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“Precisamos estar dispostos a reconstruir, remixar, traduzir, reinterpretar”

Uma rádio precisa de acervo. Música boa para tocar. Mas essa rádio independente não pode arcar com os royalities nem aceita receber propina dos divulgadores. O que fazer? Criar seu próprio arquivo de músicas. Foi isso que fez a rádio independente WFMU, de Nova Jersey.

Só que a rádio, famosa por tocar música estranha, não criou apenas um arquivo, mas encabeça um projeto mundial: o Free Music Archive, que hoje já tem mais de 24 mil músicas.

A história toda está no Link de hoje. Confira a entrevista completa com Jason Sigal, o responsável por cuidar, curar e manter o arquivo.

Por que você criou o Free Music Archive?
Por muitas razões! A ideia veio do diretor da rádio WFMU, Ken Freedman, que sentiu a necessidade de uma biblioteca musical que tivesse licenças livres, mas com músicas selecionadas.

Esse seria um recurso valioso para estações de rádio que estivessem buscando novas audiências no ambiente online, assim como um lugar para dividir a programação em um formato de MP3 ‘on-demand’ (a maneira como as pessoas estão acostumadas a ouvir música na era digital) e como um lugar para achar material seguro para ser usado em podcasts. Na época, as rádios na internet nos EUA estavam em risco devido à possibilidade aparecerem taxas de royalities altíssimas, e muitas rádios poderiam ter de parar de transmitir porque isso se tornaria muito caro — muito mais caro do que os royalities pagos por uma rádio FM tradicional.

Essas questões não estavam relacionadas apenas à estações de rádio e podcasters, mas também a produtores de vídeo que não queriam ter seus vídeos removidos do YouTube; espaços musicais, restaurantes e cafés que querem tocar uma música de fundo; educadores que querem usar músicas na classe ou encorajar os estudantes a usar música em seus projetos… a lista continua, e realmente qualquer um que gostar de música se beneficiará de um recurso com curadoria para MP3s livres, legais e em alta qualidade.

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Como funciona o “payola”? Nós temos algo parecido no Brasil. Chamamos isso de ‘jabá’.
Eu não sou um expert porque isso não acontece no mundo das rádios não comerciais, mas basicamente é um intermediário que não é um empregado do selo, mas é um promotor independente que é pago para o selo para promover sua música nas estações de rádio. Eles têm boas relações com as rádios porque subornam os diretores de programação com dinheiro, carros, cocaína… mas a válvula de escape desse intermediário é aquela em que o procurador-geral do estado de Nova York foi atrás, e os acordos disso resultaram no New York State Music Fund. O NYSMF financia todos os tipos de projetos legais, como o FMA, e ajuda grandes artistas que não subornam as rádios para tocarem as suas coisas.

Você disse numa entrevista que muitas rádios estão deixando a programação musical de lado por conta das dificuldades de licenciamento. Como as leis de copyright estão restringindo a programação de rádio?
Bom, não está realmente claro como fazer um podcast com música legalizada, ou um podcast on-demand a não ser que você incorpore especificamente música ‘podsafe’. E, se você incluir a música protegida de alguém em um podcast sem pagá-lo, você pode ser processado. Então, para estações que querem ficar seguras, é muito mais seguro para elas transmitir apenas a programação falada, a não ser que eles queiram ter um licenciamento direto, ou façam o uso de um recurso como o FMA. Assim como para rádios tradicionais, as sociedades de arrecadação apenas oferecem taxas comuns de licenciamento com um valor fixo — é como se você pagasse para tocar tudo, ou qualquer coisa, ou absolutamente nada. Então algumas estações optam apenas por não tocar nada, ou simplesmente fecham porque não podem arcar com as despesas.

Por que o licenciamento de música é tão complicado?
Boa pergunta! Eu não sei porque isso tem de ser da maneira que é… mas é. Existem vários direitos diferentes associados a uma música. Há a composição, a gravação, as letras, mesmo o arranjo pode ter seu próprio detentor de direitos. E o dono dos direitos de uma composição não é necessariamente o compositor; o compositor pode ter vendido seus direitos a uma editora, ou em alguns países uma sociedade administra os direitos… E quando você inclui a interação online das leis internacionais isso fica exponencialmente mais complexo. Os sistemas que foram definidos para licenciar música fazem muito mais sentido quando as cópias podem ser feitas apenas com uma prensa de vinil, mas realmente não fazem mais sentido agora que a música pode ser copiada tão facilmente.

Que licença o FMA usa?
A maioria é Creative Commons. Alguns sons caíram em domínio público. E, em alguns casos, quando não é possível adotar uma CC, nós usamos uma licença limitada do FMA, que significa que a música está livre para donwloads do nosso site mas nós não podemos liberar qualquer outro uso para ela. Nós preferimos usar Creative Commons porque ela permite que a música — e o nosso site — alcancem audiências de várias maneiras, como podcasts, vídeos, remixes, etc.

Quantas músicas tem o FMA?

Ao que parece, temos hoje 24 mil. São quatro vezes mais do que quando nós começamos, e nós estamos adicionando mais a cada dia. É muita música, mas uma coisa importante é que tudo isso é selecionado — nós não estamos tentando ser a maior biblioteca de música do mundo, mas a que tem a melhor música.

Em linhas gerais, como o arquivo funciona?
Qualquer um pode usar a biblioteca e baixar os áudios sem nenhum registro. Mas, se você se registrar, pode participar das discussões e acompanhar as músicas que gosta. Então, as funções sociais do site são livres e abertas ao público, enquanto a biblioteca, em si, é selecionada.

A WFMU é uma espécie de “curadora master”, porque nós curamos os curadores (com a ajuda dos nossos curadores já existentes, é claro). Então, uma vez que um curador ganha um portal ao site, ele tem total controle sobre isso. É tipo o trabalho de programação na WFMU. Nós temos o diretor de programação que faz a agenda, e tem uma visão geral de toda a programação. Quando um DJ tem uma apresentação, ele tem total liberdade para tocar o que quiser, contanto que seja legal.

Artistas e selos também podem participar do site. Em alguns casos, o selo ou o artista ganhará o acesso para curar seus próprios trabalhos para o site, independentemente de outro curador.

Nós somos não-comerciais, e não cobramos nenhuma taxa de ninguém para usar o site — mesmo com os visitantes baixando músicas ou os curadores usando o site como uma plataforma mundial de distribuição online. A WFMU cobre os custos de hospedagem, e esse é um projeto essencialmente da WFMU, mas nós não queremos vincular o site ao site da rádio porque queremos que cada curador possa fazer do site seu próprio portal.

Isso foi possível por causa do New York State Music Fund, que surgiu como resultado do suborno dos grandes selos para que as grandes rádios comerciais toquem sempre as mesmas 40 músicas. Nós chamamos isso de “payola” ou “Pay to Play” (pague para tocar). O dinheiro desse acordo foi disponibilizado para divulgar os artistas que não podem sustentar o suborno, e para aqueles que sentem que há um mérito em levar alguma música para tocar livremente para uso não-comercial.

Nós também recebemos uma ajuda da MacArthur Foundation, e estamos planejando em complementar esse financiamento com uma unidade de captação de recursos ainda neste ano. Há muitos cursos envolvidos em música e sites gratuitos, mas nós estamos trabalhando por um modelo sustentável para todos.

Como vocês conseguem os sons? Eles são fornecidos pelas bandas?
Sim, é tudo música que os artistas querem dividir, e fazem isso com a curadoria do FMA, e essa combinação é realmente poderosa. Cada curador trabalha de uma maneira diferente. Na WFMU, nós temos tido muito sucesso com a abordagem de dar aos artistas direitos comerciais sobre gravações feitas aqui na estação, contanto que nós possamos divulgar a gravação não-comercialmente. As pessoas normalmente ficam animadas com essa oportunidade porque o artista quer que aquela sessão na rádio atinja o máximo de pessoas possível — esse é o motivo deles estarem tocando ao vivo na rádio, em primeiro lugar.

Nós também temos muitas músicas que caíram em domínio público. Por exemplo, postamos sons antigos em domínio público do programa Antique Phonograph Music da WFMU, que toca muitas gravações em 78 rotações. Alguns curadores, como o Oddio Overplay e as organizações Creative Commons, apresentam músicas de toda a web. Nós também temos um monte de selos e artistas que vem até nós esperando usar o FMU como um lugar para estrear suas músicas livres. Em alguns casos, nós contatamos um artista para ver se os sons poderiam ser postados no nosso site. E, em várias vezes, nós apresentamos Creative Commons, eles acham que é uma boa idéia e acabam adotando para suas músicas livres.

FMA-AntiPop

Quais são os principais curadores? Como o FMA seleciona os curadores?
Desde o começo, há a WFMU e a KEXP de Seattle, duas das mais renomadas rádios de música independente do mundo. Também há vários wabcasters — dublab de Los Angeles, Halas radio de Israel. Nós também já adicionamos CBC Radio 3, o Isabella Stewart Gardner Museum (local de música clássica incírvel) e festivais como AAll Tomorrow’s Parties e Primavera Sound.

A organização Creative Commons também se uniu como curadora, e eles fazem uma série muito legal com forças positivas em todo o mundo CC. Nós também temos alguns selos de gravação e virtuais, e outros curadores operando de todo o mundo, dos EUA, Reino Unido, Rússia, Austrália, França, Suíça, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda, México, China, Japão, Espanha e Indonésia. E essa é só uma lista parcial, é claro!

No total, quantas pessoas estão envolvidas no projeto?
Há muitas pessoas trabalhando em várias áreas, então é difícil dar um número exato. Nós temos vários curadores, selos e artistas contribuindo individualmente com o site. Nós também temos vários editores que contribuem com o nosso blog e ajudam a moderar as discussões — muitas dessas pessoas vieram a nós independentemente de nenhum curador, mas com um interesse no projeto e alguma compreensão sobre o que estamos fazendo. O plano a longo prazo é fazer ainda mais compotentes do site opensource e expandir a nossa API. Assim a comunidade pode nos ajudar a melhorar o site e experimentar algumas novas ferramentas.

Como as pessoas podem participar do projeto?
Nós estamos sempre procurando por pessoas com bons ouvidos para nos ajudar a encontrar boa música em Creative Commons, e por pessoas para dividir seus gostos em nosso blog.

FMA-WFMU

Você defende a cultura livre. Acredita que ela multiplica a criatividade?
Sim, com certeza. A arte nunca apenas aparece do nada. Toda a arte é inspirada por outra arte, e a possibilidade de compartilhar e construir por todo o mundo em volta é essencial para uma sociedade saudável. Especialmente na era digital, em que nós ‘transmitimos nós mesmos’. Mas, para se comunicar através das mídias digitais, nós precisamos estar disposos a construir sobre, remixar, traduzir, reinterpretar e compartilhar o trabalho de outros – nós não podemos apenas começar a partir do zero quando todas essas poderosas ferramentas de comunicação estão à nossa disposição. Na arte, e especialmente na música, as ferramentas digitais abrem um mundo de novas possibilidades para a expressão criativa.

Mas, ao mesmo tempo, as ferramentas digitais podem gerar uma homogenização, e por isso nós precisamos celebrar e respeitar aqueles artistas que estão realmente fazendo algo novo e interessante. Eles precisam de um equilíbrio entre o fair use (que precisa ter uma definição mais ampla e robusta para a era digital) e a proteção do direito do artista de escolher quais aspectos do copyright tradicional poderiam ser úteis para eles em seus esforços para fazer arte ao mesmo tempo em que se sustentam. Essa é a força do Creative Commons.

Apoiar os artistas é uma parte importante da cultura livre. O FMA não apenas oferece promoção e opções de licenciamento, mas a função de contatar o artista para ‘mais permissões’ (como se você quiser licenciar o trabalho dele para uso comercial). Nós também oferecemos maneiras dos ouvintes regulares compensem os artistas diretamente  dando uma gorjeta, ou vendendo seus itens à venda, ou vendo quando acontecerão os shows deles.

O mercado de música mudou. Como os músicos podem se sustentar hoje em dia?
Sim, o mercado de música mudou. É muito mais fácil alcançar uma audiência pequena, mas muito difícil alcançar uma audiência longa que irá sustentar uma carreira dedicada à música. Eu fico pensando se hoje um grupo como os Beatles seria capaz de passar o ano inteiro gravando música. Talvez isso não fosse mais necessário porque o processo é facilitado pelas ferramentas digitais de edição, mas eu acredito que nós podemos encontrar uma maneira de sustentar os grandes artistas como eles e permiti-los a ter algumas luxúrias para desenvolver suas ideias.

O sistema das grandes gravadoras é o mesmo de décadas antes da internet surgir. O intermediário hoje não é mais necessário. E os selos ainda estão tentando controlar as coisas em vez de embarcar no potencial da distribuição online. O catálogo dos Beatles ainda não está disponível para venda em formatos digitais, e então a EMI está basicamente forçando os fãs jovens a piratear a música ilegalmente. Não me admira que artistas da EMI como o Thom Yorke preveram o colapso da indústria musical em alguns meses…

A medida em que isso está acontecendo, são artistas como Radiohead que podem recortar o intermediário e ir direto aos seus fãs. Neste mundo descentralizado, mantendo uma linha de contato direto com as pessoas que irão apoiar o seu trabalho é a coisa mais importante. E, aí, você pode tirar vantagem de novas formas de financiamento como o Kickstarter, você pode alcançar pessoas que pagarão a mais por uma cópia física da sua música, e você tem pessoas que irão divulgar o seu trabalho se você lhes der a oportunidade. O truque é alcançar as pessoas para começar junto, e essa é uma das razões pelas quais começamos o FMA — como uma plataforma para artistas alcançarem uma audiência mundial.

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