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O papai, as gêmeas e a mamãe

 

Quem nasce gêmeos, cai na terra com a outra tampa da laranja pronta de fábrica. Chega nesse mundo tão desgrenhado sem ter a árdua tarefa de encontrar a outra metade. Nunca vão deixar de perguntar se as gêmeas são iguais em tudo. Não são! Elas são diferentes. Distinta e complementares. Inseparáveis desde a barriga da mamãe.

A Beatriz e a Helena estão com 1 ano e meio e em uma fase que começaram a brigar pelos brinquedos, pelos objetos mais absurdos, como um pedaço de papel, um molho de chaves. Descobriram o morder, o fazer birra, a chorar por manha, a desafiar as ordens do papai, a pular no chão quando querem dizer não, a espernear em protesto.

Papai não dá moleza nem deixa o coração mole falar mais alto. Reajo com rispidez para o bem delas, para ensinar limites e impor uma boa e amável convivência entre as pequenas. Mas confesso que é muito mais difícil que passar noites e noites em claro por causa do choro de quem só sabe fazer chorar.

Agora, o desafio é psicológico. A cada mordida ou simples tentativa, exijo um beijo, que sai fluído e inocente. A cada gesto brusco, indico um abraço. Ao invés do tapa, cobro um afago. Só é uma pena que papai não consiga mais passar 24 horas do dia junto com as pirralhas.

A sorte é que, no fundo no fundo, a Beatriz e a Helena sabem quem são e, quase sempre, involuntariamente, se envolvem em abraços e amassos, do jeito que viviam nos sete meses e pouco dentro do ventre quente e dilatado da mamãe, como nessa foto, deitadas no sofá da sala, no intervalo entre uma estripulia e outra.

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 Ter gêmeos traz muitas vantagens. Uma delas é a descoberta dobrada do que é ser pai. Outra é saber como é mais de um filho em casa e a relação de dois irmãos. Tudo ao mesmo tempo agora (como, nos tempos dos Titãs). A Beatriz e a Helena ensinam papai e mamãe como é dividir atenções e afeto com duas filhas ao mesmo tempo.

As minhas pirralhas, ora a Bia ora, a Helena, têm um comportamento que a mamãe batizou de xeroquinho. Se uma faz arte (e elas passam o dia correndo atrás de perigo), a outra imediatamente faz igual. Quando a travessura é digna de repreensão, a fotocópia sai imediata. Tudo em busca de novas experiências e, principalmente, atenção. A Helena tem mais aptidão para as travessuras e geralmente encabeça as estripulias.

Minhas gêmeas são bagunceiras e aprontam o dia inteiro. Do jeito que o papai gosta. As pivétinhas colocam a casa de cabeça para baixo, todo santo dia, faça chuva, faça sol. E em dobro!! É só uma se dependurar naquela mesa pesada que a outra vem atrás para imitar. Assim, elas vão descobrindo o mundo em dupla. Fico em cima, morrendo de inveja e feliz pela curtição das duas. Deve ser muito gostoso crescer com um parceiro do seu tamanho.

 

 

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O Papa-léguas que faz o coite de gato e sapato no desenho era um dos meus preferidos nas sessões matinais de sofá quando faltava à aula. A geococcyx californianus, nome científico (se é que podemos chamar isso de nome) do papa-léguas, tem como principal característica o fato de atingir alta velocidade (para um ser de penas) correndo. Sua destreza, de onde vem também o nome popular, realçada nos desenhos da Warner, é uma das habilidades da Helena, a mais nova das gêmeas.

Não sei se ela atinge os 30 km/h da ave que tem tamanho de um galo. Mas meu bicho é um cisco no vento. Você vira o olho por um instante, e a pirralha desembesta num carreirão de gatinho, que é um barato. Dá um baita orgulho!! (depois do cansaço)

Mas numa dessas, bebê não mede as coisas pelos medos criados por gente grande e torta. Na cabecinha pura da Helena, do alto de seus 10 meses de vida, altura não é nada, só um modo diferente de ver as coisas.

Domingo retrasado, papai, as gêmeas e a mamãe se esparramaram pela cama logo cedo, como é habitual nesses dias ao acordar, para trocar massagens e fazer folia. Ter dois bebês, uma engatinhando e outra começando, não é fácil. Mas como são pequenas e a Beatriz ainda se movimenta devagar, dá para ficar sozinho com as duas na cama, um braço em cada uma, quando um dá uma saída.

Nesse dia, um dos braços soltou por menos de um instante da perna da Helena, para tirar da boca da Beatriz aquilo que não devia estar ali, e voltar a mão correndo para segurar minha papa-léguas. Mas a mão ficou no vácuo do corpinho que sumiu, caiu da camona do papai, enquanto mamãe fora no cômodo ao lado. Num salto, pulei para pegar a pirralha, que abriu um berreiro.

Bebê não tem noção do perigo. Mas papai devia ter. Seguindo as orientações do que se tem que fazer nessas horas, apalpamos bem a cabeça da Helena, as costas, monitoramos suas 48 horas seguintes. Deixamos que ela dormisse meia hora depois, e durante o sono ela reagiu bem quando tentamos acorda-la. Outra coisa a observar é a presença de sangue nos olhos, nos ouvidos e nariz. E nada. Foi só um susto… ah, medo também, e culpa, bastante culpa, um sentimento de “como é que fui fazer isso?”. Mas depois, a gente aprende que essas coisas acontecem (mas não deveriam).

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Desde quinta-feira não escrevo para o blog. Não é preguiça (apesar do tempo propício ao ócio), é falta de tempo. As gêmeas estão doentes! Sim, o primeiro Dia das Mães da mamãe não foi nada sublime como sonham os pais de primeira viagem. A Beatriz e a Helena pegaram juntas uma virose. Ela atacou depois da roséola que a Beatriz teve na semana passada. Resumo: o domingo, que era para ser de festa para a mamãe, foi de troca de fraldas, cocô escorrendo pelas pernas e subindo pelas costas e muita atenção para monitorar a hidratação das pequenas. Com gêmeos é assim: antes papai era ligado numa promoção double chopp do bar aqui da esquina, agora é só “double pirirri” aqui em casa.

Diarreia é uma chatice para os bebês e para os pais. As gêmeas estão há seis dias cagando uma água fedida, não querendo saber de líquido para hidratar e colocando de cabelo em pé (mais uma vez) o papai e a mamãe! O maior medo mesmo é com a desidratação. Na quinta-feira, quando estávamos atentos com a Helena para saber se ela pegaria a roséola (a prima da rubéola) da irmã, foi que começaram as primeiras diarreias. Achamos que poderia ser sintoma da roséola. Mas a coisa desandou no final de semana e atacou as duas ao mesmo tempo, tirando a prova de que gêmeos adoecem juntos, na maioria das vezes, quando são bebês (talvez porque também passem o dia inteiro juntos e em contato).

Medos e sofrimento à parte, papai e mamãe chegaram a uma conclusão fatídica: fralda foi feita para fezes normal, não para bebê com piriri. A coisa melada e mal cheirosa vaza, escorre tudo pelas pernas e sob as costas da criança. Sim, é nojento assim e é o dia inteiro isso. Cada transbordada é um minibanho na pia. Por sorte, a Beatriz e a Helena são duas peças raras, estão levando tudo isso sem muita chateação e brincando normalmente.

Por orientação da pediatra das gêmeas, estamos hidratando as pirralhas com soro pediátrico a cada 15 minutos (na medida do possível e administrável), entramos com um remédio (bromoprida) para aliviar as náuseas e a consequente falta de apetite e agora começamos a dar um sachê por dia de floratil para reconstituir a flora intestinal. Desde sexta-feira também o cardápio aqui é canja, purê de batata, bolacha e biscoito. O leite, mantemos, mas em menor quantidade para não agravar ainda mais as evacuações.

É tudo muito chato, mas o que preocupa é a desidratação (essa sim, realmente um risco sério ao bebê). O que ninguém te conta, é que nessa fase, o bebê decide rejeitar água, sucos (que antes bebia de lamber o lábio) e até mesmo o soro docinho que papai comprou. Brincadeira, mamadeira, na colher, na seringa, tentamos de tudo para fazer a Beatriz e a Helena beberem o soro e o remédio. Mas não há meios, elas travam o queixinho e não há como abrir a boca das pirralhas. Para o bem delas, o jeito é botar o líquido na seringa e enfiar à força na boca das pequenas (que esperneiam e choram adoidado, mas no futuro vão entender o papai).

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A Beatriz pegou roséola (como escrevi no post passado), uma doença viral prima da rubéola. Sintomas: febrão alto, corpo mole, queda de apetite e depois no final um corpo todo pipocado de vermelho. Ufa…, que susto! Passamos por essa sem muitos solavancos (fora as duas três madrugadas em claro com o bebê de sono irritado). Mas quem tem gêmeos em casa não enfrenta briga fácil. Passada a fase da doença na Bia é hora de atenção total com o isolamento do vírus e o quase (im)possível contágio da irmã, a Helena.

A roséola é uma doença inofensiva, como dito aqui, mas que põe os pais de primeira viagem com os cabelos em pé. Ver o bebê com febre assusta e faz aquilo parecer caso de internação. Fora a irritação que a criança fica. Inalação para destrancar o nariz, diarreia, vermelhidão pelo corpo quente, vontade excessiva de colo. Realmente, o bebê chora e não é por menos… ficar doente é chato demais!!

Ainda com a Beatriz doente tentamos evitar que elas trocassem saliva (as gêmeas babam adoidado), redobramos atenção com cruzamento dos bicos de mama e das chupetas e tentamos evitar troca de brinquedos. Mas com oito meses, as pirralhas não têm parada e esse isolamento vira missão impossível (tomara que não).

A Bia já está quase 100%. O problema é que a Helena agora começou a ficar mais chatinha e hoje amanheceu com diarreia (um dos sinais da roséola). A quinta-feira será dia de monitoramento… e torcida. Fora roséola!!

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Ricardo Brandt

    Ricardo Brandt, 35 anos, é jornalista e tirou um sabático das redações de jornal em agosto de 2011, quando Beatriz e Helena nasceram, para cuidar das pequenas e trabalhar em casa. Junto com a Taís, que manteve o emprego fixo, vai contar como é criar dois bebês de uma vez e gerenciar a casa, enquanto mamãe vai para o trabalho

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