Quem ganhou o Oscar de melhor atriz? Meryl Streep. Mas quem se importa? Os premiados não são e não serão assunto. Desde domingo, quando aconteceu a cerimônia, só se fala de
uma coisa. “Como a Angelina Jolie está magra, heim?” De repente, viramos todos médicos especialistas em anorexia ou mães da atriz. “Ela precisa comer mais”. “Sustagem nela”. “Coitada, ela vai morrer.” No twitter, nos salões de beleza, na chuva e na casinha de sape, nos tornamos, subitamente, preocupados com a magreza de uma mulher que a gente não conhece, mas que é ícone de beleza, sucesso e atitude.
Todo mundo tem um pouco de inveja da Agelina Jolie, vamos assumir de uma vez. Ou temos um pouco de vontade de ser como ela (linda, politizada, com uma família de filhos adotados pelo mundo e o marido gato Brad Pitt) ou, no caso dos caras, vontade de pegar uma mulher como ela. Quer dizer, acho que a maioria dos homens que eu conheço não pegaria uma Angelina Jolie da vida por puro pânico de encarar um mulherão forte para caramba. Mas deixa para lá…
O que nos importa aqui. Tentar entender porque ficamos subitamente tão preocupados com a
saúde da moça gringa que não conhecemos. “Ela vai morrer”, escreveu alguém no twitter. Talvez a gente no fundo queira que ela morra (e estou, sim, sendo psicanalista de botequim). Se é tão bonita, que morra!
Fato, como disse minha amiga Flavia Durante: “está difícil ser mulher. Se a gente engorda, falam que a gente parece a Adele, se a gente está magra, mandam a gente comer feijoada.” Exato. Na falta de uma moça acima do peso no tapete vermelho do Oscar, pega-se para Cristo a que está magra demais. “Como assim? Ela NÃO PODE ESTAR TÃO MAGRA! Desculpem, mas ela pode sim. Ela pode fazer o que quiser e vocês não têm absolutamente nada a ver com isso. Vocês (moças incluídas) precisam é pegar sempre uma mulher para Cristo. A Madonna está botocada demais, a Adele é gorda, e a Angelina Jolie é uma anoréxica a beira da morte.
Quanta cobrança, não? E na boa, quem vocês pensam que são para mandar a Angelina Jolie comer melhor? Já se olharam no espelho? Vocês comem bem? São saudáveis? Melhor não
pensar nisso. Dói, né? Mais fácil xingar muito a Angelina Jolie (aquele CADÁVER)
no twitter e perseguir na internet fotos que atestem que você, mãe postiça brasileira da Angelina, está certa. “A moça precisa comer porque definha a olhos vistos”. Tadinha. Tenho mais pena de nós.
O que faltava em um mundo cheio de revistas que ensinam a “secar” gorduras, manter a bunda dura como uma pedra e de atrizes (e anônimos) que perdem a expressão do rosto depois de overdose de botox? Um cirurgião plástico estrela e amalucado que coroasse todo esse samba da cosmética doida. Já o temos. A estrela é ele: Dr. Rey.
O moço, que já foi protagonista de um reality sobre cirurgia plástica (existe reality sobre tudo nesse mundo) foi sucesso no Carnaval da Rede TV ao fazer uma coisa que deixaria qualquer médico mais sério arrasado. O tal cirurgião, dizem que graduado em Harvard, passou parte da folia avaliando bundas de mulheres no sambódramo. Sim! Fato. Verdade. Ele ia, olhava, apalpava e rabiscava com uma caneta!!!! E tentava provar com “ciência” se era “de verdade” ou não. “Posso ver o seinho?”, dizia o Doutor, e sacava uma caneta para analisar a “gata”. Isso agora existe na TV. E quem faz é UM MÉDICO.
Há poucos dias pedi que deixassem nossas bundas em paz. Não vai ser agora. Dr. Rey, o cirurgião das estrelas, acaba de ser contratado pela Rede TV, onde deve exibir mais cenas de surrealismo e de, porque não, violência contra a mulher. Vocês podem me chamar de louca e de politicamente correta chata, mas avaliar a bunda de uma mulher e dar nota é sim uma espécie de violência moral. Ok. As moças da TV deixam (coitadas).
Mas em casa, pensamos, que nota será que o DR. Rey daria para a minha bunda? Quantas vezes eu preciso levantar e abaixar para ter uma bunda decente? E, espera, será que não é o caso de colocar silicone?
Dr. Rey só escapa do achincalhamento publico porque ele parece meio maluco. Sim, em seu reality, ele opera com a manga da camisa cortada para exibir seus braços malhados em aulas de luta. E sua historia parece de uma novela. Ele nasceu no Brasil (muito pobre, coitado) e foi adotado por uma família dos EUA (sortudo!). Ele sorri como a própria imagem do sonho americano. E diz que ama o Brasil, o samba, as mulheres brasileiras, que são as mais bonitas do mundo. E nesse meio tempo, avalia as nossas bundas. E ele é tão, mas tão bizarro, que nem ficamos com raiva dele.
Na boa, quem precisa assistir novela ou programa de humor quando temos histórias como essa disponíveis na TV? É sim para morrer de rir na hora em que DR Rey, com sotaque gringo, começar a falar: “é só no Brasil, é só no Brasil!”. Nesse caso, ele deve ter razão. Um cirurgião plástico maluco, mulheres que aceitam sua avaliação e sucesso na TV. É, Dr. Rey, provavelmente é só no Brasil. O estandarte do sanatório geral vai passar. Agora semanalmente. E com contrato assinado e tudo. Só no Brasil, como diria Dr. Rey, com sotaque gringo. Só no Brasil.
Ex BBB dando ataque de estrela. Técnico de futebol tendo ataque de machismo. Sub celebridades respondendo perguntas bizarras. Abaixo, algumas das frases mais absurdas ouvidas por essa jornalista em dois dias de trabalho nos sambódramos paulista e carioca. Ah, teve também a frase: “me paga uma grana que eu recupero seu colar”. Essa foi dita por um menino para a repórter depois que seu colar foi arrancado de seu pescoço por um ladrão perto da Marques de Sapucaí. Não, ela não negociou com o assaltante numero 2 e teve que se conformar com o furto.
“É verdade que você vai tomar o lugar da Waleska Popozuda?
De um jornalista para a passista-musa Cintia Santo, que desfilava na mesma escola que a rainha do funk
“Não precisamos da J-Lo, olha a quantidade de mulher bonita que temos no nosso país, que loucura”
Narcisa Tamborindeguy, que disse na TV que queria encontrar J Lo e não conseguiu falar com a cantora, que foi em bora meia noite do camarote.
“Não posso falar com jornalistas, vim aqui me divertir”
Maria, ex BBB, ignorando jornalistas no camarote da Brahma, com a boca roxa de botox, dando uma de Greta Garbo.
“Jornalista mulher enche o saco”
André Sanches, presidente do Corinthians, para repórteres, essa blogueira incluída, que tentavam entrevistar dona Marisa Leticia, que desfilou com ele em um carro da Gaviões da Fiel.
“Vocês colocam a camiseta. Mas quando forem embora devolvem, ta?”
Recomendação dada a jornalistas de TV, essa blogueira incluída, que entravam para trabalhar em um camarote vip.
A Scarlett Johansson tem celulite. A notícia correu o mundo no formato de fotos tiradas por um paparazzi. Mulheres respiraram aliviadas. “Se até ela, que é linda e maravilhosa tem, eu não devo estar tão mal assim.” Homens acharam “bem feito!”, apesar de pensarem que pegariam de qualquer jeito uma gostosa daquelas. E jornalistas ficaram felizes da vida. “Olha, ela tem celulite sim, que furo (literalmente) de reportagem.” Afe.
As câmeras estão apontadas para as bundas dos famosos. Principalmente agora, no Carnaval. Cada centímetro de bunda será examinado com lente de aumento. Em redações de sites de fofocas, editores ampliarão imagens das moças na avenida atrás de celulite e estria. “Achei uma, Eba”. A descoberta se transforma em manchete.
Virou normal as mulheres serem atacadas por conta de celulite. Fotógrafos fazem plantão nas praias cariocas em busca do pior ângulo. As barrigas de chope dos homens são ignoradas, claro.
Muitas moças ficam felizes ao ver que beldades famosas também têm celulite. É como se sentissem vingadas. Mas espera. Não seria mais o caso de parar para pensar o quanto é absurdo que as bundas sejam vigiadas desse jeito? E o quanto qualquer imperfeição vira motivo para acusação? Olhamos muito para a bunda dos outros. Seria melhor olhar um pouco para outras coisas também. E parar de analisar cada buraquinho nosso e achar “estou uma baranga!”
Desejo de Carnaval. Que a gente deixe a bunda dos outros em paz e que as mulheres parem de ficar paranóicas com as delas próprias.
Como diria o amigo Xico Sá, “homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite. Tomara que um dia a gente (mulher) também não saiba. Nesse Carnaval, deixe as nossas celulites em paz. Pode ser?
Um banquete de sangue. Esse é o cardápio servido pela imprensa de celebridades e canais de entretenimento (sim, tragédia também entra no pacote diversão) desde sábado, quando a cantora Whitney Houston foi encontrada morta em um quarto de hotel em Los Angeles. Há algo de macabro e estranhamente familiar nas mortes em quarto de hotel (Jim Morrisson, Nancy e muitos outros).
É tudo deprimente. Claro. Mas hoje existe um aparato de mídia que torna a tragedia um filme de terror. Para acompanhar, basta se servir do banquete.
Existe na internet fotos do suposto leito de morte da cantora: a banheira, com setas apontando para um produto de beleza e uma toalha. O que isso acrescenta? Sangue, simples. E pensamentos de medo antes de dormir. Ou alivio. Ela era rica, famosa, e morreu naquela banheira. Eu pelo menos estou seguro em minha cama (como se segurança existisse). Na fronha escorre sangue.
O mesmo sangue escorre pelas nossas bocas quando vemos a ultima ceia de Whitney. Sim, conseguiram (sabe-se lá como) imagens da mesa onde ela comeu sua última refeição, como se a história fosse um filme de condenados à morte. Ela comeu hambúrguer com batatas fritas. Quanto sangue escorre de nossas bocas quando olhamos tais coisas? Parece um reality show macabro. Mas é a morte de uma pessoa. Diva, estrela, não importa, bom lembrar que ela também era um ser humano e que a morte é uma coisa muito íntima. Não em época de mídia sanguinolenta. Nao em tempos de reality.
E depois de participar do banquete macabro? O que você vai quer para o jantar? E será mesmo que você vai conseguir dormir? Difícil. E difícil também saber quando (e onde isso vai parar). Mas se o show do horror fosse exibido pela TV o sucesso seria garantido. Certeza,. Somos todos vampiros.
E é sangue mesmo. Não é metiolate”.
Quando eu era adolescente ir a um show de quem a gente amava MUITO era assim. Você chegava cinco horas antes. Ficava em uma fila morrendo. E depois entrava sendo pisoteada para ficar na frente do palco, no chamado gargarejo, onde babávamos pelo nosso ídolo e éramos esmagados.
Fã que é fã passa por tudo isso (e sim, é preciso ser muito jovem para ter essa, humm, energia). Não mais. Desde que inventaram uma coisa chamada pista Premium, bem adequada aos tempos de hoje, que separa ricos e pobres (ai, as “Mulheres Ricas”, de novo), famosos e anônimos, o tempo todo.
A tal pista Premium funciona assim. Se você é celebridade, você é VIP. E por isso fica ali, longe do POVO. E se você não é, BEM, você paga mais para ficar na frente. O resto, bem, o resto fica separado dos escolhidos (e não do ídolo) por uma GRADE.
Estamos na temporada dos VIPS. Os camarotes “para poucos” invadem o Carnaval da Bahia e do Rio de Janeiro. “Sou famoso, sou melhor que você, vejo melhor”. Ou tenho dinheiro. Eu pago. A força da grana.
Chato ver que isso chegou também ao mundo do rock, do pop, chamem do que quiser. Bem, Morrissey, que já se autodenominou “o rei dos párias”, e é isso que o cantor inglês é mesmo, uma espécie de ídolo dos “esquisitos”, vem ao Brasil. Para quem é fã do deus (eu, por exemplo) isso é um acontecimento e tanto.
Os fãs do Morrissey são fanáticos que se espalham pelo mundo. Alguns têm seu nome tatuado no corpo. Mas os párias vão ter que ver de longe. A tal pista Premium entrou com tudo na jogada. Os ricos vão ficar na frente junto com os famosos. E os párias vão ficar atrás de uma grade que os separa não do cantor, mas dos “que podem”.
Nunca um pária foi tão pária. É a “vipização’ do mundo. Mais uma maneira de separar as pessoas por castas. O Carnaval vai nos dar uma aula disso. Triste, não¿ Ou como diria o Morrissey: “This Word is designed for crashing bores”. Algo do tipo: “Esse mundo é projetado para gente chata pra caramba.”
PS. E eu devo ser uma delas, sim, sou fã, já comprei minha pista VIP!
“Ria junto com as pessoas comuns. Ria com as pessoas que riem da sua cara”
(Jarvis Cocker, Common People)
“Eu amo a Val”. Um amigo escreveu isso outro dia no twitter. Ei, como assim? Ele, politicamente atuante, falava de Val Marchiori, a pessoa-personagem mais famosa e absurda do programa “Mulheres Ricas”, o reality da Band que ofuscou o BBB e a novela das nove. Narcisa, Brunette, Débora, Lydia e Val são as divas do momento.
Amamos e odiamos as mulheres que tratam cachorro como gente, tomam banho de champanhe e jogam na nossa cara O TEMPO TODO que elas PODEM tudo. Porque são ricas. Muito ricas. Ricas para caramba.
Odiamos por motivos óbvios. Elas riem da nossa cara ao falar coisas do estilo “andar de carro é coisa de pobre”. Espera! Muitos de nós, telespectadores, nem temos carros. E dá muita raiva ver alguém falar que merece ser tratada como um diamante quando sabemos que, se mudarmos de canal, veremos imagens de famílias sendo tratadas na porrada (Pinheirinho é só o caso mais chocante e mais recente). Somos tratados como lixo. Quem essa pessoa acha que é para ser um diamante, quem? Narcisa Tamborindeguy, rica.
“Caipirinha na minha festa nem pensar, decreta Val”. Caipirinha é coisa de pobre. Espera, será que a gente é masoquista por assistir um programa onde uma perua maluca fala que a nossa bebida de sempre (na verdade, poder tomar uma caipirinha é um luxo) é coisa de pobre? E se for? Vamos ficar sendo chamadas de pobres, pobres, pobres? Ok. Somos pobres, suas loucas. E daí?
E é aí que entra a graça. Amamos “Mulher Ricas” porque podemos rir MUITO da cara delas. Elas riem da nossa cara quando falam essas coisas que poderiam nos humilhar. Gargalham da cara do país inteiro, na real. Mas, nas nossas casas, rimos da CARA DELAS. No twitter ( o melhor lugar para ver televisão) um concurso de piadas entra em ação cada vez que o programa é exibido. Falamos mal das roupas delas. Dos erros de português e alguns sentem até algum apego por alguma das personagens. Por que será? Provavelmente porque elas nem parecem de verdade.
E o circo fica maior. E elas mais ridículas, quando começam a brigar entre si no twitter (jogada de marketing, provavelmente) ou falar mal uma da outra em entrevistas. “Olha como elas são loucas”, pensamos. Dane-se se são ricas. São malucas, cafonas e nem parecem de verdade. Dizem que é errado rir da cara dos outros. Mas no caso das “Mulheres Ricas”, que ostentam tanta compra-compra-compra e dinheiro-dinheiro-dinheiro na nossa cara, ah, é merecido, sim. E quem ri por último ri melhor. Yeah!!!
Madonna é uma jogadora. A gente pode falar qualquer coisa da diva do pop, menos que ela não sabe jogar (o jogo do mercado, claro). Neste domingo, ela assumirá isso para toda a América e também para o mundo. Vai lançar seu novo disco em um estádio, durante a final da Super Bowl, a temporada de futebol dos EUA.
A cantora, que acaba de lançar novo clipe, onde dança junto com líderes de torcida e jogadores, disse que está “tão nervosa como um jogador.” Mas escuta, Madonna, você sempre foi um deles! Tudo. Absolutamente tudo em Madonna parece ser planejado. Ela é uma espécie de especialista em sociedade do espetáculo e indústria da fama. Se existisse um premio Nobel de como ser celebridade, ela já teria ganho. Certeza.
Ela surfa na onda, se reinventa para obedecer às regras do mercado e, na maioria das vezes, vence o jogo. Para isso, flertou com o sadomasoquismo lá nos anos 90. Bem na hora em que o mundo começava a falar em correção política. Pronto. Lá estava, a rainha da Cabala. A iogue. Nada mais adequado ao inicio dos anos 2000.
Hoje, aos 53 anos, Madonna é chamada de rainha do Botox. De novo, nada mais contemporâneo e, como lembrou uma amiga, canta que é uma “girl”. Mostrar uma forma física invejável e congelar o tempo é o que há de mais atual. Se Madonna quer ser moderna (no sentido literal da palavra, não no “bacana”) ela conseguiu mais uma vez.
E como jogadora profissional, convidou M.I.A, a garota esperta cheia de suingue para dar uma força. Madonna joga para ganhar. Com sangue nos olhos. Amanhã, no intervalo da Superbowl, ela assumirá isso. Demorou, mas Madonna finalmente saiu do armário.
Mesmo sem perceber.
2012