Nenhuma torrada resiste
- 14 de junho de 2010|
- 11h09|
- Por Janaina Fidalgo

Patê de fígado de galinha (Foto: Janaina Fidalgo)
Fazer receita demorada é comigo mesmo. E isso não quer dizer que sejam difíceis. Só que demandam tempo de cozimento longo, ou que tenham etapas e mais etapas ou que, simplesmente, sejam uma desculpa para ficar em casa numa tarde fria como a de ontem.
Também é verdade que tenho uma preguiça danada de certos processos. Talvez por isso tento fazer o caldo de carne durar no congelador, ainda que viva doando uns cubinhos, na tentativa de convencer os amigos de que o trabalho de formiguinha compensa. Um dia de labuta para meses de bonança.
Só que ontem, enquanto esperava um processo longo terminar (e que contarei em outro post), queria distrair a boca com algo que fosse rápido de fazer e não desse trabalho. Demorei mais para achar a loja onde queria comprar os fígados de galinha do que para preparar o patê. As voltas dadas a mais valeram, porque os fígados estavam lindos e íntegros. Tudo o que fiz foi remover umas gordurinhas.
Vasculhei uns livros à procura de uma receita que remetesse ao aroma que eu tinha na memória. Quando me dei conta de que esse aroma era simplesmente o de pimenta-do-reino, relaxei. Entendi o processo, o que tinha de ter necessariamente e fui colocando os temperos até ficar com o sabor e o aroma que eu queria. A base foi uma receita do Mark Bittman já publicada no Paladar (veja o vídeo em inglês ou dublado).
Diminuí a quantidade de manteiga, aumentei a de pimenta-do-reino, juntei um dente de alho por minha conta e esqueci de colocar cravo-da-índia e conhaque. Tudo bem. Deu certo do mesmo jeito. E, o mais importante, não levou mais que 15 minutos para ficar pronto.

Depois de frio, o patê fica com uma consistência mais firme, mas ainda cremoso. É normal a superfície escurecer um pouco, o interior continuará rosado (Foto: Janaina Fidalgo)
Refoguei uma cebola pequena picada grosseiramente em uma colher (sopa) de manteiga, juntei um dente de alho em lâminas e coloquei os fígados (600 g) já limpos. Selaram dos dois lados por menos de cinco minutos, só para mudarem de cor do lado de fora. Como o Bittman diz no vídeo, quanto mais bem passado, mais amargo o fígado fica. De fato, não precisa. Basta ficarem acinzentados por fora e rosados por dentro.
Enquanto isso, pilei 25 grãos de pimenta-do-reino preta, 6 grãos de coentro, 5 grãos de pimenta-da-jamaica e um pouco de sal grosso. Transferi os fígados refogados para o liquidificador (quem tiver processador de alimentos tanto melhor), juntei as especiarias piladas, 1 colher (sopa) rasa de manteiga, 1 colher (sopa) de nata (a receita pede creme de leite, mas eu não tinha… e se você não tiver nenhum dos dois, dará certo do mesmo jeito). Não faça como eu e lembre de colocar um cravo-da-índia e umas duas ou três colheres (sopa) de conhaque.
Se ficou bom? Teve um nariz torto que, ao passar pela cozinha, viu o fígado refogando e fez careta. É claro que eu daria conta de comer tudo sozinha, mas arrumei um pote com a intenção de trazer à Redação. Só que quando o patê já estava geladinho e consistente (fica com uma textura ótima), caí na besteira de passar um pouco numa torrada de pão-sírio e oferecer ao nariz torto. Azar dos amigos da Redação, que desta vez ficaram sem patê.

A torrada que comprometeu o patê da Redação
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14/06/2010 - 11:46 Enviado por: Kats
Faz tempo que ando atrás de uma receita de patê de fígado de galinha! Adorei, Jan! P.S. Nesse finde achei aquela latinha de patê campagne trufado, lembra? Bjs!
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14/06/2010 - 11:49 Enviado por: Janaina Fidalgo
Oi, Kats, que bom!
Faça esta e aproveite para dobrar a receita. Não rende muito…
Caramba, ainda tem aquela latinha? Coma logo! Por favor!
Beijos
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14/06/2010 - 12:08 Enviado por: felipe
onde vc recomenda comprar os fígados? qq açougue tá valendo, mmo pra cozinheiros de primeira viagem? como devem estar os fígados?
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14/06/2010 - 13:59 Enviado por: Janaina Fidalgo
Oi, Felipe,
comprei na Korin (que tem uma loja na Vila Mariana, tel. 5579-9363) porque queria fígados de frangos criados sem antibióticos. Mas é claro que dá certo com os comprados em qualquer açougue, desde que sejam frescos (não congelados). Observe a coloração (devem estar vermelhos escuros) e se estão inteiros, bem firmes.
Abraços,
Janaina
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14/06/2010 - 14:25 Enviado por: Araceles Stamatiu
Obrigada pela sugestão. Acompanhada desse ótimo texto bem humorado se tornou irresistível. Já estou de saída para comprar os ingredientes.
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Abraços
Araceles-
14/06/2010 - 14:42 Enviado por: Janaina Fidalgo
Oi, Araceles, muito obrigada!
Se puder, depois volte aqui para contar como ficou seu patê!
Abraço,
Janaina
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14/06/2010 - 14:27 Enviado por: Alex Nasser
Estimada Janaina,
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esta receita è boa, mas tente depois de bater no liquidificador ou processador, colocar em uma forma com anti aderente e colocar no forno em banho maria, o patè cozinha por dentro e forma uma cpinha crocante no alto, totalmente Parisiense, fica mais gostoso e com uma consistencia melhor (mais cozido) do que direto para a geladeira…na minha receita quando estou refogando os fìgados na frigideira, com os temperos que eu gosto, no meu caso ponho um pouco de sàlvia, tomilho um pedacinho de pancetta e aih sim flambo com conhaque…depois è que vai para processar. Espero que seja ùtil a quem gosta de um bom patè. Saludos, Alex-
14/06/2010 - 14:44 Enviado por: Janaina Fidalgo
Oi, Alex, ótima dica! Muito obrigada.
O próximo vou fazer deste jeito que você ensinou. Deve ficar ótimo!!!
Abraço e até mais,
Janaina
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14/06/2010 - 14:29 Enviado por: Alex Nasser
…a propósito o tempo de banho maria è de apenas 15 a 20 minutos em fogo mèdio com forno prè aquecido…Saludos, Alex
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14/06/2010 - 14:50 Enviado por: Tiago Nepomuceno
Curiosidade: as galinhas a quem pertenciam esses fígados foram submetidas ao mesmo tratamento monstruoso necessário para se fazer o tradicional foie gras?
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Sugestão: que tal experimentar na próxima vez fígado de cachorro? Certamente no Bom Retiro você encontraria algum coreano disposto a vender a iguaria por um preço justo. Já pensou? Mais um sabor exótico para saciar os paladares inquietos! E no caso destes continuarem insaciáveis, há ainda os fígados dos gatos, dos pandas, dos golfinhos, dos bebês humanos…
A lista é longa e cozinhar um hobby da moda! Nenhuma torrada resiste! Divirta-se!
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14/06/2010 - 16:38 Enviado por: Araceles Stamatiu
Olá Janaina,
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Já fiz o paté, ainda está morno, escondi na geladeira para amanhã na hora do jogo, mas já provei, está uma delícia. Usei o conhaque e o cravo, mas substituí o coentro por erva doce( só uns grãozinhos) ficou muito bom. Vou servir com pão sueco. Obrigada pela dica. Já passei seu blog para minha lista de e-mail.
abraços
Araceles-
14/06/2010 - 16:42 Enviado por: Janaina Fidalgo
Nossa, Araceles, quanta rapidez! Você vai ver quando ele esfriar. Ficará ainda mais gostoso.
Obrigada por ter compartilhado aqui conosco!
Abraço,
Janaina
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15/06/2010 - 08:40 Enviado por: Tiago Nepomuceno
Ué? Essa eu não entendi…
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A Araceles escreveu depois de mim e já teve o seu comentário publicado, enquanto o meu segue “aguardando moderação”. Talvez seria melhor dizer “aguardando desamordação”, ainda mais porque jornalistas adoram rotular como “mordaça” qualquer tentativa federal de regularizar a área de comunicação…
Quais princípios pautam esse site? O que prevalece aqui: “liberdade de imprensa” ou “liberdade de empresa”? Qual o problema com o meu comentário? Qual a diferença – biológica, ontológica – entre galinhas e cães? E entre galinhas e bebês humanos? Será que não é possível conviver com uma provocaçãozinha? Será que qualquer opinião que sacoleje o senso comum – “o devir (Deus ou o acaso) criou os animais para servirem os seres humanos não apenas em situações extremas (ex: como entre os povos esquimós) quanto nos seus pequenos luxos (ex: como no caso do foie gras, dos casacos de pele, dos rodeios) – será refutada, censurada, amordaçada?
Só para constar: nada contra você, Janaína. Sequer a conheço. Mas tudo contra a exploração de criaturas sencientes capazes de sofrer fisicamente e psicologicamente (sim, galinhas não são máquinas!), principalmente quando tal exploração tem como objetivo o consumo de algo tão supérfluo quanto… um patêzinho. Comer animais numa situação de extrema necessidade é uma coisa, mera questão de sobrevivência ou falta de alternativas (e essa ainda é a realidade da maioria das pessoas). Comer animais para agradar o paladar é outra, beeeem mais grave. Seu paladar vale mais do que uma vida? Se sim, certamente isso se aplicaria para todas as formas de vida: como cães, pandinhas, golfinhos, humanozinhos…
Bom dia. E “obrigado” por impedir o debate…
http://www.confinamentoanimal.org.br/index.asp-
16/06/2010 - 15:11 Enviado por: tadzio
E olha que o dito fígado é de uma empresa que está produzindo frangos com um cuidado maior a respeito de uso de medicamentos, espaço e ração apropriada para alimentação dos frangos.
Olha a patrulha!
Boa matéria e continue assim.
Abs Tádzio
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18/06/2010 - 12:07 Enviado por: Tiago Nepomuceno
Voltei!
Prezada Janaína, fico feliz que tenha aberto a possibilidade do debate. Liberdade de expressão é isso, goste-se ou não. Os frutos já estão aparecendo, como no comentário acima.
Tádzio, no dia que as galinhas (e demais animais) usarem a internet e outros meios de comunicação como espaço de defesa (do próprio pescoço, aliás…), não haverá mais a necessidade de patrulha. Enquanto isso não acontece, nada mais legítimo que seres humanos façam a defesa dos animais no lugar destes, nem que seja para minimizar a dor e sofrimento abusivos que outros seres humanos provocam. Aqui ainda vale o exemplo dado acima: fosse esse um post comentando sobre a captura e morte de cães de rua para fins culinários, e tivesse alguém condenado tal prática, você alertaria sobre a “patrulha”? Se sim, lembro, como já argumentei, que cães não teclam. Se não, pergunto: qual a diferença entre cães e galinhas? Por que amar uns e torturar até a morte outros?
Seja como for, caso sua informação proceda, reconheço que o avanço na questão. Se de fato os fígados vieram de animais que viveram com espaço e comida apropriados a gravidade da questão arrefece um pouquinho. Mas o debate continua, afinal a grande pergunta é: se não for para sobrevivência (situação extrema), é ético torturarmos e matarmos animais para satisfação do nosso paladar?
E antes que alguém grite “é cultural!”, lembro toda sorte de argumentos pífios que no final do século XIX ainda tentavam combater a vanguarda abolicionista brasileira.
É a mesma luta. O direito a uma vida digna. Só mudou o foco.
Bom final de semana a todos. -
18/06/2010 - 21:19 Enviado por: ramon
Janaina, depois dos cometários do Tiago, vou procurar os ingredientes para fazer o patê. Fique tentado, e me senti sem mordaças, para regalar meu paladar. Adorei sua sugestão de receita.
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21/06/2010 - 19:03 Enviado por: lilion
Cara Janaina, adorei a bandeira sobre Rabada, sou entusiasta de varios tipos de colagenos e adorei su blog.
Li sobre seu Pate de galinha, achei honesto e partico e ecologicamente acertada para seres humanos normais a eliminação de antibioticos mas nãosou fã de pates, prefiros cortes maiores mais consistentes mas, apos ler sobre mais , decidi nao apenas buscr por figados como incitar amigos e institui no meu restaurante pate de figado de galinha como entrada para sim saciar o paladar de famitos que é a r~zao e nome desse espaço.
saudo-te.
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18/06/2010 - 14:58 Enviado por: João Rangel
Onde você comprou so figados??
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18/06/2010 - 15:58 Enviado por: Janaina Fidalgo
Oi, João,
comprei na lojinha da Korin, na Vila Mariana.
Abraço
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22/06/2010 - 19:40 Enviado por: Clara Eñelee Kornetz Alves
Janaína, só hoje conheci o blog. Vou aproveitar sua receita (muito interessante) para modificar um pouco a minha, que já faço há alguns anos. Eu cozinho previamente os fígados em água, sal e duas folhas de louro. Eu não gosto do fígado meio cru e assim também afasto o amargor. Depois frito um pedacinho de bacon com os demais temperos e processo tudo junto, com uma colher de manteiga. Aqui em casa tem um que prefere paté industrializado, com todos os seus nitratos e nitritos. Eu achava que ele era chato, mas aquele teu leitor panfletário ganhou o concurso! Pobrezinho, deve sofrer do fígado! Para ele, receito chá de carqueja. Abraço.
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23/06/2010 - 06:25 Enviado por: Alhos, Passas e Maçãs
Ai, ai nham, nham…
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23/06/2010 - 16:51 Enviado por: Tiago Nepomuceno
Fiz uma enquete com algumas galinhas de uma granja aqui perto e todas elas – todas! – garantiram que eu não sou chato tampouco panfletário, e que ao contrário estavam todas – todas! – muito felizes com a minha tentativa – inócua, como em toda vanguarda – de lhes defender do sofrimento e morte desnecessários. As mais beatas até juraram de patas e asas juntas que vão orar para suas deusas galináceas para que me protejam. Diante de tudo isso, deixo a pergunta: fosse a Clara uma galinha e não uma humana, será que ela me acharia panfletário?
Janaina, uma vez mais: obrigado pelo debate!
Abraços a todos e todas,
Tiago
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23/06/2010 - 21:10 Enviado por: Sílvia Freire
Jana,
Adorei o texto, o patê e os comentários. Na próxima vez vou colocar no forno para formar a tal capinha crocante. Beijos!
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24/06/2010 - 08:49 Enviado por: Janaina Fidalgo
Oi, Sílvia!
Também vou tentar esta versão!
Beijinhos
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24/06/2010 - 04:57 Enviado por: Danilo Nakamura
AHAHAH euri! está ótimo o post e a polêmica risível!
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e vou falar pro meu cão, o Pum, parar de caçar insetos em casa pra brincar com eles, porque poderia ser um inseto, um panda, um golfinho. feio feio feio.-
24/06/2010 - 20:23 Enviado por: Tiago Nepomuceno
É isso aí!
Esse é o espírito!
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