Queridos leitores
estou de férias no Brasil.Volto a postar no dia 28 de dezembro, quando estarei de volta a Washington DC, prestes a embarcar para Iowa e New Hampshire, para cobrir as primárias.
Feliz Natal para todos, espero que se divirtam e voltem a comentar no blog no dia 28 de dezembro!
um abraço
Patricia
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É uma pena, mas dificilmente John McCain vai ganhar a indicação do partido Republicano. Mc Cain é, de longe, o mais qualificado e razoável dos republicanos para ser candidato a presidente.
Para começar, ele não joga para a platéia. Continuou defendendo sua posição de aumento das tropas no Iraque, mesmo quando ela se transformou em veneno político. Seus colegas de partido até hoje se fingem de mortos quando o assunto é o que fazer no Iraque – falam que não vão retirar as tropas às pressas, e logo mudam de assunto. (eu não concordo com McCain, mas acho louvável o sujeito ser coerente).
McCain é o único dos republicanos que não endossa os “métodos alternativos de interrogatório”, um mimoso eufemismo para tortura. Mitt Romney, a.k.a. torturador de cachorros em bagageiro de Volvo, quer “dobrar Guantánamo”. Rudy Giuliani tem como assessor Norman Podhoretz, o neocon desvairado que prega a invasão imediata do Irã para salvar os EUA na “Terceira Guerra Mundial, contra o Islamofascismo”. Talvez McCain tenha uma visão mais clara do assunto, já que experimentou as conseqüências do desrespeito à Convenção de Genebra, ao ser torturado durante cinco anos no Vietnã.
Em imigração, o tópico mais controvertido desta eleição – emparelhado com a guerra do Iraque, acreditem – McCain também está fora da curva. Em vez de recorrer a frases grandiloqüentes e populistas na linha “vamos expulsar todos os chicanos”, ele defendeu até o fim a impopular reforma da lei de imigração, argumentando que não basta erguer muros e policiar fronteiras, é preciso dar uma solução humana para os 12 milhões de ilegais atualmente nos EUA.
Ele se abstém das patéticas trocas de acusações xenófobas que tomam conta dos debates. “Você usou ilegais para cortar a grama de sua mansão!” (Giuliani versus Mitt Romney). “Você propõe faculdade mais barata para filhos de ilegais” (Romney versus Huckabee).
McCain insiste naquilo que ninguém quer ouvir. Não adianta berrar e dizer que vai expulsar os ilegais. É preciso desenhar alguma política de absorção para aqueles que já estão aqui.
Mas como se pode imaginar, a linha jingoísta Tom Tancredo faz mais sucesso com o eleitorado.
Mesmo assim, ainda conservo uma pontinha de esperança. Várias verdades universais desta campanha já caíram por terra.
Todo mundo dizia que o Rudy Giuliani não ia nem fazer cócegas, afinal, a direita cristã ia cortar as asinhas dele logo de cara. Não exatamente…
E o próximo Reagan, o ator-ex-senador Fred Thompson??? Muito barulho por nada. Ele e seu ar de fadiga crônica não decolaram.
Portanto, podemos estar todos errados, como sói acontecer. E McCain terá seu momento Lázaro. Tomara
Além dos hecklers, aquele pessoal que faz perguntas ou piadas inconvenientes, os candidatos presidenciais americanos têm outro enorme desafio na árdua rotina de campanha – a fritura profunda.
Deep-frying é uma cultura arraigada aqui na América. Mergulhar todo tipo de alimento em gordura fervendo é uma tradição nos EUA. Quando eu digo todo tipo, é todo tipo mesmo – deep-fried Oreos (biscoito Negresco frito), espaguete e almôndegas no espeto, deep-fried; pizza em fritura profunda, e até Coca-Cola empanada.
Nem Mike Huckabee, estrela em ascensão do partido Republicano e ex-obeso devoto, autor de livros de emagrecimento, escapa dos quitutes profundamente fritos. Afinal, nada mais “europeu”(no mau sentido da palavra) do que dizer “estou de dieta” em plena campanha pelas estradas de Iowa e New Hampshire.
A líder Hillary Clinton disse que reza – pede a Deus, isso mesmo – para emagrecer. Mas não recusa os Twinkies deep-fried (nosso Ana Maria da Pulmann) para não perder votos.
Bom, eu não podia ficar de fora. Já em preparação para mergulhar no milharal de Iowa no reveillón e cobrir as congelantes eleições primárias, resolvi submergir em fritura profunda neste final de semana.
Na casa de amigos americanos, vivi a definitiva experiência americana – peru deep-fried. Isso mesmo. O pessoal arma um fogareiro com uma panela enorme cheia de óleo de canola. Fora de casa, pra não ter perigo de incêndio. E mergulha o peru do Dia de Ação de Graças em gordura fervendo.
E não é que é gostoso? O peru não fica seco e sem graça.
De mais a mais, as notícias no front são animadoras. A taxa de obesidade nos Estados Unidos parou de crescer. O número de obesos estabilizou em 35,3% das mulheres e 33,3% dos homens. São 72 milhões de americanos se esbaldando em fritura profunda e quetais.
Coca-Cola frita
Negresco em fritura profunda
O estrago do subprime está se alastrando. A vítima mais recente são inquilinos de casas e apartamentos que entraram em execução de hipoteca.
Tudo começou com uma onda de calotes em financiamentos imobiliários para pessoas com histórico de crédito capenga, no começo do ano. Muitos tomadores de empréstimos começaram a perder suas casas. Depois, empresas que concediam os financiamentos imobiluiários começaram a fechar as portas. Calcula-se que mais de 200 tenham quebrado até agora.
Em seguida, bancos que transformavam esses financiamentos imobiliários em títulos e vendiam esses papéis para fundos ou os mantinham em suas carteiras começaram a sentir as conseqüências.
Agora, milhares de inquilinos estão sendo expulsos de suas casas, porque os donos dos imóveis estão inadimplentes em suas hipotecas.
Os Estados Unidos estão em plena ressaca de três anos de excessos no setor de crédito imobiliário. Os critérios de concessão de empréstimos deterioraram muito. Chegaram ao ponto de ganhar o apelido de ‘Hipotecas Ninja’ – No Income, No Job, no Assets (sem renda, sem emprego, sem bens). Outros financiamentos ‘não tradicionais’ ofereciam prazos de 50 anos, não exigiam nenhuma entrada do tomador e tinham juros iniciais baixíssimos, com previsão contratual de reajuste após dois anos.
A bolha das hipotecas do subprime foi alimentada por grandes bancos de investimento, como Merrill Lynch, Goldman Sachs, Lehman Brothers e Morgan Stanley.
O mecanismo é o seguinte: esses bancos ‘compram’ os financiamentos das empresas de hipoteca e os transformam em títulos, na chamada securitização de recebíveis. Aí, vendem esses títulos para fundos de pensão e fundos de hedge ou os mantêm em suas carteiras.
Eles podem ainda emitir papéis que têm como garantia justamente os papéis lastreados nos imóveis, e são chamados de CDOs.
Como as empresas de hipoteca ganham dinheiro ao ‘vender’ seus empréstimos para bancos, elas tinham incentivo de fazer o maior número possível de financiamentos. Para cumprir essa finalidade, essas empresas muitas vezes negligenciavam os riscos dos tomadores de seus empréstimos. Isso é o que os economistas chamam de risco moral.
A contaminação das instituições financeiras começou a ser sentida em junho, com a quebra de dois fundos hedge da Bear Stearns.
Com o aumento dos calotes, os investidores começaram a desconfiar dos papéis lastreados em hipotecas e dos CDOs. A demanda por esses títulos caiu muito e as instituições que investiram pesadamente nesses papéis tóxicos estão perdendo bilhões de dólares.
Está previsto que 1,7 milhão de americanos vão perder suas casas ou apartamentos por execução de hipoteca e milhares de imóveis voltarão para o mercado, o que significa aumento da oferta e deprime os preços. O mercado de hipotecas de alto risco americano é de US$ 1,3 trilhão e calcula-se que cerca de 15% desse volume terá calote. Além dos donos dos imóveis, outros milhares de inquilinos serão expulsos de suas casas.
Morgan Spurlock, do documentário anti-McDonald’s “Super Size Me”, lança agora um libelo contra o consumismo americano.
“O que Jesus compraria”, produzido por Spurlock e dirigido por Rob VanAlkemade, mergulha na cultura shopaholic americana que chega ao auge entre o feriado do Dia de Ação de Graças e o Natal. O filme acompanha um pastor da igreja Stop Shopping, que prega contra o “Shopocalypse”.
“O que Jesus compraria” é uma referência ao “O que Jesus faria (What would Jesus do)”, que se tornou mote de muitos cristãos – aja apenas da maneira que Jesus aprovaria.Tá cheio de gente andando com pulseirinha WWJD.
O timing do documentário é perfeito. Os EUA são, cada vez mais, uma nação de endividados. Endividar-se é uma arte – as pessoas aprimoram suas táticas de distribuição de dívidas entre 10 cartões de crédito diferentes, levantar uma segunda hipoteca em sua casa para comprar mais carros, mais móveis, mais telas de plasma, mais videogames.
Muitas vezes eu me sinto como o ator Edward Norton no filme Clube da Luta – naquela cena em que tudo tem um preço, a vida é um enorme catálogo da Ikea.
Esta é a terra dos catálogos. Toda vez que abro minha caixa de correio, há pelo menos cinco catálogos diferentes. Há desde o indefectível Victoria’s Secrets até incongruentes livretos de equipamentos de jardinagem (prazer, ancinho Patrícia, Patrícia ancinho), objetos e roupas místicas (detesto incenso), livros cristãos, brinquedos de criança (cada casinha de boneca linda) e o “ultimate” 1406 – o catálogo do skymall, que vende de coleira que dá choque no cachorro até jacuzzi inflável.
Eu não sei como é que essas coisas vão parar na minha caixa de correio. De onde é que esse pessoal pega meu endereço? De onde tiraram que eu tenho veleidades agronômicas ou new age?
O pior é que, pensando bem, poderia ser legal comprar um AeroGarden, uma miniestufa para plantar seu próprio alface dentro de casa. Como eu pude viver até hoje sem cultivar meu manjericão, por módicos US$ 149, frete grátis?
Será que Jesus compraria?
Olha aí o AeroGarden…
No filme “Obrigado por fumar” o ator Aaron Eckhardt interpreta um lobista da indústria do cigarro, e costuma sair para fazer happy-hour com seus companheiros “mercadores da morte” – Maria Bello é um lobista da indústria de bebidas e David Koechner faz lobby para os fabricantes de armas.
Eu tive meu encontro com os mercadores da morte. Encarregada de fazer uma matéria para o caderno de economia, fui assistir a uma simulação de choque do petróleo no Ritz Carlton aqui em Washington. Salão lotado. Do meu lado, sentou-se um senhor muito simpático, de bigode, um pouco gordinho. “Ainda bem que você é magrinha e não estamos em um vôo da United”, ele brincou.
Mal sabia eu, mas “serendipity” estava fazendo sua mágica. (trata-se de uma palavra genial em inglês, que significa: fenômeno de encontrar coisas valiosas por acaso).
Sucede que eu estava apurando também uma matéria sobre os negadores do aquecimento global.
“Não existem provas científicas de que o CO2 provoca o aquecimento global”, disse-me o senhor, que faz lobby para a associação da indústria de gás. “E, além disso, os anos em que o planeta esteve mais quente foram os mais prósperos.”
Um jovem sentado na fileira da frente não se conteve. “É isso mesmo, não há provas científicas e o filme do Al Gore está cheio de erros”, interveio o fulano – vim a saber que era assessor de um deputado. “E, de mais a mais, as calotas polares de Marte também estão derretendo.”
O senhor gordinho e o jovem exaltado são neo-mercadores da morte – eles fazem lobby a favor do CO2. Ou quase isso.
Eu costumava achar aquela mania de brinquedos Baby Einstein meio exagerada. “Descubra produtos interativos para seu pequeno gênio”, é a propaganda. Mas vá lá, existem uns jogos educativos que realmente ajudam a desenvolver a inteligência das crianças.
Agora “Ensine seu cachorro a ler”? Faça-me o favor.
Fui fazer um brunch mulherada no café da Kramer Books, uma livraria bacana aqui em Washington.
E eis que, em meio a um relaxante papo manicure na fila de espera, deparo-me com esta obra sensacional – “Ensine seu cachorro a ler – Um programa passo a passo para expandir a mente de seu cachorro e aumentar os laços entre vocês”.
Meu Deus.
Na capa, a foto de um desavisado Golden Retriever de beca.
Apesar de o livro vir com o “disclaimer” de que não, não vai ensinar seu cachorro a ler as obras de John Grisham, o autor garante que o bicho vai sair lendo pelo menos textos curtos. Tipo plaquinhas dizendo senta, deita, beija, vira, etc. Você não precisa mais dizer senta – só levantar uma placa.
Tem até um guia pra perceber se seu cachorro está ficando estressado demais com as aulas de leitura – ele começa a se coçar, bocejar, ou seja, o básico….
Também na categoria Rogério Magri “cachorro também é gente”, outro livro curioso figurava com grande destaque na estante da Kramers. “Por que os cachorros bebem água da privada?” (o que , no caso, poderia valer pra crianças também). Didaticamente, o autor nos esclarece que, do mesmo jeito que não apreciamos tomar champanhe em copo de plástico, para os cachorros a privada é o melhor vasilhame do mundo para saborear sua água – água está sempre fresquinha, corrente, sem o gosto de metal ou plástico das tigelas.
O autor nos ilumina sobre vários assuntos essenciais – sabia que alguns cachorros usam Botox? não para se livrar dos pés de galinha, mas pra desvirar pálpebras que ficam incomodando. E tem outros caninos que tomam Viagra – mas para combater hipertensão pulmonar.
Agora embalei nessas informações primordiais para a vida de todos.
Como você pôde viver todo esse tempo sem saber que alguns cachorros tomam Viagra? E como você pôde viver sem saber que o best-seller mundial das compras pela TV, o George Foreman grill, ganhou um concorrente à altura – o Evander Holyfield Real Deal Grill?
E, por fim, como desconhecer o lado hollywoodiano do governo Evo Morales – um de seus assessores se chama Tom Cruise. (Ok, na verdade é Tom Cruz, mas no telefone soa igualzinho ao Tom Cruise em fase Penelope Cruz).
Em dezembro do ano passado, um menino da cidade de Waco, no Texas , foi suspenso da escola porque uma professora assistente o acusou de assédio sexual.
A assistente se sentiu ultrajada ao ser abraçada pelo menino, quando ele estava entrando no ônibus escolar. Ela reclamou para a direção da escola que o menino tinha posto a cabeça em seus seios. O menino tinha 4 anos.
Também em dezembro do ano passado, na cidade de Hagerstown, um menino do jardim-de-infância foi acusado de assédio sexual porque deu um beliscão na bunda de uma coleguinha de classe. “Uma criança pode não se dar conta do que está fazendo, mas se o ato se encaixa na definição de assédio, então é”, disse na época a porta-voz da escola, segundo relato de uma coluna do Washington Post.
O pior é que não são casos isolados. No ano passado, só no estado de Maryland, 15 crianças foram suspensas do jardim-de-infância por assédio sexual.
Parece lenda urbana, mas não é. Estão suspendendo crianças de 4, 5 anos de idade por se abraçarem, darem beijinhos. Afinal, será que menores podem corromper menores? Tem algum mal em duas crianças de 5 anos brincarem de médico?
O Macaco Tião da eleição americana de 2008 chama-se Stephen Colbert. O comediante personifica um âncora ultra-conservador em seu programa Colbert Report. Ele anunciou ontem no programa de seu antigo chefe, o Daily Show with Jon Stewart, que irá concorrer nas eleições primárias de seu estado natal, Carolina do Sul. O hilário Colbert cunhou expressões como Susan Sarandoners (para designar pacifistas radicais), e wikiality (a verdade por consenso, basta escrever na wikipedia que vira verdade).
No domingo, ele escreveu a coluna da Maureen Dowd no The New York Times, dizendo que entraria na campanha por US$ 15 milhões. E ontem à noite finalmente anunciou – diz que irá concorrer nas primárias dos democratas e republicanos. Embora se espere que a maioria dos seus eleitores esteja entre os democratas, já que ele passa boa parte do show ironizando os republicanos e, mais precisamente, o presidente George W Bush.
O Brasil ganhou mais um aliado em sua luta contra os subsídios agrícolas dos Estados Unidos. “King Corn” (Rei Milho), documentário que acaba de estrear por aqui, mostra como o milho está por atrás da epidemia de obesidade que desafia a América. Nos moldes do “Supersize me”, o milho substitui o Big Mac como inimigo número um da dieta americana. Mas “King Corn” acaba funcionando como um poderoso libelo contra os milhões de dólares de subsídios dados aos plantadores de milho americanos.
O milho é um concorrente muito menos eficiente do nosso etanol de cana – aliás, o etanol de milho só consegue ser viável economicamente por causa dos subsídios. O temido lobby de Iowa está por trás das barreiras para exportação de etanol para os EUA.
Mas não são apenas os agricultores brasileiros (e de outros países) que sofrem por causa do regime de subsídios.
Em vez de dar incentivos para o plantio de frutas e verduras, o governo americano estimula a produção do milho, a partir do qual se fabrica o xarope de milho, adoçante onipresente em refrigerantes e junk food. Não parece uma decisão das mais acertadas num país onde a obesidade é problema de saúde pública
Pra completar, a febre do etanol do milho nos EUA encareceu a ração de suínos e frangos e causou um enorme e antiecológico aumento no consumo de água no país. E agora começa a pressionar preços de alimentos em todo o mundo.
Assistir ao documentário deveria ser obrigatório para os congressistas americanos prestes a votar a lei agrícola, a legislação que a cada cinco anos enche os agricultores de subsídios, a despeito de protestos no mundo inteiro.

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