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Comunicando-se só com olhos, Lais pode respirar por aparelhos para sempre

Demétrio Vecchioli

sexta-feira 31/01/14

A função dos médicos, claro, é ainda dar esperança ao paciente e à família, mas é muitíssimo grande a chance de Lais Souza, ex-ginasta e até três dias atrás uma atleta do esqui aerials, depender de um aparelho para respirar senão por toda a vida, mas no mínimo por um longo período, sem poder mexer [...]

A função dos médicos, claro, é ainda dar esperança ao paciente e à família, mas é muitíssimo grande a chance de Lais Souza, ex-ginasta e até três dias atrás uma atleta do esqui aerials, depender de um aparelho para respirar senão por toda a vida, mas no mínimo por um longo período, sem poder mexer braços e pernas. Como esportista, pode surpreender e contrariar essa previsões, conseguindo algum avanço. E é por isso que temos que torcer/rezar. Mas na enorme maioria dos casos a medicina ainda não pode proporcionar uma reversão do quadro.

O primeiro boletim médico, divulgado às 3h (de Brasília) de quarta-feira, pouco mais de 24h depois do acidente, já deixava muito claro o quadro complicadíssimo. Afinal, havia uma lesão cervical grave, ela não se movia e também não respirava. Os sintomas, associados, indicavam se tratar de uma lesão C3/C4, que indica que ela precisará de aparelhos respiratórios por muitos anos, além de não poder se mover do pescoço para baixo.

Esse quadro ganhou ainda mais força depois do segundo boletim médico, divulgado na quarta-feira, por volta das 19h30. Quase 48 depois do acidente, ela não tinha tido nenhuma melhora (mover os ombros não é algo necessariamente associado), quando já se esperava que ela tivesse saído do chamado “choque medular”.

Opinião: Lesão de Lais é uma derrota enorme para o esporte brasileiro

Reforçava mais ainda esse diagnóstico triste o fato de os médicos divulgarem que ela passaria por duas cirurgias nas últimas horas, nas quais foram instalados mecanismos artificiais que a ajudariam a respirar melhor e se alimentar com a comida entrando diretamente do meio externo para o estômago. Duas cirurgias que só são recomendadas em casos de pacientes que ficarão longos períodos sem poder se alimentar ou respirar sem ajuda de aparelhos.

Além disso, a confirmação de que a lesão foi na terceira vértebra (C3) indicava que ela perdeu a inervação do diafragma. E a consequência disso é precisar de aparelhos para respirar para sempre. Na avaliação de médicos ouvidos pelo blog, é muito improvável que ela possa reverter esse quadro. Por conta do risco de infecções pulmonares (que correspondem a 21% das causas de morte neste tipo de quadro), deverá ter uma UTI dentro de casa.

Na quinta-feira à noite, os médicos que cuidam de Lais concederam entrevista coletiva, em Utah. A colega Amanda Romanelli tentou participar por telefone, mas encontrou problemas técnicos. Assim, confiou nas informações do GloboEsporte, que estava lá. Segundo o site, os médicos disseram que Lais ainda está em choque medular, o que significa que a paralisia pode não ser permanente, apenas provisória. Mas dois médicos consultados pelo blog garantiram: “Se os médicos que cuidam dela tivessem qualquer esperança de que fosse só uma lesão, não teriam feito a traqueostomia e a gastrostomia tão cedo”.

Relembre:  Médico revela prognóstico complicado para Lais Souza

Mas agiram muito bem os médicos em só se pronunciarem nesta quinta-feira, já de noite, depois da chegada da família de Lais. Aliás, agiram dentro da ética médica. Primeiro devem ter conversado pessoalmente com os familiares para depois falarem com a imprensa para enfim fazerem um quadro mais preciso de Lais.

Divulgaram que ela só se comunica com os olhos, através de um software que tem frases prontas em português e um teclado. Por meio da movimentação dos olhos, é possível formar palavras. O sistema é utilizado pelo físico britânico Stephen Hawking, que sofre de esclerose lateral amiotrófica, doença degenerativa que causa paralisia.

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Inicialmente o COB quis minimizar o ocorrido. Comparar a lesão de Lais com a que a jogadora de vôlei Jaqueline sofreu durante o Pan é uma afronta à inteligência dos jornalistas e do público. Uma ficou minutos “travada”. Lais tem uma lesão gravíssima, das piores possíveis.

Vou repetir o que já havia dito na madrugada de quarta-feira. A lesão de Lais é uma derrota gigantesca para o esporte. Acreditamos que o esporte de alto rendimento é muito mais importante do que ele realmente é. Lais não precisava estar nessa aventura. Ela não procurou o esqui. Foi procurada. Foi usada como uma forma de promover um esporte que nem meia dúzia de pessoas praticariam ainda que ela disputasse a Olimpíada. Esporte se faz por amor.

Agora, ficará com essas sequelas por toda a vida. E vou mais além: Josi Santos, que irá competir no lugar da amiga em Sochi, não deveria participar dos Jogos. Mas isso é tema para outro post.