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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
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Documentário com jeito de panfleto

A Índia Juma, personagem do documentário ''À Margem do Xingu"

A Índia Juma, personagem do documentário ''À Margem do Xingu"

Por Felipe Branco Cruz

Independentemente da opinião do público sobre a construção da hidrelétrica em Belo Monte, no Pará, cerca de 100 espectadores deixaram a sala de projeção durante a exibição do documentário À Margem do Xingu – Vozes Não Consideradas. O filme assume postura claramente contra a construção da hidrelétrica e o motivo de as pessoas abandonarem a sala não eram porque eram a favor da construção. O motivo era o filme mesmo, feito de forma quase amadora, com entrevistas redundantes e extremamente tendencioso. Um exemplo claro disso foi quando o diretor espanhol Damià Puig decide ouvir as vozes contra a construção da usina. Eram bêbados e desocupados que jogavam baralho num bar.

“Sei que vão ter críticos contra o filme. Mas o mais importante é que vocês puderam ouvir as nossas vozes não consideradas”, disse o diretor. “Tentamos procurar entrevistar pessoas a favor da usina. Mas ninguém queria falar com a gente. Nem a Funai, nem o governo. Ainda mais para nós, que produzimos esse filme sem recursos”, destacou o diretor. “A primeira coisa que fizemos foi ir ao Ibama, mas ninguém nos atendeu”.

De fato, há diversos problemas com a construção da hidrelétrica. Famílias e tribos indígenas terão de ser removidas, não há garantias de que o governo irá indenizar essas pessoas e, claro, há o impacto ambiental. O lago que se formará com o represamento do rio Xingu alagará uma área de floresta nativa nunca estudada pelo homem. Tudo isso é mostrado no filme, mas de uma forma tendenciosa. O longa seria mais convincente e, talvez, mais realista se fosse feito de outra forma. “É um filme datado, quase que perecível. É um tema urgente que tratamos”, diz o produtor Rafael Salazar.

Opiniões tendenciosas
O filme mostra o lado das “vozes não consideradas”. Esse é o ponto de partida, porque, segundo os produtores, as “vozes consideradas” já têm espaço garantido. Por isso, os produtores focaram as entrevistas apenas em índios e moradores ribeirinhos. “As ‘vozes consideradas’ dizem que, se Belo Monte não for construído, o Brasil irá parar. Não é verdade. Não podemos considerar que uma obra com tantos problemas técnicos seja feita”, declara o engenheiro da USP Francisco del Moral Hernandez, que também participou do documentário. “Os recursos hídricos da região amazônica são o pau-brasil da nossa época”, completa Hernandez.

A visão do diretor espanhol, apesar de ter sido auxiliado por uma equipe brasileira, contaminou o documentário, que soa como algo panfletário. Uma pena, pois tudo que diz respeito à construção de Belo Monte merece uma discussão séria e isenta. Num dos momentos do filme, há uma entrevista com a jovem índia Juma. Ela aparece chorando porque teve de ir para a escola e deixar sua tribo. Uma cena que em nada acrescenta à discussão da construção da hidrelétrica. “Há 30 anos lutamos contra a construção dessa usina. Tivemos grandes represálias e discriminações. Por várias vezes, pensamos que não iríamos terminar este filme”, diz a índia Juma. O assunto é importante. Mas o filme perdeu uma ótima oportunidade de tratá-lo com inteligência.