Graças ao nigeriano que tentou se explodir no voo 253 Northwest Airlines de Amsterdam para Detroit, usando líquido explosivo e seringa escondidos em sua cueca,em breve todos teremos de voar usando fraldas.
Peguei um voo do Rio de Janeiro para Washington na noite do dia 25, logo depois da tentativa de atentado do terrorista da cueca.
Aparentemente, tudo estava normal. Raio Xis nas malas e uma revista antes de entrar no avião.
Mas a duas horas de pousarmos, ficou claro que o terrorista da cueca, o nigeriano Umar Farouk Abdulmutallab, seria para sempre lembrado por todos que viajam de avião. Da mesma maneira que o terrorista do sapato – depois que Richard Reid tentou explodir uma bomba em seu sapato em dezembro de 2001, todos os passageiros passaram a ser obrigados a tirar os sapatos no aeroporto.
“Queremos avisar que teremos alguns procedimentos de segurança adicionais no voo, e pedimos desculpas pelo incômodo” – informou o comandante da United Airlines. “Dentro de 15 minutos, todos os banheiros da aeronave serão trancados. Ninguém poderá usar os banheiros sob hipótese alguma. Então, por favor, apressem-se.”
Eu pulei da cadeira. Afinal, todos os passageiros do voo teriam 15 minutos, e nenhum segundo a mais, para usar o banheiro. E eu estava apertada. Mas e se alguém tivesse dor de barriga? Paciência, os banheiros estarão trancados, informou-me a aeromoça.
Mas não parou por aí.
“Durante os sessenta minutos finais de voo, ninguém poderá deixar nenhuma bolsa ou objeto debaixo de seu assento. Se precisarem de seus óculos ou remédios, peguem agora, porque depois não poderão mais levantar de jeito nenhum. E nem poderão deixar travesseiros ou cobertores no colo. Iremos diminuir a potência do ar condicionado, para que vocês não passem frio”.
As regras da agência de segurança de transportes dos EUA tentam cercar todos os movimentos do terrorista da cueca.
Pouco antes de o avião da Northwest iniciar o procedimento de pouso em Detroit, o nigeriano Abdulmutallab foi ao banheiro, onde teria preparado seu explosivo líquido. Passou 20 minutos no banheiro. Voltou ao assento e disse estar passando mal do estômago, e se cobriu com a manta.
Pouco depois, um estouro e fogo foram vistos.
Graças a Deus, passageiros agiram para impedir o Abdulmutallab de concretizar seu atentado.
Mas o terrorista da cueca pode ser mais um a entrar para história de como viajar de avião foi se tornando insuportável por causa dos problemas de segurança. Ou melhor: Tire os sapatos e vista a fralda.
Pelo menos desta vez não morreu ninguém pisoteado na entrada de uma loja. Mas a orgia de consumismo que começa na chamada Sexta-Feira Negra, logo após o dia de Ação de Graças, continua assustadora.
Resolvi acompanhar de perto a sanha aquisitiva dos americanos na sexta de manhã cedinho. Na porta da Target, uma loja de departamentos, deparei-me com hordas de consumidores cheios de remela, mas felizes.
Era gente como como a estudante universitária Camilla O’Neal, de 20 anos. Ela saiu de casa às 23h30 de quinta-feira para aproveitar as melhores ofertas da “sexta-feira negra”, o dia das maiores liquidações do ano nos Estados Unidos. Pegou uma carona com um amigo e à meia-noite já estava na fila, esperando a loja de departamentos Kmart abrir. Lá, comprou dois pares de sapatos, um pijama, um videogame e dois brinquedos. Camilla voltou para casa às 2h30 da manhã, mas a maratona estava apenas começando. Às 7h, ela acordou e pegou o metrô até a Target, outra loja de departamentos. Esqueceu de tirar o pijama, aparentemente. Encontrei-a na porta, onde ela me mostrou, triunfante, o assento massageador que comprou por US$ 35, desconto de 40%, e um forninho por US$ 16,99, desconto de 50%. “Só gastei US$ 300 e já fiz todas as compras de Natal”, comemorava.
A poucos passos dali, o cozinheiro Hernan Sandoval também estava com uma cara de cansado, mas contente. Ele foi um dos poucos felizardos a comprar uma TV de plasma de 31 polegadas por US$ 300 – elas se esgotaram em 4 minutos na Target. Ele aproveitou e levou outra TV de plasma, essa de 46 polegadas, por US$ 800.
No ano passado, o segurança de um Wal Mart do Estado de NY morreu pisoteado às 5h da manhã, quando 2 mil pessoas se espremeram para entrar na loja. Neste ano, foram adotadas várias medidas de segurança para evitar tragédias como essa. Resolveram distribuir pela loja os chamados “doorbusters”, as super ofertas que normalmente ficam perto da porta e levam consumidores a literalmente saírem no tapa pela mercadoria. O Wal Mart ficou aberto 24 horas, em vez de só abrir às 5h – assim evitou-se o tumulto na porta.
Até a AAA, a associação dos automóveis americanos, lançou um guia chamado “Dicas para evitar ser pisoteado por consumidores descontrolados”. Uma das dicas é: se você cair, não fique deitado de costas ou de bruços, fique enrolado como uma bola e tente se arrastar na direção da multidão. “Mas o melhor mesmo é fazer compras acompanhado, porque se você for derrubado pela multidão, alguém estará lá para ajudá-lo”, diz o guia.
Para os menos intrépidos, amanhã é o melhor dia de compras – a Ciber Segunda-Feira, quando os varejistas online fazem promoções monumentais – e ninguém corre o risco de ser pisoteado ou levar uns tapas por causa de um Zhu Zhu Pets Hamster, o hamster robô que está em falta nas lojas (e sai US$ 55)..
A grande pergunta dos economistas é : será que esse vai ser o Natal do Snuggie ou do GPS? Muitos analistas acham que os americanos voltaram as lojas, mas só estão comprando quando há promoções, de olho no orçamento. Muitos vãos se ater a presentes baratinhos ou necessários, como casacos, os famigerados Snuggies – o cobertor “vestível” que é a estrela dos comerciais de TV (e agora ganhou uma versão canina, por US$ 7,99) – e outras bugigangas. Na outra ponta, alguns já estão se aventurando a comprar itens mais caros como GPSs, TVs de telas plana, o Rock Band dos Beatles.
Olha, eu não sei se vou de Snuggie ou de Rock Band dos Beatles. Mas certamente não vou encarar turbas enlouquecidas aqui nos EUA (ou estacionamentos infernais nos shoppings no Brasil). Vou comprar pela internet.
O jornal americano Washington Post publicou hoje uma entrevista com a pré-candidata do PV à presidência, a senadora Marina Silva. Com o título “A guerreira da Amazônia conquista o mundo”, a entrevista diz que Marina será a “filósofa-ativista” não-oficial da reunião climática de Copenhagen, no mês que vem, mas não menciona em nenhum momento a pré-candidatura da ex-ministra do Meio Ambiente. Marina se mostrou pessimista em relação às perspectivas de algum tipo de acordo em Copenhagen.”Não é muito promissor o que se conseguiu de consenso até agora, nos encontros que precederam Copenhagen”, disse a senadora. “O que os líderes concordaram em fazer não é suficiente.”
Marina se disse “entusiasmada” com a tramitação da lei climática no Congresso americano, apesar de a legislação ainda não ter sido votada pelo Senado. “O fato de mudança climática estar de novo na agenda dos EUA é tremendamente importante, depois de o país ter estado ausente das negociações internacionais por 10 anos”, ela disse. “Mas eu reconheço que não ter uma lei climática aprovada pelo Senado cria um problema.” O presidente Barack Obama, ao lado do chinês Hu Jintao. É um dos poucos líderes que não confirmou presença em Copenhagen, em parte proque se arrisca a chegar de mãos vazias.
Marina disse ao jornal americano que trabalhou e viveu com Chico Mendes, “dividimos amizade e parceria” “Se ele estivesse vivo, iria concordar que avançamos muito”, disse. “Mas ele também iria concluir que nossos esforços estão muito aquém do que o que o planeta necessita.”

A palavra do ano, eleita pelo New Oxford American Dictionary, é “unfriend”, ou desamigar, em tradução canhestra.O neologismo vem do Facebook – onde você pode “desamigar” seus amigos, excluindo-os de sua lista. Ou não – há grandes discussões filosóficas sobre a etiqueta de se rejeitar um amigo do Facebook.
Mas os neologismos do ano não se resumem a perfumarias facebookianas. Duas palavras entraram para valer no léxico político americana e foram “finalistas” na lista do Oxford– death panels e birthers.
O death panels (painéis da morte) surgiram no calor da discussão da reforma do sistema de saúde americano. Segundo detratores da reforma, o novo sistema proposto por Obama vai criar “painéis da morte” que decidirão quem merece receber atendimento médico e sobreviver. Sarah Palin foi uma das maiores divulgadoras da palavra nova, o que dispensa maiores explicações.
Já os birthers são os lunáticos conspiratórios que duvidam da autenticidade da certidão de nascimento do presidente Barack Obama – eles têm certeza de que Obama nasceu npo Quênia e, por não ser cidadão americano, não pode ser presidente.
Outra palavra que se tornou onipresente é netbook – os laptops superportáteis, com memória limitada, são uma inovação que entrou nos nossos “dicionários” e lojas neste ano.
E um neologismo polêmico é sexting, como foi batizada a moda entre adolescentes de mandar pelo celular fotos deles mesmos, pelados. Faltou um neologismo para definir em uma palavra “gente que não tem mais o que fazer”, que valeria tanto para os birthers, como para os unfrienders e os sexters.
.”
“O Brasil decola – agora o risco para a grande história de sucesso da
América Latina é a arrogância”. Esse é o título de reportagem especial
publicada pela respeitada revista The Economist nesta quinta-feira,que
traz na capa uma foto que mostra o Cristo Redentor impusionado por um
foguete. Em seu especial com oito reportagens sobre negócios e
finanças no País e mais um editorial, a Economist afirma que o Brasil
“entrou em cena no palco mundial” e vai se tornar a quinta maior
economia do mundo até 2014. E que depois de ser subestimado por anos,
o País hoje supera os outros BRICs em vários quesitos. “O País está
passando por seu melhor momento desde que um grupo de navegadores
portugueses chegaram às costas brasileiras em 1500″, diz outro artigo
sobre o Brasil, na revista. “O Brasil já havia sido democrático antes,
havia tido crescimento econômico e baixa inflação – mas nunca havia
tido essas três coisas ao mesmo tempo.”
Mas a publicação inglesa alerta para as armadilhas que vêm pela
frente. “Da mesma maneira que seria um erro subestimar o Brasil,
também é um erro ignorar suas fraquezas”, adverte. “Muito dinheiro do
contribuinte está está sendo gasto nas coisas erradas” e há pouco
investimento público e privado. Para a Economist, Lula está certo ao
dizer que seu país merece respeito e “ele também merece muito da
bajulação que recebe”. “Mas Lula também tem sido um presidente de
muita sorte, colhendo os frutos de um boom de commodities e
trabalhando a partir da plataforma sólida construída por seu
antecessor, Fernando Henrique Cardoso”. A revista volta a chamar o
presidente de “Lula sortudo” em outro artigo. Para manter o bom
desempenho do Brasil em um mundo com condições mais difíceis, o
sucessor de Lula vai ter de lidar com alguns dos problemas que o
presidente achou que podia ignorar, adverte a revista.
A reportagem lembra que, em 2003, quando economistas da Goldman Sachs
cunharam o termo BRICs, muita gente torceu o nariz para a inclusão do
Brasil no time de economias vencedoras. “Brasil? Um país com taxas de
crescimento tão minúsculas quanto seus biquinis, vítima de qualquer
crise financeira que estiver à espreita, um lugar com instabilidade
política crônica, onde a capacidade infinita de desperdiçar seu óbvio
potencial é tão lendária quanto seu talento para futebol e carnavais”,
diz a reportagem.
“Agora, esse ceticismo parece equivocado”, afirma a The Economist. Em
outro artigo da revista sobre o país, a Economist diz que o Brasil
costumava ser sempre uma promessa, mas que agora começa a se tornar
realidade.
O País não conseguiu passar incólume pela recessão, mas este entre os
últimos países a entrar, e os primeiros a sair.A revista diz que o
Brasil deve crescer a taxa anualizada de 5%, mas que deve acelerar nos
próximos anos, na medida em que campos de petróleo comecem a produzir
e os países asiáticos continuem consumindo os alimentos e minerais do
Brasil. “As previsões variam, mas em algum momento antes de 2014, o
Brasil vai se tornar a quinta maior economia do mundo, ultrapassando a
Grã-Bretanha e a França – bem antes do que a Goldman Sachs achava.”
Até 2025, São Paulo será a quinta cidade mais rica do mundo.
O Brasil supera os outros BRICs em alguns fatores, diz a revista.
“Diferentemente da China, o Brasil é uma democracia, diferentemente da
Índia, não tem insurgentes conflitos étnicos ou religiosos ou vizinhos
hostis, e diferentemente da Rússia, exporta mais do que apenas
petróleo e armas, e trata investidores estrangeiros com respeito.”
A Economist diz que o Brasil, durante o governo Lula, reduziu a
desigualdade social. “De fato, quando se fala em políticas sociais
inteligentes e aumento do consumo doméstico, o mundo tem muito mais a
aprender com o Brasil do que com a China.”
“Em resumo, o Brasil entrou em cena no palco mundial”, decreta a The
Economist. E essa entrada foi marcada de forma simbólica no mês
passado depois que o Rio ganhou o direito de sediar as Olimpíadas de
2016
A Economist diz que a emergência do Brasil tem sido “constante, não
repentina”. A revista lembra que os primeiros passos foram tomados nos
anos 90, quando, esgotadas todas as outras possibilidades, o país
“adotou políticas econômicas sensatas”.Segundo a publicação inglesa,
essas políticas produziram uma trupe de novas e ambiciosas
multinacionais brasileiras – cita Petrobras, Vale, Embraer, Gerdau,
JBS. “Há um grande volume de investimento estrangeiro indo para o
Brasil, impulsionado pela redução da pobreza e crescimento da classe
média” Além disso, diz a The Economist, o país estabeleceu
instituições políticas fortes. ” Uma imprensa livre e vigorosa revela
atos de corrupão – embora ainda haja muito disso, e a maioria fique
impune.
Mas a revista faz um alerta. “Da mesma maneira que seria um erro
subestimar o Brasil, tamém é um erro ignorar suas fraquezas”. Segundo
a The Economist, os gastos do governo crescem mais rápido do que a
economia, mas tanto o setor público quandto o privado investem muito
pouco, o que ameaça as previsões otimistas.”Muito dinheiro do
contribuinte está está sendo gasto nas coisas erradas”. A folha de
pagamento do governo aumentou 13% desde setembro de 2008, gastos com
previdência social e aposentadorias aumentaram 7% no mesmo período,
apesar de a população ser relativamente jovem. “Apesar de melhoras
recentes, a educação e a infra-estrutura ainda são muito piores do que
na China ou Coréia do Sul (como um blecaute nesta semana lembrou). E
em partes do Brasil, crimes violentos são a regra.”
O real se valorizou quase 50% diante do dólar desde o início de
dezembro. Isso melhora o nível de vida dos brasileiros porque barateia
produtos importados, mas dificulta a vida dos exportadores. O governo
impôs uma taxa sobre entrada de capitais, mas, segundo a The
Economist. “isso dificilmente vai deter a valorização da moeda, ainda
mais quando o petróleo começar a jorrar”.
E a Economist lembra que ainda se usa o “jeitinho” para conseguir
muita coisa no Brasil. E diz que o Estado brasileiro parece um
alquimista ao contrário – transforma ouro em chumbo. “Brasil gasta
três vezes mais que a China com saúde, e tem indicadorers piores.; os
gastos em educação são respeitáveis 5% do PIB, mas os estudantes
brasileiros estão sempre no final da lista da OCDE”.
A resposta instintiva de Lula para os problemas é política industrial,
diz a revista. O governo vai exigir que equipamentos petrolóferos
sejam produzidos por indústrias brasileiras ee stá pressionando a Vale
para investir em siderurgia. “É verdade que a política pública ajudou
a criar a base industrial do Brasil”, diz o artigo. ” Mas foi a
privatização e abertura da economia que as tornaram eficientes; E
enquanto isso, o governo não está fazendo nada para remover alguns dos
obstáculos que dificulta, fazer negócios no Brasil – como regras
barrocas para o pagamento de impostos e contratação de pessoa.” Dilma
Rousseff insiste que não será necessária uma reforma das leis
trabalhistas.”Talvez a maior ameaça ao Brasil seja a arrogância. “
Para a Economist, Lula está certo ao dizer que seu país merece
respeito e “ele também merece muito da bajulação que recebe”. “Mas ele
também tem sido um presidente de muita sorte, colhendo os frutos de um
boom de commodities e trabalhando a partir da plataforma sólida
construída por seu antecessor, Fernmando Henrique Cardoso”. “O atual
presidente do Brasil recebeu muito do crédito pelo crescimento da
economia que deveria ser dado a seu antecessor, Fernandpo Henrique.
Mas Lula manteve as reformas que herdou e fez algumas conquistas
sozinho .”
Para manter o desempenho melhorado do Brasil em um mundo com condições
mais difíceis, o sucessor de Lula vai ter de lidar com alguns dos
problemas que Lula achou que podia ignorar, adverte a Economist.
O artigo termina em um tom otimista. “A rota do país parece estar
traçada. A decolagem é ainda mais admirável porque foi alcançada por
meio de reformas e instituições democráticas”. E ainda alfineta o
líder dos BRICs. “Ai, se a China pudesse fazer o mesmo”
A relatora especial da ONU para o direito à moradia, a brasileira Raquel Rolnik, passou 18 dias em sete cidades dos Estados Unidos e encontrou uma situação digna de terceiro mundo. “Fiquei assustada com a situação da moradia nos Estados Unidos”, disse Raquel, que também é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.
Ela já vinha pesquisando o problema da moradia nos EUA há tempos e esperava se deparar com os estragos da crise das hipotecas subprime. Mas encontrou coisa pior: gente morando em carros, muitos moradores de ruas em “cidades de barracas”, famílias inteiras sem-teto, apartamentos superlotados, com três famílias. “É muito difícil achar moradia acessível, as pessoas estão gastando 80%, 90% da renda com aluguel ou parcela do financiamento”, disse Raquel. “Quando a crise chegou, grande parte da moradia pública tinha sido demolida e não foi substituída em números suficientes.”
Ela esteve em Washington, Nova York, Wilkes-Barre, Chicago, New Orleans, Los Angeles e na reserva indígena Pine Ridge.
A ONU tenta desde 2005 enviar um relator para a moradia para os EUA, mas vinha sendo ignorada pelo governo Bush. Só agora, no governo Obama, mais aberto à atuação de instituições multilaterais como a ONU, é que a relatora recebeu sinal verde.
A direita americana esperneou. Um editorial do jornal conservador Washington Times disse que a visita de Raquel era parte da “usurpação gradual da soberania americana.”e perguntava porque ela não ia pesquisar a moradia no Brasil
“Ela deveria voltar para o lugar de onde saiu”, dizia o editorial. “A culpa burocrática de Miss Rolnik deveria ser dirigida ao Brasil, onde 28,9% da população urbana vive em favelas.”
“É claro que de forma absoluta, o problema da moradia é mais grave nos países em desenvolvimento”, disse Raquel. “Mas, de forma relativa, é igual – nos EUA, são milhões de pessoas sem acesso à moradia, no país mais rico do planeta.”
A relatora da ONU diz ser muito difícil comparar Brasil e EUA. Os EUA tiveram, por muitos anos, uma política de moradia abrangente, que foi sendo desmantelado desde o governo Reagan. O país está em uma trajetória descendente, só amenizada por algumas medidas recentes do governo Obama, ela diz.
Já o Brasil, explica Raquel, nunca deve uma política de moradia popular em grande escala. Eram sempre iniciativas da própria população – favelas, loteamentos irregulares – que então eram substituídas por COHABs ou Cingapuras, mas em escala muito menor.
Raquel está preparando um relatório sobre tudo o que viu nos EUA. Ela visitou projetos de habitação do governo, bairros com muitas casas em execução de hipoteca, locais onde se concentram moradores de rua e as chamadas tent-cities, que reunem sem-teto em barracas. Também promoveu assembléias com moradores e reuniu-se com representantes de ONGs, além de integrantes do governo Obama. Em março, ela apresenta seu relatório diante do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra.
O diretor do filme “A garota com a tatuagem de dragão”, o dinamarquês Niels Arden Oplev, usou seu melhor tom jocoso: “Dizem que Lisbeth Salander é maior fenômeno a sair da Suécia desde o ABBA”. Ele estava fazendo uma apresentação do filme no AFI Silver, um cinema que passa filmes alternativos em Maryland, aqui perto de DC. Oplev encarou o desafio de filmar um best-seller de sucesso estrondoso, que no original em sueco “Män som hatar kvinnor”, significa homens que odeiam mulheres – no Brasil, foi lançado como “Os homens que não amavam as mulheres”.
O filme é sensacional e a escolha da atriz Noomi Rapace para interpretar Lisbeth Salander – a heroína punk-hacker-tomb-boy-fumante compulsiva-abusada – foi um toque de mestre.
Eu devo ser uma das poucas pessoas no mundo – ou pelo menos na sala de cinema – que não havia lido o livro. Mas minha amiga Rita Siza devorou o thriller de Stieg Larsson – e achou o filme ótimo. A escolha de Noomi para o papel foi “perfeita”, ela disse.
O filme só estreia nos EUA em março – mas será lançado em 160 salas. “O que é muito bom, considerando que é um filme sueco, falado em sueco, só com atores suecos desconhecidos, dirigido por um dinamarquês e com quase duas horas de meia de duração; normalmente passaria em no máximo cinco salas nos EUA”, brincou o diretor.
Como diria o jogador de beisebol Yogi Berra, versão estadunidense do nosso saudoso Vicente Mateus, é “déjà vu tudo de novo”.
Há 45 anos, o historiador Richard Hofstadter publicava na revista Harper um ensaio que se tornou um clássico “O estilo paranoico na política americana”. Em plena guerra fria, quando o ultra-conservador Barry Goldwater havia acabado de vencer a primária republicana, Hofstadter descreveu como a histeria de direita tinha tomado conta da política americana. Os radicais estavam sequestrando a agenda republicana, entre eles os lunáticos da John Birch Society, que viam comunistas até dentro da privada. Em comum, todos eles tinham uma predileção especil por teorias de conspiração – tudo era orquestrado secretamente, havia um inimigo oculto, estavam aí para persegui-los.
Quase cinco décadas depois, os malucos de extrema direita voltam a ter força e ser encarados como parte normal – ou a parte principal – do Partido Republicano. Veja o movimento dos “birthers” – eles têm certeza de que o presidente americano na verdade nasceu no Quênia.apesar de a Casa Branca ter mostrado a certidão de nascimento de Obama, que nasceu no Havaí. Até hoje, foram abertos doze processos alegando que Obama não é cidadão americano e, portanto, não pode ser presidente.
O que podia ser só um delírio de três doidos não morre. Com ajuda da internet, aliás, amplifica-se. Segundo Cass Sunstein, guru de behaviorismo econômico da universidade de Chicago e czar de regulação de Obama, trata-se de uma balcanização de informação digital ou ciberpolarização: como esquerdistas só frequentam sites e blogs de esquerda e só trocam ideias com esquerdistas, eles ficam cada vez mais radicais – e o mesmo vale para os direitistas
.
As alas mais radicais do partido republicano são encabeçadas por Glenn Beck, o apresentador da Fox News que acusa Obama de “não gostar de gente branca”, Sarah Palin, que dispensa apresentações, o eterno Rush Limbaugh, o mais popular radialista de direita, Michelle Malkin, outra figurinha carimbada entre os comentaristas. Essa tropa de choque da extrema-direita tomou conta da agenda republicana e está esmagando as vozes moderadas. Republicanos que eram apenas fiscalmente conservadores, pró-business e a favor de menor intervenção do governo na economia – ou seja, uma ala moderada – estão sendo sufocados por essa facção mais estridente, paranoica.
As manifestações dos “tea parties”, que reuniram dezenas de milhares de pessoas em Washington e outras cidades, e as assembleias sobre a reforma da saúde, transformaram-se no “mainstream” do conservadorismo. É gente que chama Obama de nazista, fascista ou comunista, dependendo do humor; diz que o país está se desamericanizando por causa do aumento da população hispânica, acusa o presidente de fazer lavagem cerebral nas crianças ao falar em rede nacional para as escolas; nega-se a tomar a vacina contra gripe suína porque ela provoca autismo ou é uma trama do governo.
As teorias conspiratórias estão por todos os lados e tive uma amostra disso na situação mais prosaica.
Eu me sentei ao lado de um senhor no avião no voo de volta de Istambul, onde fui cobrir a reunião do FMI no início de outubro. Era um senhor de uns 70 anos, que me contou ter emigrado da Alemanha para os EUA há 50 anos. Papo vai, papo vem, ele me conta que faz parte da John Birch Society e dá palestras por lá sobre fatos distorcidos pela imprensa.
“Os jornais distorcem tudo, não ficamos sabendo das coisas reais ao ler a grande imprensa”, ele me disse.
Bom, até aí não discordo completamente, pensei comigo.
O senhor começou me contando sobre os piratas somalis, que tinham motivos para sequestrar pessoas. “Afinal, estão sendo inundados por contêineres cheios de lixo nuclear.”
Depois, ele me contou sobre o globalismo – essa proposta mundial de acabar com os países e ter apenas um governo global, com um presidente que mandaria em todos e eliminaria as nacionalidades.
“Eu não sei se esse presidente é o Obama – mas muita gente acha que sim.”
Comunistas, globalistas, é “déjá vu tudo de novo”.
Tem algumas notícias no jornal tão bizarras que são dez vezes melhores do que qualquer ficção. Nesta semana, deparei-me com duas desta categoria “não dá para inventar essa porcaria”, como dizem por aqui.
A primeira: a Walt Disney Company está reembolsando todos os consumidores insatisfeitos de seus produtos “Baby Einstein”. Ou seja, caso seu filho tenha assistido a um desses vídeos e não tenha virado um gênio, peça seu dinheiro de volta. Aqueles zilhares de DVDs que deveriam ser fermento intelectual para bebês de três meses, surpresa, não funcionavam. Certas estavam minhas amigas mais naturebas, egressas da Waldorf, que não deixavam seus filhos assistirem à TV. A Disney só resolveu reembolsar os consumidores depois de uma longa campanha de ativistas que se opunham ao marketing duvidoso dos brinquedos pseudo-educativos. Esses ativistas querem que outras empresas de vídeo pra bebês sigam o exemplo da Disney.
A academia americana de pediatria recomenda zero de televisão para crianças abaixo de 2 anos.
A segunda: a Suécia vai começar a incluir nos rótulos de alimentos seu “rastro de carbono”, ou seja, qual a emissão de poluentes resultante da produção de cada alimento. Para os ecológicos suecos, recomenda-se comer cenouras em vez de tomates ou pepinos (os dois últimos precisam ser cultivados em estufas aquecidas, consumindo mais energia). E não deveriam comer mais peixe, apesar de ser saudável – porque os estoques europeus estão muito baixos.
Quer dizer, antes de comprar alguma coisa no superm,ercado, favor verificar: se tem gordura trans, se tem sódio demais, qual a quantidade de carboidratos, e proteínas, se é orgânico ou não, se o boi era alimentado de pasto, qual a emissão de poluentes do alimento, se é resultante de “fair trade”, se apoia o boicote a Burma
…nossa, já perdi a fome.
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