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O papai, as gêmeas e a mamãe

A mamãe sempre comandou o armário das gêmeas com bom gosto, com algumas poucas tentativas do papai de introduzir umas camisetas de banda de rock e caveira. A Beatriz e a Helena sempre acataram a escolha alheia, sem resistência. As duas são pequenas mulheres, adoram um vestidinho novo, uma blusa desenhada e correm para o espelho encabuladas e sorridentes quando alguém diz: “que roupa mais linda”.

Mas as pirralhas mandam na casa. Ou pelo menos tentam. A Bia, de uns tempos para cá, decidiu escolher se quer ou não quer a roupa separada para ela. Abre um berreiro, chora para valer e segura a blusa no corpo: “nom, nom”. Papai não cede para não virar costume. Mas se depender dela, com 1 ano e 10 meses, a pirralha começa a escolher o próprio figurino infantil.

As duas também decidiram que gaveta não é lugar para a roupa da mamãe. É só a Helena sumir da vista da gente na sala, que o silêncio denuncia seu paradeiro. No quarto, com o armário e a gaveta abertos, desmontando a pilha toda organizada que a mamãe fez com as roupas passadas e cuidadosamente dobradas. As roupas delas, as da mamãe e tudo que puder virar bagunça vai tudo para o chão. A bronca é imediata, mas mesmo assim, as duas decidiram que esvaziar gaveta é brincadeira predileta de bebê.

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Ninguém te ensina quando é pai de primeira viagem que essa história de fralda noturna que mantém o bebê seco por toda noite só vale mesmo para o verão. Durante o inverno, criança faz mais xixi e, dependendo do ritmo das pequenas, não há fralda noturna que dê conta de uma madrugada inteira retendo urina.

Com a Beatriz e a Helena descobrimos isso sozinhos, perto delas completarem 1 ano. Como o corpo sua menos no inverno, o líquido que as pequenas têm para botar para fora vai direto para bexiga. E dá-lhe torneirinha.

Muito diferente do comercial de TV, que faz parecer tudo perfeito, com a fralda retendo o líquido, invariavelmente azul, que eles jogam para mostrar o poder de absorção, na vida real, sobe tudo pela barriga, vaza pelas pernas. As gêmeas nos ensinaram, que no tempo frio, dependendo do dia, colchão de bebê adora mesmo é tomar um sol no quintal.

Na primeira vez, deu um susto danado colocar a mão na Bia, embrulhada no cobertor, e perceber que ela estava inteira molhada. Com o tempo, a gente se habitua a acordar na madrugada para ver se tudo vai bem. Depois de trocar as pirralhas, que nem acordam para ver o que está acontecendo, nada como terminar a noite na cama dos pais. E o colchão vai amanhecer tomando um bronze no quintal.

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Foi em uma quinta-feira de abril. A primeira reunião dos pais das gêmeas. Desde janeiro, elas vão na escola. O tema da reunião era mordidas. A mamãe estava enrolada e fui sozinho. Com 1 ano e 9 meses, a Beatriz e a Helena têm dentes e aprenderam a usá-los, não só para comer, mas também para se defender.

Professora, coordenadora e psicóloga falaram sobre a fase da vida da Beatriz, da Helena e, pelo que parece, de toda intrépida turma do maternal 1. O recado foi geral: para que todos pudessem encarar com naturalidade as abocanhadas e trabalhar da melhor forma o assunto para não virar (um mal) hábito.

Com duas pirralhas em casa, elas mesmo se mordem, elas mesmo fazem as pazes e tudo termina em beijinho, para minutos depois voltar para um desentendimento qualquer, por conta de uma boneca sem perna que a outra quer tirar da mão da irmã, mesmo tendo uma igualzinha no colo. “Não!.. não!”, sacodem as pequenas cabeças a Bia e a Helena, que de comum, têm apenas o gênio inflexível.

Em casa, as duas se mordem com mais frequência do que mordem ou levam mordidas, na escola, dos colegas de fralda. E isso faz com que você aprenda, na marra, que não se deve nutrir sentimentos de incompreensão com aquele pirralho que mete os dentes no seu filho.

O que aprendemos sozinho foi: para cada mordida, exigimos um beijo e um abraço. Quando a dentada é reincidente, imediatamente o papai coloca a boca nervosa sentada no canto do sofá, de castigo. E elas entendem e usam as mandíbulas apenas nos momentos de briga. Mas quando decidem agir, o estrago é certo. Uma tatuagem de dentes cravada na pele branca, macia e cheirosa do bebê.

 

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Quando decidi dar um tempo na carreira para acompanhar o crescimento do meu filho não sabia que ele seria menina. Duas, e de uma vez só! As gêmeas estão com 1 ano e 9 meses completos hoje.

Nunca passou pela minha cabeça servir de exemplo a ninguém. Não tenho objetivos altruístas com tanta frequência. Eu queria mesmo era participar da educação das crianças, trocar fraldas, fazer mamadeira, preparar a comida delas, levar para passear, ver os primeiros passos. E estar em casa, finalmente, tirar um descanso do ritmo frenético de São Paulo, que sempre tanto me atraiu, sair um pouco da redação, do trabalho cotidiano, das viagens sem dia marcado, nem para ir, muito menos para voltar, dos engarrafamentos, dos fechamentos sem hora para acabar. Foi tudo aos trancos e solavancos, mas acaba sempre dando certo.

A maior preocupação é que a gente não vai conseguir voltar para a vida normal, depois dessa fase John Lennon. Dar um tempo na carreira para cuidar dos filhos, tirar um sabático, dar um tempo para o corpo, parece algo muito distante e inviável. O maior fantasma é o emprego. Ah…, maldição de mundo capitalista!! Mas posso dizer que tudo estará no mesmo lugar que estava antes.

O que não volta é o tempo para você ver os pequenos crescer. E quem me disse isso e me empurrou, de certa forma, para essa (in)experiência de papai, as gêmeas e a mamãe foi o papai do Antônio, do João dos cachos de mel, da Laura e do Luís – um cabra com vasta experiência no tema, como se vê.

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Fisicamente, a Helena é, das gêmeas, a mais parecida com o papai. Mas em comportamento, é a Beatriz que mais se aproxima do jeitão e das manias desse que escreve. Um dos costumes que ela tem – e adquiriu sozinha – é de virar a cabeça de lado, como se quisesse ver o mundo de outro ângulo. Parece que se cansa de ver as coisas do jeito que são. Aí, torce o pescoço, põe a vida assim de lado e tudo fica mais engraçado, a tomar pelo sorrisão, que abre no rosto.

Papai sempre foi assim… meio oblíquo, quase sempre olhando as coisas de um outro eixo, para não cansar a vista, tentando uma forma mais agradável de vestir a realidade. Tem gente que acha que um bebê de 1 ano e 8 meses ainda não formou personalidade. E isso, ninguém nos ensina como tratar, muito menos quando são dois ao mesmo tempo.

As gêmeas têm gênios fortes e distintos, desde quando ainda nem sabiam sentar. Nos passeios, a Beatriz sempre foi a observadora: gostava de contemplar o vai e vem na rua, o movimento barulhento dos carros, rindo da curiosidade dos que sempre chegam para ver as gêmeas, como quem se aproxima de uma atração de circo. A Helena sempre foi a desbravadora: ligada no 220V, ativa, pouco interessada no horizonte e louca para pular fora do carrinho na primeira oportunidade. E assim, as duas se complementam.

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Quem nunca escorregou no obelisco? Não correu atrás de pomba no coreto? Nadou no chafariz da praça? Comeu a pipoca do Seu Zé? Ah… a pipoca do Seu Zé… Quem nunca comeu aquela pipoca com queijo derretido, feito num ponto impraticável de plágio, um verdadeiro patrimônio da praça da Matriz?

Pode parecer estranho para quem não conhece. Mas aqui onde a gente vive, as coisas são assim, gostamos de: sorvete de queijo; de gato de botas; passeio aos domingos; matinê nos carnavais; do bigodón do Leminski; da música sem fio; do sossêgo pós churrasquinho da galera; e de peixe grande. Tudo bem pertinho de casa.

Em todo lugar, há um canto assim da memória de infância. Com suas recordações pessoais, seus cheiros, suas cores, sabores e personagens. Gavetas que nunca devem ser trancadas. Quem não as nutre, não pode dizer que viveu uma infância. Eu decidi um dia que iria voltar a viver nelas junto com as minhas filhas. 

Tem obelisco que não dá mesmo para escorregar, como o de Buenos Aires, aquele da Praça da República, na Avenida 9 de Julho com a Avenida Corrientes – que pelo formato, inclusive, deve machucar as partes.

Mas o obelisco da praça Matriz nasceu para ser escorregado, isso o papai, as gêmeas e a mamãe garantem. E quem o conhece, sabe do que estamos falando. Era assim, desde que eu tinha o tamanho das gêmeas. Minha memória não resgata nitidamente, mas devo ter feito o mesmo que as duas pirralhas fizeram na foto acima, quando tinha 1 ano e meio. A Beatriz e a Helena são viciadas. É um misto de prazer e medo, que um dia vão chamar de adrenalina e felicidade.

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Quem nasce gêmeos, cai na terra com a outra tampa da laranja pronta de fábrica. Chega nesse mundo tão desgrenhado sem ter a árdua tarefa de encontrar a outra metade. Nunca vão deixar de perguntar se as gêmeas são iguais em tudo. Não são! Elas são diferentes. Distinta e complementares. Inseparáveis desde a barriga da mamãe.

A Beatriz e a Helena estão com 1 ano e meio e em uma fase que começaram a brigar pelos brinquedos, pelos objetos mais absurdos, como um pedaço de papel, um molho de chaves. Descobriram o morder, o fazer birra, a chorar por manha, a desafiar as ordens do papai, a pular no chão quando querem dizer não, a espernear em protesto.

Papai não dá moleza nem deixa o coração mole falar mais alto. Reajo com rispidez para o bem delas, para ensinar limites e impor uma boa e amável convivência entre as pequenas. Mas confesso que é muito mais difícil que passar noites e noites em claro por causa do choro de quem só sabe fazer chorar.

Agora, o desafio é psicológico. A cada mordida ou simples tentativa, exijo um beijo, que sai fluído e inocente. A cada gesto brusco, indico um abraço. Ao invés do tapa, cobro um afago. Só é uma pena que papai não consiga mais passar 24 horas do dia junto com as pirralhas.

A sorte é que, no fundo no fundo, a Beatriz e a Helena sabem quem são e, quase sempre, involuntariamente, se envolvem em abraços e amassos, do jeito que viviam nos sete meses e pouco dentro do ventre quente e dilatado da mamãe, como nessa foto, deitadas no sofá da sala, no intervalo entre uma estripulia e outra.

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As gêmeas ainda falam a própria língua. Com 1 ano e quase seis meses, aumentaram o vocabulário, mas ainda usam o abc do seu mundo colorido. O papa e a mãmã tentam passar suas palavras, números e cores, mas babam com a pequena língua da Beatriz tentando achar o ponto certo dentro da boca e com Helena contando uu, dô, tess.
 
Tudo mudou em casa depois que as gêmeas nasceram. Comunicar, ensinam os bebês, é muito mais que palavras, convenções e sentidos. Papai e as gêmeas se comunicam desde os primeiros dias de vida, quando o calor das mãos e olhar falavam muito mais que todas as palavras já forjadas pelo homem.
 
 
As gêmeas ainda choram (a língua universal dos bebês), como todo ser ainda diminuto. Mas o choro já não é mais a única fala. As pirralhas pescam tudo que botamos para fora da boca e vão, ao seu modo, criando o vocabulário das gêmeas. Bó é bola, ácua é água, pepê é chupeta, dodó é vovó, auau é cachorro, aãnã é banana. Nesse vídeo acima, a Bia fala para o papa o que ela está comendo.

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As gêmeas começaram uma nova fase da vida delas: a escola. Terça-feira da semana passada foi o primeiro dia de aula. Mas o início, vem de antes, desde o fim do ano passado, quando decidimos qual melhor escola para as pequenas. Compra material, uniforme, mochila, incrível como um ser tão pequeno pode precisar de tanta coisa. A lista é imensa. Com duas então, só pedindo desconto.

Uma semana antes do início das aulas, papai e mamãe tiveram a primeira reunião de pais (de muitas que sei que ainda virão). Descobrimos a professora e a rotina que as aguardava. Escola de bebê, não tem aula, mas muita brincadeira e, acima de tudo, choro! De todo tipo, a toda hora. Na primeira semana, eles chamam de adaptação. A Beatriz e a Helena choraram toda vez que percebiam que iam ser deixadas ali. Como são gêmeas, elas adotaram  o revezamento: um dia chora uma, outro dia a outra. Sei que se pudessem escolher, pediriam para ficar em casa, com o papai.

Mas os bebês cada vez mais surpreendem os pais. Viraram umas moças quando viram as mochilas. De uniforme, a Helena coloca a ponta da língua para fora, ergue os pequenos ombros como se fosse enfrentar uma batalha, olha para o papai, como quem diz “deixa comigo, que eu consigo”, e pega a mala que tem quase o tamanho dela e sai puxando (parece gente). A Bia é a mais independente das duas. Ela chega na escola, pega a mochila em uma mão, na outra, segura a mão da mamãe ou do papai, e vai puxando tudo até o pátio.

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Foi no natal de 2012 que brotou o primeiro dente das gêmeas. Com 1 anos e 4 meses, a Helena descobriu um ponto riscando na gengiva. Ela e a mamãe estavam na casa da vovó, quando acharam o primeiro inferior frontal da direita. Desde os três meses, todo mundo que encontrava com as gêmeas sentenciava aos pais, diante da babeira das pirralhas: ih… é o dentinho chegando. Foi uma verdadeira saga dos dentes.

E foi só a Helena tomar a iniciativa, na semana seguinte, despontou o primeiro dente da Beatriz. Todo mundo pensa (ou tende a acreditar) que gêmeos são iguais em tudo. Aqui em casa, a Beatriz e a Helena são completamente diferentes (em quase tudo), até nos dentes. Na Bia, nasceu primeiro o de cima, frontal esquerdo.

Sou um confesso adorador das banguelas das minhas filhas. Não tem sorriso mais justo e completo. Mas os primeiros dentes, ainda solitários nas gengivas lisas, deram um charme para o sorriso das pequenas. A baba continua a mesma…

Nem a Beatriz, nem a Helena, descobriram o morder. Mas aos poucos, colocam os novos instrumentos para funcionar. Na hora de comer. Quando pedem para escovar os dentes (mais interessadas no gosto da pasta). E no momento de fazer o que elas mais curtem: arte! Outro dia, mamãe descobriu o corrimão da escada todo riscado e a meliante (Helena) pendurada na barra de ferro, com a boca dando um trato na pintura tão perfeita e monótona. Depois da bronca, longe dos olhos dos bebês, sorri feliz por dentro.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Ricardo Brandt

    Ricardo Brandt, 35 anos, é jornalista e tirou um sabático das redações de jornal em agosto de 2011, quando Beatriz e Helena nasceram, para cuidar das pequenas e trabalhar em casa. Junto com a Taís, que manteve o emprego fixo, vai contar como é criar dois bebês de uma vez e gerenciar a casa, enquanto mamãe vai para o trabalho

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