Dizer que toda crise traz oportunidade é um clichê dos mais gastos. Mas é verdadeiro, skatistas e dedetizadores que o digam.
Na Flórida, aumentou exponencialmente a demanda por dedetização. O estado é uma das maiores vítimas da crise imobiliária. Em alguns bairros, proliferam casas abandonas, que tiveram as hipotecas executadas. Os donos dessas casas deixam para trás piscinas abandonadas, que se transformam em criadouros para mosquitos e outras pestes – daí a dedetização em alta.
Outros vencedores inusitados dessa crise imobiliária são os skatistas. Na Califórnia, outro estado que é grande vítima da epidemia de execuções de hipoteca, os skatistas estão fazendo a festa nas piscinas abandonadas, que eles transformam em half-pipes radicais.
Segundo o The New York Times, tem gente vindo da Alemanha para fazer skate nas piscinas vazias californianas.
(Queridos leitores:
Peço desculpas pela ausência prolongada, mas é que estou de férias.)
O grande problema da eleição histórica de Barack Obama são as expectativas estratosféricas.
A esquerda do partido democrata já começa a se decepcionar com as indicações centristas de Obama, como Hillary Clinton para secretária de Estado e o general Jim Jones para Conselheiro de Segurança Nacional (ele é amigo próximo de John McCain). A manutenção de Bob Gates como secretário de Defesa também desagradou aqueles que esperavam uma retirada mais rápida do Iraque.
Nesta semana, na conferência do clima em Poznan, foi a vez dos ecologistas se decepcionarem. Obama se elegeu como defensor dos empregos verdes e comprometido em reverter a política de cegueira de Bush em relação ao aquecimento global. Mas as propostas do governo Obama para redução de emissão de gás carbônico são ainda mais conservadoras do que o protocolo de Kyoto (que os EUA não assinaram). E em meio à maior crise financeira desde os anos 30, é difícil mesmo que Obama concorde com políticas ambientais com altíssimos custos para a indústria americana .
Outros frustrados são os eleitores que esperam do governo Obama uma nova era de ética na política. O episódio Rod Blagojevich – o governador democrata foi preso tentando vender a vaga de Obama no senado – lembrou aos eleitores que apesar da eleição de Obama, a sujeira na política continua por aí, seja entre democratas ou republicanos. Obama não está envolvido no escândalo de corrupção, mas o fantasma da política suja de Chicago (quatro governadores do Illinois foram presos nos útlimos 40 anos) pode voltar para assombrá-lo.
Na quarta-feira passada, o presidente George W. Bush perdeu boa parte da manhã perdoando Pumpkin e Pecan, os dois perus que escaparam do jantar de ação de graças e voaram para a Disneylândia.
Enquanto isso, o presidente-eleito Barack Obama se ocupava de assuntos mais prementes. Em Chicago, Obama anunciava a criação de um comitê de recuperação da economia, com a participação do venerando ex-presidente do Fed Paul Volcker.
O dia foi um bom exemplo da dinâmica do governo americano nos últimos dias: enquanto Bush se restringe a funções puramente cerimoniais, Obama já toca uma espécie de governo paralelo, embora insista que só existe um presidente de cada vez.
“De fato, só existe um presidente de cada vez, e esse presidente é Barack Obama – Bush já está com as malas na porta”, disse-me Paul Light, especialista em transição presidencial da New York University.”Bush não tem mais se pronunciado muito sobre a crise e quando o faz, ninguém presta atenção. Obama sabe que esta crise é dele”, diz Light.
Obama está seguindo um caminho bastante diferente do trilhado pelo ex-presidente Franklin Roosevelt, que se manteve completamente distante durante a transição (naquela época a posse era em março) para não se associar de maneira nenhuma com o fracassado governo de Herbert Hoover. Mas, com isso, quando ele assumiu, a crise – a Depressão de 30 – tinha assumido proporções catastróficas.
Pouca gente vai sentir saudades do governo Bush, mas alguns vão perder seu pão de cada dia com o fim da era dábliu. Os irônicos, os sarcásticos, os ferinos e os debochados estão desacorçoados.
Barack Obama matou a ironia, dizem alguns. Esperança não combina com sarcasmo. E os partidários de Obama – fiéis? seguidores? – não primam pelo senso de humor.
Em uma palestra recente na New York Public Library, citada pelo The New York Times, a escritora Joan Didion manifestou seu pesar com o ocaso da ironia. “Os Estados Unidos” na era Barack Obama se tornaram uma “zona livre de ironia”, um enorme tanque de Kool-Aid onde “ingenuidade, transformada em ‘esperança’, está na moda” e onde “inocência, mesmo quando se parece com ignorância, é premiada”. O Kool-Aid, no caso, era uma referência ao reverendo Jim Jones, que distribuiu seu Kool-Aid envenenado para 800 seguidores extasiados na Guiana.
Pode se dizer que Didion – (Slouching towards Bethlehem, The Year of Magical Thinking) – está um pouco rabugenta.
Mas é fato que os satiristas até agora não conseguiram afinar suas penas para retratar Obama. Um senso de politicamente-correto, de “não vamos criticar para não estragar”, domina.
A única piada permitida até agora é sobre as orelhas de abano do POTUS-eleito. E convenhamos, umas duas ou três piadas de orelha de abano já são suficientes para um mandato inteiro.
Bush era o paraíso dos humoristas –o presidente em retirada é uma piada pronta atrás da outra. Desde sua ignorância a respeito de fatos básicos do mundo até seus escorregões verbais, os bushismos, e chegando à triste sucessão de equívocos monumentais de seus dois governos, tudo era material para Jon Stewart no Daily Show.
Barack Obama sabe o nome do presidente do Paquistão. Barack Obama não usa a “internets”, ele tem um BlackBerry. E o presidente eleito tem conjugado todos os verbos de forma certa.
Mais do que isso, acho que valerá a pena perder a piada por alguns meses, mas não perder o país, o que vinha acontecendo. A ironia não morreu. Ela só tirou um sabático e deve voltar em breve.
Em 1999, a revista Time publicou uma capa com o título “O comitê para salvar o mundo: como os ‘três mercadeiros’ evitaram uma crise econômica mundial, até agora”. Os heróis da crise asiática eram o então secretário do Tesouro Robert Rubin (que depois se tornou presidente do conselho do Citigroup, um dos bancos mais afetados pela crise atual); o ex-presidente do Fed Alan Greenspan, que passou de “maestro” e “gênio” para alimentador oficial de bolhas; e Lawrence Summers, que está cotado para ser secretário do Tesouro no governo Obama, se as feministas deixarem (quando era presidente de Harvard, Summers falou que há menos mulheres na área de ciências por razões biológicas).
No final de semana, tivemos aqui em Washington uma tentativa de comitê para salvar o mundo versão 2008, com 20 líderes reunidos para discutir a crise mundial que só piora. A cúpula do G-20 começou alardeada como “a nova Bretton Woods”, mas aí foram baixando tanto a bola do evento, que a reunião nem foi noticiada na capa do the New York Times de sábado.
Nem 8 nem 80.
A reunião não foi um sucesso retumbante, mas as expectativas eram tão baixas que não foi difícil superá-las. O documento lista uma série de recomendações detalhadas e muitas reivinidcações dos emergentes para lidar com a crise mundial. Mas há uma armadilha: apesar de terem incluídos muitos tópicos considerados necessários, a linguagem do documento é vaga o suficiente para dar aos países espaço de manobra para fugir dos comprometimentos.
Se toda essa agenda ambiciosa sair do papel, aí sim poderemos ter um novo comitê para salvar o mundo 2008, com Gordon Brown, Sarkozy e Strauss-Kahn na capa da Time. (E Lula? E Taro Aso? Vai dar uma briga essa capa…)
Eu vi alguém dizendo, em algum lugar, que agora ser americano é “cool” de novo. Eu concordo.
Em sua primeira entrevista coletiva como presidente-eleito, além dos assuntos prementes, como o derretimento da economia americana, Obama falou sobre….cachorros!
“O cachorro é a questão que desperta o maior interesse no meu website”, disse. Ao se candidatar, Obama prometeu às filhas Malia e Sasha que elas poderiam finalmente ganhar um cachorro, ao final da campanha, para compensar todas as horas que ele teria de passar longe delas. Ontem, ele disse que há dois critérios para a escolha do cachorro. “Malia (sua filha menor) é alérgica, então precisa ser um cachorro hipo-alergênico; há várias raças que são hipoalergências”, disse Obama. “Mas nós sempre preferimos um cachorro de abrigo (adotar um cão abandonado) – o problema é que muitos dos cachorros de abrigo são vira-latas (de raça misturada), como eu. Então, como equilibrar essas duas questões é um desafio urgente no lar dos Obamas.”
Os vira-latas não são hipoalergênicos. Normalmente, os cachorros que não soltam pêlos e, portanto, não causam alergia são os poodles. Por isso, muitos apostam que os Obamas vão comprar um cachorro híbrido, como o Labradoodle (cruzamento de Labrador com poodle, o resultado é um Labrador de pelo crespo que não causa alergia).
Além de se declarar um vira-lata, o presidente-eleito teve outros momentos bem-humorados. Ele foi bastante simpático com a colunista Lynn Sweet, do Chicago Sun-Times, que estava com o braço em uma tipóia.
“O que aconteceu com o seu braço Lynn?”, perguntou Obama.
“Eu machuquei meu ombro a caminho do seu discurso na noite da eleição”, Lynn respondeu.
“Oh não. Esse deve ter sido o único grande incidente da comemoração em Grant Park”, ele brincou.
Respondendo às perguntas de Lynn, que levantou a questão canina, Obama disse que estava relendo as obras de Abraham Lincoln para se preparar para a presidência. Ele também disse que consultou vários ex-presidentes – ele citou primeiro Bill Clinton, mas depois teve o cuidado de acrescentar os nomes de Jimmy Carter, George H W Bush e o atual presidente George W Bush.
A cidade de Chicago vive clima de final de Copa do Mundo. Todo mundo se prepara para a grande festa que se realiza amanhã no Grant Park, onde o senador Barack Obama vai festejar sua vitória (tudo indica). Serão pouco mais de 70 mil afortunados com ingressos que vão ficar na área cercada, perto do palco onde Obama vai discursar. Mas quase um milhão de pessoas podem se aglomerar nas redondezas.
“O número em si não assusta, já lidamos com multidões de 1 milhão de pessoas nos feriados de 4 de julho”, disse-me um policial. “O problema é as pessoas se excederem na comemoração e virarem carros e quebrarem coisas, como já aconteceu antes.” O grande medo mesmo é uma derrota de Obama. “Iriam queimar a cidade inteira, tumultos incontroláveis”, diz o policial.
A chance é pequena – segundo o site fivethirtyeight, a chance de mcCain ganhar é de 3,7%. Mas nunca pe bom subestimar a capacidade dos democratas de estragarem tudo, de as eleições americanas serem roubadas ou tumultuadas ou de as pesquisas estarem erradas.
O bestiário da crise de crédito mundial está crescendo. Como em outras crises, as pérolas dizem muito sobre os engenheiros do desastre em curso.
Como este diálogo por MSN entre analistas da Standard & Poor’s, agência de classificação de risco, que, como outras colegas, deu nota AAA para muito lixo que está por aí.
“Este modelo não capta nem metade do risco”
“Nós não deveríamos estar classificando isso”
“Nós classificamos qualquer negócio – poderia ter sido estruturado por vacas e mesmo assim nós iríamos classificar”
Ou este e-mail de um sujeito da Moody’s (tudo isso apareceu durante audiência na Câmara nesta semana)
“Com esses erros, ou somos incompetentes em análise de crédito, ou vendemos nossa alma para o diabo em troca de receita, ou um pouco dos dois”
A seguradora AIG, DEPOIS de ter recebido boa parte do socorro de US$ 123 bilhões do governo, levou alguns de seus executivos para arejar na Inglaterra. Ao preço de US$ 86 mil do contribuinte, eles foram praticar caça em uma casa de campo.
“A recessão não termina antes de 2011, mas a caçada foi ótima e nós estamos relaxando”, disse um chefão da AIG a um repórter à paisana.
Ontem fui assistir ao filme W., a última controvérsia lançada por Oliver Stone, que dirigiu os tampém políticos JFK e Nixon. O filme é forçado e caricatural. Mas a história é muito boa – é bom relembrar quão inacreditável é a trajetória do governo Bush.
O W. em questão deve estar espumando – não bastasse uma recessão de proporções históricas, ele ainda teve que engolir esse sapo em forma de filme em seus dias de “lame duck” na Casa Branca.
No W., Bush é retratado como um alcoólatra filhinho de papai que passou a vida em uma missão edipiana para conquistar a admiração de George Bush senior. Sem sucesso, diga-se de passagem.
O filme mostra episódios conhecidos da vida do presidente, como a cena em que Bush engasga com um pretzel enquanto assiste a um jogo de futebol americano acompanhado de Barney, seu cachorro, e quase morre. Ou quando assassina a língua inglesa com a frase famosa “Nossas crianças está (sic) aprendendo?”. Em outra cena, ele chama Guantánamo de Guantanamera. Ouch.
Stone relata a vida de Bush desde a faculdade em Yale, passando pela juventude de bebedeiras, a dificuldade de se fixar em qualquer dos empregos arrumados pelo pai, a competição com o irmão mais inteligente Jeb (que virou governador da Flórida) e o casamento com a bibliotecária Laura. Ele mostra quando Bush pára de beber e vira evangélico, quando se elege governador do Texas, ah,e o momento fatídico – “ouvi o chamado de Deus para me candidatar à presidência”.
A maior parte do filme se foca na decisão de Bush invadir o Iraque, que, na visão de Stone, tinha como objetivo essencial mostrar para o pai que ele era melhor e que conseguiria acabar com Saddam Hussein.
A relação problemática entre Bush filho (Josh Brolin) e pai (James Cromwell) conduz a narrativa. “Quem você acha que é? Um Kennedy? Você é um Bush”, diz Bush pai a W a certa altura, depois de o filho se envolver com bebedeiiras e mulheres. Brolin está super bem como Bush filho, com todos os cacoetes (apertar os olhos, falar como caubói) do presidente. Mas são tantos os cacoetes que a interpretação tem um ar de Saturday Night Live. A atriz que interpreta Laura Bush, Elizabeth Banks, vai dos 30 aos 50 sem nenhum pé-de-galinha – quero saber que creme ela usa.
Barbara Bush (Ellen Burstyn) também despreza o filho e não tem papas na língua. Quando Bush diz à mãe que vai concorrer ao governo do Texas, Barbara não se contém: “Governador do Texas? Você está brincando”, diz, questionando a capacidade do filho.
Karl Rove, que no filme é um anãozinho cabeçudo de óculos, é presença constante ao lado de Bush, treinando-o e dando livros para o presidente se informar. Dick Cheney (Richard Dreyfuss) é a eminência parda do governo.
Uma das melhores cenas é a da torta de nozes. Ao ver o presidente recusar uma torta de nozes, o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, comenta – “Mas você adora esta torta, sr presidente.”
“É, mas eu não como doce desde o início da guerra, para mostrar meu sacrifício pelas tropas.”
Pouco depois Bush vai com Laura ao Walter Reed visitar os soldados que perderam pernas e braços no Iraque. Segundo consta, eles também não comem torta de nozes.
Comentário ouvido em reunião do Instituto Peterson de Economia Internacional….
Diz que o Wal Mart, como todas as cadeias de varejo, está sofrendo muito com a crise atual.
Mas existe um produto cujas vendas não param de subir: cofre. Só no mês passado, foram vendidos 35% mais cofres.

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