Ainda não assisti o programa da Fátima Bernardes, uma das coisas mais comentadas nos últimos dias na internet. Só alguns pedaços dele. Alias, como faço com quase todo programa que tento assistir desde que as gêmeas nasceram, há mais de dez meses. Com nenê em dose dupla em casa, não tem sossego para essas coisas (mesmo com gente para ajudar a olhar).
Só sei que num desses dias, sentei para assistir um bloco inteiro: o assunto era depilação masculina. Entrevistados (atores da própria emissora) eram questionados se tinham o hábito de depilar o peito e o que pensavam sobre o tema (aparentemente tabu). Enfim, não cheguei ao segundo bloco.
Eu já depilei o peito. Não por vontade própria. Mas fiz sem grilos.
As gêmeas tinham pouco mais de 15 dias, quando a médica da UTI neonatal do primeiro mês de vida, disse que elas tinham sido promovidas para o semi-intensivo. Com isso, mamãe poderia fazer pele-a-pele com a Beatriz e a Helena. Ia poder tirar os bebês das suas barrigas artificiais de fibra transparente para ficar com elas só de fraldas deitadas no peito pelado da gente. Uma de cada vez, é claro.
- Mas papai não pode? – foi o que quis saber.
- Claro que pode. Só tem uma coisa chata. Vai ter que depilar o peito – disse.
Sem pestanejar, passei numa farmácia, gilete nova, fui para casa depilar pela primeira vez os poucos pelos do peito nada malhado. É uma sensação estranha, no começo dá um pouco de vergonha de tirar a camisa na frente dos outros. Mas aí, a gente vai para o hospital, e colocam aquela fração de gente agarrada no seu peito, e tudo faz sentido. Ou melhor, todo resto deixa de fazer sentido. É um momento de redenção.
Pela primeira vez, a pele do corpo (não a da palma da mão) do papai sente a pele do minicorpo das gêmeas, que visivelmente ainda não estavam prontas para o mundo, mas foram postas ali chorando, loucas para irem para o colo. Depois de tanta aflição, da distância fria e diária de ver o bebê chorar dentro da incubadora e só poder colocar as palmas das mãos nele, é sem dúvida uma sensação que coloca em suspenso todo resto de coisas que existem em sua vida.
O que sei é que os pelos, depois, acabam crescendo com o passar do tempo, rápido, rápido, como as duas pirralhas.
Bebê fica mais chato quando está doente. Principalmente quando está febril e ranheta. O pepino que nasce disso é que ele também para de comer como comia antes. Aqui em casa, aconteceu com as gêmeas (as duas). Os livros e manuais de como cuidar de uma criança até avisam sobre essa mudança de hábito, explicam para nós pais de primeira viagem que é comum essa recusa alimentar e que o importante é não descuidar da hidratação. O que nenhum desses oráculos nos orienta, é como fazer para driblar a recusa (que deixa qualquer um frustrado) e manter os pirralhos alimentados.
Desde que a Beatriz e a Helena começaram com a alimentação complementar chegamos na seguinte rotina: quatro mamadas e quatro refeições/lanche. Nada muito rígido. Mas em geral funciona assim. Uma fruta amassada (às vezes com aveia ou iogurte) por volta das 10h, o almoço às 12h, outra fruta e miolo de pão ou bolacha às 15h e janta às 18h. Os leites fixos são os de antes de dormir (por volta das 21h) e o matinal (por volta das 8h). Os outros dois vão depender de como elas se comportam na madrugada. Se acordam uma vez só para mamar, damos um leite no meio da tarde, entre o almoço e o lanche (jogando a janta para um pouco mais tarde). Se acordam duas vezes (entre 1h e 2h e depois por volta das 5h), durante a tarde só tem lanche.
A Bia e a Helena não pararam nem com o leite nem com as papas salgadas (almoço e janta). Mas começaram a recusar as frutas, que elas sempre comeram bem, desde os quatro meses, para orgulho do papai que sempre foi chato com alimentação saudável para elas. As gêmeas comem de tudo: mamão e banana (as preferidas), maça, pera, manga, melancia, melão.
Passado o período mais chato das doenças, a Bia voltou com todo vapor. Já a Helena continuou a recusar frutas. Vira e mexe ela trava o queixinho, que parece pequeno, mas é suficientemente forte para vencer as colheradas. Sem manuais para isso, aqui em casa decidimos enganar a pequena. Mas é uma enganada boa. Sei que daqui para frente, muitas vezes vai ter que ser assim. Com um miolo de pão ou mesmo uma bolacha (que elas gostam bastante e comem sem fazer cara feia) fazemos ela abrir a boca e enfiamos (antes do pão) colherada a colherada o pratinho de mamão. Ela percebe que está sendo tapeada, ri para o papai, mas vai fazendo a vontade, deixando claro que sabe o que estamos fazendo, enrolando a gente só para não perder o momento.
PRATO DO DIA – Canja para o piriri
As gêmeas pegaram sapinho. Elas emendaram uma gripe, uma virose e o sapinho. Nas duas primeiras enfermidades foi a febre que nos avisou que algo ia errado. No sapinho, foram as boquinhas esbranquiçadas que deram o alerta. Nas três, uma coisa em comum foi a mudança de comportamento das duas.
Tanto a Beatriz como a Helena ficaram chatas para comer e para dormir. Durante as madrugadas, as duas acordam com mais frequência: é que com o nariz congestionado, fica mais difícil para respirar e os despertares noturnos são mais comuns. Mas isso a gente tira de letra (meio sonado, meio cansado). O problema mesmo foi a alimentação. Elas começaram a recusar as frutas e a água.
A Helena foi quem mais sofreu. Pegou sapinho na boca e na pererequinha. Fica tudo empipocado de vermelho. No começo achamos que era assadura e reforçamos na pomada de óxido de zinco. A Beatriz só teve na boca. Fica tudo esbranquiçado nas gengivas. Por orientação médica, passamos a fazer limpezas três vezes ao dia, com uma gaze enrolada no dedo e umedecida em soro.Tem que passar por dentro da boca, esfregando sem machucar nas gengivas para tirar a gosma branca. Na hora, fica tudo vermelho. Aí pingamos um pouco de nistatina. Elas não gostaram nem um pouco de toda essa operação. Já na virilha da Helena, usamos também a nistatina em pomada. Foi uma semana de chateação, mas elas tiraram mais essa de letra.
As gêmeas não têm nada contra corintianos e santistas (nem a favor). A Beatriz e a Helena são palmeirense e são-paulina (assim mesmo, as duas coisas, as duas). Coisa de filhos gêmeos com pais que torcem para times diferentes.
Elas gostam mesmo é de bola. Para brincar, subir, babar, segurar no colo. Já de futebol, não sei dizer se são fãs. Pode ser que um dia umas delas nos surpreenda e vire uma fanática pelas pelejas (coisa que nem o papai nem a mamãe são).
Mas uma coisa eu sei. Nenhum dos dois bebês aqui de casa gosta de um hábito nada amistoso de corintianos, santistas, palmeirenses e são-paulinos: soltar rojão para comemorar o gol e o resultado das partidas. Principalmente quando estão dormindo. Principalmente a Helena.
Papai, já calejado para aturar as diferenças, não liga muito para as comemorações barulhentas (mesmo que passe da meia noite). A Beatriz e a Helena dormem cedo, em geral, antes das dez da noite. Desde que elas nasceram, papai também. E elas não são nada amistosas quando ouvem o estampido dos rojões, que parecem explodir no quintal, debaixo da janela da gente.
Na primeira chorada, pensei que podia ser ressentimento de palmeirense/são-paulina. Mas além de fazer festa com barulho, torcedor solta rojão até fora de hora. E foi assim a noite inteira ontem, rojão por todo canto da cidade, choro e sono interrompido das gêmeas (tirando o sossego delas e da casa e a paz do casal).
Um dia ainda vou entregar para a Beatriz e para a Helena uma lista das inúmeras vantagens de se ter filhas gêmeas. É para não terem dúvidas que há muito mais prós do que contras. Uma delas, por exemplo, tem a cara do pai, escreveu para mim a mãe do Antônio. É a Helena. De fato, hoje, com 10 meses, todo mundo diz que ela tem os traços do rosto do papai.
Ninguém confessa, mas dá um baita orgulho se reconhecer no bebê. Talvez seja uma vaidade inconfessa para proteger o parceiro do fato de que a cria veio ao pai. Mas quem tem gêmeos, tem a chance de ter um filho com a cara do pai e outro com a cara da mãe. Aqui foi assim: a Beatriz tem os traços do rosto da mãe. Assim, ninguém fica enciumado e pode contar vantagem para todo mundo que passa e diz: ah, essa é a cara do pai. Êpa…, e essa é a cara da mãe!
Mas no jeito, a coisa ficou invertida. Já disse em outros posts que as gêmeas têm personalidades muito distintas. Assim como o papai e a mamãe. Enquanto a Helena, que parece fisicamente (dizem) comigo, tem o pique da mãe, a Beatriz, que parece com ela, puxou ao papai no comportamento mais largado. É mais tranquilona (quase preguiçosa) e gosta mais de dormir. A Helena super ativa, acorda cedo demais, antes do galo, e quer fazer tudo de uma vez.
Com gêmeas, poder reconhecer numa das crias um pedaço de você, já é algo que deixa o ego assim inflado. Ver nas duas, então, alguns de seus sinais, faz coisas sem sentido da vida ganharem sentido.
Sempre gostei de crianças, mas nunca dei muita bola quando via um pai babando na sua cria. Para falar a verdade, para quem não tinha filho, sempre achei meio exagerado o comportamento. Só agora entendo como são prazerosas as descobertas do crescimento do bebê. Aqui em casa então, com gêmeas, cada dia tem algo novo para registrar e contar depois para mamãe.
A Beatriz, há algum tempo, introduziu no seu vocabulário inventado de bebê o abôô (que quer dizer acabou). Ela ainda não entende perfeitamente o que significa o acabou, não tenho dúvidas. É que ela usa para tudo e à toda hora. Acompanhado ainda do gesticular com as mãos.
Sei que um pouco, ela sabe que o abôô dela tem a ver com algo que não existe mais. Na hora da brincadeira, quando escondemos um objeto, ela vira com a mãozinha para gente e diz: abôô.
TRILHA DA SEMANA – Elis 1972
Eu tenho mais de mil perguntas sem respostas. A trilha desta semana é esse Elis Regina de 1972 com alguns dos principais clássicos interpretados por ela. As gêmeas adoram música e algumas mais ainda para ninar. Esse disco é um deles. Papai também curte. Eu quero encontrar as pessoas / de mãos e olhos abertos / sem me preocupar com dinheiro e posição
Aos poucos os bebês vão ganhando habilidades e começando a entender e responder aos estímulos e brincadeiras dos pais. Cada fase das gêmeas foi marcada por descobertas sensitivas, motoras e emocionais, que servem como etiquetas que datam o tempo do crescimento delas. É como se a cronologia da vida fosse sendo identificada por períodos de comportamentos e atitudes das pirralhas. A fase do choro, a fase dos gritinhos, a fase da babeira, a fase das primeiras sentadas, a eterna fase do acordar a noite inteira, enfim, fases que acima de tudo passam muito rápido…
Agora, aos 10 meses, a Beatriz e a Helena estão na fase de coordenar os movimentos dos braços e mãos para tirar e colocar coisas na cabeça, de brincar de cute-achoooo…, de engatinhar, bater palmas e dizer abôô!!
A Beatriz e a Helena meio que descobriram na mesma fase que têm cabeça. Porque é sempre bom que se diga, cada uma tem um tempo e um ritmo para as coisas. Mas nisso, elas estão juntas. É fralda, lenço, tudo vai para a cabeça para ouvir o papai perguntar: cadê a Helena? Cute!! Achooo… E elas abrem aquele sorriso, caem na gargalhada mesmo.
Gorrinho, boné e chapéu também são outra curtição. É só colocar algo na cabeça de uma que a outra racha o bico de rir (sem ver que na pequena cabeça dela também já deve ter algo parecido, para que a outra também se divirta).
O tempo passa bem rápido (isso não é só um chavão oco), mas vai ensinando (assim mesmo, no gerúndio) que a relação de dependência de colo reduz cada vez mais. E cresce, na mesma proporção, a relação de aprendizado e referência. Os olhinhos agora perguntam, agradecem, fazem birra e dizem muito mais do que antes. A fala, ainda na língua inventada pelas gêmeas, não faz diferença… basta uma fitada olhos nos olhos, que papai decifra o que a Bia e a Helena querem dizer.
O Papa-léguas que faz o coite de gato e sapato no desenho era um dos meus preferidos nas sessões matinais de sofá quando faltava à aula. A geococcyx californianus, nome científico (se é que podemos chamar isso de nome) do papa-léguas, tem como principal característica o fato de atingir alta velocidade (para um ser de penas) correndo. Sua destreza, de onde vem também o nome popular, realçada nos desenhos da Warner, é uma das habilidades da Helena, a mais nova das gêmeas.
Não sei se ela atinge os 30 km/h da ave que tem tamanho de um galo. Mas meu bicho é um cisco no vento. Você vira o olho por um instante, e a pirralha desembesta num carreirão de gatinho, que é um barato. Dá um baita orgulho!! (depois do cansaço)
Mas numa dessas, bebê não mede as coisas pelos medos criados por gente grande e torta. Na cabecinha pura da Helena, do alto de seus 10 meses de vida, altura não é nada, só um modo diferente de ver as coisas.
Domingo retrasado, papai, as gêmeas e a mamãe se esparramaram pela cama logo cedo, como é habitual nesses dias ao acordar, para trocar massagens e fazer folia. Ter dois bebês, uma engatinhando e outra começando, não é fácil. Mas como são pequenas e a Beatriz ainda se movimenta devagar, dá para ficar sozinho com as duas na cama, um braço em cada uma, quando um dá uma saída.
Nesse dia, um dos braços soltou por menos de um instante da perna da Helena, para tirar da boca da Beatriz aquilo que não devia estar ali, e voltar a mão correndo para segurar minha papa-léguas. Mas a mão ficou no vácuo do corpinho que sumiu, caiu da camona do papai, enquanto mamãe fora no cômodo ao lado. Num salto, pulei para pegar a pirralha, que abriu um berreiro.
Bebê não tem noção do perigo. Mas papai devia ter. Seguindo as orientações do que se tem que fazer nessas horas, apalpamos bem a cabeça da Helena, as costas, monitoramos suas 48 horas seguintes. Deixamos que ela dormisse meia hora depois, e durante o sono ela reagiu bem quando tentamos acorda-la. Outra coisa a observar é a presença de sangue nos olhos, nos ouvidos e nariz. E nada. Foi só um susto… ah, medo também, e culpa, bastante culpa, um sentimento de “como é que fui fazer isso?”. Mas depois, a gente aprende que essas coisas acontecem (mas não deveriam).
As gêmeas completaram 10 meses neste domingo. Na rua, quando alguém que não conhecemos nos vê, a pergunta mais recorrente é: elas são iguais? Não, elas são diferentes (como se uma olhada mais atenta não bastasse como resposta). A impressão que tenho é que no imaginário popular, gêmeos são sempre duas pessoas iguais.
Tem também sempre a dúvida se eles sentem dor ao mesmo tempo, choram na mesma hora, se têm personalidades idênticas. Aqui em casa, a Beatriz e a Helena, desde o início, deixaram claro que não: nem fisicamente, nem em comportamento. Pode ser até algo comum, essa similaridade entre irmãos gêmeos. Mas as minhas filhas são completamente diferentes.
Isso fica bem claro no desenvolvimento das habilidades das pirralhas. A Helena, a mais nova, mais miudinha, ativa e espevitada desde os três meses, já engatinhava com desenvoltura pela casa e subia nas coisas se escorando e vareteando, aos sete meses. A Beatriz, a mais velha, só agora começa a querer engatinhar. Não que uma seja mais habilidosa que a outra. Mas é que elas têm ritmos distintos, como é natural e saudável (para elas e para os pais).
Não queremos duas filhas que sejam cópias uma da outra. Queremos duas filhas, com vontades, gostos e cheiros próprios. A Helena, quando começou a engatinhar, primeiro firmou-se de quatro para uma semana depois já fazer os primeiros movimentos. A Bia, começou a aprender a engatinhar minhocando. É que ela não sustenta as pernas e os braços por muito tempo, quando fica na posição de gatinho. Por isso, larga o corpo no chão e vai se empurrando, deslizando, igual uma minhoca. É só questão de paciência, logo ela vai firmar os membros na posição correta e sair se movimentando de quatro pela casa.
Fica a lição que deve servir para muitos pais de primeira viagem como nós: esqueça aquela tia, ou conhecida que vive perguntando se ela ainda não faz aquilo, ou se ela já come assim e assado. Cada criança deve ter seu próprio tempo e desenvolvimento.
PRATO DO DIA – Risoto de abóbora e músculo
Hoje esfriou para valer e faz três dias que chove sem parar. O dia cinza dá preguiça, vontade de ver o tempo passar esticado na cama, entre uma cochilada e outra. Sair do quarto, só para estourar uma pipoca e voltar para a horizontal, no sofá, para uma maratona daquele seriado que você tanto gosta e não via faz tempo. Mas bebê não se liga nessas coisas. Com as gêmeas, faça chuva ou faça sol, calor ou frio, é dia como todo outro dia.
Isso quer dizer: acordar entre seis e sete da matina, com aquele pique, cair no chão (mesmo que gelado) para gatinhar pela casa, mamar, papar, cochilar, tudo do mesmo jeito. Só o banho de sol da manhã e o passeio da tarde que ficam prejudicados, mas com boa vontade, elas nem ligam de passar o dia dentro de casa brincando. Com a Beatriz e a Helena, não tem tempo ruim (ou melhor, tempo bom para fazer nada). O ritmo é sempre o mesmo.
E o papai e a mamãe têm que deixar de lado a preguiça, a chuva, o frio, a pipoca e aquele seriado e entrar no pique das pirralhas. Com a mãe de folga, dá até um respiro para o papai, mas mesmo assim, o plano de passar o dia de pijama não passa de uma saudosa lembrança.
Como o frio faz o piso gelar, o importante é manter meias e agasalho nos bebês. Mas sem exageros. Os mais velhos têm sempre o costume de achar que bebê sente mais frio. Pura ilusão. A temperatura do corpo das crianças é a mesma de um adulto. Como são bastante ativos (agora aos 9 meses), acabam passando calor quando exageramos no agasalho. Cuidado assim, só quando elas eram muito pequenas, como a Helena nessa foto aí de cima, com dois meses de vida, numa noite fria para valer.
2013
2012