ir para o conteúdo
 • 

O papai, as gêmeas e a mamãe

No universo particular e fantástico que as gêmeas criam e recriam todos os dias, ora elas são irmãs, ora o papai e a mamãe, ora outro nenê qualquer ou um personagem das tantas histórias que habitam nossa casa. A Beatriz e a Helena têm 2 anos e meio, muito pouco juízo e uma imaginação sem fim.

No pequeno universo de García Márquez que as pirralhas desenham para rechear as horas de mais alegria, tem lobo mau, sereia, gatinho, lagartixa, cinderela, porquinha pepa, a velhinha e o barrigudão, tudo ao mesmo tempo.

Na nossa mini Macondo, o vilarejo surreal de Cem Anos de Solidão, a Bia e a Helena se travestem dos seres encantados das histórias em quadrinhos, imitam os pais trocando suas fraldas, os amigos, num mundo colorido que só elas entendem.

Criança que vem ao mundo com uma cópia de si mesma, cresce trocando estímulos. Uma conta história para a outra, cantam juntas, brincam e brigam também (e muito). Afinal a vida é assim mesmo, até dentro de casa. E o Buendía aqui, que está mais para os Aurelianos, ensina desde cedo para as pequenas que virar os personagens e colorir um pouco a realidade ajuda a quebrar a monotonia e a linha reta nesses dias de tantas descobertas.

Comente!

  • A + A -

As gêmeas ouvem o papai cantar para elas desde a barriga da mamãe. Antes disso, eu só cantava para mim, no recanto da minha solidão, distração da alma, para extravasar uma alegria qualquer e também para lamentar a dor. Quase sempre escondido, castigando apenas os próprios ouvidos.

Com a Beatriz e a Helena vieram o acalanto, as canções de ninar, a voz que transcende a sonoridade e o próprio bem-estar. Música, de todo tipo e a qualquer momento, faz bem para o bebê. Pela boca de quem ama, acalma, distrai, estimula os movimentos, a fala, reforça vínculos entre o papai e as pequenas.

Cantarolar para os bebês no colo é quase instintivo. Depois, vira diversão e carinho. Aí a criança cresce, começa a falar e traz para casa seu repertório de pequena. A primeira canção das gêmeas veio da escola.

Em casa, a Beatriz e a Helena, ora brincando, ora no banho, ou passeando, disparavam a cantarolar: “a aêia, a aêia”. Demorou mais de mês até que, na primeira reunião de pais do colégio, veio o dicionário do dialeto próprio das pirralhas.

 “A baleia, a baleia, é amiga da sereia, olha o que ela faz, olha o que ela faz, tchibum… chuáá, tchibum, chuáá”. A música é um chiclete, pequeno (mas grudento), que invadiu a casa pela voz doce das meninas, encravou na mente e nunca mais saiu. Eu mesmo, fã número um da dupla Bilhazinha e Lelé, às vezes me coloco inconscientemente a cantarolar: “a baleia”…

Não pense também que ela vai embora assim fácil. Hoje, com 2 anos e meio e a língua mais afiada, as duas têm o melô da baleia e a sereia na playlist de favoritas delas.

Comente!

  • A + A -

Eram 20h30 da segunda-feira, primeiro dia da volta às aulas, quando as gêmeas capotaram deliciosamente no sofá depois do tetê – nem morfeu acompanhou.

A Beatriz e a Helena voltaram para a escola. Foi a primeira férias de verão das aulas com direito a praia, montanha e muita folia em casa. Tem gente que diz que a adaptação do filho nessa fase foi tranquila. Digo que com a Beatriz e a Helena também foi.

As duas chegam à escola e cada dia uma empaca no colo, em esquema de revezamento, grudunha no pescoço, chora, implora que “num quélo” e testa no limite o coração elástico e mole do papai e da mamãe.

Foi assim o primeiro ano inteiro. Com as  duas foi barra convencê-las que escola é um lugar bacana, cheio de amigos da mesma estatura, brincadeiras e diversão. E quando isso funciona com uma, tem a outra para discordar. 

Mas as pequenas tomaram coragem, no tempo delas, aceitaram o chão e o entrar puxando a própria mochila (nunca sem a mão da mamãe ou do papai). Até hoje fazem questão de serem levadas até o pátio.

Ainda fazem charme, se revezam nos protestos, mas depois que o papai e a mamãe somem das vistas, tudo fica legal. Mas aí acaba o ano, as gêmeas são promovidas ao maternal 2, troca professora e tudo começa novamente. É quando a gente descobre que não fica mais fácil com o passar dos anos, só muda de fase.

A escola foi uma transformação para as pirralhas. Sob mãos e olhos alheios, as pequenas se transformam em gente, formam a turma delas, criam trejeitos próprios, provam as regras sociais, sem os empurrões e correções de trajeto do papai e da mamãe.

Ninguém te fala, mas dá um baita medo essa fase de ter que entregar seu pedaço de ser, que até agora viveu sob seus olhos, para começar a aprender a andar sozinho na selva. Mas na escola, a vida das gêmeas vira um foguete desgovernado, aprendem coisa boa, coisa ruim e ensinam para gente que o cordão que as prendia em casa é finito.

Comente!

  • A + A -

Você está no restaurante e na mesa ao lado uma criança dispara a berrar descontrolada, chora e os pais, em vão, tentam acalmá-la. Se isso já te aconteceu e na hora formulou críticas silenciosas à incapacidade dos dois, da mesa ali ao lado, lembre-se que um dia você pode estar na mesma situação.

Não tenha dúvidas de que os papais da mesa ali ao lado muitas vezes estarão, como você poderá estar quando chegar sua vez, mais preocupados com os olhares alheios de julgamento, do que tentando entender como contornar e conviver com a birra.

No dicionário do papai, birra, até então, era cerveja, breja, gelada… estupidamente, por favor! Mas na criação, ninguém tinha me contado, a regra quase nunca é clara. Alias, é você quem a faz diante de cada situação e de cada gênio. Aqui são duas, em pleno 2 anos de vida. É um baita trem desgovernado. Quase sempre me pego dando um solavanco nas ideias quando respostas instintivas saem diante dessas adversidades.

A Beatriz e a Helena fazem birra. Toda criança faz birra, chora, esperneia, tem chilique, cada uma na sua medida, do seu jeito. É a resposta diante da contrariedade. Coloque uma pitada de sono nisso tudo e está feito o drama. Quando ponho o fígado para descansar ao reagir, lembro que aos 2 anos, nem elas nem nenhuma pirralha sabem enfrentar a frustração do não. Nem o papai, que já tá quase passando do ponto, aprendeu até hoje…

As gêmeas sempre testam os limites para saber o que pode e o que não pode – naturalmente puxando as respostas para o que não pode. Mas também fazem o papai e a mamãe babarem nas inesperadas e deslavadas demonstrações de paixão, se pegando aos beijos e abraços, escondidas entre as mesas do restaurante.

Explicar que nem tudo que quer pode e depois, imediatamente, desviar a atenção para algo que elas gostam, quase sempre dá certo com as birras das gêmeas. E quando o caldo desanda mesmo, nada funciona, não tenha dúvida, é colo e ninar a solução, porque o mal é sono.

Comente!

  • A + A -

Tem feito um calor de rachar mamona. Quando decidi largar a vida corrida em São Paulo para trabalhar em casa e acompanhar o crescimento das gêmeas, a casa ainda não existia. Era apenas parte dos planos. Nos sonhos, ela vinha com churrasqueira, quintal com jardim, muita folia e a piscina.

As gêmeas nasceram e a piscina também. Virou um dos cantos preferidos da Beatriz e da Helena, principalmente nessas tardes de sol escaldante. Natação é uma das melhores coisas para o bebê. Com duas em casa, a missão de ensinar a nadar entra no modo “difficult” do jogo. Mas nem por isso deixamos de incentivar as gêmeas.

As duas ainda não dominam a arte, mas com as boias nos braços, vão e vêm na água como pequenos peixes falantes. E como falam…


 

Com os termômetros a 40 graus, os fins de tarde viraram a hora do mergulho. Na piscina das gêmeas, o ralo (ou skimmer) virou boca de jacaré, a água faz bolinha, o papai é tubarão e os fins de tarde mais felizes e frescos.

 Tem gente que tem pavor de piscina em casa. Com 2 anos e meio, a Beatriz e a Helena andam para todo lado o dia inteiro, em busca de diversão (que quase sempre vem acompanhada de coisa errada). Por isso, a piscina ganhou capa, o quintal portas de vidro e o mais importante, nunca estão sozinhas.

Criança não pode ficar sem supervisão, nunca – nascem com um gene teleguiado para fazer cagada. Bebê sem alguém por perto é risco certo de acidente. E a culpa não é só da piscina, é da banheira, da escada, da tomada e, principalmente, de quem acha que uma fração de ser dessa já pode discernir entre o que é certo e o que é errado.

Comente!

  • A + A -

Criança que é criança chama urubu de meu louro. As gêmeas transformaram o jardim de pedras do papai em parque de diversões. A Beatriz e a Helena são terríveis, já disse isso. Em geral,
quem  puxa a baderna é a Lelê, que nasceu por último, mas toma a frente em quase tudo nessa pouca vida que elas têm. De imediato, a Bia, como um xeroquinho, segue a farra.

Um dia, após uma tarde limpando o terreno, acertando o piso, passa a manta, coloca pedriscos, o jardim ornamental de pedras da entrada da casa fica pronto. Nas mãos e mentes das gêmeas ele ganha nova finalidade.

Uma delas é a guerra de pedras. Foi só o silêncio visitar a casa (que agora vive de pernas para o ar) que o papai logo sacou que tinha algo acontecendo de errado. No quarto nada, na sala ninguém, cozinha vazia… ouço então uma gargalhada vindo da porta da sala.

A Beatriz e a Helena estão sentadas, uma de frente com a outra, no jardim recém-montado pelo papai. Enchem as mãos de pedriscos, assim como quem pega pipoca no balde, e jogam carinhosamente na cabeça da outra. Desde então, cada dia o jardim dorme e acorda de um jeito. As pedras vão e vêm, como a areia nas dunas, embaladas não pelo vento mas pelas mentes sem preguiça das meninas, com seus 2 anos e meio de pura energia.

Comente!

  • A + A -

Na imensidão pequena da cama do papai e da mamãe, essa noite teve bebê no chão, mordida no pé, chute na cabeça, choro e teste de paciência com ramela. São as aventuras de uma cama com a Beatriz, a Helena, a mamãe e o papai.

A Helena tem um sono deveras agitado. Quando o papai e a mamãe estão nos cantos que sobraram no colchão (que um dia foi um king size do casal), usamos a carcaça de barreira para conter as estripulias noturnas e involuntárias das gêmeas.

Um travesseiro gordo faz a vez de barragem, quando o papai ou a mamãe dão uma saída rápida. Passava das duas da matina quando corri para o banheiro empurrado pela bexiga inchada e os olhos cheios de ramela. Como de costume, o travesseiro assumiu meu posto.

A Helena ignorou a muralha de espuma e beijou o chão, abrindo um berreiro. Passado o susto, chegou a Beatriz, que num surto noturno cascou uma mordida no pé da irmã. E assim, foi-se mais uma madrugada dormida aos pedaços na nossa tumultuada e feliz cama comunitária. 

Comente!

  • A + A -

Os primeiros dias depois que tiramos as chupetas das gêmeas no natal foram os mais complicados. É um terreno insólito. Tem a chateação de contornar com paciência e calma (quase intangíveis nesses momentos) os ataques histéricos de choro nas síndromes imaginárias de abstinência das pirralhas. Tem a tentação de querer fazer aquilo que a criança pede aos prantos… – um teste para o coração mole do papai.

E têm os fatores extracampo: como chupetas nas bocas alheias, fotos do álbum com as danadas na boca das gêmeas e a dupla mensagem – porque essa é uma batalha para os pais, não para todos que cercam a família.

Com a Beatriz e a Helena, as borrachas ficaram rapidamente associadas às pequenas bocas. O que era para ser exceção do primeiro mês sofrido de prematuras veio para casa como um artifício indesejado para emergências e virou regra para tudo.

Convivi com as pepês esses 2 anos, não sem perder a sensação de derrota sempre que as gêmeas choravam aos berros por elas – talvez ciúme de quem se sente diminuto perto de um pedaço mal cortado de borracha.

Mas o fim das chupetas foi decisão que afastava qualquer vai-não-vai – mesmo frente ao descrédito alheio. Nessas horas, a dupla mensagem é um mostrengo desgovernado que invade a casa. Mesmo sem maldade, tem sempre quem coloque um porém no que a gente decide.

Semana passada completou um mês de Bia e a Helena sem chupetas. O leão deitou mais cedo do que eu imaginava. Sei que elas sentem falta, mas pararam de pedir as pepês. E ensinaram para o papai que, nessa coisa de criar filhos, mesmo que não tenhamos os músculos de um gladiador, paciência e persistência podem fazer um vitorioso nas pequenas arenas do universo infantil.  

Comente!

  • A + A -

Há uma série de fórmulas mágicas nos manuais e listas de dicas de como tirar a chupeta do bebê. Passados os 2 anos das gêmeas, mamãe e o papai terminaram 2013 com uma certeza: a hora terrível chegou.

Num cenário ideal, o bebê deveria largar sozinho a chupeta, que um dia (vá lá) teve sua serventia. A sucção é um reflexo natural da criança. Com a borracha na boca ela libera endorfina, que acalma. Mas a vida está cheia demais de calmantes e, certamente, há mais contras do que prós, nessa história. Vilã da amamentação, formadora de dentes tortos, origem de problemas respiratórios e mesmo gatilho para infecções de ouvido.

Por tantos motivos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) orienta que não se use chupetas. O papai só pode afirmar que essa é uma batalha como as dos tempos do coliseu, em que nós, bastardos pais, entramos na arena para derrotar a fera sob os olhos e o descrédito geral da multidão. É matar o leão ou ser morto por ele. 

Foi nas costas do papai noel que jogamos a conta. Parece estelionato. Como pode um pai engar um filho tão descaradamente? Mas não é. Dois meses antes do natal, contamos para a Beatriz e a Helena que o velho barbudo traria um presente dos grandes. Em troca, levaria as pepês. Afinal, mocinhas não chupam chupetas (e as gêmeas adoram ser tratadas como gente grande). A Bia foi sempre de cara a mais reticente.

Na noite de natal, papai virou o velho barbudo e barrigudo. A Helena encarou o canalha e deu-lhe a chupeta. A Bia, antevendo problemas, evitou o contato visual, mas acabou assaltada, chorou, esperneou e nunca mais viu a pepê.

Comente!

  • A + A -

A Beatriz não fala, mas depois do natal de 2013 vai achar por um bom tempo papai noel um cara bem sacana. O velho batuta tomou-lhe um dos maiores prazeres, a pepê. De certo, nem os vários presentes que o barrigudo trouxe tirarão essa ideia de sua pequena cabeça.

Sempre fui contra dar chupeta para as gêmeas, nos planos cegos de gestação, debruçado sobre a barriga gorda da mamãe. Até que veio o nascimento prematuro, o susto que assalta a felicidade plena da paternidade e a internação por um infindável mês na UTI neonatal, onde as pequenas lascas de gente foram ganhar mais corpo.

Certo dia, entro na UTI e encontro aquele objeto estranho dentro da barriga artificial de acrílico das meninas. Por uns segundos tentei me engar, acreditando sem acreditar que alguma das mães postiças tinha esquecido aquela borracha de chupar ali, assim… por engano. Foi quando aprendi que até a chupeta tem lá suas indicações. Tão demonizada, ela era rosa e perto da cabecinha da Bia e seus tubos de sobrevivência parecia gigantesca, como uma chupeta de palhaço.

Bebês privados das mães e sob forte tensão podem receber a maldita, que serve para acalmar. As meninas cresceram, a chupeta virou pepê, que não saiu mais de perto delas e foi eleita inimigo número um do papai. Até que demos um prazo: o natal de 2013.

Foram dois meses de negociação – quase sempre sem consenso por parte das pequenas – e sem dúvida um dos passos mais complicados, até agora, dessa nova fase das gêmeas.

Comente!

  • A + A -
  • Quem Faz

    Quem Faz

    Ricardo Brandt

    Ricardo Brandt, 35 anos, é jornalista e tirou um sabático das redações de jornal em agosto de 2011, quando Beatriz e Helena nasceram, para cuidar das pequenas e trabalhar em casa. Junto com a Taís, que manteve o emprego fixo, vai contar como é criar dois bebês de uma vez e gerenciar a casa, enquanto mamãe vai para o trabalho

Arquivos

Seções

Blogs do Estadão

Você já leu 5 textos neste mês

Continue Lendo

Cadastre-se agora ou faça seu login

É rápido e grátis

Faça o login se você já é cadastro ou assinante

Ou faça o login com o gmail

Login com Google

Sou assinante - Acesso

Para assinar, utilize o seu login e senha de assinante

Já sou cadastrado

Para acessar, utilize o seu login e senha

Utilize os mesmos login e senha já cadastrados anteriormente no Estadão

Quero criar meu login

Acesso fácil e rápido

Se você é assinante do Jornal impresso, preencha os dados abaixo e cadastre-se para criar seu login e senha

Esqueci minha senha

Acesso fácil e rápido

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Cadastre-se já e tenha acesso total ao conteúdo do site do Estadão. Seus dados serão guardados com total segurança e sigilo

Cadastro realizado

Obrigado, você optou por aproveitar todo o nosso conteúdo

Em instantes, você receberá uma mensagem no e-mail. Clique no link fornecido e crie sua senha

Importante!

Caso você não receba o e-mail, verifique se o filtro anti-spam do seu e-mail esta ativado

Quero me cadastrar

Acesso fácil e rápido

Estamos atualizando nosso cadastro, por favor confirme os dados abaixo