Acabou o mistério. O presidente eleito do Peru, Ollanta Humala, anunciou nesta quinta-feira os primeiros nomes de seu gabinete de ministros. A equipe econômica é formada por nomes ligados ao atual modelo econômico – que levou o país a um crescimento vigoroso, ainda que sem melhorar a distribuição de renda. O ministro da Economia será Luis Castilla, que era o secretário-executivo da pasta durante o governo de Alan Garcia. Juan Vilarde continuará à frente do Banco Central e o presidente do Conselho de Ministros será o empresário Salomón Lerner Ghitis.
O sociólogo Rafael Roncagliolo, ligado à esquerda, será o chanceler de Humala. Ontem, o ex-presidente Alejandro Toledo anunciou que seu partido, o Peru Posible, participará do gabinete, mas não divulgou quais ministérios a legenda assumirá.
Os nomes da equipe econômica eram bastante esperados pelo mercado financeiro e investidores, que temiam uma guinada “bolivariana” do novo presidente peruano.
Desde a campanha, Humala vem tentando se distanciar do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e vincular sua imagem a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assim como o petista, divulgou uma carta na qual se comprometia com os fundamentos macroeconômicos no país e prometera levar o crescimento aos mais pobres.
Dessa vez, mais uma vez “imitou” Lula, ao manter um nome ligado ao mercado no BC, como o brasileiro fizera em 2002, com Henrique Meirelles. No comando da economia, Humala, no entanto, foi mais além. Se o ex-presidente optara por Antonio Palocci, um petista que manteve as políticas da gestão anterior, Humala simplesmente promoveu o número dois do gabinete de Garcia. Analogamente, seria como se Lula nomeasse o braço direito de Pedro Malan. Impensável, não?
Keiko cumprimenta Humala após reconhecer derrota. Paolo Aguilar/Efe
O nacionalista Ollanta Humala será o novo presidente do Peru. A vitória de domingo sobre a candidata conservadora, Keiko Fujimori, foi apertada. A vantagem dele foi de apenas 1,5 ponto porcentual. São 440 mil votos. Em uma eleição bastante polarizada, na qual candidatos do centro do espectro político acabaram ficando de fora do segundo turno, o vencedor foi obrigado a moderar seu discurso para superar uma adversária forte. O grande desafio do presidente eleito, agora, é fazer as concessões necessárias a seus novos aliados para conseguir governar, sem perder de vista seu programa de distribuição de renda a longo prazo.
A moderação do discurso e o forte componente antifujimorista de parte da sociedade peruana contribuíram para a vitória de Humala. Ainda no primeiro turno, ele se distanciou da “esquerda bolivariana”, personificada no presidente venezuelano, Hugo Chávez. Com a participação de marqueteiros brasileiros ligados ao PT, o nacionalista buscou emular o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em sua versão “Lulinha paz e amor”, da campanha de 2002. O candidato também contou no segundo turno com “fiadores” de seu discurso moderado: o ex-presidente Alejandro Toledo e o Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa. Ele ainda trocou o discurso nacionalista pelo democrático na reta final da campanha, para diferenciar-se do passado de violações de Alberto Fujimori, pai de sua rival.
Além disso, o fato de enfrentar uma adversária tão polarizadora quanto Keiko favoreceu Humala. Devido à rejeição de Fujimori, na prisão por crimes contra os direitos humanos e corrupção, os indecisos acabaram optando pelo esquerdista. Em uma comparação com o universo daqui do Brasil, é um cenário similar ao da eleição de Marta Suplicy, para a prefeitura de SP, em 2000. Na ocasião, o candidato do centro, o então vice-governador Geraldo Alckmin (PSDB), acabou ficando de fora do segundo turno. Contra Paulo Maluf no segundo turno, que tinha uma rejeição forte, o PT conseguiu o apoio dos tucanos e venceu a eleição.
O cientista político peruano Eduardo Toche, do Centro de Estudos de Promoção do Desenvolvimento (Desco), de Lima, conversou com o Nuestra America e dissecou os fatores que levaram à vitória de Humala. Segundo ele, a impossibilidade da campanha de Keiko de se distanciar da figura de Alberto Fujimori e e as concessões do nacionalista rumo ao centro foram fundamentais para sua vitória. O grande desafio do novo presidente, diz Toche, é reverter o clima extremamente polarizado da campanha e forjar uma conciliação social e política do Peru. Leia a seguir trechos da entrevista:
Qual deve ser o papel de Humala durante a transição?
Humala foi obrigado hoje a falar em conciliação. Ele precisa chegar à posse em 28 de julho com um ambiente menos polarizado. A pergunta é até onde ele pode negociar. As pressões são muito fortes e já há exigências para que o gabinete ministerial seja independente. Ele precisará de equilíbrio para reforçar os laços com os novos aliados e ao mesmo tempo evitar que as expectativas de seus eleitores não sejam frustradas. A negociação não deve ser apenas política, mas também, social. Ele tem de se sentar com empresarios para convencê-los de sua proposta de crescimento com redução da desigualdade.
O que levou Keiko à derrota?
A impossibilidade de ela se dissociar da figura do pai. Foi uma associação automática. Seus assessores nunca puderam se distanciar dele, porque a figura de Fujimori era necessária na campanha. Por exemplo, Keiko sempre lembrava da vitória do governo do pai contra o terrorismo e dizia que ela seria implacável contra o crime. Além disso, a maioria dos assessores dela eram ligados a Fujimori. Todos sofreram denúncias de abusos de direitos humanos ou corrupção, ou, no mínimo, eram figuras que saíram desprestigiadas do governo em 2000. O terceiro fator foi uma série de erros de cálculo políticos. Um porta-voz da candidata foi criticado por dizer que no governo de Alberto Fujimori havia se matado menos gente que nos anos 1980. Seu candidato a vice que disse que não constava que Vlademiro Montesinos havia violado direitos humanos. Esses erros alimentaram os laços com o governo do pai.
A reação negativa dos mercados à vitória de Humala já era esperada?
Sim. Ao longo da campanha, sempre que Humala subia nas pesquisas, a bolsa caía e o dólar disparava. É a forma dos grupos que controlam a economia mostrarem a Humala o poder que têm, para que negociem nos termos deles. Isso é esperado e deve continuar acontecendo. Por isso insisto que Humala deve optar por uma conciliação social. Ele tem de persuadir os empresários a investirem no desenvolvimento do país.
O que mostra o mapa eleitoral da vitória de Humala?
O mapa eleitoral foi muito semelhante a 2006. A diferença foi a votação que Humala obteve em Lima. Ainda que ele tenha perdido, foi maior que a de 2006. Os lugares onde o crescimento dos últimos anos representou ganhos para a população, comoa capital,votaram em Keiko. Lugares onde há enormes dificuldades para distribuir renda - Amazônia e o Sul andino – optaram por Humala.
O partido de Humala tem 47 dos 130 assentos no Parlamento. Será um Congresso favorável?
Os assessores de Humala estão negociando uma maioria, principalmente com o partido de Toledo (Peru Posible, com 21 cadeiras). Não se sabe se conseguirão isso, mas podem criar um bloco governista que lhes permitirá uma certa tranquilidade.
Humala fará mudanças profundas em relação a Alan Garcia e Toledo?
Não, não serão mudanças profundas. Eles ( o partido de Humala) estão muito conscientes da força limitada que têm. Humala quer aumentar o investimento público em programas sociais e em serviços públicos. Para isso, precisa de uma reforma tributária, principalmente no setor mineiro.
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Empate técnico: E agora, Keiko?
A uma semana das eleições presidenciais peruanas, uma pesquisa divulgada neste domingo pelo instituto Ipsos Apoyo indica que a vantagem da candidata conservadora Keiko Fujimori para o nacionalista Ollanta Humala é de um ponto porcentual. A candidata da chapa Fuerza 2011 tem 50,5% dos votos válidos, contra 49,5% do esquerdista. Nesta noite, às 22h45 (horário de Brasília), será realizado o último debate antes da votação de domingo, que deve ser crucial para a conquista dos 8% de indecisos.
Nas pesquisas do final de semana passado, Keiko mantinha uma vantagem razoavelmente confortável sobre Humala, que em alguns institutos chegava a sete pontos porcentuais. No levantamento do Ipsos Apoyo, no entanto, essa dianteira era de 2,8 pontos, e a queda se deu dentro da margem de erro.
A pesquisa mostra que a oscilação negativa de Keiko não se transformou em votos para a Humala, mas em aumento no número de nulos e brancos. O jornal El Comercio, o maior do Peru, e favorável à candidatura conservadora, cita a polêmica declaração do ex-porta-voz de Keiko Jorge Trelles sobre o governo Alberto Fujimori como uma das causas do resultado. “Matamos menos que nos anos 80″, disse o assessor, sobre o combate a guerrilha maoísta Sendero Luminoso. A frase pegou muito mal para os fujimoristas, que tentam a todo modo esconder o passado de violações de direitos humanos e de corrupção do pai da candidata.
De acordo com analistas, o debate será crucial para conquistar os 8% de eleitores que continuam sem saber em quem votar. Ainda segundo a pesquisa, os entrevistados veem Keiko como mais preparada para o debate. Humala, que no primeiro turno leu suas respostas, terá de se superar.
Por outro lado, o número de eleitores que com certeza votaria em Keiko caiu três pontos, e o que de jeito nenhum o faria subiu dois. Humala viu sua rejeição cair três pontos e sua porcentagem de votos consolidados oscilar positivamente um.
Um outro levantamento encomendado pelo jornal La Republica, que apoia o nacionalista, ao instituto Imasen diz que o Humala tem 50,8% da preferência popular contra 49,2% da fujimorista.
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Daqui a pouco menos de duas semanas, Ollanta Humala e Keiko Fujimori se enfrentam no segundo turno das eleições presidenciais peruanas. Segundo as últimas pesquisas, a candidata conservadora mantém uma pequena vantagem sobre o nacionalista. A campanha está bastante polarizada. Jornalistas foram ameaçados, demitidos e até agredidos. No primeiro turno, o nacionalista venceu com uma votação maior no sul do país. Keiko saiu-se bem no norte e em Lima, que concentra dois terços do eleitorado.
De acordo com analistas, ambos têm índices rejeição muito altos, e a disputa deve ser voto a voto. Keiko é filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 e 2000 e cumpre 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção. Humala, derrotado em 2006, moderou seu discurso nacionalista e afastou-se do presidente venezuelano, Hugo Chávez, mas é visto com desconfiança por muitos no país. Parte do setor produtivo teme que ele possa colocar em risco o alto crescimento econômico dos últimos anos. Diante disso, a Nuestra America traz um raio-X dessa eleição, que promete ser uma das mais disputadas dos últimos anos na América Latina:
Keiko Sofía Fujimori Higuchi:
Keiko participa de corpo a corpo em Chiclayo
Karel Navarro/AP – 19/05/2011
Perfil: Graduada em Administração de Empresas pela Universidade de Boston, nos EUA, tem 35 anos ( o aniversário dela é na quarta, dia 25). Tornou-se primeira-dama do Peru em 1994, após o divórcio de seus pais. Após a renúncia de Fujimori ao terceiro mandato, no final do ano 2000, voltou-se para trabalhos de caridade. Em 2006, elegeu-se deputada federal pela capital, Lima.
Partido/Coalizão: Fuerza 2011: Criado em janeiro de 2008, reúne egressos do período do fujimorismo, na época dividido em três facções. Tem uma plataforma liberal, que une a diminuição de gastos com o combate a pobreza, e a insegurança pública.
Votação no primeiro turno:23,6%
Última pesquisa: 51,4% (Ipsos Apoyo) e 53,7% (CPI)
Principais apoios: Empresariado (setor mineiro), cúpula da Igreja, parte da classe média-alta limenha e os ex-candidatos Pedro Pablo Kuczynski, terceiro colocado no primeiro turno, e Luís Castañeda, o quinto.
Geografia do voto: Ganhou em sete Estados no primeiro turno e lidera com folga as pesquisas na capital.
Propostas: Fortalecimento do investimento no país, na infraestrutura, agricultura familiar e turismo. Melhora na segurança pública com aumento da inclusão social e mecanismos de coerção. Redução da pobreza com seguro saúde universal e investimento em educação.
Ollanta Moises Humala Tasso:
Humala participa de passeio ciclístico em Lima
Foto: Paolo Aguilar/Efe
Perfil: Militar reformado, tem 48 anos. É mestre em Ciências Políticas pela Pontifícia Universidade Católica do Peru. Entrou para o Exército em 1982. Em 1991, combateu guerrilheiros do grupo de inspiração maoísta Sendero Luminoso. Durante a crise que antecedeu a renúncia de Fujimori, liderou uma sublevação militar frustrada contra ele. Foi adido-militar do Peru na França e na Coreia do Sul. Em 2006, perdeu a eleição no segundo turno para o presidente Alan Garcia.
Partido/Coalizão: Gana Peru/Partido Nacionalista Peruano: Criado após o levante de Locumba, liderado por Humala e seu irmão em 2000, diz almejar um “nacionalismo integrador”, com um modelo de desenvolvimento que atenda ao Estado plurinacional peruano.
Votação no primeiro turno: 31,7%
Última pesquisa: 48,6% (Ipsos/Apoyo) e 46,3% (CPI)
Principais apoios: Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura em 2010, comunidades eclesiais de base, pequeno empresariado e sindicatos e o ex-presidente Alejandro Toledo, quarto colocado no primeiro turno
Geografia do voto: Venceu em 14 Estados no primeiro turno, a maior parte no sul do Peru. Tem alto grau de rejeição em Lima.
Propostas: Fortalecimento do mercado interno, compromisso com a estabilidade macroeconômica, e investimento em infraestrutura. Estímulo à identidade plurinacional peruana e reformas dos poderes públicos. No segundo turno, o candidato se comprometeu a não alterar a Constituição para manter-se no poder.
Leia mais sobre os candidatos nos sites de Keiko e Humala. Aqui estão as contas no twitter dele e dela. Entre os jornais peruanos, o La Republica está fazendo uma cobertura mais anti-fujimorista, e o El Comercio, anti-Humala.
2012
2011