Quando decidi dar um tempo na carreira para acompanhar o crescimento do meu filho não sabia que ele seria menina. Duas, e de uma vez só! As gêmeas estão com 1 ano e 9 meses completos hoje.
Nunca passou pela minha cabeça servir de exemplo a ninguém. Não tenho objetivos altruístas com tanta frequência. Eu queria mesmo era participar da educação das crianças, trocar fraldas, fazer mamadeira, preparar a comida delas, levar para passear, ver os primeiros passos. E estar em casa, finalmente, tirar um descanso do ritmo frenético de São Paulo, que sempre tanto me atraiu, sair um pouco da redação, do trabalho cotidiano, das viagens sem dia marcado, nem para ir, muito menos para voltar, dos engarrafamentos, dos fechamentos sem hora para acabar. Foi tudo aos trancos e solavancos, mas acaba sempre dando certo.
A maior preocupação é que a gente não vai conseguir voltar para a vida normal, depois dessa fase John Lennon. Dar um tempo na carreira para cuidar dos filhos, tirar um sabático, dar um tempo para o corpo, parece algo muito distante e inviável. O maior fantasma é o emprego. Ah…, maldição de mundo capitalista!! Mas posso dizer que tudo estará no mesmo lugar que estava antes.
O que não volta é o tempo para você ver os pequenos crescer. E quem me disse isso e me empurrou, de certa forma, para essa (in)experiência de papai, as gêmeas e a mamãe foi o papai do Antônio, do João dos cachos de mel, da Laura e do Luís – um cabra com vasta experiência no tema, como se vê.
Fisicamente, a Helena é, das gêmeas, a mais parecida com o papai. Mas em comportamento, é a Beatriz que mais se aproxima do jeitão e das manias desse que escreve. Um dos costumes que ela tem – e adquiriu sozinha – é de virar a cabeça de lado, como se quisesse ver o mundo de outro ângulo. Parece que se cansa de ver as coisas do jeito que são. Aí, torce o pescoço, põe a vida assim de lado e tudo fica mais engraçado, a tomar pelo sorrisão, que abre no rosto.
Papai sempre foi assim… meio oblíquo, quase sempre olhando as coisas de um outro eixo, para não cansar a vista, tentando uma forma mais agradável de vestir a realidade. Tem gente que acha que um bebê de 1 ano e 8 meses ainda não formou personalidade. E isso, ninguém nos ensina como tratar, muito menos quando são dois ao mesmo tempo.
As gêmeas têm gênios fortes e distintos, desde quando ainda nem sabiam sentar. Nos passeios, a Beatriz sempre foi a observadora: gostava de contemplar o vai e vem na rua, o movimento barulhento dos carros, rindo da curiosidade dos que sempre chegam para ver as gêmeas, como quem se aproxima de uma atração de circo. A Helena sempre foi a desbravadora: ligada no 220V, ativa, pouco interessada no horizonte e louca para pular fora do carrinho na primeira oportunidade. E assim, as duas se complementam.
As gêmeas começaram uma nova fase da vida delas: a escola. Terça-feira da semana passada foi o primeiro dia de aula. Mas o início, vem de antes, desde o fim do ano passado, quando decidimos qual melhor escola para as pequenas. Compra material, uniforme, mochila, incrível como um ser tão pequeno pode precisar de tanta coisa. A lista é imensa. Com duas então, só pedindo desconto.
Uma semana antes do início das aulas, papai e mamãe tiveram a primeira reunião de pais (de muitas que sei que ainda virão). Descobrimos a professora e a rotina que as aguardava. Escola de bebê, não tem aula, mas muita brincadeira e, acima de tudo, choro! De todo tipo, a toda hora. Na primeira semana, eles chamam de adaptação. A Beatriz e a Helena choraram toda vez que percebiam que iam ser deixadas ali. Como são gêmeas, elas adotaram o revezamento: um dia chora uma, outro dia a outra. Sei que se pudessem escolher, pediriam para ficar em casa, com o papai.
Mas os bebês cada vez mais surpreendem os pais. Viraram umas moças quando viram as mochilas. De uniforme, a Helena coloca a ponta da língua para fora, ergue os pequenos ombros como se fosse enfrentar uma batalha, olha para o papai, como quem diz “deixa comigo, que eu consigo”, e pega a mala que tem quase o tamanho dela e sai puxando (parece gente). A Bia é a mais independente das duas. Ela chega na escola, pega a mochila em uma mão, na outra, segura a mão da mamãe ou do papai, e vai puxando tudo até o pátio.
Foi no natal de 2012 que brotou o primeiro dente das gêmeas. Com 1 anos e 4 meses, a Helena descobriu um ponto riscando na gengiva. Ela e a mamãe estavam na casa da vovó, quando acharam o primeiro inferior frontal da direita. Desde os três meses, todo mundo que encontrava com as gêmeas sentenciava aos pais, diante da babeira das pirralhas: ih… é o dentinho chegando. Foi uma verdadeira saga dos dentes.
E foi só a Helena tomar a iniciativa, na semana seguinte, despontou o primeiro dente da Beatriz. Todo mundo pensa (ou tende a acreditar) que gêmeos são iguais em tudo. Aqui em casa, a Beatriz e a Helena são completamente diferentes (em quase tudo), até nos dentes. Na Bia, nasceu primeiro o de cima, frontal esquerdo.
Sou um confesso adorador das banguelas das minhas filhas. Não tem sorriso mais justo e completo. Mas os primeiros dentes, ainda solitários nas gengivas lisas, deram um charme para o sorriso das pequenas. A baba continua a mesma…
Nem a Beatriz, nem a Helena, descobriram o morder. Mas aos poucos, colocam os novos instrumentos para funcionar. Na hora de comer. Quando pedem para escovar os dentes (mais interessadas no gosto da pasta). E no momento de fazer o que elas mais curtem: arte! Outro dia, mamãe descobriu o corrimão da escada todo riscado e a meliante (Helena) pendurada na barra de ferro, com a boca dando um trato na pintura tão perfeita e monótona. Depois da bronca, longe dos olhos dos bebês, sorri feliz por dentro.
Orelha de abano, dumbo, topo gigio, orelhão. São alguns dos apelidos que fatalmente terão aquelas crianças que nasceram com o aparelho auditivo aparente avantajado ou de curva acentuada. Tem gente que tenta de tudo quando o bebê nasce com orelha saltada. É fatal: é sair do hospital e a criança vai ter a pequena cabeça enrolada por uma faixa de pano.
Tem mamãe que inventa desculpa, diz que fica bonito. Com bebês, papai aprendeu a acreditar mais na ciência e menos nos conselhos dos avós e vizinhos. Esteja certo: o uso de adesivos, faixas e outros métodos caseiros não diminuem as orelhas de abano e não são recomendados por cirurgiões.
Das gêmeas, a Helena tem a orelha mais saltada. Mas não chega a ser uma orelha de dumbo. Foram os ralos cabelos aparecerem, que a pequena orelha voltou para sua discreta insignificância no desenho do rosto.
Mas mamãe é neura e super influenciada. Além de sofrer por antecedência pelos problemas que fatalmente virão, ela pena por aqueles que jamais se concretizarão. Desde antes da Beatriz e a da Helena saírem da UTI neonatal, sempre insisti para evitarmos o uso desnecessário da faixa na cabeça.
Temos faixa no armário das pequenas sim, e elas foram usadas uma ou outra vez, como ornamento para as mini e belas cabeças. Mas para quem realmente tem o problema em casa, existe um modo de resolver. É uma cirurgia plástica, chamada otoplastia, que pode ser feita depois dos seis anos, quando o crescimento das bitelas já não é tão significativo. Mas assegure-se que essa é uma vontade da criança, não um grilo criado pelos pais.
Ano novo, o papai promete escrever mais (principalmente para o blog da gêmeas), cuidar mais da saúde, organizar mais o dia, acordar mais cedo, estressar menos. Enfim…, velhas promessas de uma vida que é sempre a mesma, entre o dezembro-janeiro de cada ano.
Isso, até a Beatriz e a Helena reinarem aqui em casa. As gêmeas estão com 1 anos e 5 meses, andando, falando as primeiras palavras, com os dentes rasgados nas bocas, cada vez mais lindas e moças. Bebê não conhece calendário, nem ano, nem mês, muito menos dia. Tempo de festa não é só no aniversário, no natal ou ano novo. É o dia todo, o tempo inteiro.
As promessas também são grilos dos papais. A Bia e a Helena levam os dias sempre a mil, seja em 2012, seja em 2013. Por elas (e para elas), os dias são cada vez mais dia, o escrever tomou outro sentido, a velhice de uma vida mais saudável ganhou sentido e a paciência passou a ser o mantra para sobrevier.
Tem feito um calor de rachar mamona por esses dias, aqui em casa. Ontem, domingo, foi dia de aplacar os efeitos do sol escaldante debaixo d’água. Quando papai e mamãe decidiram que iriam ter filho (filhas, duas, de uma vez!), por democrática decisão unânime imposta, escolhemos ficar no interior, perto da família.
O apartamento em que morávamos era bem ventilado, mas pequeno e pouco fértil para o crescimento das gêmeas. A Beatriz e a Helena nasceram em 10 de agosto (hoje fazem 1 ano e quatro meses) e, pouco tempo depois, nos mudamos para a casa nova.
O papai já planejara deixar a correria de São Paulo para acompanhar o crescimento das pirralhas. No começo foi difícil desligar do 220V. Mas rápido e de maneira saudável o corpo e a mente vão se acostumando – basta não perder o contato com a vida, os amigos e o trabalho na capital.
Calor típico do interior, pede piscina em casa (e churrasqueira, é claro). As gêmeas agradecem. Desde os quatro meses, colocamos as pequenas na água, como nessa foto aí da Helena na boia com o papai. As duas fazem a festa: batem os braços, pernas e bebem água até pelos ouvidos. “Acua” – gritam as pirralhas, enquanto tentam puxar a roupa e o papai para dentro da piscina. Só não se esqueça que bebê tem pele frágil, então, capriche na proteção e escolha os melhores horários.
As gêmeas têm duas cadeiras verdes de plástico, duas mentes para lá de férteis e, definitivamente, nenhuma noção do perigo. Sabe quando alguém te pergunta: perdeu a noção do perigo? A Beatriz e a Helena não perderam, elas realmente nunca tiveram ideia do que é perigo. Mas as cabecinhas são cheias de ideias.
As pirralhas ganharam as duas cadeiras verdes da vovó Ira. Sentar é só uma das utilidades para quem não tem amarras nas ideias. As gêmeas usam as cadeiras verdes para empurrar boneca, como carrinho de compra, obstáculo e, agora, escada para as estripulias infantis de escaladoras.
Bebê não sabe o que é perigo, risco de cair, picada de abelha nem tem medo de choque. Os bichinhos testam tudo que encontram pela frente, ampliando seus limites e laceando os nossos. Com 1 ano e 4 meses, as gêmeas estão na fase alpinista. Escalam tudo: cadeira, sofá, carrinho, banqueta, perna do papai, colo da mamãe e as cadeiras verdes…
Tocam o pavor nos pais! A Beatriz e a Helena sobem nas cadeiras, meio desengonçadas, e de pé, desafiam o perigo e testam o papai, sorrindo marotas e felizes pela travessura. O chão da casa bem que podia ser de borracha, para aliviar as pancadas das quedas que cada vez mais vão preenchendo a casa de ufas, sustos, suspiros, choros e hematomas.
O tamanho dos bebês é inversamente proporcional à felicidade que eles podem trazer aos pais. As gêmeas nasceram pequenas, muito pequenas. A Beatriz veio primeiro. Media 40 centímetros e caberia em uma caixa de sapatos. A Helena veio depois (dois minutos depois), com 39,9 centímetros. Dois minibebês: amassados, lambuzados em gosma e sangue, berrando como cabritos, sem parar, ardido e cada vez mais alto, abrindo os minipulmões ainda imaturos para o mundo aqui fora. Hoje elas têm o tamanho exato do colo do papai.
Muita gente já disse isso: os filhos são o sentido da vida. Não tenha dúvida, é só uma frase de efeito. Até porque, muita gente prefere ser só, felizmente só. Um amigo outro dia disse que nas fotos das gêmeas comigo, minha cara era de bode, baixo astral. Achei graça… E o corrrigi, rapidamente. Bode não, acabado! Sim, olheiras profundas, curtidas nas noites não dormidas, dos dias passados em função dos bebês, pegando no tranco o ritmo da nova vida (quem tem gêmeos em casa, entende isso melhor).
Não gosto de frases prontas. Ser pai muda tudo, sim. Muda, principalmente, a forma como passamos a encarar a vida. Isso é fato (no meu caso, duplamente comprovado). Deixei de ser prioridade, e o marmanjo de 30 e tantos anos se descobriu aprendiz de uma nova vida. Agora comandada por duas pequenas pessoas, que poderiam, na vontade do paterna, ficar do tamanho de hoje, na medida exata do colo do papai… Isso sim, faz sentido para o papai, as gêmeas e a mamãe, que nasceram (todos) faz 1 ano e 4 meses daqui a pouco.
2013
2012