Militar da reserva e conservador, o presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina, defendeu durante a Cúpula das Américas, na Colômbia, proposta para descriminar as drogas para diminuir a violência na região. Ele discutiu a questão, respaldada também pelos presidentes da Colômbia, Juan Manuel Santos, e da Costa Rica, Laura Chinchilla, em reunião bilateral com o americano Barack Obama – que se disse contra, mas aberto a novas ideias para solucionar a questão das drogas. Especialistas em política antidrogas relativizam o impacto da descriminação de entorpecentes sobre a violência na América Central.
De acordo com analistas consultados pelo Estado, apesar de parte da violência na região ser motivada pela ação de cartéis mexicanos, o principal responsável pela deterioração do cenário é a ineficácia dos governos locais na questão da segurança.
A parte continental da América Central é peça central no tráfico internacional de drogas. A cocaína produzida nos Andes destinada aos EUA – maior mercado consumidor – passa pelo istmo. Dominantes do negócio desde a desestruturação dos cartéis colombianos, no final dos anos 90, grupos mexicanos como os Zetas e o cartel de Sinaloa expandiram seus negócios para os países vizinhos.
Essa movimentação piorou o complicado cenário de violência urbana na contígua América Central. Honduras e El Salvador têm as mais altas taxas de homicídio do mundo, segundo as Nações Unidas. A situação se agrava com o enfraquecimento dos Estados, incapazes de enfrentar os grupos violentos de maneira eficiente.
“Há um componente relacionado ao tráfico, sim, mas grande parte das mortes é consequência da atuação de gangues”, disse Antonio Mazitelli, do escritório antidrogas da ONU para o México e América Central. “O cartel de Sinaloa controla parte das rotas da América Central, mas o faz sem violência. Os Zetas agem de uma maneira mais territorial.”
Vanda Felbab-Brown, analista do Brookings Institution, de Washington, concorda com a avaliação de Mazitelli. “Apenas parte da alta taxa de homicídios na região é consequência do tráfico. A violência decorre mais do legado das guerras civis, das gangues juvenis ou da fraqueza e corrupção da polícia.”
Apoio externo. A analista concorda ainda com alguns críticos de Molina, que o acusam de usar o discurso pró-descriminação para barganhar o retorno da ajuda militar americana ao país, suspensa desde a guerra civil.
Especialistas em política antidroga dizem que um Estado optar pela fim das penas não é um caminho simples. Segundo Mazzitelli, há acordos internacionais amplamente reconhecidos que têm de ser levados em conta antes de se discutir a descriminação das drogas.
“A posição da ONU é muito clara. Os acordos sobre drogas, sobretudo o de 1961, têm ampla adesão”, disse por telefone. “Apesar disso, a ONU reconhece que a questão das drogas é de saúde pública, que os usuários precisam ter acesso a tratamento e os direitos humanos têm de ser respeitados.”
A boliviana Celia Flores Gómez, de 60 anos, conhecida como “narcoabuela” (Vovó do Tráfico, em português), foi presa ontem em Ingeniero Budge, na Grande Buenos Aires. Segundo o jornal colombiano El Deber, foram aprendidos com ela 143 tijolos de cocaína e 10 mil pesos argentinos, além de dólares. Ela trazia a droga da Bolívia clandestinamente para vendê-la na Argentina.
Foto: Tomas Bravo/Reuters
Um dos problemas mais graves da América Latina é o tráfico de drogas. A violência dos cartéis, que nos anos 1980 traumatizou a sociedade colombiana, hoje é o principal problema de segurança pública do México. Desde 2006, mais de 35 mil pessoas morreram por causa da violência relacionada a esses grupos. Na sexta-feira passada, na periferia de Monterrey, Nuevo Leon, Estado controlado pelo cartel Los Zetas, capangas executaram quatro taxistas, no que a polícia acredita ser um acerto de contas com informantes do cartel do Golfo, uma facção rival. Um homem que descia do ponto de ônibus morreu com uma bala perdida.
A metros dali, a professora Martha Rivera dava aulas em uma escola primária. Ao ouvir os tiros, pediu a seus alunos, que têm entre oito e nove anos se deitassem no chão. Para acalmá-los, começou a cantar uma música de ninar:
- “Si las gotas de lluvia fueran de chocolate me encantaría estar ahí…”. ( “Se as gotas de chuva fossem de chocolate, eu gostaria de estar aí” – A melodia, no Brasil, é a da canção infantil: ” A dona aranha subiu pela parede… veio a chuva forte e a derrubou”)
Martha começou então a brincar com as crianças, dizendo que se ficassem deitadas e abrissem a boca, poderiam experimentar as gotas de chuva de chocolate. A cena foi gravada pela professora com seu celular e postada no YouTube por um amigo dela.
Na segunda-feira, ela foi condecorada por autoridades estaduais. Ao jornal mexicano El Universal, Martha disse que seus alunos lhe deram a coragem necessária para manter o sangue frio na hora do ataque. “Claro que tive medo, mas tenho muito orgulho dos meus alunos. Eles me deram o valor, a coragem e o amor para que eu atuasse assim”, afirmou.
Ainda de acordo com a professora, ela gravou o vídeo porque seus superiores sempre exigem evidências para aplicar protocolos de segurança na escola. ” Não busquei ser famosa, nem reconhecimento. Apenas reagi para mostrar nossa realidade”, explicou.
Apesar de involuntária, sua ação teve reconhecimento e repercussão. A professora ganhou três mil seguidores no Twitter desde o episódio. Até a cantora colombiana Shakira lhe mandou os parabéns pela atitude.
Assista ao vídeo: (Em espanhol)
Veja mapa da BBC com as áreas de influência de cada cartel no México:
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