o que o planeta necessita.”

.”
“O Brasil decola – agora o risco para a grande história de sucesso da
América Latina é a arrogância”. Esse é o título de reportagem especial
publicada pela respeitada revista The Economist nesta quinta-feira,que
traz na capa uma foto que mostra o Cristo Redentor impusionado por um
foguete. Em seu especial com oito reportagens sobre negócios e
finanças no País e mais um editorial, a Economist afirma que o Brasil
“entrou em cena no palco mundial” e vai se tornar a quinta maior
economia do mundo até 2014. E que depois de ser subestimado por anos,
o País hoje supera os outros BRICs em vários quesitos. “O País está
passando por seu melhor momento desde que um grupo de navegadores
portugueses chegaram às costas brasileiras em 1500″, diz outro artigo
sobre o Brasil, na revista. “O Brasil já havia sido democrático antes,
havia tido crescimento econômico e baixa inflação – mas nunca havia
tido essas três coisas ao mesmo tempo.”
Mas a publicação inglesa alerta para as armadilhas que vêm pela
frente. “Da mesma maneira que seria um erro subestimar o Brasil,
também é um erro ignorar suas fraquezas”, adverte. “Muito dinheiro do
contribuinte está está sendo gasto nas coisas erradas” e há pouco
investimento público e privado. Para a Economist, Lula está certo ao
dizer que seu país merece respeito e “ele também merece muito da
bajulação que recebe”. “Mas Lula também tem sido um presidente de
muita sorte, colhendo os frutos de um boom de commodities e
trabalhando a partir da plataforma sólida construída por seu
antecessor, Fernando Henrique Cardoso”. A revista volta a chamar o
presidente de “Lula sortudo” em outro artigo. Para manter o bom
desempenho do Brasil em um mundo com condições mais difíceis, o
sucessor de Lula vai ter de lidar com alguns dos problemas que o
presidente achou que podia ignorar, adverte a revista.
A reportagem lembra que, em 2003, quando economistas da Goldman Sachs
cunharam o termo BRICs, muita gente torceu o nariz para a inclusão do
Brasil no time de economias vencedoras. “Brasil? Um país com taxas de
crescimento tão minúsculas quanto seus biquinis, vítima de qualquer
crise financeira que estiver à espreita, um lugar com instabilidade
política crônica, onde a capacidade infinita de desperdiçar seu óbvio
potencial é tão lendária quanto seu talento para futebol e carnavais”,
diz a reportagem.
“Agora, esse ceticismo parece equivocado”, afirma a The Economist. Em
outro artigo da revista sobre o país, a Economist diz que o Brasil
costumava ser sempre uma promessa, mas que agora começa a se tornar
realidade.
O País não conseguiu passar incólume pela recessão, mas este entre os
últimos países a entrar, e os primeiros a sair.A revista diz que o
Brasil deve crescer a taxa anualizada de 5%, mas que deve acelerar nos
próximos anos, na medida em que campos de petróleo comecem a produzir
e os países asiáticos continuem consumindo os alimentos e minerais do
Brasil. “As previsões variam, mas em algum momento antes de 2014, o
Brasil vai se tornar a quinta maior economia do mundo, ultrapassando a
Grã-Bretanha e a França – bem antes do que a Goldman Sachs achava.”
Até 2025, São Paulo será a quinta cidade mais rica do mundo.
O Brasil supera os outros BRICs em alguns fatores, diz a revista.
“Diferentemente da China, o Brasil é uma democracia, diferentemente da
Índia, não tem insurgentes conflitos étnicos ou religiosos ou vizinhos
hostis, e diferentemente da Rússia, exporta mais do que apenas
petróleo e armas, e trata investidores estrangeiros com respeito.”
A Economist diz que o Brasil, durante o governo Lula, reduziu a
desigualdade social. “De fato, quando se fala em políticas sociais
inteligentes e aumento do consumo doméstico, o mundo tem muito mais a
aprender com o Brasil do que com a China.”
“Em resumo, o Brasil entrou em cena no palco mundial”, decreta a The
Economist. E essa entrada foi marcada de forma simbólica no mês
passado depois que o Rio ganhou o direito de sediar as Olimpíadas de
2016
A Economist diz que a emergência do Brasil tem sido “constante, não
repentina”. A revista lembra que os primeiros passos foram tomados nos
anos 90, quando, esgotadas todas as outras possibilidades, o país
“adotou políticas econômicas sensatas”.Segundo a publicação inglesa,
essas políticas produziram uma trupe de novas e ambiciosas
multinacionais brasileiras – cita Petrobras, Vale, Embraer, Gerdau,
JBS. “Há um grande volume de investimento estrangeiro indo para o
Brasil, impulsionado pela redução da pobreza e crescimento da classe
média” Além disso, diz a The Economist, o país estabeleceu
instituições políticas fortes. ” Uma imprensa livre e vigorosa revela
atos de corrupão – embora ainda haja muito disso, e a maioria fique
impune.
Mas a revista faz um alerta. “Da mesma maneira que seria um erro
subestimar o Brasil, tamém é um erro ignorar suas fraquezas”. Segundo
a The Economist, os gastos do governo crescem mais rápido do que a
economia, mas tanto o setor público quandto o privado investem muito
pouco, o que ameaça as previsões otimistas.”Muito dinheiro do
contribuinte está está sendo gasto nas coisas erradas”. A folha de
pagamento do governo aumentou 13% desde setembro de 2008, gastos com
previdência social e aposentadorias aumentaram 7% no mesmo período,
apesar de a população ser relativamente jovem. “Apesar de melhoras
recentes, a educação e a infra-estrutura ainda são muito piores do que
na China ou Coréia do Sul (como um blecaute nesta semana lembrou). E
em partes do Brasil, crimes violentos são a regra.”
O real se valorizou quase 50% diante do dólar desde o início de
dezembro. Isso melhora o nível de vida dos brasileiros porque barateia
produtos importados, mas dificulta a vida dos exportadores. O governo
impôs uma taxa sobre entrada de capitais, mas, segundo a The
Economist. “isso dificilmente vai deter a valorização da moeda, ainda
mais quando o petróleo começar a jorrar”.
E a Economist lembra que ainda se usa o “jeitinho” para conseguir
muita coisa no Brasil. E diz que o Estado brasileiro parece um
alquimista ao contrário – transforma ouro em chumbo. “Brasil gasta
três vezes mais que a China com saúde, e tem indicadorers piores.; os
gastos em educação são respeitáveis 5% do PIB, mas os estudantes
brasileiros estão sempre no final da lista da OCDE”.
A resposta instintiva de Lula para os problemas é política industrial,
diz a revista. O governo vai exigir que equipamentos petrolóferos
sejam produzidos por indústrias brasileiras ee stá pressionando a Vale
para investir em siderurgia. “É verdade que a política pública ajudou
a criar a base industrial do Brasil”, diz o artigo. ” Mas foi a
privatização e abertura da economia que as tornaram eficientes; E
enquanto isso, o governo não está fazendo nada para remover alguns dos
obstáculos que dificulta, fazer negócios no Brasil – como regras
barrocas para o pagamento de impostos e contratação de pessoa.” Dilma
Rousseff insiste que não será necessária uma reforma das leis
trabalhistas.”Talvez a maior ameaça ao Brasil seja a arrogância. “
Para a Economist, Lula está certo ao dizer que seu país merece
respeito e “ele também merece muito da bajulação que recebe”. “Mas ele
também tem sido um presidente de muita sorte, colhendo os frutos de um
boom de commodities e trabalhando a partir da plataforma sólida
construída por seu antecessor, Fernmando Henrique Cardoso”. “O atual
presidente do Brasil recebeu muito do crédito pelo crescimento da
economia que deveria ser dado a seu antecessor, Fernandpo Henrique.
Mas Lula manteve as reformas que herdou e fez algumas conquistas
sozinho .”
Para manter o desempenho melhorado do Brasil em um mundo com condições
mais difíceis, o sucessor de Lula vai ter de lidar com alguns dos
problemas que Lula achou que podia ignorar, adverte a Economist.
O artigo termina em um tom otimista. “A rota do país parece estar
traçada. A decolagem é ainda mais admirável porque foi alcançada por
meio de reformas e instituições democráticas”. E ainda alfineta o
líder dos BRICs. “Ai, se a China pudesse fazer o mesmo”
Como diria o jogador de beisebol Yogi Berra, versão estadunidense do nosso saudoso Vicente Mateus, é “déjà vu tudo de novo”.
Há 45 anos, o historiador Richard Hofstadter publicava na revista Harper um ensaio que se tornou um clássico “O estilo paranoico na política americana”. Em plena guerra fria, quando o ultra-conservador Barry Goldwater havia acabado de vencer a primária republicana, Hofstadter descreveu como a histeria de direita tinha tomado conta da política americana. Os radicais estavam sequestrando a agenda republicana, entre eles os lunáticos da John Birch Society, que viam comunistas até dentro da privada. Em comum, todos eles tinham uma predileção especil por teorias de conspiração – tudo era orquestrado secretamente, havia um inimigo oculto, estavam aí para persegui-los.
Quase cinco décadas depois, os malucos de extrema direita voltam a ter força e ser encarados como parte normal – ou a parte principal – do Partido Republicano. Veja o movimento dos “birthers” – eles têm certeza de que o presidente americano na verdade nasceu no Quênia.apesar de a Casa Branca ter mostrado a certidão de nascimento de Obama, que nasceu no Havaí. Até hoje, foram abertos doze processos alegando que Obama não é cidadão americano e, portanto, não pode ser presidente.
O que podia ser só um delírio de três doidos não morre. Com ajuda da internet, aliás, amplifica-se. Segundo Cass Sunstein, guru de behaviorismo econômico da universidade de Chicago e czar de regulação de Obama, trata-se de uma balcanização de informação digital ou ciberpolarização: como esquerdistas só frequentam sites e blogs de esquerda e só trocam ideias com esquerdistas, eles ficam cada vez mais radicais – e o mesmo vale para os direitistas
.
As alas mais radicais do partido republicano são encabeçadas por Glenn Beck, o apresentador da Fox News que acusa Obama de “não gostar de gente branca”, Sarah Palin, que dispensa apresentações, o eterno Rush Limbaugh, o mais popular radialista de direita, Michelle Malkin, outra figurinha carimbada entre os comentaristas. Essa tropa de choque da extrema-direita tomou conta da agenda republicana e está esmagando as vozes moderadas. Republicanos que eram apenas fiscalmente conservadores, pró-business e a favor de menor intervenção do governo na economia – ou seja, uma ala moderada – estão sendo sufocados por essa facção mais estridente, paranoica.
As manifestações dos “tea parties”, que reuniram dezenas de milhares de pessoas em Washington e outras cidades, e as assembleias sobre a reforma da saúde, transformaram-se no “mainstream” do conservadorismo. É gente que chama Obama de nazista, fascista ou comunista, dependendo do humor; diz que o país está se desamericanizando por causa do aumento da população hispânica, acusa o presidente de fazer lavagem cerebral nas crianças ao falar em rede nacional para as escolas; nega-se a tomar a vacina contra gripe suína porque ela provoca autismo ou é uma trama do governo.
As teorias conspiratórias estão por todos os lados e tive uma amostra disso na situação mais prosaica.
Eu me sentei ao lado de um senhor no avião no voo de volta de Istambul, onde fui cobrir a reunião do FMI no início de outubro. Era um senhor de uns 70 anos, que me contou ter emigrado da Alemanha para os EUA há 50 anos. Papo vai, papo vem, ele me conta que faz parte da John Birch Society e dá palestras por lá sobre fatos distorcidos pela imprensa.
“Os jornais distorcem tudo, não ficamos sabendo das coisas reais ao ler a grande imprensa”, ele me disse.
Bom, até aí não discordo completamente, pensei comigo.
O senhor começou me contando sobre os piratas somalis, que tinham motivos para sequestrar pessoas. “Afinal, estão sendo inundados por contêineres cheios de lixo nuclear.”
Depois, ele me contou sobre o globalismo – essa proposta mundial de acabar com os países e ter apenas um governo global, com um presidente que mandaria em todos e eliminaria as nacionalidades.
“Eu não sei se esse presidente é o Obama – mas muita gente acha que sim.”
Comunistas, globalistas, é “déjá vu tudo de novo”.
Eu me lembro bem da época em que o Brasil queria ser “um país gente grande” e ganhar o selo de qualidade “grau de investimento”. Vira e mexe ia um economista gringo para São Paulo e pontificava – a relação dívida-PIB do Brasil é muito alta, o país é muito arriscado.
Anos e inúmeras debacles de escala global depois, a Standard & Poor’s e a Moody’s andam à procura da credibilidade perdida, o Brasil é grau de investimento, e os países emergentes parecem cada vez mais seguros.
O FMI divulgou um estudo na semana passada sobre endividamento pós-crise global. No ano que vem, a relação dívida-PIB dos 10 países mais ricos do G20 será de 106%. Isso mesmo, 106%. Já os emergentes que fazem parte do G20 (como Brasil,Argentina, México)tinham relação dívida-PIB média de 38% em 2007, e ela deve cair para 35% em 2014, ou seja, menos de um terço do índice nos países ricos.
E a remuneração dos títulos do Tesouro americano continua subindo.
Coca Light – ou zero – é meu último vício. Eu, como muitos workaholics que pararam de fumar, sou movida a Coca Zero, já que não tomo café. E chiclé, ok, preciso de um chiclé para dar partida em vários textos.
Mas não é que meus vícios inofensivos estão ameaçados? Aqui nos Estados Unidos, Pigou é rei. O economista inglês Arthur Cecil Pigou está por trás da idéia de impostos que coibem alguns comportamentos nocivos, ou externalidades negativas, ao mesmo tempo em que reforçam o caixa público. Em sua homenagem, taxas sobre bebidas alcoólicas e cigarro são chamadas de impostos de Pigou – além de gerar receita para o governo, fazem um bem para sociedade.
E nesta hora de caixa apertado, nada como mais um impostinho de Pigou. Está ganhando força a idéia de taxar bebidas com açúcar, como Coca-Cola, Pepsi,Red Bull, Gatorade, que estão por trás da epidemia de obesidade do país. A idéia foi lançada como uma das formas de financiar a reforma do sistema de saúde.
Até aí nada de mais, acho mais que justo taxar uma coisa que faz mal à saúde. Mas por aqui, as coisas tendem sempre a escalar. Em NY, começaram proibindo o cigarro, depois baniram a gordura trans e chegou uma hora em que havia até regra contra andar de bicicleta sem por os pés no pedal (aliás, tema de matéria sensacional do Christopher Hitchens).
A próxima vítima era o dióxido de carbono – mas a idéia de um imposto sobre poluentes se transformou em uma lei de “cap and trade” aguada, cortesia do lobby do carvão limpo (que para mim é oxímoro) e outros poluidores.
Dessa maneira, tenho certeza que, mais cedo ou mais tarde, vão chegar no último refúgio dos aditos, a Coca Light. Certamente vão descobrir que o adoçante ou o gás da bebida é nocivo e também podia ganhar sua taxa de Pigou. O chiclé então, é alvo óbvio, com perdão da aliteração. Fonte de vandalismo público (isso é com vocês, que grudam o negócio embaixo da mesa), além de poluição sonora (é, mascadores que não fecham a boca aberta), o chiclé já já vai ganhar sua sobretaxa. E a nós, o que vai restar? Vamos todos voltar a fumar?
CHENEY – Ele mesmo faz piada com seu apelido, Darth Vader. Mas acho que o ex-presidente Dick Cheney não pode imaginar como ele se encaixa perfeitamente no papel de vilão (quase tão perfeitamente quanto o Michel Temer no papel de mordomo de filme de terror). Ele tem uma risada maldosa, alfineta o presidente mais popular da história, fica o tempo todo aterrorizando as pessoas com o espectro de um novo 11 de setembro. E como todo bom vilão, Cheney tem sacadas geniais, de um sarcasmo saboroso. Na quinta-feira, logo após Obama fazer seu discurso moderado e racional sobre Guantánamo e segurança, Cheney assumiu o pódio no American Enterprise Instite, reduto dos neocons renhidos.
Uma boa alfinetada foi para The New York Timnes, nêmesis de egressos do governo Bush. “A reportagem impressionou o comitê do Pulitzer, mas certamente não ajudou os interesses do país ou a segurança do nosso povo”,disse Cheney, referindo-se à reportagem em que o jornal revelou o programa de escutas telefônicas clandestinas do governo.
Outro foi sua interessante defesa do método conhecido como simulação de afogamento, que para ele não é tortura. “Chamar esse programa de tortura é caluniar os profissionais dedicados que salvaram milhões de vidas americanas, e retratar terroristas e assassinos como vítimas inocentes. Parece até que ele está falando de enfermeiros.
E Cheney não podia deixar de cutucar aqueles esnobes que se rendem à elite intelectual européiae desdenham sua “América Profunda”. “É fácil ser aplaudido na Europa pelo fechamento de Guantánamo, mas é difícil achar um a alternativa que ainda satisfaça as necessidades de justiça e segurança do povo americano.”
Concluindo senhor deputado – a revista The Economist, em sua nova coluna sobre a Ásia, fala sobre o “Schadenfreude” dos chineses em relação à derrocada econômica americana. Schadenfreude, em mandarim, é “xing zai le huo”, ou o sentimento de que a perda de outra pessoa é seu ganho, levando até a regozijo por causa do desastre alheio.
E nunca mais mencione manipulação do câmbio, senhor Tim Geithner.

Em 1999, a revista Time publicou uma capa com o título “O comitê para salvar o mundo: como os ‘três mercadeiros’ evitaram uma crise econômica mundial, até agora”. Os heróis da crise asiática eram o então secretário do Tesouro Robert Rubin (que depois se tornou presidente do conselho do Citigroup, um dos bancos mais afetados pela crise atual); o ex-presidente do Fed Alan Greenspan, que passou de “maestro” e “gênio” para alimentador oficial de bolhas; e Lawrence Summers, que está cotado para ser secretário do Tesouro no governo Obama, se as feministas deixarem (quando era presidente de Harvard, Summers falou que há menos mulheres na área de ciências por razões biológicas).
No final de semana, tivemos aqui em Washington uma tentativa de comitê para salvar o mundo versão 2008, com 20 líderes reunidos para discutir a crise mundial que só piora. A cúpula do G-20 começou alardeada como “a nova Bretton Woods”, mas aí foram baixando tanto a bola do evento, que a reunião nem foi noticiada na capa do the New York Times de sábado.
Nem 8 nem 80.
A reunião não foi um sucesso retumbante, mas as expectativas eram tão baixas que não foi difícil superá-las. O documento lista uma série de recomendações detalhadas e muitas reivinidcações dos emergentes para lidar com a crise mundial. Mas há uma armadilha: apesar de terem incluídos muitos tópicos considerados necessários, a linguagem do documento é vaga o suficiente para dar aos países espaço de manobra para fugir dos comprometimentos.
Se toda essa agenda ambiciosa sair do papel, aí sim poderemos ter um novo comitê para salvar o mundo 2008, com Gordon Brown, Sarkozy e Strauss-Kahn na capa da Time. (E Lula? E Taro Aso? Vai dar uma briga essa capa…)
Nessas andanças pelos rincões da América, tenho visto muitos contrastes. E outro dia li uma notícia que traduz esses contrastes com perfeição.
O governo do estado de Dakota do Norte está oferecendo prêmios para os jovens que quiserem se tornar pastores de ovelha – eles ganham 10 ovelhas e podem pegar emprestado um carneiro pra começar na profissão.
O estado está com dificuldades de atrair os jovens para esse ofício, digamos, anacrônico. Só sobraram 840 rebanhos de ovelhas no estado (eram 1900 nos anos 80), os pastores estão ficando velhos e não têm substitutos.
Ele podiam importar pastores da América Latina, da África, com visto H1B, de mão-de-obra especializada – o mesmo que recebem os técnicos em computação da Índia e os garçons do Fogo de Chão, não é?

Sabe aquele suéter lindo de cashmere que você comprou por uma pechincha? Pois é, ele está acabando com as pastagens da China e criou uma nuvem de poluição que chegou até a Califórnia.
Uma série de matérias de Evan Osnos, correspondente do Chicago Tribune na China, mostra como o aumento na demanda pelo cashmere está causando um enorme desequilíbrio ecológico. A população de bodes produtores de cashmere da região de Alashan, na China, multiplicou-se por 15 na última década. Essa superpopulação de bodes acabou com as pastagens da região. E como os animais ficam raspando os cascos pontudas no chão – é como se eles estivessem sempre de salto agulha, brinca Osnos – geram uma gigantesca nuvem de poeira. Essa nuvem de poeira atravessa o Pacífico e está poluindo a costa da Califórnia, que já registrou um aumento na incidência de problemas respiratórios.
Os EUA foram inundados por cashmere barato da China nos últimos anos. Foi-se o tempo em que suéter de cashmere era made in Italy ou France, e custava no mínimo US$ 100. Hoje em dia, uma malha de cashmere sai por US$ 25.
A democratização do cashmere e suas conseqüências ambientais é um ótimo exemplo sobre o preço que pagamos pelo boom chinês.
É hora de boicotar o cashmere e salvar as pastagens da China.
2011
2010
2009
2008
2007
2006