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O papai, as gêmeas e a mamãe

Muita coisa mudou quanto aos cuidados com filhos desde o tempo dos avós. As receitas infalíveis, porém, perduram ao tempo. Nos primeiros meses depois que os bebês chegam em casa, elas chovem em pancada. Vêm aos montes e de todos os lados. Com as gêmeas, uma delas foi a da fita crepe para baixar o umbigo saltado da Beatriz.

A Bia foi a primeira a encaixar a cabeça para deixar a barriga da mamãe. Assim ficou quase toda gravidez. O cordão, achou que era colar, e enrolou ele duas vezes no pescoço. Quando elas nasceram, rodeadas de susto e tensão (parto prematuro, pós-parto complicado), foi ela quem mais nos preocupou. Teve infecção e visivelmente parecia mais irritada, dentro da barriga de fibra transparente. Chorava mais sentido que a Helena.

De tanto fazer força, o umbigo começou a saltar. Papai e mamãe preocupados quiseram saber dos médicos da UTI neonatal se era grave. Era hérnia. O umbigo pulava para fora como um botão. Qando chorava, parecia que ia romper de tão saltado. Fomos aconselhados a esperar tranquilos, porque era algo que geralmente voltaria para dentro sozinho.

Mas chega em casa, e vem logo as receitas da tia, da amiga, da vizinha que viu na casa da avó, que sabia de não sei quem, que fez assim e assado.

Colocar uma fita crepe no umbigo pressionando para dentro foi uma delas. Aí veio a versão com moeda: uma moeda colocada em cima do umbigo e pressionada com a fita crepe. Coisa de maluco!!!

Na pediatra das gêmeas, papai fez a mamãe tirar a prova. O veredito: ou aguardávamos até uns seis meses para ver se o umbigão saltado não voltava sozinho para dentro, ou submetíamos a Beatriz a uma cirurgia simples para colocar o dito cujo para dentro.

A hérnia é uma pequena saliência que salta do umbigo quando um órgão ou tecido está fora do lugar. Ela surge em uma abertura da parede muscular do bebê, que deveria estar fechada. Eu já havia lido sobre os problemas de usar a fita. Além de poder irritar a pele, ela contrai a região abdominal do bebê, prejudicando sua respiração. Também não há provas que ela faça o bichão voltar para seu lugar.

Nessas horas, o importante é ligar o filtro de besteiras e seguir o bom senso (pesquisando muito e ouvindo sempre alguém especializado).

O umbigão, voltou para seu lugar, como a cabeça de uma tartaruga que se encolhe no casco. Ficou um pouco mais saltado que o da Helena, que não passou por essa, mas se papai não falar, nem se nota.

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Antes eu gostava de ler Milan Kundera e de pensar sobre sua ótica filosófica da dualidade e da leveza do ser, mas hoje eu passo o dia a trocar fraldas e choro vendo o Fantástico. Sim, papai também chora! Chora diante da impotência do ser e ao mesmo tempo de sua força. Escorri lágrimas sem vergonha de macho ontem vendo a reportagem sobre Carolina, o menor bebê prematuro sobrevivente do Brasil, que nasceu com 360 gramas e medindo 27 centímetros, lá em Minas Gerais.

Quem viveu a experiência de filho prematuro e os dias duros de internação da UTI neonatal sabe do sentimento que falo. Da impotência dos pais diante do organismo ainda imaturo para o mundo, brigando para viver, ali na sua frente, dentro da barriga artificial quadrada de pele transparente, amarrado por tubos e sondas.

As gêmeas nasceram de sete meses e pesando 1,4 e 1,5 quilo – muito maior que a pequena Carolina. Quando a Beatriz e a Helena decidiram dar as caras, os pulmões estavam formados, mas ainda imaturos, como a maior parte do organismo. Nessa fase, às vezes, o cérebro esquece de botar as bexiguinhas para funcionar, e a Beatriz teve duas apneias e a Helena uma, nas horas seguintes ao nascimento. O bebê para de respirar, começa a ficar roxo. Elas reagiram com massagem no peito e depois foram mantidas nos primeiros dias de UTI com uma ventilação artificial que põe os pulmões para bombear.

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A Carolina, sua família, as gêmeas e todos os bebês que já nasceram enfrentando o ar gélido de um hospital são guerreiros! Nascem com essa marca vitoriosa. O tamanho diminuto dos corpos não esconde a fragilidade dos pequenos organismos enclausurados em estufas. Toda vez que vejo ou lembro dessa fase, derreto igual mantega no sol. Mas a evolução (tensa) de cada dia, não deixa dúvida da força de vida dessas crianças. E de quão impotente você é, aguardando as boas notícias, sem nada poder fazer – a não ser, estar ali.

A foto do corpo mínimo da pequena Carolina medida na palma da mão de uma enfermeira me fez lembrar da angústia dos primeiros dias de vida das pirralhas e da força que papai e mamãe tiveram que arrancar (sei lá de onde). Não temos fotos dos primeiros 20 dias, porque na UTI não pode entrar câmera (só a do Fantástico). Mas os retratos acima, feitos no semi-intensivo, são da Bia esparramada na incubadora e da Helena sorrindo dormindo no colo gigantesco do papai.

Nunca mais lerei contos e romances como antigamente…

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Com bebê em casa, tudo que é novo para eles vira data especial do casal. Com a primeira festa de aniversário que as gêmeas foram não poderia ser diferente. As roupinhas são especialmente escolhidas, planos para o que colocar na bolsa das pequenas, levar ou não levar os carrinhos. Tudo é uma descoberta, para os pais e para as gêmeas: aquela aglomeração de pessoas, o som alto tocando, crianças correndo e muita cor, muito estímulo visual. A Beatriz e a Helena adoraram a descoberta. Mas o que ninguém te avisa (e é bom se preparar para saber como se comportar) é que tem sempre a turma do “deixa eu pegar” atacando assim que você chega.

Cada casal tem que estabelecer suas regras e buscar o que é melhor para o bebê. Com filhos gêmeos, papai e mamãe não têm dúvidas que um colo alheio é sempre uma boa. O problema é quando você acaba de entrar no ambiente estranho que é uma festinha de criança, cheio de gente e rostos novos, vozes diferentes, e tem alguém, geralmente não ambientado com a rotina do seu bebê, que vem logo pedindo para pegar a criança. Portanto, pense o que fazer desde já.

Com as gêmeas, papai não teve dúvidas de pedir a compreensão do colo amigo e aguardar um tempo até que as pirralhas se sentissem à vontade no lugar. Depois, é só alegria (para as gêmeas e para os pais). Os brinquedos e as cores são as maiores diversões. Com tanto colo querendo segurar as pequenas, é a hora que dá para relaxar um pouco as costas. Já para o amigo, muitas vezes pode ficar uma rusga de incompreensão. Mas pondere o melhor para o seu filho e não tenha medo de parecer um sujeito estranho.

Com bebês nascidos prematuros (dois ainda), você acaba ficando mais atento com alguns cuidados nos primeiros meses de vida. As gêmeas vieram para casa já entrando no segundo mês de vida, mas ainda muito pequenas e recém-saídas da UTI neonatal, onde os cuidados de higiene são muito rigorosos. Por orientação médica e decisão nossa, mantivemos elas até os três meses ainda sob cuidados mais atentos em relação a sair a toda hora para rua, colos estranhos, barulhos demais etc. Mas passado esse período, quanto mais ajuda, melhor.

 

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A súplica de um olhar que dilacera sem que você possa desmanchar e se recompor aos poucos, porque não há tempo para essas frescuras. Depois de quase 20 dias na UTI neonatal, as gêmeas foram promovidas (como se diz no hospital) para o semi-intensivo. Uma conquista para as pequenas e para os pais, que começarão a fazer o “pele a pele”, dar as primeiras mamadas na seringa, o primeiro banho, sentir o cheiro de perto, falar ao pé do ouvido e também tirar as primeiras fotos.

No colo do papai, Helena ainda não saiu de 1 quilo, mas está a caminho (não é regra, mas prematuros que vão para UTI ganhar peso, quando passam dos 2 quilos e clinicamente estão bem estão prontos para a alta, algo que depois de tanta tensão e angustia vira um grande acontecimento, tão importante quanto o próprio nascimento). Tem começado a fazer as primeiras mamadas direto no peito da mamãe, já vai começar a apreender a mamar na mamadeira também, mas ainda tem o tubo que dá acesso direto ao estômago do leite dado na seringa preso 24 horas na boca. 

Na foto acima, ela fuzila papai com os olhos arregalados rogando para que a leve daquele lugar onde os equipamentos apitam o tempo todo colocando a sua e a nossa tranquilidade em estado de alerta, onde há muito choro de outros minibebês carentes berrando desesperadamente por um colo ou um pedaço de borracha – a chupeta na UTI é liberada para aplacar a distância da mamãe e do papai, mas os pais podem optar pelo uso ou não.  

A Beatriz e a Helena ficaram 30 dias internadas antes de virem para casa. No hospital em que estávamos as visitas eram das 13h30 às 15h e das 20h às 21h. Com gêmeas, é preciso contar precisamente o tempo para dividi-lo de forma que ambas tenham atenção igual. Nos 30 dias fui em todas as visitas. O olhar e o contato físico sempre foram dois importantes pilares, tanto para o papai, que tem que se manter firme nesse momento de correria e tensão, como para mamãe, que no começo ainda ficou sem ver as próprias filhas por estar internada em outro hospital, e para as gêmeas, principalmente, que se acalmavam e fortaleciam com esse vínculo afetivo com os pais.

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Ouvir música faz bem para os bebês, para a mamãe e para o papai. Assim, tenha certeza, gravidez e paternidade têm que ter trilha sonora. As gêmeas estão ouvindo de tudo e gostam! Se divertem mais ainda porque sabem que mamãe e o papai curtem, estão felizes e tranquilos quando estão ouvindo um som. Aqui em casa, a Beatriz e a Helena ouvem música desde os três meses de gestação, quando compramos um fone de ouvido, desses maiores (igual ao que jogador de futebol e DJ usam), e passei a colocar música na barriga da mamãe para que as gêmeas pudessem curtir.

Para acalmar, a maior parte das vezes elas ouviam música clássica: Mozart, Vivaldi, Bach. Mas também ouviam coisas que a gente gostava e que acalmava a mamãe. Uma das que mais tocou na rádio-gêmeas-gestação era Rise, do Eddie Vedder, feita para o filme Into the Wild (impagável!). Ouvia e reouvia várias vezes! As meninas gostam até hoje. Para facilitar, comprei um fone dos mais baratos e arranquei a alça que fica sobre a cabeça e usava-os como se fossem aqueles aparelhos de monitorar o batimento cardíaco do bebê.

Música acalma as pessoas e também os bebês. Estudos já comprovaram sua eficácia até mesmo no desenvolvimento de prematuros. No ano passado, a revista Pediatrics publicou artigo científico de uma pesquisa que comprovou que recém-nascidos que ouviam Mozart na incubadora ganhavam peso mais rápido. Acredita-se que como eles ficaram mais calmos, com a frequência cardíaca e respiratória mais baixa e, assim, tiveram menor gasto calórico. Por que Mozart? Seria porque a repetição com maior frequência da linha melódica atuaria numa área específica do cérebro. Outros efeitos positivos já foram comprovados como auxílio no aprendizado da sucção e controle da dor.

 

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As gêmeas agora ouvem de tudo. Nossa estante já foi tomada por DVDs com as músicas de criança: Galinha Pintadinha, A Barata, Indiozinhos, O Sapo, Escravos de Jó, Mariana. Mas também ouvem as músicas que embalaram os sete meses na barriga da mamãe. E aos poucos e estão sendo introduzidas na discografia da mamãe e do papai.

Hoje a trilha sonora do dia foi o CD do filme Juno. No colo com o papai, elas podem ainda não entender se gostam ou não das músicas, mas da farra e do sorrisão enquanto dançamos no ar, a Beatriz e a Helena gostam de gargalhar!!

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Noitada das gêmeas

 

As gêmeas desde que vieram ao mundo tomam leite na mamadeira sem problemas. Mamaram leite do peito, no começo, e principalmente o em fórmula. Com o nascimento prematuro, na UTI neonatal, o complemento do leite em pó é certo. Mamãe ficou longe nos primeiros dias, depois ralou para tentar descer o leite, teve que voltar para a mesa de cirurgia abrir os pontos. Assim, o manuseio da mamadeira foi algo que apreendemos desde cedo, na marra e com as melhores professoras: as enfermerias do hospital onde a Beatriz e a Helena ficaram internas no primeiro mês de vida.

Semana passada, o pai da Camila Vitória, que está com quatro meses, me liga e diz que a pirralha, que mama no peito da mãe, não quer pegar a mamadeira. Pergunto por que querem introduzir o leite em fórmula (o leite materno é o melhor alimento que o bebê pode receber). É que a pequena vai para o berçário e precisa complementar alimentação com leite em pó.

As gêmeas, como pegaram a mamadeira antes de pegar o peito, nunca nos deram esse “problema”. A Camila Vitória cospe todo leite que cai do bico de borracha. Falei pra ele que pode ser que ela ainda não apreendeu a controlar os movimentos para fazer a sucção e engolir o líquido que sai do bico de borracha.

No intensivão de pai-mãe que tive na UTI do hospital, apreendi que não se pode ter medo na hora de dar as primeiras mamadeiras. Existem várias posições oficialmente recomendadas pela Sociedade Brasileira de Pediatria para segurar o bebê na hora do leite. Papai e a mamãe dão com as pequenas sentadas no colo, como quem coloca um fantoche desses de ventríloquo numa das pernas. Com o dedão e o indicador formando um C, seguramos o pescoço enquanto a palma da mão dá sustentação para as costinhas, de forma que a cabeça penda suavemente para traz. A mamadeira, das menores, são ideias porque cabem anatomicamente na mão. Pouso ela sobre a mão segurando com os dedos polegar e indicador a mamadeira - como quem segura um avião de papel por baixo. Os outros três dedos ficam encolhidos e livres para ajudar a abaixar o queixo das gêmeas e introduzir o bico na boca (quando elas travavam o maxilar), ou mesmo para coçar o rostinho nas dormidas que elas (ainda) dão durante as mamadas. Outra coisa que fazíamos, no começo, eram pequenos movimentos com a mamadeira como se fossemos tirar da boca o bico para ajudar na sucção do leite.

Hoje elas mamam que nem gente grande!! A Helena, aliás, aprendeu com a mamãe Taís a segurar sozinha a mamadeira. Ela ainda não sustenta a “garrafa” levantada por muito tempo, mas em breve vai fazer isso sozinha… Enfim, de fome tenho certeza que Camila Vitória não vai padecer. O jeito é relaxar a cuca, tentar mudar o jeito de oferecer a mamadeira, ou mesmo mudar o bico. Mas acima de tudo, refrescar a cuca, porque o bebê percebe. Pode ser até que simplesmete o bebê estivesse sem fome ou querendo somente a teta da mãe!

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Seis meses na vida de um bebê significa muita mudança (não é lenda), e isso inclui, é claro, a rotina da casa. Quando são duas, então, dá-lhe sufoco! Na semana que acertei que escreveria o blog para o portal do Estadão contando nossa experiência com as gêmeas Beatriz e Helena (nossa gravidez múltipla de primeira viagem), as pequenas completaram meio ano de vida.

 O blog deveria chamar “Mamãe desesperadona e papai sem noção”, título do diário que comecei a escrever quando nos descobrimos grávidos na virada de 2010 para 2011. Em sete meses de gravidez complicada, mamãe enjoada, nascimento prematuro, um mês de UTI neonatal e seis meses de paternidade, descobrimos que, por mais que se planeje, pesquise, estude e busque ouvir conselhos, ser pai e mãe de primeira viagem é osso duro de roer! Não se iluda!! Com gêmeas ainda, é choque de alta tensão!!!   

 
Ninguém conta uma série de coisas. Sabe aquele curso de gestante, o chá de bebê, as revistas especializadas, aqueles conselhos de tia? Ninguém fala como é duro, realmente difícil varar a noite como zumbi nas primeiras madrugadas, acordando de meia em meia hora no aperto da cólica dos três meses. Nem como gera tensão no casal as bolas divididas nas questões sobre a educação e os cuidados dos pequenos. Tudo vira de cabeça para o ar na casa que parecia ter um ritmo estabelecido. Mas basta o cheiro (inexplicável), um sorrisso e um carinho para aplacar qualquer dúvida do quanto vale a pena.
 
Por isso, papai, as gêmeas e a mamãe decidiram contar, a partir de hoje, as peripécias vividas por nós, os acertos e também os tantos erros que cometemos nessa tarefa de aprendermos a sermos pais.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Ricardo Brandt

    Ricardo Brandt, 35 anos, é jornalista e tirou um sabático das redações de jornal em agosto de 2011, quando Beatriz e Helena nasceram, para cuidar das pequenas e trabalhar em casa. Junto com a Taís, que manteve o emprego fixo, vai contar como é criar dois bebês de uma vez e gerenciar a casa, enquanto mamãe vai para o trabalho

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