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Patrícia Campos Mello

Ontem, em Brasília, tive a oportunidade de entrevistar o senador John McCain pela segunda vez. A primeira foi em 2008, durante a campanha presidencial americana. Viajei por três dias com a travelling press no avião do McCain – que era da Embraer. Eu era uma estrangeira no meio de dezenas de jornalistas “carrapatos”, aqueles que colam nos candidatos, de publicações americanas conhecidas. Depois de muito implorar, consegui fazer umas cinco perguntas para McCain sobre assuntos que interessavam a nós, brasileiros – etanol entre eles, obviamente.
Ontem, a situação foi bem diferente. McCain ainda é uma instituição do Senado americano, um heroi de guerra (ficou cinco anos e meio preso no Vietnã e, por causa das torturas, não consegue levantar os braços), o “republicanos mais amado pelos democratas”, a voz da razão no Senado, expert em política externa. Sua reputação sofreu um pouco após a escolha atabalhoada de Sarah Palin para compor sua chapa em 2008. E na campanha para as eleições legislativas deste ano, ele decepcionou muitos de seus admiradores mais moderados ao voltar atrás em algumas de suas posições para agradar aos conservadores do Tea Party e quetais – deixou de ser o defensor apaixonado da reforma de imigração, defendeu policiamento mais drástico nas fronteiras, esqueceu um pouco seus modus operandi bipartidário, tão admirado.
Mas McCain é Mccain, um símbolo americano. E sendo McCain, teve recepção quase presidencial no Brasil – 40 minutos com a presidente Dilma, 45 minutos com o ministro da Defesa, Nelson Jobim; meia hora com Palocci e Temer. Nada mal.
Eu tive a sorte de conseguir meia hora, que viraram uns 40 minutos, com o senador. Ele estava relaxado e bem-humorado, acompanhado de outro senador republicano, John Barrasso.Lambuzado de filtro solar, foi logo pedindo aquele “famoso cafezinho”, na residência do embaixador americano em Brasília, Thomas Shannon – que é unanimidade entre brasileiros e americanos. McCain elogiou inúmeras vezes a presidente Dilma, contou como o presidente Lula foi uma surpresa muito positiva e como as relações bilaterais melhoraram nos últimos oito anos – ele negou qualquer tensão. O senador fez questão de enfatizar que há, sim, diferenças de ponto de vista e opiniões entre os dois países – mas os pontos comuns são muito mais frequentes.
Abaixo, publico trechos da entrevista.

O senador republicano John McCain, um dos mais influentes legisladores americanos e candidato derrotado por Barack Obama na eleição dos EUA de 2008, comemorou a “mudança” da posição brasileira em relação ao Irã. E diz que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode estar arrependido de suas declarações mais amigáveis em relação ao governo iraniano. “Eu achei interessantes as declarações da presidente Dilma, acho que já há mudança (na posição brasileira)”, disse McCain em entrevista exclusiva ao Estado. “E olha, as pessoas não são perfeitas; talvez, em retrospecto, o ex-presidente (Lula) veja que essa (aproximação com o Irã) não foi a coisa mais inteligente que ele fez, afinal, os brasileiros acreditam na democracia.” A recusa do Brasil a apoiar sanções contra o programa nuclear iraniano foi motivo de muitos atritos entre Brasília e Washington no governo Lula.
McCain teve recepção quase presidencial no Brasil. Foi recebido ontem à tarde por 40 minutos pela presidente Dilma Rousseff, meia hora pelo o ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e o vice-presidente Michel Temer, e, pela manhã, por 45 minutos o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Quando veio para a posse de Dilma, a secretária de Estado, Hillary Clinton, sequer conseguiu quinze minutos com a presidente eleita por problemas de agenda – segundo autoridades americanas, a reunião não foi requisitada. Antes do Brasil, McCain foi à Colômbia, e daqui irá para o Chile, Panamá e México. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado.
Os EUA podem cooperar com o Brasil para o policiamento de fronteiras?
Nós poderíamos oferecer assitência técnica, temos tecnologia que poderia funcionar. Mas, francamente, não acho que os brasileiros estão muito interessados em ter nenhuma presença militar americana ou receber conselhos. Mas a resposta real à segurança das fronteiras é a tecnologia. Nós discutimos com o minsitro Jobim os veículos aéreos não tripulados (Vant) e cercas virtuais (como a construída na fronteira do México com os Estados Unidos).
E terrorismo?
Nós discutimos as ameaças à segurança dos jogos olímpicos e da Copa d Mundo que vão se realizar no Brasil. Obviamente, os terroristas querem ir aonde podem fazer suas ações mais espetaculares. Então, não existem organizações terroristas no Brasil, mas certamente há pessoas que estão de olho nesses eventos como alvos de ataques terroristas.
Como o Brasil deveria cooperar com os EUA na questão iraniana?
Amigos discordam de vez em quando. Obviamente, nós encaramos a busca do Irã por armas nucleares, e a opressão de seus cidadãos, incluindo o apedrejamento de mulheres, como comportamento aquém de qualquer norma civilizada, e vamos continuar a condenar.
O sr espera uma mudança do Brasil em sua posição em relação ao Irã?
Vi a entrevista em que a presidente condena esse comportamento bárbaro do Irã. Eu achei interessante as declarações da presidente Dilma, ela teve experiência nesse tipo de tratamento por um governo, acho que já há mudança (na posição brasileira).E olha, as pessoas não são perfeitas; talvez, em retrospecto, o ex-presidente veja que essa (aproximação com o Irã) não foi a coisa mais inteligente que ele fez, afinal, os brasileiros acreditam na democracia.
O sr costumava falar, durante a campanha, na necessidade de criar uma Liga de Países Democráticos para contrabalançar a ascensão de regimes autoritários.
Por causa da emergência da China, vemos menos esforço dos países democráticos para o respeito aos direitos humanos, e por isso precisamos cada vez mais de uma Liga das Democracias. E o Brasil seria ideal, porque emergiu sem nunca ter se envolvido em conflitos militares, e evoluiu de uma ditadura militar para uma das democracias mais eficientes do mundo.
Mas o Brasil tem se alinhado mais frequentemente com países emergentes que não se destacam por suas credenciais democráticas, como China, Venezuela, Irã. ]
O Brasil às vezes faz coisas com as quais eu não concordo. Mas eu acho que nós concordamos em 90% dos casos. E especialmente na América Latina, o Brasil tem desempenhado um papel de intermediador que é muito bem-vindo.
O sr está se reunindo com a presidente Dilma, o vice-presidente Temer e os ministros Palocci e Jobim. É uma grande recepção.
Sim, e somos muito gratos, sabemos da agenda apertada que eles têm.
O sr concorda com a percepção de que o governo petista tem relações melhores com os republicanos do que com os democratas?
(Risos). Na minha opinião, isso iria acontecer mesmo. Mas quando eu vejo como a presidente Dilma e a secretária Clinton se deram bem….
A secretária não conseguiu se encontrar a sós com a presidente….
Eu conversei com a secretária, e ela disse que ficou muito bem impressionada com a presidente Dilma.
Qual recado o sr trouxe à presidente Dilma?:
Queremos uma cooperação cada vez mais próxima, não apenas no mundo, mas também na região. Há algumas áreas muito instáveis neste hemisfério, onde o Brasil pode desempenhar um papel importante, garantir que não piorem.
Que papel o sr espera que o Brasil cumpra na Venezuela?
Espero que o Brasil ajude a convencer as pessoas em nosso hemisfério de que governar por decreto, como Chávez está fazendo, não é democracia. E que as políticas que ele está adotando estão destruindo a economia venezuelana. Quero enfatizar que Brasil e EUA não irão concordar em todas as questões, somos países diferentes, com prioridades diferentes.
Alguns analistas nos EUA afirmam que o tiroteio de Tucson, Arizona, que resultou na morte de seis pessoas e tinha como alvo a deputada democrata Gabrielle Giffords, é resultado de um clima de polarização política nos EUA e uma retórica antigoverno radical. O sr concorda?
Eu concordo que a retórica foi longe demais nas campanhas políticas e que muitas coisas não deveriam ter sido ditas. Mas eu ainda não vi a conexão entre retórica política e um indivíduo demente. Não se pode dizer que o tiroteio foi desencadeado pela discussão política inflamada.

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O cara tem senso de humor. Para o presidente venezuelano Hugo Chávez, não bastou baixar um pacotaço que restringe o poder da legislatura, que vai se reunir apenas algumas vezes por mês, que impede políticos de mudarem de partido (olha o medo de mais chavistas arrependidos) e prevê punição para órgãos de imprensa que publiquem notícias causadoras de pânico (tipo noticiar sobre a violência desenfreada em Caracas). Depois de rejeitar Larry Palmer, indicado pelo Departamento de Estado para ocupar a embaixada em Caracas, o autocrata achou por bem sugerir ao governo americano nomes mais palatáveis à revolulção bolivariana – o linguista Noam Chomsky, o cineasta Oliver Stone ou o ator Sean Penn.

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28.dezembro.2010 12:43:32

E 2011, hein?

Queridos leitores
Em primeiro lugar, queria me desculpar pela ausência prolongada. Dezembro foi um mês alucinado com preparação do novo governo, e acabei não postando por aqui. Mas queria desejar um feliz novo ano para todos, e prometer que voltarei a postar com frequência sobre assuntos de política externa, internacional e quetais.
abraços
Patrícia

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Em longa e interessante entrevista publicada no Washington Post hoje, a presidente eleita Dilma Rousseff critica a política brasileira de omissão em relação a abusos de direitos humanos no Irã. Na entrevista – feita por Lally Weymouth, filha da grande Katharine Graham – ela passa um recado claro para o Itamaraty, que acentuou no governo Lula sua tradição de se abster nas resoluções de condenações de diretos humanos na ONU. “Não sou presidente do Brasil hoje, mas eu me sentirira desconfortável, como uma mulher eleita presidente, ao não dizer nada contra o apedrejamento (da viúva Sakineh Ashtiani, acusada de adultério). Minha posição não vai mudar quando eu assumir. Eu não vou concordar com a maneira pela qual o Brasil votou. Não é minha posição” Um pouco antes, sobre apedrejamento, ela diz: Não concordo com práticas com características medievais. Não há nuance. Eu não vou fazer nenhuma concessão.”

Em matéria publicada no domingo passado no Estado, foi exatamente isso que interlocutores da Dilma me disseram – ela considera “um erro enorme” o Brasil se aproximar de um país que apedreja mulheres e não se posicionar de forma mais enérgica em relação a isso. Dilma aprova a ideia de o Brasil atuar como mediador nas negociações para evitar sanções contra o programa nuclear do Irã – mas desde que o custo não seja muito alto, desde que isso não signifique fechar os olhoso para violações de direitos humanos no país.

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O chanceler Celso Amorim ficou em sexto lugar na lista dos 100 maiores “pensadores globais” da revista Foreign Policy. No perfil altamente elogioso, a revista diz que o “mandato de Amorim provou que é possóvel ter, como ele disse recentemente, uma política externa humanista, sem perder de vista o interesse nacional”.
Amorim capitaneou uma das manobras diplomáticas mais destacadas do ano – o acordo de troca de combustível do Irã, mediado por Turquia e Brasil. O acordo acabou ignorado por Estados Unidos e as outras potências, que aprovaram as sanções contra o programa nuclear iraniano na ONU. Mas cimentou a maior presença do Brasil no cenário diplomático global.
Já a atitude do governo brasileiro em relação a violações de direitos humanos, principalmente no Irã, onde a viúva Sakineh Ashtiani pode ser apedrejada por adultério, pode acabar custando o cargo do chanceler.
Estive em Brasília durante a semana e conversei com diversos interlocutores da presidente eleita. Segundo eles, Dilma avalia que a atitude em relação a violações aos direitos humanos no Irã foi “equivocada” e “causou desgaste desnecessário”. Para Dilma, associar-se a um regime que apedreja mulheres e aprisiona opositores foi um “enorme erro”, dizem esses interlocutores.
O governo brasileiro reluta em condenar a sentença de apedrejamento de Sakineh e se abstém nas votações de resoluções da ONU contra essas práticas, e não condena a opressão a opositores do regime de Ahmadinejad. Um dos motivos para a não manutenção do chanceler Celso Amorim no cargo seria sua atuação no caso do Irã.
Seu desempenho nas negociações da Alca foi considerado um sucesso. Mas ele teria caído em desgraça por causa do Irã. Para fazer um recomeço, seria preciso ter um novo chanceler e Amorim ficou muito identificado com a iniciativa. Além disso, a química de Amorim com Dilma não seria das melhores – os dois tiveram algumas rusgas quando ela era ministra da Casa Civil.
Dilma já havia indicado que se opunha à atitude não intervencionista na questão iraniana. “Acho uma coisa muito bárbara o apedrejamento da Sakineh. Mesmo considerando usos e costumes de outros países, continua sendo bárbaro”, disse Dilma em entrevista no dia 3 de novembro.
Para assessores próximos da presidente, a percepção é de que a aproximação com o Irã pode ter custado ao presidente Lula o Nobel da Paz por seu avanço em reduzir a pobreza.

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Sir Paul McCartney estava de camiseta clara e bermuda, sem boné nem óculos, e vinha pedalando na bicicleta da frente. Sua namorada, uma morena bonita, aparentando uns 45 anos, de boné e bastante maquiagem, estava na bicicleta de trás. Foi assim, em pleno Parque do Povo, às 11h, que eu encontrei o Beatle. Eu levava minha cachorra Border Collie Sarah pela coleira, e Sir Paul passou a menos de meio metro de mim. Olhei para uma mulher que caminhava ao meu lado, ela arregalou o olho e dissemos: “É o Paul McCartney!!!” Eu fiquei olhando para cara dele, mas Paul não sorriu, pareceu um pouco irritado, com aquela cara de “ai que saco, fui reconhecido”.
Um dos músicos mais idolatrados do mundo andava de bicicleta incógnito naquele que já começa a ser chamado de Parque do Paulvo, na zona sul de São Paulo. Não tinha nenhum fotógrafo por perto, nem fãs, nem jornalistas. Ninguém o tinha reconhecido. Era como se fosse um casal normal de namorados andando de bicicleta no parque – que, aliás, de povo não tem nada, é frequentado principalmente por moradores da região de classe alta.
Ainda estupefata, peguei meu BlackBerry na mochila que levava nas costas para tirar uma foto. No instante em que eu ergui o BlackBerry, surgiu um segurança, também de bicicleta.
“No pictures!”, disse ele, um homem loiro de uns 50 anos, que vinha seguido por outro segurança de bicicleta. Imagino que havia outros seguranças circulando de bicicleta pelo parque.
“Eu não sou paparazzo, moro aqui do lado, só queria tirar uma foto de longe”, argumentei.
“Por favor, não faça isso. Você vai me deixar muito bravo se fizer isso. Guarde o celular já”, disse ele, sorrindo mas com firmeza, com um sotaque britânico.
Abaixei o BlackBerry, mas ainda não me dei por vencida. Comecei a andar em direção a Sir Paul, e o segurança de novo se aproximou e disse. “É sério, você vai me deixar muito bravo (upset) se fizer isso.”
Sir Paul nem imagina, mas ele escapou do que poderia ter sido um acidente bizarro em terras brasileiras. Com sua bicicleta, o Beatle passou bem no meio do gramado onde se realizava a final do “Circuito Nacional de Bumerangue”. Vários jovens e muitos senhores de terceira idade praticavam seus lances de bumerangue, sem imaginar que poderiam atingir acidentalmente um Beatle.

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Pouco depois de ser lançado na terça-feira com estardalhaço, o livro de memórias do ex-presidente George W. Bush, “Decision Points”, já era alvo de emboscadas. Em ações de guerrilha instigadas pela internet, ativistas começaram a remexer prateleiras de livrarias e por o livro de Bush em seu “devido lugar”: não na seção de biografias, junto com ícones políticos como Winston Churchill, mas ao lado dos livros de mistério, crime e serial killers. “O livro de Bush defende várias das políticas criminosas que ele adotou em seu governo, entre elas a invasão do Iraque e tortura com simulação de afogamento”, disse Jasmine Faustino, organizadora do movimento “Ponha o livro de Bush em seu devido lugar”.
George W. Bush, o presidente mais vilipendiado da História dos Estados Unidos, poderia estar se lixando para os ativistas. Ele recebeu um adiantamento de US$ 7 milhões para escrever seu livro de memórias, que teve tiragem inicial de 1,5 milhão de exemplares. Decision Points já é o número um em vendas na Amazon.
Mas dinheiro não é tudo. Bush não quer ser eternizado nos livros de história como o pior presidente que os EUA já tiveram. “Decision points” é apenas o início do que ele espera ser uma ofensiva de reabilitação de sua imagem.
Com o peso da guerra do Iraque nas costas, a economia em frangalhos e a imagem internacional dos EUA na sarjeta, Bush chegou a ter aprovação de apenas 32% da população americana, um dos piores índices de um presidente.
Mas dois anos se passaram desde o melancólico fim de seu governo. Bush ficou quietinho em sua casa em Dallas, não deu nenhuma entrevista, não falou mal da oposição. Enquanto isso, seu sucessor, Barack Obama, ia se enterrando cada vez mais na recessão econômica que tomou conta do país. Resultado: pesquisa divulgada pelo Instituto Gallup no dia do lançamento de seu livro mostra Bush com 44% de aprovação. O presidente Obama tem e mantido na faixa dos 45% de aprovação. Ou seja, o presidente mais odiado da história americana tem hoje a mesma popularidade que o presidente que foi o mais festejado dos EUA.
Amnésia? Negação da realidade? Reversão de expectativas?
Historiadores ainda não conseguiram decifrar os mistérios da popularidade dos presidentes e nem identificar o que determina o legado de cada um para a posteridade.
O sonho de Bush é ser um novo Harry S. Truman – um presidente brilhante, mas incompreendido em seu tempo, que foi vingado na posteridade. Truman deixou a presidência, em 1953, com o Ibope abaixo de 30%. Ele era criticado duramente por causa da Guerra da Coreia e escândalos de corrupção. “Se você quer ter um amigo em Washington, compre um cachorro”, teria dito o infeliz presidente.
Anos depois, Truman foi alçado ao panteão dos presidentes quase-fenomenais – ou seja, apenas um degrau abaixo dos endeusados Abraham Lincoln, Thomas Jefferson e Franklin Delano Roosevelt. Em retrospecto, grandes conquistas suas como a criação do plano Marshall, que promoveu a recuperação da Europa no pós-guerra, e a estratégia de contenção da União Soviética na Guerra Fria garantiram a Truman uma vaguinha no clube dos presidentes admirados.
No entanto, para historiadores, Bush está mais para Richard Nixon do que Harry Truman. Nixon caiu em desgraça depois do escândalo de Watergate, em que o governo republicano promoveu a espionagem de comitês dos democratas. Ele teve de renunciar para não sofrer um impeachment. Hoje, reconhece-se que Nixon teve grandes realizações em política externa – arquitetou a reaproximação entre Washington e Pequim e manobrou a saída dos EUA do atoleiro do Vietnã. Mas nada disso conseguiu desfazer a reputação de desonesto e vingativo de “Dirty Dick” Nixon.
Diferentemente de Truman, o potencial de recuperação de imagem de Bush é muito baixo , diz Bruce Buchanan, professor de ciência política da Universidade do Texas em Austin, especializado em estudo da Presidência. “A reputação de Bush depende do final de guerras que ainda estão em curso e, mesmo assim, não sei se isso irá convencer as pessoas de que havia motivos para invadir o Iraque.”
Além disso, as possíveis realizações do governo Bush são bastante anêmicas comparadas ao legado de Truman. O republicano alega que, por causa de suas ações, o país não sofreu outros ataques terroristas depois dos atentados de 11 de setembro. Ele afirma também que seu pacote de resgate a bancos evitou que a recessão se transformasse em uma nova Grande Depressão. “Além de serem discutíveis, nenhuma dessas realizações se compara ao Plano Marshall, por exemplo.”
Enquanto a posteridade não vem, Bush trata de polir suas credenciais de “garotão simplório do Texas, americano médio e orgulhoso disso”, na esperança de melhorar um pouquinho seu Ibope. No livro, ele narra que, poucos dias após deixar a presidência, passeava pelas ruas de Dallas com seu cachorro Barney, o mesmo que rosnava para jornalistas nos jardins da Casa Branca. “O Barney foi até o gramado do nosso vizinho e fez suas necessidades. E lá estava eu, ex-presidente dos Estados Unidos, com um saco pástico na mão, fazendo aquilo que eu tinha conseguido evitar nos últimos oito anos.”
Como notou Matthew Norman, colunista político do The Independent, em vez de contribuir para a reabilitação do legado de Bush, essa cena é preciosa para os cartunistas mais atentos: A charge poderia mostrar Bush recolhendo o cocô de Barney com um saco plástico, seguido de Obama, com uma escavadeira, tentando limpar tudo o que Bush deixou para trás nos últimos oito anos. Pobre Obama, pobre Truman.

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O presidente Barack Obama, em visita à Índia, pediu “um conselho de segurança da ONU reformado que a inclua a Índia como membro permanente”. A declaração de apoio à Índia como mebro permanente deve ter irritado profundamente o Itamaraty – o Brasil vem pedindo há anos o apoio dos Estados Unidos para suas pretensões ao assento permanente no CS.
A declaração de Obama é mais uma amostra da aposta dos EUA em sua nova parceria estratégica com a Índia, para se contrapor ao poder da China na Ásia. Antes, para não melindrar seu aliado militar Paquistão, os EUA restringiam suas demonstrações de apoio à Índia. No governo Obama, o primeiro-minsitro Manmohan Singh foi agraciado com o primeiro jantar oficial para chefes de estado na Casa Branca, ganhou de presente a liberação de várias exportações de produtos com dual technology, que estavam restritos por poderem ser usados a finalidades militares, além da confirmação do acordo nuclear desenhado no governo Bush, que efetivamente avacalha o Tratado de Não-Proliferação, já que garante à Índia, que não é signatária, fornecimento de combustível nuclear para fins civis.
Além do Brasil, a China é outro país que não vai ficar nada feliz com o apoio oficial dos EUA às aspirações da índia no CS.

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Eu nao enxergava o teclado do computador, porque não conseguia parar de chorar. Meu editor perguntava – “e aí, tudo bem, está mandando o texto?” E eu: “Claro, assim que eu conseguir enxergar as teclas.” Lá fora, todo mundo seguiu o presidente Sebastián Piñera e o mineiro Luís Urzúa, o Don Lucho, o líder do grupo, que foi o último a nascer neste parto da mina: com a mão no peito, cantavam o hino chileno, parados no meio da rua, chorando. Na frente da Praça das Armas, em Copiapó, cidade perto da mina onde vivem quase todos os mineiros, era um buzinaço só. Os atacamenhos cantavam e dançavam em frente ao telão gigante instalado na praça.
Um casal de chilenos, às lágrimas, veio me abraçar.
Queridos leitores, vou postar abaixo o texto que foi escrito no meio dessa emoção, já sabendo que dificilmente vai conseguir transmitir tudo. mas vamos lá.
“Estamos todos bem, os 33, na superfície”
Eram 17 milhões de chilenos chorando de emoção, buzinando e cantando quando o último dos33 mineiros , Luís Urzúa , foi resgatado ontem às 21h55 da noite.Depois de 69 dias presos a quase 700 metros de profundidade, tendo sobrevivido 18 dias com duas colheradas de atum por dia, os 33 mineiros foram resgatados com sucesso com uma das mais complexas operações de salvament o da história. Na principal praça de Copiapó, 3 mil pessoas dançavam, cantavam o hino chileno e choravam. quando o presidente Sebastián Piñera, segurando a mão do mineiro Urzúa, o Don Lucho, agradeceu aos mineiros. “Estamos orgulhosos dos 33 mineiros que deram um exemplo de companheirismo e solidariedade e estamos orgulhosos dos milhares de pessoas que tornaram possível o resgate de vocês.” Ao que Don Lucho disse ao presidente chileno: “Eu agora lhe entrego o turno e espero que isso nunca mais aconteça”. Urzúa era o chefe do turno na mina.
Um a um, os 33 foram resgatados com a cápsula Fênix, que içou-os por um túnel de 60 centímetros de diâmetro de 622 metros de profundidade.
Na praça de Copiapó, o sorveteiro Victor Jofre, de 65 anos, cinco filhos, cinco netos, não conseguia parar de chorar. “Nunca pensei que eles iam sobreviver. A terra caiu em cima deles, ninguém sobrevive a esses acidentes, conheço muita gente que morreu e mina. Pensei que eles iam morrer. É um milagre.”às 6 horas da tarde, Jofre deixou seu carrinho de sorvete em casa, no bairro de Manoel Rodriguez, e foi para a praça das Armas, assistir ao final feliz de uma provação de 69 dias. Jofre ganha só US$ 250 por mês vendendo picolés de rum e leite, os que mais saem. Mas ontem, gastou US$ 4 para comprar uma bandeira com as fotos dos 33 mineiros, a imagem da Virgem da Candelária, protetora dos mineiros, e o símbolo do Chile. Jofre conhece o pai e o avô de Ariel Ticona, o penúltimo mineiro a ser resgatado.
Logo que sair do hospital, onde está em observação como os outros mineiros, Ticona vai conhecer sua filha. Esperanza, de um mês, nasceu enquanto ticona estava no centro da terra.
Ticona, quando emergiu da cápsula Fênix, mostrou orgulhoso o telefone da mina, que levou para guardar de recordação. O telefone foi criado artesanalmente por um empresário local e era chamado de Plano Z, porque ninguém acreditava que ia funcionar. O aparelho acabou ajudando a manter os ânimos dos 33, quando ainda não se sabia se o túnel perfurado pela Schramm T-130 ia chegar até o refúgio onde eles viviam a uma temperatura mínima de 320C e umidade de 89%, que causou fungos e infecções de pele em vários deles.
Cada um dos mineiros cumpriu um papel no resgate. Mário Gómez, 63 anos, o mais velho dos mineiros, foi quem escreveu o bilhete que revelou ao mundo que os 33 estavam vivos, contrariando todas as expectativas. “Estamos todos bem no refúgio, os 33”, escreveu Gómez, o nono a ser resgatado. Gómez, qe tem saude frágil e problemas pulmonares, está no hospital de Copiapó se recuperando.
Urzúa, que era o chefe do grupo dos mineiros, saiu como um dos heróis do resgate. Topógrafo de profissão, 54 anos, calmo e controlado, ele estava há apenas 2 meses trabalhando na mina San José, mas tinha 31 anos de experiência em minas. Foi descrito como o comandamnte da Apolo 13 do centro da terra. Urzúa, ou Don Lucho, foi essencial para manter o controle e os ânimos debaixo da terra. O rosto de Urzúa foi o primeiro que o mundo viu, quando se descobriu que eles estavam vivos e os resgatistas conseguiram enviar uma camera pelo duto que foi construído para mandar alimentos e remédios para os mineiros, enquanto se construía o túnel pelo qual eles foram retirados.”Acabo de conversar com Luis Urzua, o último a sair da mina, como faz um chefe que gosta e respeita quem trabalha com ele”, disse Piñera, com olhos marejados. “Mas tambem quero agradecer as familias dos mineiros, que mantiveram a fe inquebrantavel, que acabou movendo montanhas, e a equipe de resgatistas.”

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As esposas, namoradas e amantes dos mineiros estavam se preparando para recebê-los ontem, depois de 69 dias longe deles. Cristina Nuñes, 26 anos, noiva do mineiro Cláudio Yanez, fez chapinha nos cabelos escuros, com mechas loiras. Ela foi ao cabeleireiro na segunda-feira fazer as unhas e comprou uma lingerie especial para recebê-lo: vermelha, com capa e chifres de diabinha, ela contou. “Quero recebê-lo bem, ja estou pensando em como preparar nosso casamento”, disse Cristina ao Estado. Enquanto estava preso na mina, Cláudio pediu Cristina em casamento. Eles namoram há 11 anos e têm dois filhos, mas só depois de ficar preso na mina é que Claudio a pediu em casamento. Yanez foi o oitavo a ser resgatado. Ele estava no segundo grupo, dos mais frágeis, porque tem diabetes.
Marta Mesias Pacheco, tia de Cristina, também foi ao cabeleireiro e fez as unhas.”É um grande dia, estou aqui no Acampamento Esperança há dois meses, vamos fazer uma festa para recebê-lo e os dois finalmente vão casar”, contou ao Estado. A família deve fazer uma festa no sábado, depois de Claudio ser liberado do hospital, onde deve permanecer 48 horas sob observação, como todos os outros mineiros.
Lilianett Ramírez fez escova nos cabelos tingidos de loiro e se maquiou para receber seu marido, Mário Gómez. Gomez é o mais velho entre os 33 mineiros, com 63 anos, e tem problemas de saúde. Como o mineiro Yonni Barrios Rojas, Gómez estava numa saia justa – tanto sua mulher como sua amante estavam no acampamento Esperanza. A família de Gómez vai fechar a rua na “población” onde vive,perto de Manuel Rodríguez, para fazer uma festa. Lilianett também foi pedida em casamento – apesar de estar com Mário há 30 anos, nçao haviam formalizado a união. Agora, vão casar na igreja.
A amante e a esposa de Barrios se encontraram no Campo Esperança, e o resultado não foi dos melhores. Agora, não se sabe qual será o fim da história. “Barrios é meu esposo. Ele me ama e eu sou sua esposa. Essa mulher não tem legitimidade”, disse Marta Salinas, de 56 anos, a uma rádio local. O governo chileno teria perguntado quem Barrios gostaria que fosse sua representante na mina e ele teria dito que preferia a amante. Não se sabe se as duas vão estar juntas na plataforma onde se concentrarão os familiares para acompanhar o resgate e receber os mineiros.

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