Outro dia saiu uma reportagem mostrando que, segundo o índice Big Mac da revista Economist, o real é a quarta moeda mais valorizada do mundo, só perdemos para Noruega, Suécia e Suíça. Com o dinheiro que pagamos por um Big Mac aqui, dá para comprar dois na Argentina.
A ficha caiu mais ainda quando uma amiga minha portuguesa, que está aqui de visita, foi ao supermercado.
Ela voltou de lá com uma manteiga Sancor, argentina.
- Por que você comprou manteiga argentina?
- Porque era a mais barata.
Pano rápido para a manchete de cadernos de economia de hoje. O déficit em conta corrente do
do país no primeiro semestre chegou a US$ 23,76 bilhões, equivalente ao déficit de todo o ano de 2009, que somou US$ 24,302 bilhões. No mês passado, pelos dados divulgados ontem pelo Banco Central, o saldo da entrada e saída de recursos na conta corrente ficou negativo em US$ 5,18 bilhões, o pior junho da série iniciada em 1947.
Não está na hora de ficar nervoso?
Não sei bem se estamos avançando no quesito presidente do Banco Mundial. Saiu o falcão que ajeitava o cabelo com cuspe e usava meias furadas em mesquitas turcas, entrou o falcão sub-do-sub-do-sub, que manda o Brasil fazer negócios com a Antártida.
A indicação de Robert Zoellick, ex-representante comercial dos EUA, para substituir o queimado Paul Wolfowitz na presidência do Banco Mundial foi amplamente comemorada. Vários editoriais laudatórios. Podem dizer os cínicos – é, a base de comparação era baixa. Mas, por mais que a substituição de Wolfie por qualquer objeto não inanimado cause alívio, é bom não esquecer as credenciais de Zoellick.
Sim, é verdade, ele é inteligente, tem expertise internacional, bem mais que Wolfowitz, foi bastante eficiente como segundo de Condi Rice no Departamento de Estado, avançou (e depois recuou, está certo) em negociações com a China, foi ativo participante na rodada Doha.
Mas apesar de Zoellick ter ressaltado seu compromisso com as instituições internacionais em seu discurso de ontem, ao lado do presidente George W. Bush, seu passado o condena.
Zoellick foi o principal promotor dos tratados bilaterais de comércio perseguidos com afã quase fanático pelo governo Bush (antes de perder o Congresso para os Democratas, claro). Os tratados bilaterais – chamados de tigela de espaguete pelo über-especialista em comércio Jagdish Bhagwati, porque são um emaranhado que confunde e atravanca – são um dos grandes responsáveis pelo solapamento do sistema multilateral de comércio.
Digamos que Zoellick compartilha com colegas como John Bolton, ex-embaixador dos EUA na ONU, e Wolfie o pouco apreço pelo multilateralismo, pelo menos nesse tópico.
Já se tornou folclórico o fato de Zoellick ter insinuado que o Brasil seria obrigado a fazer negócios com a Antártica se continuasse resistindo à Alca. Ao que o presidente Lula disse – “Não vou responder ao sub do sub do subsecretário americano.”
Mas pouco lembrada é outra pérola de Zoellick, disparada durante a negociação do tratado de propriedade intelectual (Trips) dentro da Rodada Doha. O então representante de comércio americano se opôs à claúsula que previa licença compulsória de remédios em países em desenvolvimento para casos de emergência de saúde pública (recurso usado recentemente pelo Brasil para droga anti-aids da Merck). Ao explicar sua oposição em carta aos ministros, no fim de 2002, Zoellick saiu-se com esta: “alguns membros da OMC querem que doenças como obesidade, asma diabetes e até Viagra sejam incluídos”.
Ou seja, ele se opôs à medida que dá livre acesso a remédios anti-aids e malária a países da África , por exemplo, para proteger a patente do Viagra.
Pois é, esperemos que o sub-do-sub-do-sub não guarde rancores contra o Brasil. Ou podemos ver a proposta de alguns conservadores de redução de empréstimos do Banco Mundial para países de renda média ganhar um impulso extraordinário.
O oráculo conservador, The Wall Street Journal, em editorial/orientação a Zoellick hoje, questiona: “Por que emprestar para o México e o Brasil, dois países que podem facilmente obter recursos no setor privado?”
Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, é um profissional das platéias. Agora na função de coordenador da Comissão Interamericana do Etanol, Rodrigues fez um discurso aqui em Washington hoje, no Banco Interamericano de Desenvolvimento. Conquistou a sisuda platéia do evento. “Quero começar pedindo desculpas pelo meu inglês, que é igual ao do Tarzan”, disse, diante de risadas. “E minha visão também não está lá essas coisas”, afirmou, colocando o dedo nos óculos – uma das lentes tinha caído.
Falando apaixonadamente sobre etanol, Rodrigues disse que o governador da Flórida, Jeb Bush, costumava chamá-lo de sonhador, por causa das altas ambições sobre o etanol. “You may say I am dreamer, but I’m not the only one”, lascou o ex-ministro/cantor, ecoando John Lennon.
Por fim, ele sugeriu que os EUA, que não vão mesmo cortar a tarifa de importação sobre etanol brasileiro tão cedo, usem os recursos arrecadados para pesquisas no projeto de cooperação de biocombustíveis entre os dois países. “Podemosuisar o dinheiro das tarifas, que é dinheiro dos brasileiros, para pesquisas, não? Foi um sucesso – no final do evento, tinha fila de gente querendo falar com ele.
Tive hoje uma entrevista rápida com Kamal Nath, o ministro do Comércio da Índia. Aquele que cunhou a frase genial: “A Rodada Doha está entre a UTI e o crematório”.
Nath disse que a Índia resolveu acelerar as negociações para assinar em janeiro do ano que vem um acordo de livre-comércio com a Asean (Associação das Nações Sul-Asiáticas, que inclui Brunei, Cambodja, Indonésia,Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Cingapura, Tailândia e Vietnã). Com isso, a Índia deixará de estar isolada e passará a fazer parte de um bloco forte, com um PIB de cerca de US$ 800 bilhões (sem incluir a economia indiana). Será um contraponto para blocos como Nafta e União Européia?
“O Asean está se tornando um grupo muito importante em termos de comércio e politicamente”, disse Nath.

A tigela de espaguete não pára de crescer, como diria o economista indiano Jagdish Bhagwati, referindo-se à proliferação dos acordos bilaterais de comércio. E o Brasil está cada vez mais por fora.


O Chile assinou ontem um tratado de livre comércio (TLC) com a China. O país já tem acordos com os Estados Unidos, Nova Zelândia, Cingapura, Brunei,Coréia e Panamá (além de ser sócio do Mercosul). E negocia com Japão, Tailândia, Malásia, Colômbia,Peru e Equador.
Pelo acordo, o Chile se compromete a desonerar imediatamente 50% dos produtos chineses; outros 21% em um prazo de cinco anos e 26% em 10 anos.
Se já estava difícil competir com os produtos chineses no nosso continente (estamos perdendo espaço até no mercado cativo argentino), imagine agora no Chile, com muitas exportações made in China entrando com tarifa zero?
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