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Panorama visto de longe *

Luiz Zanin

03 setembro 2014 | 05:25

Acompanho de longe a cena futebolística brasileira pois estou na Itália, a trabalho. Aqui as coisas do mundo da bola parecem meio paradas, mesmo porque eles estão em início de temporada. Ontem foi a primeira rodada e, pelo que vi nos programas esportivos, nada de muito excitante houve a registrar. Vitórias do Milan, da Juve, da Roma e o empate da Inter. Consulto meu interlocutor para assuntos boleiros italianos, Fabio, gerente do hotel onde fico, no Lido de Veneza, e que, na minha chegada, já foi cobrando explicações sobre os 7 a 1 na Copa. Como devolvi, perguntando como a Itália tinha conseguido ir tão mal no Brasil, voltamos logo ao assunto dos clubes. Fabio me diz que não espera grande coisa deste campeonato do “calcio”.

Não está só. Antes da abertura mesmo do campeonato, vi uma manchete nas páginas esportivas que me pareceu muito familiar. O Corriere della Sera, tradicional cotidiano milanês, mas de circulação nacional, deu uma matéria dizendo que o equilíbrio no campeonato seria uma compensação para a pobreza. Sem grande capacidade de investimento, os clubes italianos contrataram pouco. Não têm grandes novidades a apresentar. Daí os críticos considerarem que não existem favoritos ao título. A não ser, talvez, a Juve, que ganhou os três últimos e se prepara para papar o quarto em seguida. O que seria uma vergonha para os rivais.

Enfim, neste ponto, e guardadas as devidas proporções, eles se aproximaram de nós. Vítimas ainda da crise financeira que atinge toda a Europa (parece que, aos poucos, estão saindo), os clubes fecharam o cofrinho. Daí que, pela impossibilidade de grandes investimentos, tiveram de se contentar com a contratação de jogadores de pouco nome, ou apelar para as categorias de base. Igual ao Brasil. Aqui pelo menos se reconhece que o equilíbrio no campeonato não significa que vários clubes estejam fortes mas, bem ao contrário, sinaliza nivelamento por baixo.

No Brasil, pelo que vejo, o Cruzeiro continua com seu ritmo implacável. Os times paulistas decepcionam, em especial o Palmeiras, que corre o risco de celebrar de maneira muito triste do seu centenário. E o Santos perdeu mais uma, desta vez para o Botafogo, confirmando seu ritmo binário – uma no cravo, outra na ferradura. Ganha um jogo, perde o seguinte, quando se pensa que vai entrar em crise se recupera e assim ocupa o posto que merece, intermediário na tabela. Provavelmente, deve se concentrar na Copa do Brasil, na qual tem tudo para passar para a próxima fase, depois da boa vitória sobre o Grêmio em Porto Alegre. **

Esse jogo, aliás, foi o mais debatido por causa das cenas de racismo de parte da torcida do Grêmio. Os verdadeiros torcedores do Grêmio, entre os quais tenho vários amigos, deveriam se prevenir contra esse tipo de gesto que pode respingar sobre o próprio clube. Convém lembrar que o hino do tricolor tem letra de um compositor negro genial, Lupicínio Rodrigues, cujo centenário está sendo comemorado este ano. Se estivesse ainda entre nós, como se sentiria Lupi ao ver as imagens daquela loirinha chamando o goleiro Aranha de “macaco”? É certo que ficaria envergonhado.

Por outro lado, “o milagre da internet” (os locutores antigos falavam do milagre do rádio) me possibilitou ver o bonito desagravo que a torcida do Botafogo fez a Aranha. É por aí. Os clubes são adversários, não inimigos. Um ato de racismo atinge a todos e a cada um de nós. Não podemos deixar barato, como sugerem alguns apologistas do politicamente incorreto e pensadores do jaez de Vanderlei Luxemburgo. Racismo é crime, além de ser ato de indigência mental e brutalidade por parte de quem o pratica. Infelizmente não é privilégio deste ou daquele povo. Estou num país que produziu gênios como Caravaggio, Michelangelo e Leonardo da Vinci. Volta e meia alguns imbecis de tendências neofascistas discriminam atletas negros vindos de outros países. A boçalidade é democrática e não conhece limites geográficos ou sociais. Nem por isso deve ser tolerada.

* Minha coluna, publicada na seção de Esportes do Estadão

** Esta coluna já estava impressa quando eu soube da demissão do Oswaldo de Oliveira. Não acho que o problema do Santos fosse o técnico. Como sempre, os dirigentes procuram a saída mais óbvia. Nunca olham para si mesmos.