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Patrícia Campos Mello

“Pelo menos 95 mortos em série de ataques em Bagdá”. Esta é a manchete do The New York Times online hoje.

Desculpe, para mim é cada vez mais difícil engolir o “spin” do governo americano nessa guerra. “Com o aumento no envio de soldados, a chamada escalada (surge) de tropas, a situação no Iraque melhorou muito, então nós pudemos iniciar a retirada de tropas”. Melhorou como?
Dia sim dia não, morrem mais de 50 pessoas com ataques de carro-bomba e homem-bomba no país. Isso é situação melhor?

Eu acho que vai ser a mesmíssima coisa no Afeganistão. Os americanoas não têm mais dinheiro e em breve vão perder o apoio do público para a guerra do Afeganistão. As eleições legislativas ocorrem no ano que vem, e o governo democrata não quer levar uma sova nas urnas.
A Casa Branca vai arrumar algum jeito de “spin” a situação e dizer que está vencendo a guerra, por isso podem ir embora.

O Afeganistão, como o Iraque, terá sua “vitória por decreto”, pouco relacionada às reais condições no país.

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Algumas coisas horríveis são repetidas tantas vezes que nos deixam insensíveis. Bombas no Iraque e no Afeganistão, por exemplo. Uma bomba que causa a morte de dez pessoas no Afeganistão já virou “pé de página”, dada a frequência desse atentado. Eu confesso que cheguei aqui um pouco anestesiada em relação à situação das mulheres no Afeganistão. A gente ouve falar tanto sobre a burca, e o problema das afegãs que não podem estudar, que acaba se acostumando.

Mas nada como um banho de realidade. Ir a abrigos de mulheres vítimas de violência foi uma experiência, digamos, iluminadora. Conversar com essas mulheres nos faz ver como somos privilegiadas – podemos trabalhar, estudar, podemos não trabalhar por opção própria, se acharmos melhor só cuidar dos filhos, e podemos até cobrir uma guerra – vi muitas fotógrafas de guerra e algumas jornalistas ocidentais aqui no Afeganistão.

Antes de tudo, podemos ir na delegacia de mulheres ou simplesmente pedir o divórcio se o marido nos espancar regularmente. Isso parece óbvio, mas no Afeganistão, não é.

A situação da mulher afegã é muito mais horrível do que nós imaginamos. As meninas crescem achando que a violência é um direito natural do homem, e a subserviência, uma qualidade da mulher.

Cerca de 80% das mulheres afegãs são submetidas a casamentos forçados – e 57% casam antes de completar 16 anos, a idade mínima determinada por lei.

Uma pesquisa da entidade Women and Children Legal Research mostra que 17,2% dos casamentos forçados são motivados pelo Baad, uma tradição tribal que é ilegal. Para compensar famílias por algum dano, as jirgas, os tribunais dos líderes tribais dos vilarejos, determinam que o causador do dano dê sua filha à família do lesado como pagamento, ou Baad.Por exemplo, se um irmão ou pai comete um assassinato, a jirga se reúne e pode determinar que a irmã ou filha do assassino seja dada à família do assassinado.

Em outros 16,6% dos casos de casamento forçado, a filha é dada como pagamento de dívidas. Muitas vezes o pai é viciado em ópio, e dá a filha para pagar dívida de drogas. Outros 30,3% dos casamentos forçados são Shughar, ou troca de noivas – as famílias fazem intercâmbio de suas filhas. Isso é comum porque os maridos sempre precisam pagar para “comprar” uma noiva – no Norte, chega a ser US$ 5 mil.No Shughar, não há dinheiro envolvido, por isso muitas famílias preferem.

De acordo com o mesmo estudo, “Violência contra mulheres No Afeganistão”, de 2008, 58% das mulheres em casamentos forçados são espancadas pelos marido ou sofrem algum tipo de violência. Dessas, 12,5% contam já ter tido algum membro fraturado e 6,6% ficaram com deficiência física permanente.

Grande parte das mulheres é analfabeta e casa-se ainda na infância. Segundo a pesquisa, 38,2% das noivas têm entre 11 e 15 anos e 46,9% têm entre 16 e 20 anos. De acordo com a legislação afegã, só mulheres com mais de 16 anos e homens com mais de 18 podem se casar.

Na maioria das famílias, as mulheres precisam da autorização dos maridos para desempenharem qualquer tipo de atividade. Por isso, sem poder ter um emprego ou sair de casa, a maioria fica isolada e acaba não denunciando agressões dos maridos.

Divórcio não é uma opção. Em 2006, o último ano com dados disponíveis, houve 158 divórcios no país inteiro. As mulheres precisam da aprovação dos homens para se divorciar (o inverso não se aplica). E para isso, eles costumam exigir a guarda dos filhos e algum pagamento em dinheiro.

Ou seja, além de reconstruir um país devastado por 30 anos de guerra, os americanos terão de lidar com a situação das 11,5 milhões de mulheres – metade da população do país – que são invisíveis e não têm direitos. Acho difícil o país voltar a algum tipo de normalidade sem lidar com esse problema.

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O centro distrital de Pachir Wa Agam abriga a polícia e o governo do distrito. O centro vem sendo constantemente atacado por insurgentes – os bad guys ou miscreants (incréus), como dizem os afegãos. Pachir Wa Agam é o distrito onde ficam as cavernas de Tora Bora, o famoso esconderijo de onde Osama bin Laden escapou das forças americanas.

“O inimigo ainda está em Tora Bora”, diz o chefe de polícia Pachir Wa Agam. “Mas o Taleban não gosta do clima lá, então quer vir se apossar do nosso distrito”, diz ele, dando gargalhadas da sua própria piada.

A última vez que houve ataque no centro foi há dez dias, às 11h30 da noite, ele conta.Durante uma hora e meia, os insurgentes atacaram com RPGs (rocket propelled grenades), morteiros e AK-47s.

Os Taleban gritavam para os policiais afegãos – “Deponham as armas, seus filhos de Bush!” Aparentemente, isso não era um elogio.

O chefe de polícia é uma figura. Ele fala um pouco de inglês, faz gestos eloqüentes e muitas caretas. Coça a barba. O nome dele é Faizan Kazi Zada, que significa Faizan filho de um juiz. Mas o chefe de polícia, na realidade, é médico. Dr Faizan Kazi Zada, chefe de polícia, filho de juiz.

Enquanto explicava isso para os soldados americanos, o chefe de polícia parou e, olhando para mim, perguntoou: “Ela é convidada?”

“Sim, é jornalista, nossa convidada”, disse o tenente Brian Schroeder.

Aí então começou a valer o Pashtunwali, o código de honra dos pashtuns. A hospitalidade é um dos princípais mandamentos do Pashtunwali (daí porque Osama bin Laden, como tinha sido convidado pelo Taleban, nunca seria entregue por eles para os americanos, isso iria totalmente contra o Pashtunwali)

No meu caso, a hospitalidade ditada pelo Pashtunwali começou com uma descrição detalhada da região. No meio de sua explanação sobre os vales de Pachir Wa Agam, o chefe de polícia se levantou, agarrou o rádio que estava a seu lado, e zap! matou uma vespa com o rádio.Deu um sorriso triunfante – como o presidente Barack “I got the sucker” Obama ao matar a mosca que o importunou durante uma entrevista.

“Mas continuando, nossa convidada deve saber que as mulheres de Pachir Wa Agam são muito trabalhadoras, e nós temos escolas para mulheres aqui.”

Nisso, entrou na sala o chefe de inteligência do distrito. E nem todo mundo é, digamos, moderno como o chefe de polícia. O chefe de inteligência começou a cumprimentar um a um todos os soldados e tradutores que estavam na sala. Chegou na minha vez, ele deliberadamente “pulou”. Isso, como se eu fosse invisível, por ser mulher (vale dizer que eu estava devidamente coberta com véu, mangas compridas, etc).

Após a entrada do chefe de inteligência, o Dr Faizan tocou uma campainha – que era uma mistura de Pour Elise do caminhão de gás com algum toque de celular enervante. Um soldado entrou na sala, recebeu algumas ordens, e saiu rapidamente. Voltou carregando várias RPGs e granadas. Pôs tudo no chão.

“Isso é o que recolhemos do inimigo, muitas dessas não explodiram e ainda podem ser usadas”, disse o chefe de polícia aos soldados americanos, que estavam na sala.Ou seja, ali no chão, havia o potencial para explodir uns 5 quarteirões.

De novo, veio o Pour Elise mix. O soldado levou embora as RPGs e granadas. Voltou com melancias para todos.

“Nossa convidada quer bolo?”

“Claro.” E aí veio o bolo. E depois o indefectível chai, o chá.

Mas calma, pois não se pode tomar chai com melancia, “dá doença”, Dr Faizan avisou. É o equivalente afegão ao nosso “manga com leite morre”

Depois de trocar mais impressões com o chefe de polícia, o tenente americano disse: “E então, podemos ir com seus homens para fazer uma busca nos locais onde os bad guys estão escondendo armas e montando posições?”

Claro, disse Farzai. Só que daqui a pouco. Ou sorria, você está na Bahia.
“Os meus homens agora vão almoçar. Vai demorar uma meia hora. Vocês também não querem comer?”

Os americanos mais estressados começaram a se irritar. “What the f…..Como assim, e se eles estivessesm sob ataque, iam parar para almoçar??” gritava um pelo rádio.

“Calma, é preciso entender a cultura”, disse o tenente.

Veio o pão, arroz e carne. Comemos com a mão. Nosso anfitrião, gentilíssimo, até trouxe uma colher para a “convidada” pouco hábil ao comer o pão com arroz.

Acabado o almoço, quis deixar os homens mais à vontade para conversar e subi no teto, onde alguns soldados estavam de guarda. Lá, deitado em uma dessas camas que tem em todo lugar aqui, estava o subgovernador. Um senhor de uns 60 anos, barba e cabelos tingidos de vermelhos, poucos dentes na boca, cuspindo em uma lata ao seu lado. Muito simpático, assim que eu cheguei, ele me convidou para sentar e disse: Chai?

O subgovernador estava recebendo petições de seus eleitores, para cuidar de problemas.

Logo depois chegou o tradutor (ou TERP, de interpreter, como são chamados pelos soldados), e tivemos a conversa básica – Journalist, Brazil, Football. Com ele, veio o tenente Schroeder.
O subgovernador disse ao tenente americano que precisava da presença dos americanos durante as eleições, porque ele esperava muita ação dos “bad guys”.

Mas o tenente explicou que a ação das forças americanas terá de ser apenas secundária, de ajudar as forças locais, para que não haja acusações de interferência estrangeira no pleito.

O subgovernador suspirou.

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Depois de uma hora, saímos nos quatro MRAPs, seguindo uma caminhonete verde da polícia nacional afegã, a ANP. Entramos numa estrada que era uma poeira só e a paisagem foi ficando cada vez mais lunar. Paramos perto de uma caverna.Os policiais afegãos e os americanos desceram para verificar.

Bem do lado da estrada tinha uma coisa verde.

“Esse é o vidro da frente da caminhonete da ANP que foi estraçalhada por um IED há três semanas. Um cara perdeu as duas pernas, e o outro perdeu o pé”, disse-me o senhor Ken Silvia (ele disse que o sobrenome era português). Silvia é aposentado da Força Tarefa Antiterrorismo do departamento de polícia de Nova York, o famoso NYPD. Ele se aposentou em 2006. Em dezembro de 2008, veio pra cá. Faz análise das bombas usadas e das estratégias dos terroristas, tipo CSI.

“Então, o chefe de polícia disse que ainda está cheio de Taleban em Tora Bora”, eu comentei.

“Lotado”, ele disse, resignado.

“E por que vocês não vão até lá pegá-los?”

“Eu sei, é frustrante. Mas essa é uma guerra diferente. Não é sair por aí matando os bad guys. Isso não adianta. Precisa partir da polícia e do exército afegãos. Eles precisam estar capacitados e ir atrás dos bad guys.”

Contra-guerrilha é uma estratégia totalmente diferente. Antes, os EUA estavam se concentrando em matar os insurgentes. Mas é muito difícil diferenciar o insurgente de pessoas comuns e os americanos acabavam matando muitos civis. Com isso, estavam perdendo o apoio da população.
Agora, a estratégia é: separar, aproximar e construir. Primeiro, separar o povo dos insurgentes. Fazer com que eles deixem de dar abrigo e suporte aos Taleban. Depois, trazer o povo para perto do governo, fazer com que os afegãos confiem nas instituições. Depois, construir uma sociedade sustentável.

A idéia é, em vez de matar os insurgentes, fazer com que as pessoas não mais abriguem esses terroristas. Os terroristas precisam sempre das populações locais – para obter inteligência, para manter suas linhas de suprimento.

“Mas isso vai vai demorar quanto tempo para dar resultados?”
“Ah….anos, 10 anos, 20 anos..”

É bom combinar com o Congresso americano, pensei comigo.

Estava um calor de rachar catedrais, como diria o grande Nelson Rodrigues, ou senegalesco, como diria o grande Rolf Kuntz. Resolvi voltar para os MRAPs estacionados à beira da estrada. Mas antes, algo me ocorreu.

“Como é que a gente sabe se não tem outra IED nesta estrada, com um sujeito lá em cima daquela montanha pronto para apertar a tecla do celular e detonar?” eu perguntei a um sargento.

“A gente não sabe”.

Ah, tá.

“E a gente também não sabe se tem minas por aí, portanto, ande com cuidado. Os russos deixaram muita coisa, e é difícil de ver, parece pedra ou está enterrado.”

Pensando bem, vou ficar aqui fritando no sol.

As cavernas não tinham depósitos de armas. Era um alarme falso.

Mas, no dia seguinte, a missão foi mais frutífera. Saímos de novo com os policiais afegãos. E fomos para um vilarejo. Não é que lá, no meio de um milharal, eles acharam vários restos de morteiro e posições de ataque? Os americanos recolheram os materiais, muitos deles russos, e deram para o sr Silvia fazer o seu CSI.

****

Choques culturais

Chaska, em pashtu, é a palavra usada para designar os meninos mais novos, com caras angelicais, que são usados como brinquedo sexual pelos homens. Como é muito fechada a sociedade, mulheres só mantêm relações sexuais após o casamento, é comum haver chaskas. As mulheres são para reprodução e os chaskas, para diversão, explica-me Khalid, um dos tradutores afegãos. Nem todo mundo faz isso, mas é amplamente aceito. Os policiais afegãos sempre fazem piadas – e costumavam chamar o cabo Larry Reger, que tem carinha de menino, de chaska.

Khalid me conta que ninguém pode ter relação sexual com a mulher antes de casar. “O Taleban vai atrás e enforca ou apedreja”, diz.

Continuando nos tópicos mais delicados, pergunto a Khalid o que ele faria se a mulher dele quisesse se divorciar. Para ele, a simples idéia de um divórcio é inconcebível.

“Ela não pode se separar.”

“Sim, eu entendo, mas e se ela se separasse?”

“Ah, ela seria banida e as pessoas iam bater muito nela.”

“Que pessoas?”

“Ah, meu pai, eu.”

“Mas as pessoas então nao se divorciam?”

“Acho que até pode. Mas eu nao conheço ninguém.”

“Você normalmente bate na sua mulher?”

“Eu não, porque eu amo a minha mulher. Mas tem muita gente que bate.”

“E ela usa burca?”

“Só para ir até a cidade.”

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Nunca imaginei que isso ia me acontecer um dia – uma coronel (ou será coronela?) foi meu anjo da guarda.

Tudo aqui no Afeganistão é difícil, como seria de se imaginar em uma país pobre, em guerra há 30 anos e montanhoso. Locomoção, só de helicóptero. Mas, dizem-me os americanos, há um déficit de helicópteros. Então cada deslocamento é um parto, claro, a prioridade vai para os soldados , que têm uma missão essencial a cumprir. E os jornalistas esperam abrir vaga nos helicópteros (ou birds, como eles chamam).

Obviamente, em uma guerra com a participação do exército americano, o The New York Times consegue a vaga antes que o Estadão. Entao eu fiquei presa aqui em Jalalabad. Meu destino inicial era a província de Kunar. Mas, fui informada, demora cinco dias para conseguir um vôo para a base aonde eu queria ir. A solução seria uma outra base.

Acordei as 4h da manhã e pulei num helicóptero para Finley Shields. Cheguei aqui perdidona, caí literalmente de para-quedas sem saber quem contactar, nem sabendo direito para onde eu ia. Estava eu puxando a mala e mais os 20 quilos de colete antibala e capacete a 45 graus centigrados, mais cinco toneladas de mau humor, quando veio uma moca loira e me disse – você é a jornalista do Brasil?, disse ela, entre uma colherada e outra de iogurte com morangos.

E eu , aliviada : “Sim!”

“Ah, eu sou a Coronel Nelson, a comandante daqui.”

Uau. A mulher, super simpática, me levou para a sala dela.

” É, eu disse para o pessoal do public affairs que esse lugar aonde queriam te mandar não era ideal, pois você não ia conseguir ver o que queria, então eu estou aqui providenciando”, ela me informou.

Magra, alta, loira, bonita – essa é a coronela Nelson. Super despachada, fala sem parar, um monte de besteiras politicamente incorretas engraçadas , tem 41 anos (parece 30).

“E aí, é dificil ser comandante, os homens afegãos te respeitam?”

“Olha, tenho muito mais dificuldade com os americanos, viu!”

Na mesa, tinha uma foto dela com um homem e duas crianças em Segways.

“São seus filhos?”

“Não, são meus enteados, filhos do meu marido. Eu sou a terceira mulher. Mas para os afegãos digo sim, são meus filhos, para não complicar.”

Eu também já aprendi. Aqui, como na Índia, falo que sou casada e ponto. Divorciada soa como “sou portadora do vírus Ebola”.

Coronel Nelson fez alguns telefonemas para seus homens na base de Connolly.

“Podem receber a jornalista do Brasil?”

Mulher ponta firme. Resolveu tudo em 20 minutos. E ainda me incluiu numa missão super interessante – “Você vai agora com o pelotão Ugly para falar com a polícia de Jalalabad, eles tiveram um IED lá recentemente.”

À noite, voltei lá para agradecer. “Muito obrigada, Coronel Nelson.”

E ela: “Imagine, nos vemos na volta, você vai de helicóptero, mas volta de comboio, aí nos vemos.
Estou indo na aula de aeróbica. Não é genial, tem uma oficial que nos dá aula de aeróbica aqui”

Genial.

Acabo de pusar em Kogyani.

Coronela porreta essa.

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Queridos leitores
vou postar a materia sobre a missao em Mangow, que saiu no Estado de hoje.

Base de Kala Gush, Nuristan, Afeganistão

Quando o capitão Luis “Ímã de Balas” Arriola subiu no MRAP, o veículo resistente a bombas, os outros soldados americanos brincaram. “Xi, o Ímã de balas está vindo com a gente, melhor nem sairmos da base.” Nas últimas vezes em que o capitão Arriola saiu em missão, os americanos foram atacados por insurgentes. Três semanas atrás foi uma bomba na estrada, que fez o Humvee à sua frente capotar. O atirador quebrou as duas pernas. Uma semana antes, eles foram alvo de uma granada.

Na quinta-feira, o capitão Arriola, do segundo batalhão da 77ª artilharia, era parte de um grupo de 28 soldados que se dirigia ao centro do exército nacional afegão em Mangow, a cerca de 10 quilômetros da base de Kala Gush.

Há exatamente um ano, o centro – uma casa depenada com dez soldados afegãos dormindo no chão – foi atacado pelo Taleban. O comandante afegão , Mohamad Ishak, matou o líder do Taleban local e mais dois insurgentes. Um de seus homens morreu no ataque.

Um ano depois, os americanos queriam demonstrar seu apoio aos afegãos. A missão era passar a noite de guarda no centro, além de levar sacos de areia para barreiras, arame farpado e munição. De quebra, a presença de 3 MRAPs e 2 ASVs (veículos blindados) deveria intimidar o Taleban, caso insurgentes estivessem planejando um ataque de retaliação – o irmão do guerrilheiro morto assumiu a liderança do Taleban no local.

O centro fica a apenas 7 quilômetros da fronteira com o Paquistão, no meio das montanhas da província de Nuristan, no leste do Afeganistão. Os insurgentes atravessam as montanhas na fronteira paquistanesa, atacam, e fogem de volta para a terra de ninguém que é Oeste do Paquistão. Esse é um dos principais problemas enfrentados pelo exército americano na guerra do Afeganistão.

O presidente Barack Obama está enviando mais 21 mil soldados para o país, elevando o efetivo americano no Afeganistão para 68 mil até 2010. A maioria dos soldados foi para o sul, onde a guerrilha Talebã está mais ativa. Mas com a ofensiva americana no sul e o aperto do exército paquistanês, cresceu o número dos ataques no leste. Até agora, o mês de julho teve o maior número de mortes de soldados americanos desde o início da guerra em 2001 – foram 31 baixas. A maioria das mortes, 16, ocorreu no leste.O número de bombas de estrada (IEDs) também vem aumentando de forma expressiva – no sul, foram 1217 neste ano, diante de 683 no mesmo período do ano passado. No leste, o número subiu de 604 em 2008 para 811 em 2009.

Poucos minutos antes de partir em direção a Mangow, o líder do pelotão, tenente Anthony Great, reuniu seus homens para um alerta de inteligência. “Acabei de receber relatos de que há duas IEDs escondidas na estrada até Mangow, cada uma de 16 quilos, suficientes para um bom estrago. Então vamos mandar na frente um Raven (avião não-tripulado para reconhecimento da área) para limpar a rota, e ninguém mais vai de Humvee, vamos só de MRAPs e ASVs.”

A estrada é onde os americanos estão mais vulneráveis. Os MRAPs foram criados porque muita gente estava morrendo quando bombas atingiam os Humvees, que oferecem pouca proteção. Mas as estradas no Afeganistão são boas só para quem anda de burro. Para um MRAP de quase 3 metros de altura, são um perigo – está capotando um a cada 72 horas, diz um comandante.

Agora, o Pentágono está tentando adaptar os veículos para o país. Afinal, os MRAPs foram feitos para as estradas planas e bem mais desenvolvidas do Iraque, e trazidos direto para as montanhas do Afeganistão.

Dentro dos MRAPs, os soldados vão se falando o tempo inteiro no rádio, principalmente em busca de pessoas suspeitas nas montanhas, de onde podem detonar uma bomba usando um celular.

“Nightmare 6, Nightmare 6 (nome do pelotão), homem de preto às 9 horas em cima dessa construção….”

“Ok, estou de olho nele”

“Cuidado, tem sete crianças à frente”

“Olha, esse menorzinho parece o meu menino”

“Quantos filhos você tem?”

“Dois, a minha menor tem nove meses, já está se arrastando naqueles andadores.”

Com as estradas horríveis e os veículos enormes, foi quase uma hora para chegar ao centro regional do Exército Nacional Afegão – uma casa sem janelas, cheia de marcas de tiros, com colchões espalhados pelo chão. São dez soldados lá, contando com o comandante. Os afegãos receberam os americanoscom uma refeição de luxo – mataram três frangos, ensoparam, e serviram com pão, que faz as vezes de colher.

Como exceção, o comandante afegão convidou a repórter para se sentar no chão junto com os homens e compartilhar da refeição – normalmente, uma mulher não comeria junto.

Os soldados americanos montaram posições de guarda, começaram a por o arame farpado e as barreiras de sacos de areia Hesco.

“De que tipo de ajuda você precisa?” perguntou o capitão Christopher Carpenter, comandante da companhia.

“Preciso de mais munição e mais armas”, disse o comandante Ishak.

“Quais as chances de vocês conseguirem metralhadoras do governo?”

“Eles prometem, prometem, e nunca dão nada.”

Os soldados afegãos tinham as armas coladas com fita crepe vermelha, estavam sem capacete ou colete, e alguns fumavam haxixe. No centro do exército afegão, água vem do poço e a única ilunimação é uma lâmpada acoplada a uma bateria de carro. Não tem banheiro, tem um buraco no chão de terra. A cachorra Bedar “sempre alerta” am dari, fazia a alegria dos soldados.Os americanos, enquanto isso, ficavam o tempo todo com sua parafernália – capacete, óculos de visão noturna, etc.

Também fazia parte da missão um soldado à paisana, que faz o elo com os afegãos – um militar treinado na língua local e costumes, que usa barba e lenço típico afegãos.

Depois de muito chá e conversa, alguns foram dormir no teto. Outros ficaram de guarda com seus Night Vision Goggles – que dão uma visão semlhante a filme de 3D, mas sem a noção de distância, por isso é comum os soldados tropeçarem.

Tudo calmo. O dia amanheceu e os soldados lançaram um Raven para ver se a barra estava limpa.

“Eu dava a vida por um Starbucks, um café e um muffin”, dizia um cabo.

“Eu preciso muito de um banho”, dizia o outro.

Antes de ir embora, mandaram outro Raven para fazer reconhecimento.

A entourage americana partiu as 5h. Não se sabe se, depois que os americanos forem embora, os Talebans vão aproveitar para atacar em retaliação. É sempre o risco de trabalhar junto com as tropas estrangeiras. “As pessoas que atacam vêm das montanhas, o Taleban aproveita que acabou a neve e vem no verão”, diz Ishak. Para o comandante Ishak, vai demorar muito até que os americanos possam deixar o país. “Ah, vai levar pelo menos uns 10 anos, para tudo ficar pacífico.”
As 6h, o comboio de MRAPs e ASVs cruzou o portão da base Kala Gush, sãos e salvos.

Dessa vez, o “Ímã de Balas” não fez jus a seu apelido. Que bom.

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Alguém já disse que guerra é assim: horas de tédio, interrompidas por minutos de terror.

Aqui na base de Kala Gush, o ditado cabe perfeitamente.

A base está encravada no meio de montanhas na província de Nuristan, num lugar lindo. São 250 pessoas, sendo apenas 9 mulheres. Bem na frente, fica o vilarejo de Nangarech, com 200 pessoas.

Estou num barraco de madeira com três outras mulheres. Cada uma tem seu quarto, com divisória de madeira. E cada uma arruma do seu jeito. Minha vizinha da esquerda pendurou na porta um pano afegão lindo que ela comprou no bazar. Uma vez por semana, os locais vêm até a base vender algumas coisas.

Essa minha vizinha de quarto é inteira tatuada

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“Quantas tatuagens você tem?” eu perguntei, olhando para o braço dela, inteiro coberto de desenhos coloridos, bem bonitos.

“Não tenho nem idéia…só sei te dizer em horas…o braco levou 25 horas…mais as costas, pescoço, quadris…..acho que tenho no total 42 horas de tatuagens.”

Ela tem 24 anos, cabelo curtinho ruivo e é super agitada. Seu marido, que não é militar, tem 36 anos
“Ele é super certinho, só tem uma tatuagem – uma cruz no braço.”

Minha vizinha está um pouco frustrada. Ela é médica de batalha e queria ir mais para o fronte. “Eu pedi para me mandarem para um lugar onde eu posso ajudar o pessoal na batalha….mas aqui, é tudo muito esparso…”

A batalha é bem espalhada mesmo. A maioria dos ataques é com IEDs, as bombas de estrada, Rocket Propelled Grenades e suicidas.E grande parte do trabalho de contra-guerrilha é pouco sexy, como me diz o líder do pelotão Nightmare, Tenente Anthony Great. “Nós vamos lá conversar com líderes da região, ajudá-los com a segurança, criar confiança.”

Mas o inimigo é imprevisível, como no Iraque. E Barg-e-Mattal está aí para confirmar. Barg-e-Mattal é uma base próxima de Kala Gush, que fica em uma região bem parecida, também em um vale. Nos últimos sete dias, a base está sob fogo cerrado dos insurgentes, que atacaram das montanhas, pelos dois lados. Três soldados americanos já morreram.

O capitão Luiz Arriola, que tem na bagagem 15 meses de Iraque, estava “complacente”, como se diz aqui muito. “Já estava até dormindo dentro dos MRAPs nos trajetos para as missões, bem tranqüilo, achando que nada ia acontecer.” Uma granada, uma troca de tiros e um IED o deixaram mais esperto. Há cerca de 4 semanas, os soldados foram verificar a torre de rádio e acabaram recebidos por fogo cerrado e granadas. Há três semanas, o Humvee que estava na sua frente foi atingido por um IED, capotou, e o atirador – o soldado que fica em cima, para fora do veículo – quebrou as duas pernas. “Ele foi pra Alemanha, graças a Deus não vai perder as pernas.”

Esses são os minutos de terror. Nas horas de tédio, eles jogam ping-pong, basquete, muito videogame, ficam no telefone e na internet.

À noite, é um breu só. Só podemos usar lanternas com luz vermelha, para não nos tornarmos alvos fáceis. Obviamente, no primeiro dia, fui parar no quarto errado – só me dei conta quando vi um uniforme pendurado. Ooops.

Na quinta-feira à noite, fui com o pelotão Nightmare numa missão em Mangow, para montar guarda no centro regional do exército nacional afegão (basicamente, 10 caras em uma casa depenada, segurando armas grudadas com fita crepe vermelha). Eles estão sendo ameaçados pelo Taleban e já foram atacados. Fiz uma matéria sobre a operação, que sai no jornal no domingo.Depois eu posto aqui.

A esmagadora maioria dos soldados fuma. Se não fuma, masca tabaco – e fica cuspindo numa garrafa. Eca. Prefiro que soltem fumaça na minha cara.

Beber eles não podem. O que faz sentido, em um país muçulmano, não seria muito “smart power” ter um monte de soldado enchendo a cara na base enquanto o pessoal morre lá fora.

Há banheiros de alvenaria e também os mal-cheirosos banheiros químicos. O das mulheres é surpreendentemente limpo. Duchas devem durar no máximo 5 minutos, mas muita gente desrespeita

A base é cercada de barreiras feitas com sacos de areia, muros altos e arame farpado, além de várias torres de segurança. Há vários bunkers de concreto, para onde devemos ir caso a base seja atacada.

Ninguém pode por o pé pra fora da base. Não tem essa de dar um passeio na vila. Mesmo os afegãos que trabalham nas bases nunca saem daqui. Outro dia, fui jantar com os afegãos da base – a maioria trabalha como tradutor. Em troca de cidadania e um salário bastante razoável, eles ficam dois, três anos dentro das bases.

“Nunca mais posso visitar meus parentes em Cabul”, disse-me um tradutor. Primeiro, por medo de retaliação. “As pessoas sabem que a gente trabalha para os americanos.” Depois, para não perder sua securirty clearance. Eles levam até um ano e meio para ganhar uma security clearance e poder trabalhar para o governo americano. Se saem da base ou desrespeitam outras regras, perdem a clearance – e o emprego.

Esse mesmo afegão escapou por pouco da morte, três semanas atrás. Um foguete atingiu em cheio seu quarto aqui na base. Ele estava lavando as mãos no banheiro, depois de almoçar.

O jantar afegão estava maravilhoso – um cozido de legumes bem ardido e um carneiro com arroz e canela. A gente comeu com a mão, usando o pão de colher. E tomamos o indefectível chai depois.

No DFac (Dining Facility), a comida também não é ruim. Tem bastante salada e frutas daqui, que são maravilhosas – peras, maças, mangas, pêssegos. Não poderiam faltar as especialidas da American cuisine – hamburguer engordurado, cream cheese, donuts, muffings, asas de frango cheias de molho barbecue e outras frituras em geral.

Ruins mesmo são as MREs (Meals Ready to Eat): um pacote que vem com um prato principal, sobremesa, suco, e um saco “auto-esquentável” – ao se adicionar água, esquenta a comida. AS MREs também têm o apelido de Meals Resisting to Exit (refeições resistindo a sair), porque provocam prisão de ventre.

O contato dos soldados com o Afeganistão em si é bem limitado. Eles só saem em entourages de MRAPs, os veículos anti-IEDs e outros blindados, com seus capacetes de Kevlar e toda parafernália – o que deve intimidar os moradores das vilas, no mínimo. Parece um monte de alienígena chegando. Diante dos discretos MRAPs, as crianças ficam com aquele olhar de “estou vendo um Triceratops na minha frente.”

Às vezes, os soldados andam pelos vilarejos, conversando com as pessoas, nas chamadas missões “desmontadas”. As vilas são todas de casas de barro, a maioria não tem luz elétrica.

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Foram os 50 minutos mais longos da minha vida – espremida como uma sardinha em um C130, avião do exército americano, com 50 e tantos soldados. Viajei de Bagram até Jalalabad, que fica no leste do Afeganistão. Dentro do avião, é preciso por aqueles tampões de ouvido especiais e ficar com o capacete e o colete antibala. Que calor, meu Deus. Para se locomover, o oficial da Força Aérea vai pisando no joelho de todo mundo até chegar na frente do avião. Os soldados, esmagados, vão dormindo – inclusive porque o baruho é ensurdecedor, não ia dar mesmo para bater papo. Cheguei pingando na base Fenty, que tem umas mil pessoas.

Mal cheguei, já recebi as boas-vindas – uma explosão e um monte de fumaça.

“Anda, anda, isso aí foi morteiro vindo lá do portão”, disse-me o oficial que estava me recebendo. Naverdade, era uma rocket propelled grenade, uma granada movida a foguete. Foi o segundo ataque à base em jalalabad em um dia. Pouco antes de eu chegar, dois homens-bomba tentaram invadir o portão, mas um foi morto pelos soldados e outro preso.

Segundo a tenente Liz Silver, esses ataques do Taleban não são muito normais, porque eles costumam atacar só a cada duas semanas, por ser uma base maior – Jalalabad tem 1000 pessoas. Os insurgentes atacam mais as bases menores. Aqui no leste, Nuristan e Kunar são as regiões mais perigosas. Vou para Nuristan amanhã, de onde parto para um posto avançado – uma minibase com dez a 20 soldados, que fazem missões nos vilarejos.

Em Bagram

Lá em Bagram, os americanos vivem como monges – não podem beber nadinha,e contrabandear uma cerveja é bem perigoso. Os poloneses, britânicos, franceses e alemães que estão na base podem – têm uma restrição de duas a três cervejas por dia. Fumar ainda é permitido. Houve uma conversa de proibir o fumo, mas foi esquecida, pelo menos temporariamente. “A gente ia ver uma revolta aqui, se nem fumar a gente pudesse”, diz a cabo Danielle.

Namorar tambem não pode, em tese. Houve algumas mudanças – agora homem pode entrar no quarto de mulher, desde que a porta esteja entreaberta. Em tese também miltar não pode namorar civil. Mas todo mundo contorna.

Os soldados têm um dia de folga por semana. E em cada rotação de um ano, uma folga de duas semanas.

Inimputável motora no Afeganistão

Mal começou a aventura aqui, e eu já estou ferida. Prendi o dedo no ventilador ontem – heróico, não? Uma das coisas que você só descobre quando chega: só se deve usar roupas de algodão no fronte. Isso porque logo após a explosão de uma bomba, vem uma onda de calor – e roupas sintéticas derretem e grudam na pele quando isso acontece.

Bagram e a guerra espalhada

Na super base americana, há 19 mil pessoas. E eles tentam fazer da base um mini-Estados Unidos, para o conforto dos soldados: tem Pizza Hut, Burger King, Popeye’s, sala de ginástica.

Aqui dentro de Bagram, a atuação do jornalista é restrita. Assino um termo de compromisso garantindo que não vou tirar fotos ou fazer entrevistas se não tiver escoltada por um oficial. Lá no campo, não é assim, poderei entrevistar quem quiser. Mas há regras de segurança – não posso revelar localizações exatas, ou detalhes de operações, por razões óbvias.

Do que venho escutando de colegas jornalistas, essa é uma guerra espalhada. Norte e Oeste do país estão mais calmos, Leste e sul, mais perigosos. Helmand e Kandahar, no sul, são os piores. Depois vem Kunar, Logar e Nuristan.

Um colega do NYTimes acabou de voltar de Helmand. Segundo ele, o calor era tanto, que todos dormiam ao ar livre – e como ele não tinha uma tela contra mosquitos, acordava cheio de bichos andando na cara dele.

Outro colega, um fotógrafo, contou que muitos soldados são vítimas de “choque hipertérmico”. A temperatura em Helmand chega aos 47 graus centígrados. Soldados voltam da patrulha e de repente desmaiam ou começam a vomitar. O remédio é radical, conta o fotógrafo. Abaixam a calça do soldado e enchem de água fria, além de medir a temperatura pelo reto. Se estiver muito alta (depois de passar essa vergonha toda, deve até baixar) ele é levado, de helicóptero, para receber tratamento

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Saí de Cabul ontem, e vim para Bagram, a maior base militar americana no Afeganistão. Agora estou aqui, à espera de um helicóptero para me levar até a fronteira com o Paquistão.

Lá em Cabul, os estrangeiros vivem em uma bolha kafkiana. Com medo de seqüestros e ataques a bomba, a maioria só se locomove em carros blindados com motorista. Ninguém pega táxi. Andar na rua, só em alguns poucos locais considerados seguros.

Cabul se transformou em uma verdadeira cidade fortificada. Muitos lugares têm três portas de entrada, com câmaras que vão se fechando, e guardas com metralhadora em cada uma. Todos os prédios de governo , ONGs e estabelecimentos militares são cheios de sacos de areia conta os muros, que são altíssimos e têm arame farpado.

“Estamos ficando cada vez mais alienados – existe um risco real, mas há também uma grande paranóia, Cabul não é como Kandahar”, diz um alemão que trabalha para o governo da União Européia em Cabul.

As regras de segurança para trabalhadores estrangeiros são tão rígidas que muitos nem chegam a por o pé na rua, literalmente. Grande parte dos empregadores não deixa seus empregados circularem livremente por Cabul por causa do seguro. Este alemão, por exemplo, perde todo seu direito a seguro se acontecer alguma coisa, qualquer coisa, e ele estiver na rua. Ele só pode se locomover em carros blindados.Depois das 19h, tem de informar o chefe de segurança do escritório da UE sobre seus movimentos, por mensagem de texto no celular. “Eu até me sentiria confortável andando em algumas regiões, mas no momento, por causa das restrições do seguro, não vou”, diz ele, que mora no Afeganistão há cinco anos.

Grande parte dos estrangeiros têm toque de recolher – na ONU, por exemplo, é as 23h. A ONU tem também uma lista de lugares “aprovados” para seus funcionários, como restaurantes considerados seguros. Todos os funcionários estrangeiros da ONU vão ser evacuados do Afeganistão antes da eleição, por medo de tumultos. A embaixada italiana está ligando para os italianos e os chamando para uma simulação de evacuação, caso seja necessário, durante a eleição.

Alguns funcionários civis do governo americano não podem sair nunca da embaixada. “Tem gente que vem para o Afeganistão, chega no aeroporto em Bagram ou Cabul, vai para a embaixada, fica três meses e não sai na rua uma única vez”, conta um americano funcionário da embaixada. Alguns, quando saem, só pode ser “a serviço”, acompanhados de escoltas de segurança.
“Com o nosso envolvimento, esse país se tornou a coisa mais kafkiana que eu já vi”, diz o funcionário alemão.

Muitos funcionários de ONGs, que têm regras de segurança menos estritas, andam por todos os lugares sem medo. Mas isso tem um custo – o Afeganistão já é o segundo país em mortes de funcionários de ONGs, depois do Sudão. Segundo a Afghanistan NGO Safety Office, houve um aumento de 95% nos ataques em geral no primeiro trimestre, que chegaram a 527. Nesse período, funcionários de ONGs sofreram 37 ataques graves – sendo duas mortes,20 sequestros e 3 bombas.

Tem gente que vê exagero. Afinal, Cabul não sofre um ataque a bomba há seis meses. Mas há, sim, muitos seqüestros de estrangeiros e de afegãos também.”Os estrangeiros não conhecem a cidade, morrem de medo. Eu ando sozinho pelas ruas de Cabul tranquilamente, gosto de andar, não adianta ficar com medo, trancado em casa” diz James Skinner, um sul-africano que presta consultoria para o ministério das minas do Afeganistão.

À noite, os expatriados se concentram no L’Atmosphere. O lugar é surreal. Com o mesmo esquema de três portas blindadas, o estrangeiro é recebido com um sorriso e a pergunta, casual: “Tem alguma faca ou arma?”, seguido de uma revista.

Lá dentro, mesinhas românticas, com velas, e uma piscina. A noite avança e vai enchendo de gente: funcionários de ONGs, da ONU, prestadores de serviços, militares, jornalistas. As mulheres vêm de mini-saia e calça justa, os homens tomam cerveja e vinho. Lá fora, mnga comprida e véu na cabeça são obrigatórios. No Afeganistão, álcool é proibido – mas aqui na terra dos expatriados, está liberado. E o pessoal aproveita. Lá pelas tantas, um sujeito cai dentro da piscina, bêbado.

Parece uma boate de Maresias, no litoral de São Paulo. Só que o clima é de cabaré da segunda guerra, “vamos aproveitar que amanhã ninguém sabe o que vai ser.”

O lugar proíbe a entrada dos afegãos. Eles são só garçons.

Apesar de toda segurança, ninguém senta nas duas mesas mais próximas da muralha. E há alguns guarda-costas sentados sozinhos em algumas mesas, de colete anti-bala, esperando seus chefes acabarem de comer.

“Um dia vão jogar uma bomba aqui…eu sempre digo que é a última vez que venho”, disse o fotógrafo Marco di Lauro, da Getty Images, que já foi 40 vezes para o Afeganistão e passou longos meses no hospital depois de levar tiros de Talebans.

Farid, um engenheiro afegão, foi mais compreensivo. “Estrangeiros vivem em prisões aqui, depois de seis meses presos, eles querem muito estar em um lugar onde podem vestir o que quiserem , comer e beber sem problemas”, disse Farid de seu escritório. Mas com isso, a maioria não se mistura com afegãos. E nem anda nas ruas, ele diz.

O L’Atmosphere é considerado um alvo óbvio para ataques de insurgentes, assim como a pousada Gandamack, o restaurante La Cantina e o hotel Serena, todos pontos de encontro dos expatriados. No ano passado, militantes do Taliban invadiram o Serena a tiros e mataram sete estrangeiros.

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Queridos leitores

Estou no aeroporto de Frankfurt, de onde embarco para Cabul daqui a algumas horas.
Depois de escrever sobre o conflito no Afeganistão durante meus quase três anos de correspondência em Washington, vou ver a guerra de perto. E queria contar um pouco do “making of” dessa matéria.

Há cerca de 4 meses, fui convidada pelo exército americano para dar uma palestra em Fort Leavenworth, no Kansas, sobre relacionamento da imprensa estrangeira com as Forças Armadas dos EUA. Fort Leavenworth é conhecido como o cérebro do exército, já que é um centro de formação de oficiais. Eu fui chamada por causa das matérias que fiz em Guantánamo, em Fort Polk (sobre treinamento de soldados que estavam indo para o Iraque) e em Quantico (treinamento de marines). No painel dos palestrantes, eu era de longe a mais inexperiente em questões militares. A meu lado estava um jornalista alemão do Frankfurter Allgemeine Zeitung, que já esteve no Iraque oito vezes e no Afeganistão umas três; do outro lado, um jornalista da TV russa, também com várias passagens em zonas de conflito, inclusive na Chechênia, e minha querida colega Joyce Karam do Al Hayat, jornal saudita – com grande experiência em Oriente Médio.

Depois da palestra, um general veio bater papo comigo e perguntou se eu nunca tinha pensado em “embed” no Afeganistão. Sim, já tinha pensado, eu respondi. Depois de ter contato com vários soldados a caminho da guerra, gostaria de ver de perto o que eles estão enfrentando. Uma coisa é estar confortavelmente no ar condicionado falando sobre a guerra com analistas. Outra coisa é testemunhar o custo do conflito para os afegãos. Para isso, o ideal era o tal “embed”, em que o jornalista consegue chegar até o front, e fica embutido na tropa – dorme , acorda, come, e vai em missões com os soldados.

Esse empurrãozinho era o que faltava para eu juntar coragem. O processo de se candidatar e ser aprovada para o embed levou mais ou menos 4 meses. O Pentágono checa todos os antecedentes do jornalista e alguns não conseguem aprovação.

O e-mail fatídico chegou no dia 13 de junho. “Cara Ms Mello : Anexa está a carta de aprovação de seu embed. Por favor chegue à base aérea de Bagram até as 4h30 do dia 19 de julho para que possamos transportá-la para seu local de embed.”

Ai Jesus. Agora eu vou.

Junto com o friozinho na barriga veio a mão-de-obra dos preparativos. Fui tomar um café com a jornalista Anna Mulrine, da US News, que me deu dicas preciosas. Anna é veterana de embeds – só no ano passado, foi quatro vezes para o Afeganistão. Além de recomendações digamos jornalísticas, ela me deu algumas dicas mais prosaicas.

“Não esqueça os “baby wipes”, ela recomendou. São aqueles lenços umedecidos de limpar bumbum de nenê, muito úteis quando banho não é a coisa mais fácil do mundo.

Gulp.

Ela também me recomendou o tipo de telefone por satélite que eu deveria levar e até a mala que era melhor. Eu havia ido na REI, que é o paraíso dos alpinistas, acampantes, etc, comprar uma mochila. O test-drive da mochila foi aterrorizante. O vendendor simpático coloca 20 quilos em sacos de areia para você testar o peso. Corcundinha era uma boa definição.

Foi então que Anna me salvou. “Mochila? Imagine….compra uma daquelas sacolas com rodinhas. Se bobear, os soldados ficam com pena e até ajudam a por a mala dentro do avião.” Ufa, fui lá trocar a mochila.

Todos os jornalistas que vão embutidos com as tropas americanas são obrigados a levar seu colete anti-bala e o capacete, dentro das especificações exigidas pelo exército. Aluguei então a parafernália – juntos, o colete e o capacete pesam 12 quilos. O pior é por o capacete na mala. Já tentou levar um capacete? Atravanca tudo. O senhor da empresa de aluguel de colete anti-bala– Kejo – era do Zimbábue. E foi logo avisando – se você fosse da Nigéria, não sei se alugava o equipamento pra você. Aparentemente aqueles e-mails picaretas nigerianos acabaram mesmo com a reputação do pessoal de Lagos.

O próximo passo foi o BGAN, o telefone por satélite que dá acesso a internet banda larga nos confins do Judas, assim me garantem. Mas quem disse que tecnologia veio para facilitar a vida das pessoas? Só se for a vida das pessoas extremamente tecnófilas. Passei uma hora e meia com o “cara do sistema” no telefone, só para instalar o software do tal BGAN no meu computador. Desse jeito, imagine quanto tempo vou levar pra fazer a coisa funcionar lá no meio do nada? O “cara do sistema”, Ken, era ultra gentil e, de quebra, esteve no Iraque durante oito meses, como operador de rádio. “Cuidado com os escorpiões – um dia acordei cercado de escorpiões brancos”, ele avisou. Ai meu Deus. Não bastassem as bombas, agora vou ficar neurótica com escorpiões.

Entrementes, ia dando conta da pilha de livros sobre Afeganistão que estava no meu criado mudo – In the Graveyard of Empires, do Seth Jones, Descent into Chaos, do Ahmed Rashid, a última Foreign Affairs tinha um artigo interessante, uma análise espetacular da Stratfor, repassada pelo colega correspondente Gustavo Chacra, quilômetros de matérias de jornais, e o Lonely Planet também porque ninguém é de ferro. Na mala, estou levando o Rory Stewart (The Places in Between) e o apropriado Cus de Judas, do Antonio Lobo Antunes, sobre a guerra em Angola. Também consultei o Lourival Sant’Anna, que já foi para os confins do Afeganistão (e duzentos outros lugares mais), e fez grandes matérias, e li as belas reportagens da colega Adriana Carranca, que esteve em Cabul no ano passado.

Assisti na semana passada ao The Hurt Locker, um filme sensacional que acabou de estrear nos EUA (embora no Brasil já esteja em DVD) sobre os destacamentos de especialistas em IEDs, as letais bombas improvisadas. E havia assistido ao Taxi to the Dark Side, espetacular, sobre um taxista afegão que é preso por engano e acaba morrendo em Bagram.

A amiga Rita Siza, correspondente do jornal português Público, foi a pessoa mais alugada do planeta durante os últimas dois meses. Aguentou toda a minha ansiedade. Prometi a ela trazer uma burca fashion de presente, no mínimo. Os amigos Balthazar e Dri (e Laurinha e Julia) também merecem suas burcas fashion – além de aguentarem meu aluguel, eles ficaram cuidando da minha filhota canina, a border collie Sarah. José Meirelles Passos, veterano de guerras no O Globo, deu a dica: nao esqueça bateria extra para a câmera e pro laptop, e um bom livro, para as muitas horas de espera. Afinal, alguém já disse que o lema do exército é “hurry up and wait”

Por fim, trago na mala o conselho do meu pai, Hélio, que junto com o William Waack cobriu a guerra do Golfo. Os dois fizeram um livro maravilhoso – Mister, you Bagdad: dois repórteres na Guerra do Golfo.”

“Se você for corajosa demais, você acaba morta; se você for medrosa demais, não faz o trabalho direito.”

E cá estou em Frankfurt, tomando a terceira Coca Light do dia e esperando o voo da Safi Airlines para Cabul. O destino final é algum ponto na fronteira entre o Afeganistão e Paquistão, sudeste do país, em uma base americana.

Espero absorver cada detalhe de tudo o que estiver acontecento ao meu redor, conversar longamente com soldados americanos, e com civis afegãos cansados dessa guerra que não acaba mais e está custando tantas vidas.
E se Deus quiser, escrever matérias que nos ajudem a entender essa guerra.

Minha mãe, que acendeu uma vela para Sao José e outra para São Jorge, ainda não se acostumou com a idéia. “Não dá mesmo para você cobrir o Michael Jackson, filha?”

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