Três anos depois da crise que opôs o presidente da Bolívia, Evo Morales, aos governadores da região da Meia-Lua – a mais rica do país, formada pelos departamentos (Estados) de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija -, a oposição boliviana tem uma nova face. Os líderes autonomistas do leste boliviano, dizem analistas, perderam espaço para ex-aliados do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo.
Um exemplo desse novo protagonismo foi a campanha pelo voto nulo nas eleições para magistrados da Suprema Corte, em outubro. O ex-prefeito de La Paz Juan del Granado, antigo partidário de Evo, que rompeu com o presidente em 2009, comandou os pedidos de boicote à votação. Os votos nulos – segundo analistas, uma maneira da população mostrar seu descontentamento com o governo – superaram os válidos. A contagem final mostrou que 60% dos eleitores anularam o voto em protesto.
Outro fator que evidenciou a exclusão cada vez maior da oposição da Meia-Lua do papel de antagonismo a Evo foi a crise envolvendo a construção de uma estrada financiada pelo Brasil no Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure (Tipnis). A repressão aos indígenas que marchavam da reserva a La Paz prejudicou a imagem de Evo, cuja carreira política foi construída em torno dos direitos dos povos nativos da Bolívia. Setores da comunidade indígena, que constituem 55% da população, romperam com o governo.
“A oposição autonomista da Meia-Lua perdeu espaço em razão de uma série de erros políticos e de uma perseguição promovida pelo governo”, diz a cientista política María Teresa Zegada, da Universidade Maior de San Simón. “Além disso, houve uma ruptura na base social de apoio a Evo, e o discurso autonomista não contempla as necessidades dessa base.”
“Hoje a maior parte da oposição boliviana vem de dissidentes do MAS”, afirma o presidente do Diálogo Inter-Americano, Michael Shifter. “Os políticos tradicionais e a oposição da Meia-Lua já não desempenham um papel importante como antes.”
Ainda de acordo com analistas, as raízes do processo de esvaziamento da oposição da Meia-Lua estão nas bandeiras originais do movimento. Em 2008, os departamentos de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija organizaram referendos para obter mais autonomia do governo central. Após a votação, a oposição dos governadores da região aos impostos sobre gás e petróleo cobrados por La Paz provocou uma série de disputas no país.
Evo acabou cedendo e incluiu a autonomia na Constituição de 2009. “Com isso, a oposição da Meia-Lua acabou perdendo sua principal bandeira política”, explica María Teresa. “Além disso, a defesa que eles faziam da institucionalidade democrática perdeu força quando eles tentaram romper com o governo central.”
Sem discurso, os autonomistas perderam também seus líderes. Nas eleições de 2010, dos nove departamentos, o MAS elegeu governadores nas cinco províncias do altiplano (Cochabamba, La Paz, Chuquisaca, Oruro e Potosí) e em Pando. O governador de Tarija, Mario Cossío, buscou asilo no Paraguai após ter sido destituído do cargo, acusado de corrupção no mesmo ano. “A oposição da Meia-Lua sobrevive apenas em Beni e Santa Cruz”, constata a analista boliviana.
Dos líderes da Meia-Lua, o ex-governador de Pando Leopoldo Fernández, está preso desde 2008, acusado de ter ordenado o massacre de 11 camponeses partidários de Evo. O ex-candidato a presidente Manfred Reyes Villa está autoexilado nos EUA.
O único político da região mais rica da Bolívia que ainda desfruta de prestígio é o governador de Santa Cruz, Rubén Costas. Ao lado de Granado e do ex-candidato à presidência Samuel Doria Medina, ele liderou a campanha pelo voto nulo na eleição dos magistrados de outubro.
Esses três nomes, no entanto, encontram dificuldade para afinar um discurso comum para desafiar Evo, que além de controlar o Executivo, tem maioria de dois terços na Assembleia. Granado, com um perfil de centro-esquerda, construiu sua carreira com base na defesa dos direitos humanos. Os outros dois têm mais ligações com a centro-direita boliviana. “Medina tem poucos votos e Ruben Costas não tem apoio fora da província. A oposição hoje ocupa espaços de decisão minoritários. É fragmentada e carece de um discurso aglutinador”, resume María Teresa.
* publicado no Estadão em 4/12/11
Cheguei ontem a Buenos Aires após três dias em Formosa, no norte da Argentina. Aqui, como lá, há pobreza, ainda que de maneiras diferentes. Logo na saída do Aeroparque Jorge Newberry, o aeroporto doméstico da capital platina, há uma grande favela na alça de acesso para a autopista que leva à 9 de julho. As casas de tijolo sem alvenaria lembram muito as grandes favelas urbanas do Brasil.
Aqui em Buenos Aires, a coleta de lixo é ruim. Os garis trabalham sem luva e parte do lixo permanece nas calçadas após a passagem do caminhão de coleta. Só não é pior, dizem, porque os porteiros mantêm as calçadas limpos e catadores recolhem parte do lixo que sobra. Há mendigos e moradores de rua. Ao lado do hotel, um dormia ao relento.
No metrô, os trens são parecidos com os mais novos que começaram a circular nas linhas de São Paulo. A disposição dos assentos, por exemplo, é igual. As estações, no entanto, são mais velhas e mais sujas do que na capital paulista.
No retorno de Palermo para o centro pela linha verde do metrô, vi um menino entrar no vagão. Seus tênis eram velhos e rasgados, assim como a bermuda jeans e a camiseta. Tirou da mochila quatro ou cinco bolas de borracha e três garrafas d’água meio cheias. Como no Brasil, começou a pedir esmola e falava num ritmo similar ao dos vendores que sobem nos ônibus de São Paulo (boanoitesenhorespassageiros… desculpeincomodaraviagemdossenhorespassageiros….)
Ele começou a fazer malabarismos, primeiro com as bolinhas depois com as garrafas, como alguns pedintes fazem nos sinais brasileiros. Como no Brasil, poucos o ajudaram com dinheiro. A diferença? Pediu aplausos e foi atendido.
Pode não parecer, por causa de toda rixa Pelé x Maradona, mas os argentinos admiram muito o Brasil. No interior, onde a hospitalidade costuma ser maior, isso é ainda mais visível. Eles consomem nossas novelas, músicas e até alguns dos nossos costumes regionais. Nas vendas de Formosa, nada de alfajor Havana. Bombons Garoto – com embalagem em português – têm saída constante, ao lado de chinelos do tipo havaiana e DVDs de música brasileira.
No mercado de Alberdi, no Paraguai, por exemplo, que fica do outro lado do rio Paraguai, existem cópias falsificadas de shows da dupla Zezé di Camargo e Luciano. O auge, no entanto, da integração do Mercosul aconteceu na noite de ontem em um comício de Di Martino, candidato a vereador pelo Partido Peronista, apoiado pelo governador Gildo Insfrán e pela presidente Cristina Kirchner. Ali, uma banda local adaptou para o chamame, um ritmo local que lembra a música tradicional gaúcha, com sinfonas e violões, o hit da dupla de sertanejo universitário Jorge e Mateus: Querendo te amar. A letra foi adaptada para tentar eleger o “consejal”.
E não é que a melodia gruda?
**************** Leiam mais sobre a eleição na Argentina na edição impressa do Estadão, pelo Twitter (@inter_estadao, @luizraatz e @arielpalacios) , na TV Estadão e no blog do meu colega Ariel Palacios.
Formosa, capital da província de mesmo nome, fica no norte da Argentina, a 1,2 mil km de Buenos Aires e a apenas 130 km de Assunção. É banhada pelo rio Paraguai. De certa maneira, parece-se mais com o vizinho do Mercosul do que com a região dos pampas. O chaco, a planície central da América do Sul é quente e úmida. Nesse começo de primavera, as noites são amenas, mas os dias não devem a um bom dia de verão do litoral paulista. Hoje fez mais de 30ºC.
Assim como no Paraguai e parte do Brasil – principalmente o Mato Grosso do Sul – a tradicional yerba mate argentina é tomada aqui fria. O tereré, como é chamado na região, é uma herança dos índios guaranis. A televisão transmite alguns canais paraguaios.Na TV paraguaia, um programa bastante popular é a versão local da “Dança dos famosos”.
O menu aqui é um pouco diferente do resto da Argentina. O bife de chorizo continua sendo uma opção popular, assim como o lomito e algumas massas. Mas peixes de água doce bastante saborosos da Bacia do Paraná, como o Tucupi, também são servidos.
A presidente Cristina Kirchner tem bastante apoio aqui. Seu principal aliado é o governador Gildo Insfrán. Ambos tentam a reeleição, mas Insfrán, graças a duas emendas na Constituição provincial, governa a província desde 1995. Os moradores de Formosa se dividem ao falar sobre ele. Uns dizem que faz muitas obras, principalmente de infraestrutura, apesar das denúncias de corrupção – uma espécie de Maluf argentino que deu certo, no melhor estilo “rouba mas faz’. Outros o qualificam de um burocrata sedento pelo poder, que compra os votos dos formosenhos com programas assistencialistas e inchaço no setor público.
PS: Leiam mais sobre a eleição na Argentina na edição impressa do Estadão, pelo Twitter (@inter_estadao, @luizraatz e @arielpalacios) , na TV Estadão e no blog do meu colega Ariel Palacios.
PS2: esse é o primeiro de uma série de posts sobre a eleição presidencial argentina do blog, que deve durar até a próxima segunda-feira
O governador do Texas, Rick Perry, pré-candidato republicano à presidência dos EUA em 2012, causou um desconforto diplomático no começo da semana. Em um evento de campanha em New Hampshire, Perry sugeriu que o país mande tropas para o México para lidar com o problema do tráfico de drogas no vizinho.
“ Nossos militares podem ter de trabalhar em conjunto com autoridades mexicanas para matar os cartéis e mantê-los longe de nossas fronteiras”, disse. ”Não conheço todos os cenários ali, mas acredito que seja importante impedir o país de se tornar um Estado falido.”
A fala de Perry fez o embaixador mexicano nos EUA, Arturo Sarukhán ir a público desmentir que existam propostas nesse sentido. “Não é um componente que se esteja prevendo e não faz parte dos esquemas inovadores que México e EUA estão usando para combater o crime organizado transnacional”, disse, segundo o diário El Universal.
Cartéis como o de Tijuana, Sinaloa, Juárez e os Zetas controlam os Estados mexicanos fronteiriços aos EUA. Só em Ciudad Juárez, na divisa com o Texas, a violência relacionada ao tráfico deixou 7 mil mortes nos últimos dois anos.
Ainda sobre o tema, recomendo duas leituras: a primeira, publicada na edição de domingo do Estado, sobre o envio de armas dos EUA para o México. A segunda, deste infográfico da Associated Press sobre a questão
O governo cubano anunciou nesta quarta-feira a liberação para a compra e venda de automóveis na ilha. A medida, inédita desde a revolução de 1959, faz parte da série de reformas propostas por Raúl Castro em agosto do ano passado para tirar a economia do país do abismo. Entre elas também se destacam o corte de cerca de 500 mil funcionários do setor público, que poderão formar cooperativas privadas, ainda que pagando pesados impostos ao Estado.
Essas reformas sinalizam sem dúvida uma mudança, mesmo com a firme defesa feita por Raúl do caráter socialista do Estado e da Revolução, feita durante o VI Congresso do Partido Comunista, em abril. Avanços políticos, como realização de eleições, fim da censura e da perseguição a dissidentes, como também mostrou o Congresso, ainda estão distantes do paranorama político cubano.
Nos EUA, que há 51 anos mantêm um embargo econômico ao regime, criticado pela maioria dos países latino-americanos, a questão cubana voltou a ser abordada hoje pelo presidente Barack Obama. O democrata, que no início do mandato revertera uma proibição de Bush a viagens e ao envio de remessas de cubanos para a ilha, praticamente ignorou o país nos últimos dois anos.
Agora, a pouco mais de um ano das eleições, o presidente começa a se lembrar dos eleitores hispânicos, que em 2008, eles foram um componente importante de sua vitória. Ele teve o dobro de votos que seu concorrente, John McCain, levado em conta apenas o voto latino. Hoje, segundo o instituto Gallup, a aprovação de Obama nesse segmento da população, que já foi de 80%, é de 48%.
Na Flórida, um dos “swing states” (estados que podem definir a eleição no colégio eleitoral e cujos eleitores oscilam entre o candidato democrata e republicano), há muitos latinos de origem cubana, a grossa maioria identificada com o anticastrismo e com os republicanos.
Não foi a toa que logo após o anúncio da venda de automóveis na ilha, o presidente americano declarou que chegara a hora de algo acontecer em Cuba. “Não há um verdadeiro espírito de transformação que nos anime a retirar o embargo”, disse. “Mas, se virmos sinais positivos, responderemos positivamente.”
Se Obama seguir a mesma lógica que adotou nas discussões sobre declaração de independência palestina na ONU, quando fez um discurso bem próximo de Israel, que agradou ao eleitorado judeu americano, o embargo continua longe de terminar.
ps: entre as férias e uma entorse no tornozelo que me afastou do trabalho, fiquei um tempo sem postar aqui. Aos poucos, vamos retornando à programação normal.
Acabou o mistério. O presidente eleito do Peru, Ollanta Humala, anunciou nesta quinta-feira os primeiros nomes de seu gabinete de ministros. A equipe econômica é formada por nomes ligados ao atual modelo econômico – que levou o país a um crescimento vigoroso, ainda que sem melhorar a distribuição de renda. O ministro da Economia será Luis Castilla, que era o secretário-executivo da pasta durante o governo de Alan Garcia. Juan Vilarde continuará à frente do Banco Central e o presidente do Conselho de Ministros será o empresário Salomón Lerner Ghitis.
O sociólogo Rafael Roncagliolo, ligado à esquerda, será o chanceler de Humala. Ontem, o ex-presidente Alejandro Toledo anunciou que seu partido, o Peru Posible, participará do gabinete, mas não divulgou quais ministérios a legenda assumirá.
Os nomes da equipe econômica eram bastante esperados pelo mercado financeiro e investidores, que temiam uma guinada “bolivariana” do novo presidente peruano.
Desde a campanha, Humala vem tentando se distanciar do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e vincular sua imagem a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Assim como o petista, divulgou uma carta na qual se comprometia com os fundamentos macroeconômicos no país e prometera levar o crescimento aos mais pobres.
Dessa vez, mais uma vez “imitou” Lula, ao manter um nome ligado ao mercado no BC, como o brasileiro fizera em 2002, com Henrique Meirelles. No comando da economia, Humala, no entanto, foi mais além. Se o ex-presidente optara por Antonio Palocci, um petista que manteve as políticas da gestão anterior, Humala simplesmente promoveu o número dois do gabinete de Garcia. Analogamente, seria como se Lula nomeasse o braço direito de Pedro Malan. Impensável, não?
Os que acreditam em mau olhado diriam que os líderes da América do Sul estão precisando se benzer. E com urgência. Ao menos seis dos presidentes da região tiveram algum problema de saúde nos últimos meses, mostra um levantamento da AFP publicado no Terra Colômbia. São eles os líderes de Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia, Equador e Venezuela.
O caso mais notório e recente, claro, é o câncer do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Muito já se foi dito sobre a doença, que começou descrita pelo governo venezuelano como um “abcesso pélvico”. Chávez levou quase um mês para ir à público admitir que extirparam-lhe um tumor maligno. Enquanto isso, governava de Cuba. A oposição reclamou. Queria que ele passasse seus poderes para o vice-presidente Elias Jaua. O presidente, que nunca foi muito afeito a delegar nada para ninguém, fez-se de mouco. Voltou ontem, na véspera do bicentenário da independência venezuelana.
Não é o primeiro problema de saúde de Chávez. Em 2007, ele narrou durante seu programa “Alo presidente” uma diarreia que teve enquanto vistoriava obras. ” Isso só acontece com o Chávez!”, brincou. No mesmo vídeo, ele faz um alerta cômico sobre seu entrevero, que hoje poderia soar bem mais trágico: ” Sou um ser humano como qualquer um de vocês. Às vezes as pessoas se esquecem disso”
Outro que teve de enfrentar uma dura batalha contra o câncer é o presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Ele concluiu em dezembro do ano passado a quimioterapia contra um câncer linfático. A exemplo de Chávez, Lugo fez o tratamento em outro país. Mas, ao invés de Cuba, escolheu o Brasil.
A nossa presidente, Dilma Rousseff, que também já teve de tratar um câncer linfático quando ainda era ministra da Casa Civil de Lula, teve de cancelar recentemente uma viagem ao Paraguai onde aconteceu uma cúpula do Mercosul por causa de uma pneumonia.
Outra presidenta que também cancelou viagens por problemas de saúde foi a argentina Cristina Kirchner. Mas no caso dela, isso aconteceu duas vezes. Em abril, ela deixou de viajar ao México após uma crise de pressão baixa. Em junho, ela sofreu um pequeno corte ao bater a cabeça em uma grade, e também faltou à cúpula do Mercosul.
O boliviano Evo Morales também guardou repouso por recomendações médicas em março, após ter sido diagnosticada uma inflamação em um tendão do joelho que ele havia operado em novembro. Outro com contusões ortopédicas é o equatoriano Rafael Correa. Ele passou por uma cirurgia no joelho direito em setembro do ano passado para corrigir um desgaste no fêmur. Durante a quartelada militar daquele mês que paralisou o país, o presidente ainda se locomovia de bengala.
Ao que se sabe, o peruano Alan Garcia, o chileno Sebastián Piñera, o colombiano Juan Manuel Santos e o uruguaio José Mujica não têm tido problemas . Mas, em volta a tantos colegas “no departamento médico”, já devem ter encomendado um check-up.
Na semana passada, a Polícia do Equador prendeu em Quito o guerrilheiro Fabio Ramírez, conhecido como “Danilo”, um dos líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Ele era o número dois da frente 48 da guerrilha, que atua na fronteira dos dois países. Nos últimos meses, a Venezuela também prendeu dois nomes importantes das Farc: Julián Conrado, o “Cantor das Farc”, detido em junho, e Alberto Martínez, editor da Agência de Notícias Nova Colômbia, órgão ligado à guerrilha, preso em abril.
De acordo com analistas, isso não seria possível sem a mudança que o presidente colombiano imprimiu na política externa do país, desde agosto do ano passado, quando tomou posse. A minha matéria sobre esse tema saiu no domingo na edição impressa do Estadão. Deixo aqui a íntegra das entrevistas com o cientista político Carlos Medina, da Universidade Nacional da Colômbia, e com Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue.
No que a política externa de Juan Manuel Santos difere da de Alvaro Uribe?
Carlos Medina: Digamos que o governo de Uribe desenvolveu sua política externa com uma carga ideológica marcada pela luta contra o terrorismo, baseada na luta contra as Farc. Regionalmente, levou essa luta às zonas (fronteiriças) em que tinha influência. Foi uma política agressiva, ideológica, antiterrorista, que não respeitou muitos os tratados internacionais em termos de operações fronteiriças. Ele subscreveu, nesse sentido, a política externa americana pós 11 de setembro.
O presidente Santos tem uma postura mais vinculada aos tratados internacionais, e às boas relações regionais. O propósito dele é diferente:é de reconstruir as relações com os países da região. Ele pretende assumir uma posição de liderança continental e se projetar para obter um reconhecimento internacional de primeira ordem. Desde o primeiro momento da posse, ele muda a política externa, retoma as relações com Rafael Correa, se transforma no melhor amigo do presidente Chávez, estabelece acordos para resolver os problemas comerciais entre Colômbia e Venezuela e restaura as relações (Com Equador e Venezuela) a um nível que elas já trazem resultado na luta contra o terrorismo. Dirigentes das Farc já foram capturados dentro do Equador e da Venezuela, apesar de esses países terem reconhecido esse grupo como “força beligerante”.
Acredito que a política externa de Santos busca posicioná-lo como líder regional em um momento que os EUA se descuidaram um pouco do subcontinente. Essa mudança se dá em três frentes: primeiro com a Unasul, cuja secretária-geral agora é da Colômbia. Segundo agora a Colômbia tem um assento no Conselho de Segurança da ONU, que lhe dará maior protagonismo, e depois com a Calc, onde a Colômbia deve buscar um papel de protagonismo também.
Michael Shifter: A principal diferença é que Santos é um interlocutor internacional Ele quer se tornar um líder regional e participar das grandes decisões globais. Uribe não ligava para isso. Uribe estava feliz em satisfazer os colombianos. Santos é mais ambicioso. Ele quer satisfazer os colombianos e também ser reconhecido pela América Latina e no mundo.
Essa aproximação é parte de uma estratégia maior contra as Farc?
Carlos Medina: O presidente tem buscado somar forças na luta do governo contra as Farc, o narcotráfico e os paramilitares contando com a ajuda dos países fronteiriços. Outra coisa fundamental é o importante papel desempenhado pela inteligência colombiana para localizar guerrilheiros e narcotraficantes nos países vizinhos. Esses países são notificados e prendem os suspeitos. Aconteceu isso no Equador e na Venezuela.
Michael Shifter: Faz parte de uma estratégia maior de política externa. Diz respeito a muitas coisas. Como a Unasul, a crise Honduras. Ele tem a longo prazo o objetivo de pôr fim ao conflito na Colômbia. A teoria é de que se ele criar confiança com Chávez, ao longo prazo ele vai ver que as Farc é um problema. Até certo ponto, isso está acontecendo. Está produzindo resultados, ainda que algumas pessoas digam que isso não esteja acontecendo na velocidade necessária.
Por que aconteceu essa aproximação com Equador e Venezuela.? O que eles ganharam?
Carlos Medina:As aproximações desses países com a Colômbia ajudam a construir um novo ambiente entre esses governos. Quando Chávez diz que Santos é seu novo melhor amigo tem um propósito político de amenizar as confrontações entre Colômbia e Venezuela e distensionar essas inimizades. No caso, de Correa, ter boas relações com Colômbia podem amenizar as denuncias de que sua campanha foi financiada pelas Farc. Eles têm ganhos internos com essa melhora das relações.
Michael Shifter: A aproximação é um reflexo do pragmatismo de Santos. Ele chegou à conclusão que a Colômbia não poderia ficar isolada e marginalizada no continente e mesmo que existam diferenças e desconfiança com Correa e Chávez era importante acalmar as coisas por razões econômicas e políticas. Ele percebeu que a confrontação e agressividade do final do mandato de Uribe com esses países não eram do interesse da Colômbia
Que ganhou Santos com a mediação para volta de Zelaya a Honduras?
Carlos Medina: O que dizem os analistas políticos aqui é que, a longo prazo, Santos pretende se candidatar à secretário-geral das Nações Unidas. Mas ele também quer se projetar regionalmente como um conciliador, capaz de resolver problemas pela via diplomática, capaz de resolver os problemas internos da Colômbia. Ele busca se mostrar como uma pessoa diferente de Uribe, com uma projeção nacional e regional de grande importância.
Michael Shifter: Ele está tentando mostrar que é alguém que pode resolver problemas na América Latina. Em certa medida, nisso ele se parece com Lula, que é uma pessoa vista como alguém que pode fazer acordos com todo mundo. Santos gosta desse modelo e quer mostrar que também pode obter esses acordos. A crise de Honduras foi muito grave e ele sentiu que estava na posição de desempenhar um papel, por conta de sua relação com Chávez, e por ser muito envolvido com Lobo em Honduras. Isso lhe deu um impulso político no entendimento de que pode resolver conflito.
Falando um pouco da relação com os EUA, em que passo está o tratado de livre comércio ?
Carlos Medina: Há muitas certezas envolvendo o tratado. Ele tem implicações importantes econômicas. Santos tentou resolver barreiras de direitos humanos exigidas pelos EUA. Ele se uniu às centrais sindicais para ganhar uma legitimidade para que o tratado seja aprovado. Ele tem muitos obstáculos ainda para resolver, como assassinato de líder sindicalistas. Outras implicações econômicas, para o setor agrário e indústria, que seriam prejudicadas com o TLC, também. Mas há uma expectativa positiva para os setores interessados no tratado.
Michael Shifter: A relação mudou muito. A relação é boa, mas os EUA são vistos como mais um aliado, ao contrário da ‘relação especial’ que havia antes. Não significa que haja tensão, ou problemas, mas a Colômbia está diversificando e buscando outras opções. Os colombianos que vem a Washington querem falar de outras coisas, não só drogas ou violência, como educação, tecnologia e energia. Os colombianos sentem que perderam espaço ao investir tanto nos EUA. O TLC se tornou uma frustração. Eles perderam a paciência e com razão. Eles querem o tratado, mas analisam outras opções.
Santos se reaproximou do Brasil?
Carlos Medina: Santos está muito mais perto da presidente do Brasil em matéria de cooperação internacional. E creio que para Santos é muito importante disputar o papel de liderança deixada por Lula. A presidente Dilma deixou a cena internacional para ocupar-se de problemas internos. E em matéria internacional ela não tem a liderança que Lula tinha. Santos tenta um pouco ocupar esse papel, em um continente no qual não são muitos os líderes com esse perfil.
Michael Shifter: Eles querem uma boa relação com o Brasil. Santos foi para aí logo após sua eleição. Ele vê um enorme potencial para colaboração econômica. Eles veem a América do Sul como multipolar. Também há relações importantes com o México e o Chile. Uribe teve alguns problemas com Lula e era o momento de melhorar as relações.
Temos visto governos tanto de direita quanto de esquerda apostarem na integração latino-americana. Por que isso acontece?
Carlos Medina: Creio que a integração continental é um cenário fundamental na consolidação dos blocos econômicos e políticos como também para o futuro do continente. É uma política de Estado. É uma necessidade para todas partes de expressão política.
Michael Shifter: Não é uma questão ideológica. É uma necessidade comum e produto das circunstâncias. Mostra que esses governos têm sido pragmáticos. É o caminho para fortalecer suas posições.
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Comentários racistas, chauvinistas, sexistas, xenófobos ou que coloquem a sociedade de um país como superior a de outro país não serão publicados. Tampouco ataques pessoais aos comentaristas ou ao blogueiro. Propaganda político-partidária e publicidade religiosa também serão eliminadas, assim como comentários que não tiverem qualquer relação com o conteúdo da postagens. Palavrões não serão publicados.
O transferência de US$ 300 mil pelo presidente Rafael Correa para o exterior tem causado polêmica no Equador. A imprensa e a oposição local dizem que a atitude contradiz o nacionalismo do presidente, que frequentemente critica quem tem investimentos no exterior. Correa assegura que a decisão foi de foro pessoal e serviu para comprar um apartamento de um dormitório na Bélgica, país natal de sua mulher, Anne Malherbe.
A polêmica começou quando, a pedido do deputado oposicionista Jorge Escala, o Serviço de Rendas Internas ( equivalente equatoriano à Receita Federal) levantou os pagamentos de impostos do presidente e sua movimentação financeira ao exterior. Segundo o jornal El Universo, Correa enviou US$ 330 mil para a Alemanha, e por isso pagou os devidos US$ 8.742,76 de imposto. O dinheiro provém de uma indenização por danos morais ganha pelo presidente no Banco Pechincha, em 2010.
Correa, irritado, reagiu. “Não enviei o dinheiro para ele render fora do país, como dizem as pessoas de má fé. O dinheiro foi para Bélgica, e não para Alemanha. A Bélgica é o local de nascimento da minha mulher, onde meus filhos têm nacionalidade, onde passamos as férias, e onde provavelmente eles vão estudar”, disse. O apartamento de 62 metros quadrados tem sala de estar, sala de jantar, cozinha, banheiro e um quarto.
Em 2007, quando processou o banco, o presidente tinha dito que não era apegado ao dinheiro. “Nasci pobre e vou morrer pobre”, afirmou à época. “Se quiserem posso doar esse dinheiro, ainda que meu principal dever seja dar segurança econômica à minha família.”
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