ir para o conteúdo
 • 

Olhos da noite

20.março.2011 19:23:05

Até!

Caros leitores,

Deixei a reportagem da madrugada do Estadão e o blog fica em suspenso. Obrigado pela participação nesse tempo! As histórias continuam abaixo.

Um abraço,
Bruno

Comente!

  • A + A -

Bruno Lupion, do estadão.com.br

Hoje completo dez meses de repórter da madrugada em São Paulo, cobrindo acidentes e crimes, e preparei um balanço das mortes violentas que passaram pela minha caneta no período – infelizmente, elas ocorrem aos montes neste canto do globo. Foram no total 214, média de 5,35 por semana, pouco mais de uma por dia trabalhado.

Além dessas, muitas outras ocorreram e não estão nos meus registros. Ou porque foram apuradas por outros jornalistas da redação, ou porque nem chegaram ao nosso conhecimento.

Mesmo assim, 214 já é muita gente – quase o total de homicídios em um ano inteiro na Austrália. Organizei abaixo alguns dados para entender melhor as mortes com as quais convivi nesse período.

Local

Na cidade de São Paulo, foram 116 mortes. O Centro registrou o menor número – apenas três – seguido pela Zona Oeste, com oito.

Em outro patamar ficaram, praticamente empatadas, as Zonas Sul, Leste e Norte: 39 mortes na Sul, 35 na Norte e 31 na Leste.

Também cobri 56 mortes em 16 cidades da Região Metropolitana, 36 no Interior e seis em outros Estados.

Causa

Em primeiro lugar aparece o homicídio, com 78 mortes, mediante uso de armas e técnicas variadas (que detalho no próximo item). Uma observação: quatro dessas mortes foram homicídios seguidos de suicídios – em todos, o homem matou a mulher e depois tirou a própria vida.

Na segunda posição estão os acidentes de trânsito, com 49 mortos. O pior deles, que custa a desaparecer da minha memória, ocorreu em Americana, onde um ônibus municipal foi atingido em cheio por um trem de carga. Na hora, morreram nove pessoas.

Depois vêm as chacinas – quando três ou mais pessoas são mortas de uma só vez. Vinte e seis pessoas perderam a vida nessas circunstâncias, em seis chacinas diferentes.

Em quarto lugar estão os “autos de resistência”, jargão que significa a morte de pessoas em supostos confrontos com policiais: foram 20 mortes. Logo abaixo, os latrocínios (roubo seguido de morte), com 16 vítimas.

Registrei também a morte de dez pessoas soterradas, todas em janeiro de 2011. E seis suicídios, que raramente são noticiados pela imprensa – há uma percepção de que divulgar suicídios estimula as pessoas propensas a se matarem a fazer isso.

Por fim, quatro pessoas morreram afogadas, duas em incêndios, uma por tiro acidental, uma por overdose e uma por choque elétrico.

Arma ou método*

A arma de fogo é, de longe, o meio mais utilizado para matar alguém. Em dez meses, cobri 117 mortes nessas circunstâncias, por armas de diversos calibres. O revólver calibre 38 é o mais popular, mas há também muitas pistolas .380, .45 e revólveres calibre 22. Aprendi que este último, apesar do baixo calibre, é muito perigoso – uma vez dentro do corpo, o pequeno projétil se desloca conforme o movimento da vítima e vai ampliando os danos.

Em segundo lugar estão as mortes por faca: 14. Na sua maioria, histórias de violência contra a mulher no ambiente doméstico. Por fim, cinco pessoas morreram espancadas e duas foram estranguladas. Uma foi asfixiada e outra, envenenada.

*Excluídas as mortes por trânsito, incêndio, overdose, choque elétrico, afogamento, suicídio e soterramento

Policiais mortos

Nesse período, registrei a morte de oito policiais militares. O caso típico é o do PM à paisana, de folga ou fazendo ‘bico’, que sofre uma tentativa de assalto. Por instinto, ele saca a arma, mas acaba morto pelo criminoso.

Também cobri a morte de quatro policiais civis e um guarda civil de Taboão da Serra.

No Brasil, a taxa de homicídio ficou praticamente inalterada entre 1997 e 2007, segundo o estudo Mapa da Violência, do pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz. O índice em 1997, de 25,4 mortes para cada 100 mil habitantes, oscilou para 25,2 em 2007.

No Estado de São Paulo, houve queda de 70% na taxa de homicídios em período semelhante, de 1999 a 2009. A taxa caiu de 35,27 mortes para cada 100 mil habitantes em 1999 para 10,95 em 2009. No primeiro trimestre de 2010, porém, houve um refluxo – o índice cresceu 7% em relação ao mesmo período de 2009, segundo a Secretaria de Segurança Pública.

Também no Estado, no ano de 2007 os acidentes de trânsito superaram os homicídios como causa de morte não natural, segundo a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade).

Para comparar as taxas de homicídio ao redor do mundo, veja esta tabela interativa do jornal inglês The Guardian.

E o repórter, como fica?

Em dez meses de madrugada, rodei cerca de 14.500 km, em 18 cidades diferentes, para buscar as histórias que seriam publicadas no começo da manhã pelo estadão.com.br.

Na maioria dessas mortes violentas, fui ao local do fato e entrevistei familiares, vizinhos e policiais. Vi o corpo no chão, os projéteis disparados, o automóvel partido ao meio no poste.

Com o tempo, a morte deixa de ser um evento extraordinário e passa a fazer parte da rotina, como um fato da vida. Mas não é simples encarar situações traumáticas diariamente. Ainda mais vivendo de madrugada, com círculo social reduzido e ritmo biológico invertido.

Uma organização norte-americana criada pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova York, se especializou em capacitar jornalistas para cobrir violência e apoiá-los nas dificuldades do ofício: o Dart Center for Journalism and Trauma. Segundo eles, o risco desses jornalistas desenvolverem transtorno de estresse pós-traumático é similar ao de bombeiros, socorristas e médicos de pronto-socorro.

Bruce Shapiro, diretor do Dart Center, veio ao Brasil em julho de 2010 para uma palestra no 5º Congresso da Abraji e deu dicas valiosas aos repórteres da madrugada (“cop reporters”, como ele dizia). Algumas: desenvolver laços sociais com os colegas de outros veículos, prestar atenção aos primeiros sinais de transtorno de estresse pós-traumático, tentar manter um estilo de vida saudável e conversar periodicamente com seu editor.

Observando essas dicas, o repórter fica bem.

Comentários (11)| Comente!

  • A + A -
27.janeiro.2011 12:07:38

Imagens da madruga

Bruno Lupion, do estadão.com.br

Meu colega JB Neto, repórter fotográfico, fala nesse especial multimídia sobre imagens e bastidores da cobertura na madrugada.

Aumenta o volume e clica no play:

 

Comente!

  • A + A -

Bruno Lupion, do estadão.com.br

Cabelo pixaim tingido de acaju, pele esverdeada, corpo franzino, quase 60 anos. Perfumado, sempre de terno e gravata, o sapato impecavelmente limpo. Amigo de delegados e travestis. Incógnita, não dava telefone nem endereço de casa pra ninguém. Mito do jornalismo bizarro e policial das décadas de 80 e 90. Esse é Hélio Santos, repórter da madrugada do extinto Notícias Populares (NP). Rodava as ruas de São Paulo de ponta a ponta, não temia as quebradas da periferia, conhecia todas as delegacias de cor e salteado.

Hélio em momento descontraído com Joyce / Reprodução

Reservado em relação à vida pessoal, tinha poucos amigos e não manteve os contatos de trabalho. Tentei encontrá-lo durante três meses, sem sucesso, para fazer este perfil. “- Alô, sabe por onde anda o Hélio Santos? - Não tenho idéia, mas se você encontrá-lo por favor me avise, também quero saber!”, foi o que mais ouvi.

Seu ex-editor-chefe no NP, Fernando Costa Netto, não sabe. Seu motorista, Zé Carlos, hoje no Diário de São Paulo, também não. Zé Maria, o fotógrafo que o acompanhava nas aventuras, tampouco. Sem contar Rachel Añon, a primeira mulher a fazer a ronda da madrugada paulistana, hoje na Folha Online. Nenhuma pista também com outros colegas entrevistados.

“O Hélio sempre foi um mistério. Não tinha muitos amigos, só se relacionava com as pessoas da madrugada. Seu telefone nunca funcionava, mas sempre aparecia tarde da noite na redação”, diz Costa Neto, que lembra dele como “o repórter mais cheiroso do Brasil”. No prédio da Alameda Barão de Limeira, poucos conheciam o homem por trás de histórias como o manual ilustrado para siliconar peitos de travestis ou do rapaz que cortou a própria mão para receber dinheiro do seguro.

Na falta de informações, os colegas começaram a inventar histórias sobre aquele jornalista das antigas, que em plenos anos 90 fazia questão do terno e gravata. A mais famosa dizia que Hélio era esverdeado, pois nunca tomava sol. Também se falava muito da sua amizade com a travesti Joyce [na foto acima], rainha da boca do lixo paulistana.

“É tudo mentira”, diz o motorista Zé Carlos, em meio às gargalhadas. “Era um jogo meu e do fotógrafo, o Zé Maria. Como ninguém conhecia o Hélio, espalhávamos que ele estava ficando verde, que tinha ido morar com a Joyce… E os repórteres acreditavam”, conta. “É tudo papo, a gente criava um folclore a as pessoas compravam”, diz Zé Maria.

Joyce, 1 metro e 80 de altura, era amiga do trio e os ajudava em pautas sobre o lado B da metrópole. A mais famosa revelou, com fotos e instruções detalhadas, como um travesti decidido a ganhar peitos fazia a injeção caseira de silicone, usando moldes de diversos tamanhos – numa época em que os transplantes femininos ainda não haviam se popularizado.

“A Joyce ia ajudar um travesti a colocar os peitos e nos chamou no apartamento dela, na Praça Roosevelt. Primeiro fizemos a foto do cara sem peito, depois já com um peitinho, e no final, com um peitão”, conta Zé Carlos. A matéria ganhou a capa do NP e foi sucesso de vendas.

Hélio nasceu no final da década de quarenta, no interior da Bahia. Tentou a sorte em São Paulo e conseguiu fazer seu nome como jornalista policial do extinto Última Hora. Nos idos de 1985, foi contratado pelo Grupo Folha, que na época editava quatro jornais: Folha de S. Paulo, Folha da Tarde, Notícias Populares e Gazeta Esportiva. Hélio assumiu logo de cara a madrugada do sangrento NP.

“Era um cara quieto, calmo, ficava muito na dele. Um dia fomos parar no meio de um tiroteio no M’Boi Mirim, todo mundo com medo e ele sai do carro, fumando, pra ver o que era”, conta Zé Maria. Zé Carlos diz que Hélio não temia a morte: “Nessas horas ele sempre me falava: um dia vai chegar a nossa hora, ‘tiozinho’”.

A madrugada paulistana, naquele tempo, era mais violenta do que hoje e não faltavam crimes e situações para as páginas do NP e suas manchetes sarcásticas. Numa noite quente, o trio se deparou com três histórias no estilo “piada pronta”.

A primeira ocorrência foi acidente de trânsito, uma Brasília batida no poste. Fato corriqueiro, não fosse a situação da passageira: estava algemada ao carro quando ocorreu a batida e não conseguia sair de lá. Uma história boa, suficiente para garantir o dia. Mas logo surge o caso de um homem que amputou a própria mão para receber o dinheiro do seguro. E lá vai o trio do NP apurar o acontecido. No final do expediente, às quatro da manhã, um policial liga para Hélio e avisa: “largaram um caixão no meio de uma praça com um cara assassinado a tiros dentro”.

Reprodução

Nem sempre uma história parece boa à primeira vista, mas Hélio gostava de checar todas de perto. Os jornalistas da madrugada tinham (e até hoje têm) o hábito de se encontrar no Bar Estadão, no centro da cidade, quando não há nada relevante para cobrir. Lá eles jogam conversa fora, comem e ficam à espera das novidades. A madrugada de 18 de maio de 1999 transcorria como uma dessas, até chegar a notícia de um táxi acidentado na Avenida Nove de Julho, bem próximo do bar.

“Ninguém se animou a ir, parecia uma notícia fraca, mas o Hélio resolveu dar uma olhada”, conta o motorista. Chegando lá, havia um senhor morto dentro do carro, com jóias, roupa elegante e sapato caro. Zé Carlos pegou o documento da vítima e leu: Dias Gomes.

“Chamei o Hélio e perguntei: não é aquele cara que escreve novelas da Globo, marido da Janete Clair?”. Bingo, era ele mesmo! Na hora, Hélio ligou para a redação da Folha Online e passou o furo – na época os celulares ainda eram tijolos analógicos e o jornalismo online engatinhava. Em poucos minutos a notícia estava no ar, exclusiva, no site da Folha. E logo aparece no local uma equipe da Rede Globo. “A repórter chegou reclamando com a gente, dizendo que éramos loucos, onde já se viu dizer que o Dias Gomes tinha morrido… Aí ela viu o RG e a Globo percebeu o que tinha acontecido”, conta Zé Carlos.

Mas nem sempre as madrugadas eram boas. A rotina incessante de mortes, crimes e desgraças de todo gênero não perdoa e às vezes repórter, fotógrafo e motorista se percebiam deprimidos. “Nós dizíamos que eram os maus fluídos”, conta Zé Carlos. Nesses dias, Hélio Santos entrava no carro e pedia: “quero ver coisa bonita”. O carro da reportagem escapava das pautas para flanar pela Oscar Freire, Avenida Paulista, Vila Olímpia. “Ficávamos andando devagarzinho, pra desanuviar”, diz Zé Carlos.

“A madrugada envelhece, acaba com você. Geralmente chegava em casa e não conseguia dormir por causa da adrenalina, ficava pensando nas pautas”, conta o motorista. Hélio também não dormia quando chegava em casa – acumulava empregos e, após o expediente no NP, ia trabalhar em um jornal de bairro. Segundo Raquel, além dos dois empregos, ele se sustentava graças a uma pequena aposentadoria.

“Não éramos valorizados pelo trabalho”, diz Zé Maria. “Entrávamos no Capão Redondo no meio de tiroteio, via ladrão botando fogo em cadáver e não tínhamos nem carro adequado”, conta. Durante alguns anos o NP usou um táxi para a ronda da madrugada, e Hélio e Zé Maria tiveram que comprar, do próprio bolso, adesivos para sinalizar “REPORTAGEM” no veículo e evitar confusões – com freqüência, eles eram abordados pela polícia no meio de pautas na periferia. Quando menos esperava, o trio ouvia a sirene e os policiais gritando “Desce, desce, desce!”.

Com o tempo, Zé Carlos começou a sentar na redação do NP para ajudar na apuração. Enquanto Hélio falava com os delegados, Zé Carlos ligava para o Copom, centro de operações da Polícia Militar, em busca de novas ocorrências.

E não podiam faltar brigas em uma convivência diária tão intensa. A mais comum, entre fotógrafo e repórter, acontecia quando o carro chegava na pauta. Hélio Santos, sempre calmo, ficava se arrumando e demorava a descer. Enquanto se preparava, Zé Maria já tinha saído e feito o primeiro contato com os policiais. “Ele só descia se conhecesse o policial, senão tinha que ser eu”, reclama o fotógrafo. ”O Hélio gostava de irritar o Zé Maria, principalmente em fim de pauta”, conta Zé Carlos. Com o expediente terminando e o fotógrafo doido para ir pra casa, Hélio mandava: “Vamos visitar as princesas [os travestis]“. No banco de trás, Zé Maria bufava.

Nos meses de inverno, quando as ocorrências rareiam, Hélio pedia para o motorista escolher um número de 1 a 102 (os Distritos Policiais da cidade) e mandava todo mundo para aquela delegacia. “O Zé Maria ficava me encarando bravo pelo espelho retrovisor, pra eu não escolher nada muito longe”, lembra Zé Carlos, rindo.

Nesse esquema aleatório, uma noite eles foram parar no 4º DP, na Consolação, e ouviram uma confusão. Um preso que não tinha os dois braços se debatia e quebrava vasos e janelas – não havia como algemá-lo. O rapaz fora flagrado horas antes tentando enforcar uma mulher, usando o pé para apertar o pescoço da moça contra a calçada, em frente à Igreja da Consolação. Hélio não se conteve e desatou a xingá-lo de “vagabundo”, e o homem devolveu as agressões no mesmo tom.

Alguns meses depois, no meio de uma pauta, a equipe do NP encontrou o mesmo homem por acaso, na praça da República, com uma pochete pendurada no pescoço. Nesse dia Hélio Santos gelou, segundo Zé Carlos. “Quando ele viu o homem foi correndo pro carro e mandou a gente sair de lá rapidinho!”, diz.

“Comigo o Hélio sempre foi um amor, tenho grande admiração por ele”, conta Raquel, que cobriu suas folgas na madrugada por dois anos, até o fim do Notícias Populares, em janeiro de 2001. “O vi pela última vez em 2008, no Largo do Arouche, estava com uma cara melhor do que na época do jornal”, conta.

Seu pedaço sempre foi o centro velho. Na época do NP, apenas Zé Carlos e Zé Maria sabiam seu endereço: Rua Rego Freitas, a poucos quarteirões do Grupo Folha. Depois ele se mudou para a Rua Aurora, na mesma região.

Com as economias, Hélio conseguiu comprar um pequeno sítio em Embu, na região metropolitana de São Paulo, em endereço não revelado. É lá que seus colegas acreditam que ele esteja, beirando os 70 anos e curtindo o neto – um presente da sua filha, que de tanto ouvir histórias policiais em casa se formou em Direito.

Foto: Hélio em momento descontraído com Joyce / Reprodução

Texto publicado na Revista Babel da ECA-USP.

Dois meses após esse post, o repórter da Trip Décio Galina foi atrás de Hélio Santos e descobriu que ele havia morrido em 2007. Dessa busca, resultou uma bela reportagem.

Comentários (15)| Comente!

  • A + A -

Bruno Lupion, do estadão.com.br

A cobertura policial mudou muito nas últimas décadas, assim como o próprio fenômeno do crime. Nos anos 60, os homicídios em São Paulo eram raros e os jornalistas faziam plantão dentro da antiga Central de Polícia, no Pátio do Colégio, à espera das ocorrências. Se houvesse um homicídio no raio de 100 km da capital, todos iam. E muitas vezes a população ligava primeiro para a imprensa, que ia ao local, fazia as fotos e, só depois, avisava a polícia. Naquela época, um mesmo homicídio rendia matérias para mais de uma semana nos jornais, que exploravam as nuances do caso e do trabalho policial.

Hoje os jornalistas ficam nas redações, falando ao telefone com a polícia e os bombeiros, antes de enviar os repórteres ao local do fato. Homicídios ocorrem praticamente todas as noites – em geral, mais de um. São tantos que alguns nem são registrados pela imprensa. Na noite seguinte, outras mortes violentas ocorrerão e as da noite passada já estarão praticamente esquecidas, salvo raríssimas exceções.

À primeira vista, a realidade atual parece menos interessante, mas o trabalho da imprensa na cobertura dos crimes tem avançado muito. É o que mostra o estudo “Mídia e Violência – Novas Tendências na Cobertura de Criminalidade e Segurança no Brasil” de autoria de Silvia Ramos e Anabela Paiva, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, no Rio de Janeiro.

O livro foi publicado em 2007, mas é muito atual e vale ser compartilhado. Ele mostra que a mídia, hoje, está mais preparada para cobrir o crime não como evento isolado, praticado por pessoas atormentadas, mas como fenômeno complexo que demanda políticas coordenadas de segurança pública.

Vale a pena ler o Capítulo 5, “Avalia aí – A segurança do profissional de imprensa”, que aborda em detalhes o cotidiano do repórter, como o medo de entrar em favelas, a relação contraditória com a polícia, a pressão psicológica no cotidiano, os laços de apoio entre funcionários de empresas concorrentes e até a importância de contar com um motorista sintonizado no ritmo da notícia.

Para baixar a obra clique aqui.


Comentários (5)| Comente!

  • A + A -
08.outubro.2010 07:53:16

Obrigado, Tietê

Bruno Lupion, do estadão.com.br - Foto: JB Neto/AE

Em outubro a luz da Nova Marginal será ligada, e termina um prazer descoberto por acaso nas madrugadas de inverno: ficar parado de pé, numa ponte escura, bem em cima do Rio Tietê.

O pedestre maluco que se deixa estar ali sente uma brisa úmida no rosto. Praticamente não há sons ou cheiros. E o breu e o silêncio aguçam o instinto.

Com o corpo inclinado, dá pra notar, lá embaixo, a água se movimentando rumo ao interior, em passo lento e determinado. A lua refletida no rio mostra ondulações e rodamoinhos.

Não há motos e caminhões, luzes e marginais, correria e tensão. Nesse átimo, o rio vive. E consegue transmitir aquela paz de espírito que tanto faz o homem buscar o lazer à beira d´água.


Comentários (6)| Comente!

  • A + A -

Texto e fotos: JB Neto/AE 

Quinhentas caixas de remédios roubados abandonadas em uma matagal de Itaquera. Dois iguanas encontrados em uma embalagem de Sedex no Parque do Carmo. Ocorrências apresentadas ao mesmo tempo no Departamento de Policia de Proteção à Cidadania (DPPC), com oito guardas ambientais esperando do lado de fora. À primeira vista, qual delas é atendida pelos guardiões da natureza?

20100928_iguana011.jpg

Fui ao DPPC fotografar a apreensão da grande quantidade de remédios roubados. Na calçada, guardas ambientais informaram que algumas equipes da imprensa já estavam na sala, entrevistando o delegado. Olhando de longe, próximo aos cinegrafistas, havia sobre a mesa dois “pacotinhos” com um rabo imenso e verde: iguanas enrolados em bandagem e fitas adesivas, que seriam despachados a uma moradora de Belo Horizonte.

Terminadas as fotos dos répteis imobilizados, fui para o lado de fora da delegacia. “Oito guardas florestais para cuidar de dois iguanas?” – indagou um dos jornalistas. Logo ele foi interrompido pelo delegado, que agora nos chamou para fotografar e filmar os medicamentos.

Só então ficou explicado. Os guardas ambientais estavam ali por terem encontrado os remédios em uma área de preservação ambiental – alguns deles mal sabiam do que estávamos falando quando peguntamos sobre os iguanas.

Um outro jornalista chegou por último, quando todos já haviam terminado e, com medo de não conseguir imagens dos animais, nos perguntou esbaforido: “Onde estão os iguanas que estavam dentro da caixa de medicamentos?”. Mesmo correndo, não ficou sem resposta: “Iguana que era pra estar no mato, estava na caixa. E medicamento que era pra estar na caixa, estava no mato”.

20100928_remedios010.jpg

Funcionário dos Correios encontra iguanas em Sedex

Polícia acha 500 caixas de remédios roubados em SP

 

Comentários (3)| Comente!

  • A + A -
16.setembro.2010 04:25:39

Todo mundo dança

Texto e fotos: JB Neto/AE

A palavra dançar pode ser vista de duas formas nas madrugadas paulistanas, literal e metafórica. Em um único segundo, pessoas nascem, morrem, sorriem e  choram, e cada um de nós não tem a mínima noção de que, naquele instante, algo completamente diverso ocorre com outro ser no outro lado da cidade.

JB Neto

Rodrigo sai de casa todo perfumado, se encontra com os amigos em um posto de combustível, onde fazem o esquenta para a balada, e saem cada um com o seu carro em direção a uma casa noturna na Vila Madalena. A situação é rotineira, mas não se torna banal, pois cada festa “tem um sabor diferente”, diz o boêmio.

Um menor de idade com seus 16 anos parte para o bairro da Saúde com outros quatro parceiros, onde também vão realizar uma atitude provavelmete habitual para eles. A bordo de um Fiesta preto roubado, assaltam uma pizzaria. Domingo é dia de pizza e as caixas registradoras estão recheadas da ilusão da vida fácil.

Os amigos dançam, bebem e conhecem Marina, que “sempre está na balada” e gosta de curtir a vida. Neste dia eles ficariam só por ali, mas costumam “rodar até encontrar o pico que esteja bombando”, diz Rodrigo. O ambiente é de alegria e amizade, todos parecem estar em comunhão, vibrando em uma energia uniforme onde um abraça o outro e todos conversam, mesmo não se conhecendo.

Na fuga, um homem que passa pela calçada vê a movimentação dos assaltantes e o adolescente arranca com o carro. Três tiros são disparados. Um é certeiro. Perfura o lado direito do vidro traseiro, percorre o interior do carro e atinge a cabeça do piloto. O menino que escolheu uma vida de “correria” se foi, momentos antes de chegar ao hospital.

As duas situações ocorreram no mesmo momento, a adrenalina jorrou em ambos grupos e mesmo sem se conhecerem e nem saberem o que acontecia na vida de cada um, eles fizeram o que queriam. No fim de tudo uma família chorou pela perda de um familiar que escolheu o seu próprio destino, incerto, mas seu. E do outro lado alguém apenas acordou com uma baita dor de cabeça, jurando para si próprio que nunca mais beberia tanto, mas já pensando na próxima noitada.

JB Neto

 

Comentários (8)| Comente!

  • A + A -

Bruno Lupion, do estadão.com.br

Em abril de 1973, o repórter Gilberto do Vale e o fotógrafo Vieira de Queiroz rodaram o Rio de Janeiro de ponta a ponta para retratar o metabolismo noturno da Cidade Maravilhosa.

Na época, a ponte Rio-Niterói estava sendo construída e o Brasil era governado por Emílio Garrastazu Médici. A revista ilustrada “O Cruzeiro”, fundada por Assis Chateaubriand em 1928 e sucesso absoluto de vendas nas décadas de 40 e 50, se aproximava do fim – a última edição foi às bancas em junho de 1975.

Veja a bela matéria abaixo:

abre

Crédito: Enquanto a cidade dorme. “O Cruzeiro” de 4 de abril de 1973, nº 14

Texto: Gilberto do Vale – Fotos: Vieira de Queiroz/Reprodução

São dez horas da noite. As portas das residências já estão fechadas. Na sala, de pijama, o carioca boceja diante da televisão, aguardando o fim do programa preferido. É hora de dormir. Durante o sono de oito horas, a cidade diminui seu ritmo intenso e nervoso, mas continua a viver. Enquanto muitos descansam, alguns se divertem e outros trabalham.

Mas a rotina é quebrada quando chega o fim de semana. A transformação é total. O carioca se solta, desliga-se. Seu único compromisso é viver, estar presente no espírito adolescente e alegre que ronda os bares e boates e se esparrama pelas ruas.

A fisionomia noturna do Rio é peculiar e já foi definida como “um universo inexplicável, porque o que acontece em Ipanema jamais acontece em Madureira”. Apesar do exagero da afirmação, a noite carioca tem características distintas em pelo menos três áreas: Norte, Centro e Sul.

Zona Norte: o silêncio

Na Zona Norte, as ruas estão desertas, os bares fechados e o silêncio é cortado apenas pelo ruído dos motores dos veículos que deslizam suavemente, avançando os sinais de trânsito. Caxias, motorista de táxi há 43 anos, que sempre trabalhou à noite, justifica a infração:

- Parar num sinal à noite é pedir para ser assaltado. A gente roda 20 minutos sem encontrar uma pessoa. Quando o sinal fecha, diminuo a velocidade, olho para os lados para ver se vem algum carro e arranco rápido. Se vacilar, tenho que encarar dois revólveres, perder o dinheiro e talvez a vida.

O medo de andar pelas ruas dos subúrbios seria maior se as estatísticas do Hospital Getúlio Vargas, que atende a uma população de cerca de 800 mil pessoas, fossem divulgadas. Durante a noite, a maioria dos atendimentos é de pessoas feridas.

Zona Sul: a brisa

Na Zona Sul, o mar soprando a brisa fresca nas madrugadas de calor é um convite para o carioca sair e respirar. Em toda a orla marítima, os bares ficam abertos até a madrugada para refrescar o papo dos boêmios com um chopinho gelado. Nos bancos ou na areia macia e deserta, uma sensação de calma envolve os namorados. Mas também os mais diversos tipos de trabalho estão incorporados à vida noturna da Zona Sul. Antônio José, 16 anos, passa as noites em Copacabana. Vende sanduíches e refrigerantes na Avenida Atlântica.

- Há cinco anos estou neste serviço. Gosto de trabalhar à noite porque é mais tranqüilo. Os fregueses não têm pressa de ser atendidos e a gorjeta é sempre maior.

Antônio José explica que no verão o movimento é grande e o estoque consumido rapidamente, e “quando o serviço acaba, dou uma dormida até clarear. Depois é voltar para casa em Cascadura, descansar um pouco e esperar a noite chegar para começar tudo de novo”.

Centro: a boemia

O Centro da cidade, à noite, perde a sua população flutuante, que durante o dia enche as ruas a passos rápidos. As casas comerciais e escritórios estão vazios. As duas principais avenidas – Rio Branco e Presidente Vargas -, iluminadas por seus lampiões coloniais, parecem mais largas e extensas.

A Lapa morreu. E com ela o encanto boêmio do centro da cidade. A Praça Mauá é o único local que ainda mantém a sua tradição mundana. Os bares e inferninhos continuam cheios. Nas calçadas, os motoristas de táxi reúnem para discutir futebol, enquanto aguardam “um gringo para fazer uma corrida e receber em dólar”. Nas praças, os bancos dos namorados agora são ocupados por velhos amigos para um papo de recordação ou por alguém que espera a noite passar.

No Passeio Público, sentados com o rosto entre as mãos, João Batista, 19 anos, dorme esperando o dia clarear. Esfrega os olhos antes de explicar que foi despejado da pensão por falta de pagamento.

- Fui demitido porque vou servir o Exército. Fiquei sem dinheiro e a dona Hermelinda me mandou embora hoje. Não sei o que vou fazer amanhã, mas agora quero é dormir, porque a Lua está bem redonda e o sono aqui é muito tranqüilo.

.

rodoviariapeq

A Rodoviária Novo Rio acolhe forasteiros em trânsito. Muitos vêm do Nordeste e aliesperam o ônibus para São Paulo; o conhecimento da cidade se restringe apenas àquele local. À noite não funcionam as escadas rolantes e a TV. Muitas lojas comerciais fecham. Alguns dormem e às vezes perdem a passagem.

.

policia

A Polícia registra mais ocorrências nas noites de quinta – roubos às lojas da Loteria Esportiva -, sexta e sábado – pequenos furtos e agressões. Na Zona Norte, a repressão alcança em maior número traficantes de tóxicos e ladrões de casas e apartamentos; no Centro, vadiagem e assaltos menores; e na Zona Sul, as prostitutas e os pivetes. Quando chove, o índice de criminalidade cai acentuadamente, e sobe no verão.

.

jornais

Na Estação D. Pedro II, da Estrada de Ferro Central do Brasil, os jornaleiros “casam” os suplementos dos jornais e os dividem. Os matutinos e revistas seguem para os subúrbios. O movimento começa à meia-noite e termina às 4h. Os passageiros são poucos e refestelam-se nos bancos à espera do trem.

.

hospital

O Hospital Getúlio Vargas, na Pena, atende a uma população de 1.800.000 pessoas. As maiores incidências são de atropelamentos, lesões corporais e subnutrição. No Miguel Couto, no Leblon, os médicos e enfermeiros dão assistência a cerce de um milhão e meio de moradores espalhados pela Zona Sul. O Serviço de Emergência tende, principalmente, a acidentes de trânsito e agressões físicas. No Souza Aguiar, no Centro, pouco movimento.

.

lapa

A Lapa acabou. O antigo bairro boêmio do Rio hoje é freqüentado por mendigos e uns poucos malandros. Os cabarés fecharam suas portas. Boêmios famosos se aposentaram. Só restam os saudosistas, a lembrar o passado.

.

churrascaria

As grandes churrascarias são atualmente os locais de reunião de famílias numerosas. Lá, além da comida farta, assistem a shows de artistas famosos, gastando em média Cr$ 70 por casal. É o programa da moda carioca.

.

copacabana

O novo traçado da praia de Copacabana favoreceu em muito seus freqüentadores, mesmo os da noite, que ocupam bancos e deixam o tempo passar contemplando o mar. Na calçada, a luz dos bares; na areia, a sombra dos pescadores.

.

aeroporto

O Aeroporto Santos Dumont fica praticamente deserto depois da meia-noite. O movimento volta ao normal às 6 h, com os vôos domésticos. No Galeão, realizam-se algumas decolagens e aterrissagens pela madrugada.

.

lanche

Após uma noitada, a fome aperta. O jeito é fazer uma boquinha numa das dezenas de carrocinhas paradas ao longo das praias. Numa delas, Antônio José, de 16 anos, vende sanduíches e refrigerantes a fregueses sem muita pressa. No verão, o estoque acaba logo e “dá para dormir um pouco”.

.

balsa

As barcas reduzem o número de viagens entre Rio e Niterói – apenas de hora em hora, de meia-noite às seis. O fluxo de passageiros é maior partindo da GB. Em maioria são noctívagos retardatários.

.

lanche2

Noite de verão, tempo de comida leve. Um sanduíche, refrigerante – se possível com brisa de praia. Leblon, Ipanema, Copacabana – aqui mais perto. Outra boa pedida é esticar até a Barra da Tijuca.

.

porteiro

Miguel dos Santos, 71 anos, vê a noite passar tomando conta da portaria de um edifício elegante da Z.S. Há 13 anos. Quer se aposentar, para “dormir com a cidade”.

Comentários (25)| Comente!

  • A + A -
25.agosto.2010 07:59:30

Os Direitos do Homem

Bruno Lupion, do estadão.com.br – Foto: JB Neto/AE

O homem que não luta pelos seus direitos não merece viver, teria dito Rui Barbosa com uma pitada de exagero. Afinal, como o homem vai lutar pelos seus direitos, se nem os conhece?

Nos últimos vinte anos, o Brasil avançou bastante na área do consumidor: a população sabe seus direitos, ouviu falar do Procon e recorre aos juizados quando é mal atendida, pelo menos nas grandes cidades.

Já na área penal, o cenário é inverso: poucos conhecem seus direitos e os jornais vivem divulgando abusos de autoridade. Para piorar, quem é pobre dificilmente consegue advogado ou defensor público com rapidez.

Um exemplo simples para reverter essa carência vem do 37º Distrito Policial, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Quando entra ali, a primeira coisa que o cidadão vê é um imenso painel, cinco metros por três, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Os trinta artigos estão na íntegra, em português, numa letra para míope algum botar defeito. Fazia tempo que não lia esse texto e tinha me esquecido da sua beleza. Ele foi proclamado pela ONU em 10 de dezembro de 1948, logo após a II Guerra Mundial, com o objetivo de lançar as bases de um mundo com liberdade e democracia, sem barbárie ou miséria, no qual todos têm direito a uma vida digna e “ao pleno desenvolvimento da sua personalidade” – meu trecho favorito.

Hoje, a Declaração Universal dos Direitos do Homem é o documento traduzido no maior número de línguas do mundo: existe em 375 idiomas. A versão em português você encontra aqui.

* A frase citada na primeira linha é popularmente atribuída a Rui Barbosa, porém as pesquisadoras da Casa de Rui Barbosa não conseguiram localizar, a pedido do blog, essa expressão nos escritos do mestre.

Comente!

  • A + A -

Comentários recentes

  • j castro: e uma delicia claro que tem que ter egiene
  • zé carlos: tem muita gente que diz que é nojento,não sabe o que é nojento ja trabalhei muitos anos em industria...
  • fernanda: eu como msm e muito bommmmmmmmmmmmmmmm.
  • fernanda: tem gente que compra aquele pao de firos que esta la no mercado a dias nem si em comoda a carne ta sim...
  • wagner: comia muito quando trabalhava de ofice boy mas hj em dia naum mais e sinto muita saudade da epoca boa

Arquivo

Seção

Todos os blogs

Você já leu 5 textos neste mês

Continue Lendo

Cadastre-se agora ou faça seu login

É rápido e grátis

Faça o login se você já é cadastro ou assinante

Ou faça o login com o gmail

Login com Google

Sou assinante - Acesso

Para assinar, utilize o seu login e senha de assinante

Já sou cadastrado

Para acessar, utilize o seu login e senha

Utilize os mesmos login e senha já cadastrados anteriormente no Estadão

Quero criar meu login

Acesso fácil e rápido

Se você é assinante do Jornal impresso, preencha os dados abaixo e cadastre-se para criar seu login e senha

Esqueci minha senha

Acesso fácil e rápido

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Cadastre-se já e tenha acesso total ao conteúdo do site do Estadão. Seus dados serão guardados com total segurança e sigilo

Cadastro realizado

Obrigado, você optou por aproveitar todo o nosso conteúdo

Em instantes, você receberá uma mensagem no e-mail. Clique no link fornecido e crie sua senha

Importante!

Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail esta ativado

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Estamos atualizando nosso cadastro, por favor confirme os dados abaixo