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Nuestra América

Três anos depois da crise que opôs o presidente da Bolívia, Evo Morales, aos governadores da região da Meia-Lua – a mais rica do país, formada pelos departamentos (Estados) de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija -, a oposição boliviana tem uma nova face. Os líderes autonomistas do leste boliviano, dizem analistas, perderam espaço para ex-aliados do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo.

 

Um exemplo desse novo protagonismo foi a campanha pelo voto nulo nas eleições para magistrados da Suprema Corte, em outubro. O ex-prefeito de La Paz Juan del Granado, antigo partidário de Evo, que rompeu com o presidente em 2009, comandou os pedidos de boicote à votação. Os votos nulos – segundo analistas, uma maneira da população mostrar seu descontentamento com o governo – superaram os válidos. A contagem final mostrou que 60% dos eleitores anularam o voto em protesto.

Outro fator que evidenciou a exclusão cada vez maior da oposição da Meia-Lua do papel de antagonismo a Evo foi a crise envolvendo a construção de uma estrada financiada pelo Brasil no Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure (Tipnis). A repressão aos indígenas que marchavam da reserva a La Paz prejudicou a imagem de Evo, cuja carreira política foi construída em torno dos direitos dos povos nativos da Bolívia. Setores da comunidade indígena, que constituem 55% da população, romperam com o governo.

“A oposição autonomista da Meia-Lua perdeu espaço em razão de uma série de erros políticos e de uma perseguição promovida pelo governo”, diz a cientista política María Teresa Zegada, da Universidade Maior de San Simón. “Além disso, houve uma ruptura na base social de apoio a Evo, e o discurso autonomista não contempla as necessidades dessa base.”

“Hoje a maior parte da oposição boliviana vem de dissidentes do MAS”, afirma o presidente do Diálogo Inter-Americano, Michael Shifter. “Os políticos tradicionais e a oposição da Meia-Lua já não desempenham um papel importante como antes.”

Ainda de acordo com analistas, as raízes do processo de esvaziamento da oposição da Meia-Lua estão nas bandeiras originais do movimento. Em 2008, os departamentos de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija organizaram referendos para obter mais autonomia do governo central. Após a votação, a oposição dos governadores da região aos impostos sobre gás e petróleo cobrados por La Paz provocou uma série de disputas no país.

Evo acabou cedendo e incluiu a autonomia na Constituição de 2009. “Com isso, a oposição da Meia-Lua acabou perdendo sua principal bandeira política”, explica María Teresa. “Além disso, a defesa que eles faziam da institucionalidade democrática perdeu força quando eles tentaram romper com o governo central.”

Sem discurso, os autonomistas perderam também seus líderes. Nas eleições de 2010, dos nove departamentos, o MAS elegeu governadores nas cinco províncias do altiplano (Cochabamba, La Paz, Chuquisaca, Oruro e Potosí) e em Pando. O governador de Tarija, Mario Cossío, buscou asilo no Paraguai após ter sido destituído do cargo, acusado de corrupção no mesmo ano. “A oposição da Meia-Lua sobrevive apenas em Beni e Santa Cruz”, constata a analista boliviana.

Dos líderes da Meia-Lua, o ex-governador de Pando Leopoldo Fernández, está preso desde 2008, acusado de ter ordenado o massacre de 11 camponeses partidários de Evo. O ex-candidato a presidente Manfred Reyes Villa está autoexilado nos EUA.

O único político da região mais rica da Bolívia que ainda desfruta de prestígio é o governador de Santa Cruz, Rubén Costas. Ao lado de Granado e do ex-candidato à presidência Samuel Doria Medina, ele liderou a campanha pelo voto nulo na eleição dos magistrados de outubro.

Esses três nomes, no entanto, encontram dificuldade para afinar um discurso comum para desafiar Evo, que além de controlar o Executivo, tem maioria de dois terços na Assembleia. Granado, com um perfil de centro-esquerda, construiu sua carreira com base na defesa dos direitos humanos. Os outros dois têm mais ligações com a centro-direita boliviana. “Medina tem poucos votos e Ruben Costas não tem apoio fora da província. A oposição hoje ocupa espaços de decisão minoritários. É fragmentada e carece de um discurso aglutinador”, resume María Teresa.

 

* publicado no Estadão em 4/12/11

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07.julho.2011 16:23:22

Plantão médico

Os que acreditam em mau olhado diriam que os líderes da América do Sul estão precisando se benzer. E com urgência. Ao menos seis dos presidentes da região tiveram algum problema de saúde nos últimos meses, mostra um levantamento da AFP publicado no Terra Colômbia. São eles os líderes de Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia, Equador e Venezuela.

O caso mais notório e recente, claro, é o câncer do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Muito já se foi dito sobre a doença, que começou descrita pelo governo venezuelano como um “abcesso pélvico”. Chávez levou quase um mês para ir à público admitir que extirparam-lhe um tumor maligno. Enquanto isso, governava de Cuba. A oposição reclamou. Queria que ele passasse seus poderes para o vice-presidente Elias Jaua. O presidente, que nunca foi muito afeito a delegar nada para ninguém, fez-se de mouco. Voltou ontem, na véspera do bicentenário da independência venezuelana.

Não é o primeiro problema de saúde de Chávez. Em 2007, ele narrou durante seu programa “Alo presidente” uma diarreia que teve enquanto vistoriava obras. ” Isso só acontece com o Chávez!”, brincou. No mesmo vídeo, ele faz um alerta cômico sobre seu entrevero, que hoje poderia soar bem mais trágico: ” Sou um ser humano como qualquer um de vocês. Às vezes as pessoas se esquecem disso”

Outro que teve de enfrentar uma dura batalha contra o câncer é o presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Ele concluiu em dezembro do ano passado a quimioterapia contra um câncer linfático. A exemplo de Chávez, Lugo fez o tratamento em outro país. Mas, ao invés de Cuba, escolheu o Brasil.

A nossa presidente, Dilma Rousseff, que também já teve de tratar um câncer linfático quando ainda era ministra da Casa Civil de Lula, teve de cancelar recentemente uma viagem ao Paraguai onde aconteceu uma cúpula do Mercosul por causa de uma pneumonia.

Outra presidenta que também cancelou viagens por problemas de saúde foi a argentina Cristina Kirchner. Mas no caso dela, isso aconteceu duas vezes. Em abril, ela deixou de viajar ao México após uma crise de pressão baixa. Em junho, ela sofreu um pequeno corte ao bater a cabeça em uma grade, e também faltou à cúpula do Mercosul.

O boliviano Evo Morales também guardou repouso por recomendações médicas em março, após ter sido diagnosticada uma inflamação em um tendão do joelho que ele havia operado em novembro. Outro com contusões ortopédicas é o equatoriano Rafael Correa. Ele passou por uma cirurgia no joelho direito em setembro do ano passado para corrigir um desgaste no fêmur. Durante a quartelada militar daquele mês que paralisou o país, o presidente ainda se locomovia de bengala.

Ao que se sabe, o peruano Alan Garcia, o chileno Sebastián Piñera, o colombiano Juan Manuel Santos e o uruguaio José Mujica não têm tido problemas . Mas, em volta a tantos colegas “no departamento médico”, já devem ter encomendado um check-up.

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