O processo de impeachment contra Fernando Lugo não é algo inédito na história paraguaia. Uma série de visitas ao Acervo Estado mostra que o juízo político é uma ferramenta comum desde a redemocratização, mas que no caso de Lugo foi usada com velocidade inédita. A figura do juízo político, introduzida na Constituição de 1992, já foi invocada contra o presidente Luis González Macchi, em 2003, e contra Raúl Cubas. No primeiro caso, Macchi escapou por cinco votos. Já Cubas renunciou antes de ser julgado. O primeiro processo demorou dois meses para ser levado ao Senado. O segundo demoraria uma semana. O de Lugo levou 24 horas.
A história das duas tentativas de impeachment estão interligadas e têm um personagem em comum: o general Lino Oviedo, que liderara em 1996 uma tentativa de golpe contra o presidente Juán Carlos Wasmosy. O militar, fora do Exército, tentou candidatar-se em 1998 à presidência do Paraguai pelo Partido Colorado. A um mês da eleição, ele foi condenado a dez anos de prisão em razão da sublevação militar de dois anos antes. Seu companheiro de chapa, Raúl Cubas, acabou saindo como candidato a presidente e Luís Maria Argaña, um rival de Oviedo dentro do Partido Colorado, como vice. Cubas venceu com a promessa de libertar Oviedo, o que fez depois de assumir o cargo.
Argaña foi assassinado em uma emboscada por homens armados em 23 de março de 1999. Oviedo e Cubas foram responsabilizados pela oposição pela morte do vice. Dois dias depois, a Câmara aprovou abertura do processo de juízo político contra Cubas. Ao contrário do que aconteceu com Lugo, no entanto, o processo seria julgado no Senado uma semana depois. Só que não deu tempo. A repressão ordenada pelo governo a uma passeata contra Oviedo e Cubas deixou quatro mortos. A pressão tornou-se insustentável e Cubas renunciou. Macchi, presidente do Senado, assumiu e colocou fim à crise, conhecida como Marzo Paraguayo.
Quatro anos mais tarde, Macchi foi alvo de um processo de juízo político por mau uso de suas funções e corrupção. No caso dele, o processo foi ainda mais lento. Foi aberto na Câmara em 5 de dezembro de 2002. Macchi acabou escapando em uma votação no Senado em 12 de fevereiro. Faltou o apoio de cinco senadores para destituí-lo.
Quem vive em São Paulo está acostumado a amaldiçoar o trânsito e a sobreviver num ambiente caótico de ruas, avenidas, motoristas, motoqueiros e pedestres. Agora, imaginem uma cidade sem respeito a sinalização, sem fiscalização adequada e veículos velhos movidos a uma gasolina muito muito muito barata. Assim é Caracas.
Isolada do litoral caribenho por uma cadeia de montanhas, a capital venezuelana se estende de oeste a leste. A principal ligação entre os dois extremos da cidade é a Autopista Francisco Fajardo, que fica congestionada durante boa parte do dia. Há muitas motos, a maior parte importada da China. Os motoristas raramente respeitam a sinalização, e é comum ver carros e motos quase se chocarem. Além disso, não há verificação de velocidade por radar.
” Quem causa os problemas são as motos”, diz o motorista Carlos Flores. “Se metem por todos os cantos te arrancando os retrovisores, enquanto acelera na autopista a quase 100 km/h.
Outra curiosidade notória da capital venezuelana é o preço da gasolina. O litro sai por cerca de R$ 0,07. Um tanque pequeno cheio custa cerca de R$ 5. ”Provavelmente o que você gasta com um tanque, eu gasto no ano”, me disse o motorista, quando lhe digo que em São Paulo o litro da gasolina custa o equivalente a 5 bolívares. ”Aqui praticamente a gasolina nos é dada de presente”
O ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe tornou-se um dos protagonistas da disputa eleitoral na Venezuela. Após ter declarado apoio ao candidato da oposição à presidência Henrique Capriles e de ter chamado o presidente Hugo Chávez – seu desafeto notório- de assassino, o colombiano viu seu respaldo ser indiretamente rechaçado pelo opositor.
Capriles vinculou as declarações de Uribe à disputa política interna na Colômbia entre ele e o presidente Juan Manuel Santos. “Digo ao presidente Uribe, como ao presidente Santos, como a qualquer outro chefe de Estado: ‘Não se meta no processo eleitoral da Venezuela!’, discursou Capriles no final da noite de segunda-feira em um ato de campanha em Libertador, na Grande Caracas. “Os venezuelanos vão resolver seus problemas e não queremos interferência de nenhum país. Nem da Colômbia, nem de Cuba.”
No final da noite de domingo, Uribe postara uma série de mensagens no Twitter em defesa da candidatura de Capriles. Nelas, chamou Chávez de assassino, o acusou de abrigar terroristas das Farc e de ser o responsável pela morte de 19 mil venezuelanos por ano, vítimas da violência urbana. Ele ainda chamou a Venezuela de “paraíso do narcotráfico”. As declarações foram feitas após uma visita de Capriles à Colômbia.
Os chavistas aproveitaram para colar a imagem do ex-líder colombiano à oposição venezuelana e vinculá-lo a grupos paramilitares que atuavam no país vizinho e ao narcotráfico. “Apareceu outro vende-pátria na campanha dos majunches( medíocres, apelido criado por Chávez para Capriles): Alvaro Uribe Velez, narcoparamilitar e assassino”, disse na terça o chefe da campanha de Chávez à presidência, Jorge Rodríguez, em comício no Estado de Carabobo.
O ministro de Comunicação de Chávez, Andrés Izarra, usou a mesma ferramenta de Uribe para ironizá-lo. “A U da MUD (Mesa de Unidade Democrática, a coalizão opositora) é de Uribe? É uma dúvida que tenho”, escreveu em sua conta no Twitter.
Chávez e Uribe tiveram um relacionamento de altos e baixos entre 2002 e 2010. O venezuelano chegou a intermediar negociações para a libertação de reféns da Farc em 2007. Em junho de 2010, os dois romperam relações diplomáticos após Uribe acusar Chávez na OEA de abrigar s Farc.Coube a Santos retomar as relações com a Venezuela. Normalizada, a parceria levou à captura de alguns terroristas das Farc em território venezuelano.
Logo na chegada à Venezuela, quando o avião se aproxima do Aeroporto Internacional Simón Bolívar, se vê dois dos principais símbolos do país: o petróleo e o beisebol. Com a aeronave em processo de descida, é possível ver navios-tanques e uma refinaria de frente para o Mar do Caribe. Em dois campos de beisebol, crianças praticam o esporte, o mais popular aqui.
O aeroporto fica em Maiquetia, uma cidade litorânea cercada por uma grande serra. Em um primeiro momento, lembra a Baixada Santista, especialmente Cubatão.
Ainda no controle de imigração do tribunal, um grande painel com uma foto do presidente Hugo Chávez saúda os visitantes. Há muitos funcionários nos guichês e postos de atendimento ao turismo, todos com a camisa vermelha eternizada pelo presidente, mas as filas são longas e demoradas.
No free-shop, o socialismo bolivariano tenta se diferenciar. Os lucros são remetidos a uma fundação para crianças carentes. No saguão do aeroporto, doleiros e motoristas de táxis irregulares tentam atrair os incautos. Há soldados da Guarda Bolivariana patrulhando o lobby, mas os malandros agem livremente.
O número de táxis falsos no Aeroporto de Maiquetía tem aumentado muito nos últimos anos. As vítimas entram nos carros, parecidos com os táxis oficiais do aeroporto, e sofrem sequestros-relâmpagos. O visitante é orientado a tomar o táxi oficial do aeroporto, diferenciado dos falsos por um pequeno selo amarelo na porta. Se o viajante está com pressa, o engano pode lhe custar caro.
A caminho de Caracas, se nota a onipresença de Chávez em outdoors ao longo da estrada. O herói da independência venezuelana, Simón Bolívar, é outra figura presente.
Na TV, só se fala das eleições presidenciais, que acontecem em outubro. O candidato da oposição, Henrique Capriles, discursa em um ato de campanha na cidade de Libertador, na Grande Caracas. Reclama da estatização do cimento e diz que, sob o controle do governo, o preço do cimento subiu três vezes.
No canal estatal VTV, uma mesa redonda debate o risco de a oposição pôr fim às missões assistencialistas do governo e às rádios e TVs comunitárias, caso Capriles vença. A primeira impressão é a de que a Venezuela está dividida.
Militar da reserva e conservador, o presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina, defendeu durante a Cúpula das Américas, na Colômbia, proposta para descriminar as drogas para diminuir a violência na região. Ele discutiu a questão, respaldada também pelos presidentes da Colômbia, Juan Manuel Santos, e da Costa Rica, Laura Chinchilla, em reunião bilateral com o americano Barack Obama – que se disse contra, mas aberto a novas ideias para solucionar a questão das drogas. Especialistas em política antidrogas relativizam o impacto da descriminação de entorpecentes sobre a violência na América Central.
De acordo com analistas consultados pelo Estado, apesar de parte da violência na região ser motivada pela ação de cartéis mexicanos, o principal responsável pela deterioração do cenário é a ineficácia dos governos locais na questão da segurança.
A parte continental da América Central é peça central no tráfico internacional de drogas. A cocaína produzida nos Andes destinada aos EUA – maior mercado consumidor – passa pelo istmo. Dominantes do negócio desde a desestruturação dos cartéis colombianos, no final dos anos 90, grupos mexicanos como os Zetas e o cartel de Sinaloa expandiram seus negócios para os países vizinhos.
Essa movimentação piorou o complicado cenário de violência urbana na contígua América Central. Honduras e El Salvador têm as mais altas taxas de homicídio do mundo, segundo as Nações Unidas. A situação se agrava com o enfraquecimento dos Estados, incapazes de enfrentar os grupos violentos de maneira eficiente.
“Há um componente relacionado ao tráfico, sim, mas grande parte das mortes é consequência da atuação de gangues”, disse Antonio Mazitelli, do escritório antidrogas da ONU para o México e América Central. “O cartel de Sinaloa controla parte das rotas da América Central, mas o faz sem violência. Os Zetas agem de uma maneira mais territorial.”
Vanda Felbab-Brown, analista do Brookings Institution, de Washington, concorda com a avaliação de Mazitelli. “Apenas parte da alta taxa de homicídios na região é consequência do tráfico. A violência decorre mais do legado das guerras civis, das gangues juvenis ou da fraqueza e corrupção da polícia.”
Apoio externo. A analista concorda ainda com alguns críticos de Molina, que o acusam de usar o discurso pró-descriminação para barganhar o retorno da ajuda militar americana ao país, suspensa desde a guerra civil.
Especialistas em política antidroga dizem que um Estado optar pela fim das penas não é um caminho simples. Segundo Mazzitelli, há acordos internacionais amplamente reconhecidos que têm de ser levados em conta antes de se discutir a descriminação das drogas.
“A posição da ONU é muito clara. Os acordos sobre drogas, sobretudo o de 1961, têm ampla adesão”, disse por telefone. “Apesar disso, a ONU reconhece que a questão das drogas é de saúde pública, que os usuários precisam ter acesso a tratamento e os direitos humanos têm de ser respeitados.”
Uma pesquisa do Instituto venezuelano Hinterlaces divulgada na semana passada indica que o novo tumor do presidente Hugo Chávez não prejudicou suas chances de se reeleger nas eleições de outubro. De acordo com o levantamento, sete em cada dez venezuelanos acreditam que o líder bolivariano vai se recuperar da doença e disputar as eleições de outubro contra o candidato da Mesa de Unidade Democrática (MUD), Henrique Capriles.
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A íntegra da pesquisa (em espanhol)
A pesquisa ouviu os venezuelanos em duas oportunidades sobre a intenção de voto para outubro – a primeira logo após a vitória de Capriles, nas primárias de 12 de fevereiro, e a segunda após o anúncio da “lesão” de Chávez, no dia 21. O presidente teve no primeiro questionário 49% da preferência do eleitorado, contra 37% de Capriles. Os indecisos somaram 10%. Após o anúncio da recaída, Chávez oscilou três pontos porcentuais para cima, e Capriles, três para baixo. Ambos estão dentro da margem de erro da pesquisa, de 3,6 pontos porcentuais. A avaliação positiva do governo variou dois pontos para cima e atingiu 66%.
A pesquisa também revela a fraqueza do “chavismo sem Chávez”. Questionados sobre se há no horizonte um substituto para o presidente, caso ele não se recupere, 55% dos venezuelanos disseram não haver um líder dentro do chavismo para tomar o lugar do comandante.
A ordem de preferência do eleitorado de possíveis sucessores de Chávez é paradigmática: 30% votariam no vice-presidente Elías Jaua. O segundo colocado é “ninguém”, com 23%, seguido do chanceler Nicolás Maduro, com 14%, e do presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, com 11%.
Para o cientista político Oscar Reyes, da Universidade Central da Venezuela, a saúde de Chávez é crucial para o futuro do projeto bolivariano.” Se ele não se recuperar, muitos venezuelanos pensarão: caramba. Hugo, gostamos muito de você, mas você está doente e precisamos de um presidente saudável”, disse.
Ainda segundo o analista, assim como no ano passado, a doença pode aumentar a empatia do eleitor venezuelano com Chávez. “A doença aumenta a compaixão pelo presidente. Mas o voto é irracional. Entram na decisão componentes como o medo, amor o ódio e a vingança”, afirmou.
O vice-presidente da Venezuela Elías Jaua anunciou há pouco que o presidente Hugo Chávez foi operado em Cuba. Segundo ele, a lesão na região pélvica do líder bolivariano foi extraída e ele está em boas condições físicas. Ainda de acordo com Jaua, Chávez deu a orientação de tratar com máxima transparência seu tratamento. Os resultados dos exames feitos em Cuba e a natureza da lesão, que segundo o próprio presidente tem alta probabilidade de ser um tumor maligno, devem ser divulgados nas próximas horas.
Se as promessas feitas no discurso de Jaua na Assembleia Nacional forem cumpridas, o governo venezuelano imprimirá uma mudança no tratamento dado à doença do presidente. Desde junho do ano passado, quando Chávez foi operado pela primeira vez, não se sabe qual órgão foi afetado pelo câncer. O clima de mistérios tem alimentado rumores frequentes sobre a saúde do presidente. Em diversas ocasiões, Chávez teve de ir a público desmentir boatos de que estaria internado.
Jornalistas críticos ao chavismo, como Nelson Bocaranda, foram acusados de lançar uma “campanha suja” contra o presidente. Na segunda-feira de carnaval, o blogueiro publicara que Chávez fora levado às pressas a Cuba, onde passara por uma nova cirurgia. O câncer teria se espalhado para o fígado e o presidente estaria tomando esteroides para disfarçar os efeitos da doença. Chávez de fato foi para Cuba, mas não foi operado. Ele nega que tenha metástase.
No ano passado, quando o câncer foi descoberto, Chávez ficou vários dias isolado em Cuba, enquanto, na Venezuela, a desinformação crescia. Foi somente às vésperas da festa do bicentenário da independência venezuelano que o presidente, extremamente magro, foi à televisão e anunciou a retirada do “tumor do tamanho de uma bola de baseball”. A escolha pelo tratamento em Cuba revela um temor pela transparência que seria praxe em um hospital como o Sírio Libanês, aqui em São Paulo.
Segundo o jornal El Universal, assessores que trabalharam na campanha da presidente Dilma Rousseff estiveram em Caracas no começo de fevereiro para aconselhar os chavistas para a campanha presidencial de outubro. Entre os conselhos dados , estaria o de tratar de maneira mais transparente a doença, assim como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem feito com seu câncer de laringe.
Na semana passada, antes de ir a Cuba, Chávez prometeu “dar todas as informações com transparência, conforme nos convier” sobre a doença. Ao que tudo indica, o líder bolivariano está disposto a ser um pouco mais transparente, divulgando o básico, mas ocultando detalhes mais sensíveis da doença.
Diante da consolidação de Henrique Capriles como o candidato da oposição venezuelana nas eleições de outubro, o presidente Hugo Chávez deve oficializar nos próximos dias uma medida contra a inflação, um dos principais problemas apontados pela Mesa de Unidade Democrática em sua administração. O remédio adotado pelo líder bolivariano é conhecido dos venezuelanos: o congelamento e até a redução no preço de alguns produtos.
Na quinta-feira, Chávez anunciou que assinaria a lei que define o preço de 19 itens de higiene pessoal e alimentos nos próximos dias. O garrafão d’água mineral de cinco litros passará de 23 bolívares (R$ 9,23) para 12,45 (R$ 5), um recuo de 45,8%, segundo o diário El Universal.
O congelamento desses itens de alta procura – que inclui, além da água mineral, suco de frutas, sabonetes, papel higiênico, aparelhos de barbear e desodorantes – foi anunciado em novembro. Os preços praticados à época foram congelados até que a Superintendência Nacional de Custos e Preços (Sundecop) avaliasse qual o preço “justo”.
Antes do fim do prazo, que acaba neste mês, o governo acusava empresas multinacionais e locais de alimentos, como Pepsi, Coca-Cola, Unilever e Alimentos Polar, de especular sobre o valor cobrado por esses itens.
Analistas críticos do presidente argumentam que a medida foi motivada por tentativas fracassadas do chavismo de controlar a produção e a distribuição de alimentos, a partir da greve patronal que atingiu o país em 2001. A nacionalização, no entanto, tornou-se ineficaz no longo prazo e trouxe consequências colaterais indesejáveis, como o sucateamento da produção de alimentos e a corrupção.
Muitas empresas e fazendas foram nacionalizadas após a greve para criar um sistema alternativo de produção e distribuição de alimentos. “Isso acabou fracassando porque os produtores alinhados com o governo não eram eficazes”, disse ao Estado o analista Oscar Reyes, da Universidade Central da Venezuela. “Preferiam o subsídio à produção, o que acabou criando muita corrupção.”
Além disso, segundo o especialista, a qualidade dos alimentos distribuídos pelo governo era inferior, o que fez a busca por produtos da iniciativa privada ser maior. Com isso, o ágio cobrado ilegalmente crescia. “O governo percebeu, astutamente, que é mais fácil controlar os preços por lei do que tomar conta da cadeia produtiva”, explica Reyes. “Como os empresários geralmente têm medo do presidente, o obedecem. Com isso, os alimentos chegam mais baratos aos pobres, que são seus principais eleitores.” Para outro analista da UCV, Sadio Garavini, apesar do congelamento, os preços acabam sendo repassados para outros setores.
*Publicado em 15/02/2011 em O Estado de S. Paulo
O Partido Ação Nacional (PAN) conseguiu no ano 2000 pôr fim ao domínio de 71 anos do Partido Revolucionário Institucional (PRI) na política mexicana. Após manter-se no poder com a eleição de Felipe Calderón, em 2006, a legenda conservadora tem um novo desafio: eleger em julho, pela primeira vez na história do país, uma mulher para a presidência. A escolhida é a ex-ministra e deputada Josefina Vázquez Mota, de 51 anos.
Sua candidatura, por si só, também é inédita. Nunca um partido do establishment mexicano apostou em uma mulher para concorrer à presidência. Josefina alcançou esse feito no dia 5, ao vencer as prévias do PAN com 55% dos votos. Ela superou outros dois pré-candidatos, entre eles Ernesto Cordero, favorito de Calderón.
“Ela é uma pessoa já conhecida no México”, diz o professor de Ciência Política Carlos Lugo, da Universidade Ibero-americana. “Além disso, Conhece bem o interior do país e é uma líder muito carismática.”
Se quiser entrar no clube de líderes femininas latino americanas – que conta atualmente com as presidentes Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, da Argentina, e Laura Chinchila, da Costa Rica -, terá de superar a ampla vantagem nas pesquisas do candidato priista, Enrique Peña Nieto, nas pesquisas de opinião. De acordo com a média dos últimos levantamentos, Nieto tem 53% da preferência do eleitor. Josefina conta com 26% do apoio popular e o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, do Partido Revolucionário Democrático, com 21%. A campanha começa oficialmente em março.
Josefina construiu sua carreira na iniciativa privada antes de ingressar na política. Foi consultora de entidades patronais como a Confederação de Câmaras de Comércio Turismo e a Confederação Patronal do México. Também foi colunista dos jornais Novedades, El Financiero e El Economista.
Em 2000, eleita deputada federal, aceitou a indicação para comandar a secretaria (ministério) de Desenvolvimento Social de Vicente Fox. Em 2006, com a vitória apertada de Calderón sobre López Obrador, foi nomeada secretária da Educação, cargo que exerceu até 2009.
“Ela teve uma gestão muito boa à frente do Desenvolvimento Social”, afirma Lugo. “Na Educação, no entanto, distanciou-se de Calderón.”
Tráfico. Josefina tem ao menos três grandes obstáculos para alavancar sua candidatura: impor-se na questão do narcotráfico, superar o machismo da classe política mexicana e convencer o presidente Felipe Calderón, que nas prévias do PAN apoiou outro candidato, a aderir plenamente a sua campanha.
“Ela tem muito a aprender ainda sobre o narcotráfico”, diz Lugo. “Precisa descobrir onde estão os principais enclaves, quais as políticas públicas para enfrentar a onda de assassinatos e violência no México.”
Na semana passada, após ter sido confirmada como candidata do PAN nas prévias do partido, Josefina apressou-se em prometer rigor contra o narcotráfico. “Farei jus ao papel de comandante-chefe das Forças Armadas”, disse ao jornal El Universal. “Colocarei os criminosos na linha.” A violência relacionada ao narcotráfico já deixou mais de 50 mil mortos no país desde 2006.
Espera-se que o governo consiga “blindar” as campanhas da influência financeira do narcotráfico. “Tomara que eles consigam, mas é difícil ter certeza de que isso não vá acontecer, porque os partidos apresentam recursos não contabilizados cuja a origem não é possível identificar”, acrescenta o analista. “Será uma batalha para a Justiça eleitoral.”
Outro desafio de Josefina será reaproximar-se de Felipe Calderón, de quem foi ministra da Educação entre 2006 e 2009. Após uma crise entre o governo e o sindicato dos professores, Josefina deixou o cargo e se distanciou de Calderón. Durante as primárias, o presidente apoiou o ex-ministro de Finanças Ernesto Cordero, que acabou derrotado.
“Calderón terá de se curvar à vontade do PAN e apoiá-la”, afirma o analista da Ibero-americana. “Mas é muito difícil que o apoio dele faça muita diferença na campanha.”
O último desafio, e sob certos aspectos o mais difícil para Josefina, é superar o machismo e o conservadorismo dos políticos mexicanos. Josefina representa uma nova geração, diferente de seus dois adversários, ligados à velha guarda da classe política. Mesmo sendo ideologicamente conservadora, pode empolgar as mulheres da classe média urbana.
“As mulheres veem com bons olhos a chance de ter uma presidente mulher. Mas os políticos mexicanos estão hesitantes frente a uma líder política como ela”, conclui Lugo. “Mas isso vai evoluir e deve mudar até julho.”
* Matérias publicadas em O Estado de S. Paulo em 12/02/2012
Três anos depois da crise que opôs o presidente da Bolívia, Evo Morales, aos governadores da região da Meia-Lua – a mais rica do país, formada pelos departamentos (Estados) de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija -, a oposição boliviana tem uma nova face. Os líderes autonomistas do leste boliviano, dizem analistas, perderam espaço para ex-aliados do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo.
Um exemplo desse novo protagonismo foi a campanha pelo voto nulo nas eleições para magistrados da Suprema Corte, em outubro. O ex-prefeito de La Paz Juan del Granado, antigo partidário de Evo, que rompeu com o presidente em 2009, comandou os pedidos de boicote à votação. Os votos nulos – segundo analistas, uma maneira da população mostrar seu descontentamento com o governo – superaram os válidos. A contagem final mostrou que 60% dos eleitores anularam o voto em protesto.
Outro fator que evidenciou a exclusão cada vez maior da oposição da Meia-Lua do papel de antagonismo a Evo foi a crise envolvendo a construção de uma estrada financiada pelo Brasil no Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure (Tipnis). A repressão aos indígenas que marchavam da reserva a La Paz prejudicou a imagem de Evo, cuja carreira política foi construída em torno dos direitos dos povos nativos da Bolívia. Setores da comunidade indígena, que constituem 55% da população, romperam com o governo.
“A oposição autonomista da Meia-Lua perdeu espaço em razão de uma série de erros políticos e de uma perseguição promovida pelo governo”, diz a cientista política María Teresa Zegada, da Universidade Maior de San Simón. “Além disso, houve uma ruptura na base social de apoio a Evo, e o discurso autonomista não contempla as necessidades dessa base.”
“Hoje a maior parte da oposição boliviana vem de dissidentes do MAS”, afirma o presidente do Diálogo Inter-Americano, Michael Shifter. “Os políticos tradicionais e a oposição da Meia-Lua já não desempenham um papel importante como antes.”
Ainda de acordo com analistas, as raízes do processo de esvaziamento da oposição da Meia-Lua estão nas bandeiras originais do movimento. Em 2008, os departamentos de Beni, Pando, Santa Cruz e Tarija organizaram referendos para obter mais autonomia do governo central. Após a votação, a oposição dos governadores da região aos impostos sobre gás e petróleo cobrados por La Paz provocou uma série de disputas no país.
Evo acabou cedendo e incluiu a autonomia na Constituição de 2009. “Com isso, a oposição da Meia-Lua acabou perdendo sua principal bandeira política”, explica María Teresa. “Além disso, a defesa que eles faziam da institucionalidade democrática perdeu força quando eles tentaram romper com o governo central.”
Sem discurso, os autonomistas perderam também seus líderes. Nas eleições de 2010, dos nove departamentos, o MAS elegeu governadores nas cinco províncias do altiplano (Cochabamba, La Paz, Chuquisaca, Oruro e Potosí) e em Pando. O governador de Tarija, Mario Cossío, buscou asilo no Paraguai após ter sido destituído do cargo, acusado de corrupção no mesmo ano. “A oposição da Meia-Lua sobrevive apenas em Beni e Santa Cruz”, constata a analista boliviana.
Dos líderes da Meia-Lua, o ex-governador de Pando Leopoldo Fernández, está preso desde 2008, acusado de ter ordenado o massacre de 11 camponeses partidários de Evo. O ex-candidato a presidente Manfred Reyes Villa está autoexilado nos EUA.
O único político da região mais rica da Bolívia que ainda desfruta de prestígio é o governador de Santa Cruz, Rubén Costas. Ao lado de Granado e do ex-candidato à presidência Samuel Doria Medina, ele liderou a campanha pelo voto nulo na eleição dos magistrados de outubro.
Esses três nomes, no entanto, encontram dificuldade para afinar um discurso comum para desafiar Evo, que além de controlar o Executivo, tem maioria de dois terços na Assembleia. Granado, com um perfil de centro-esquerda, construiu sua carreira com base na defesa dos direitos humanos. Os outros dois têm mais ligações com a centro-direita boliviana. “Medina tem poucos votos e Ruben Costas não tem apoio fora da província. A oposição hoje ocupa espaços de decisão minoritários. É fragmentada e carece de um discurso aglutinador”, resume María Teresa.
* publicado no Estadão em 4/12/11
2012
2011
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